domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 28

Will parou quando eles chegaram na familiar entrada da Floresta Grimsdell. Ele permitiu que os outros cavalos chegassem perto de Puxão e estudou Orman criticamente. O senhor do castelo estava balançando na sela, com os olhos fechados e com um olhar distante neles. A boca dele se moveu, mas nenhum som saiu.
Xander estava assistindo o seu senhor ansiosamente.
— Nós temos que levá-lo a Malkallam rapidamente — disse ele. — Ele está quase inconsciente.
Will assentiu. Ele olhou para longe de Orman para a curva da estrada onde os seus perseguidores iriam aparecer – não tinha dúvidas de que haveria perseguidores.
— Leve ele mais além das árvores — disse ele. — Vou ficar aqui e desencorajar qualquer um a seguir muito de perto.
Ele indicou o caminho estreito que ele e Alyss haviam seguido em sua exploração anterior pela floresta.
— Siga o caminho por uma centena de metros ou mais e espere por mim lá. Você estará bem longe da vista.
Xander hesitou.
— E o que acontecerá com você?
Will sorriu para ele. O pequeno secretário tinha uma coragem inesperada. Ele agitou o capuz da sua capa por cima da sua cabeça e cutucou Puxão para entrar mais nas sombras manchadas embaixo de uma árvore de carvalho com galhos nus.
— Estou fora da vista agora — disse ele. E quando Xander ainda hesitava, ele fez um gesto para ele ir. — Vai. Eles estarão aqui em qualquer minuto.
O secretário viu o bom senso da sugestão. Ele assentiu para Will e, agarrando a rédea do cavalo para levar Orman, liderou o semiconsciente senhor do castelo para a sombra escura da Floresta Grimsdell. Depois de quinze metros, eles se perderam da visão de Will. Ele assentiu para si mesmo, com satisfação, e sentou-se imóvel. O cão deitou de barriga no chão ao lado de Puxão. Ela emitiu um baixo, surdo rosnar.
— Fica — disse ele, e sua cauda agitando obedientemente.
Poucos segundos depois, as orelhas de Puxão agitaram nervosamente e ele bateu no chão com um casco. Até agora, Will não tinha ouvido nada. Ele ficou maravilhado com os sentidos agudos dos seus dois animais. Ele acalmou Puxão, e sabendo que seu mestre tinha ouvido o seu aviso, o pequeno cavalo relaxou.
Isso foi mais um minuto e meio antes do bando de cavaleiros contornarem a curva na estrada. Havia oito deles, todos armados e liderados por uma figura alta conhecida.
— Buttle — ele murmurou.
O cão permitiu-se outro grunhido quase inaudível, então se estabeleceu novamente.
O grupo parou a cerca de duzentos metros de onde Will estava. Um dos homens era, obviamente, um caçador de algum tipo e ele desceu da sela para estudar os rastros da estrada, olhando para o campo coberto de neve que separava a estrada da Floresta Grimsdell, onde o caminho tomado pelos três cavalos através da neve era muito claro. Ele apontou para a floresta e moveu-se para remontar.
Buttle deu o sinal para os homens avançarem, mas eles não se mexeram. Will ouviu vozes quando Buttle virou para eles e repetiu a ordem. Ele sorriu para si mesmo. Buttle, obviamente, não tinha ouvido falar sobre os horrores de Grimsdell.
Por um momento, ele lamentou uma oportunidade perdida. Se eles tivessem vindo para frente, poderia ter esperado até que eles estivessem no meio do terreno aberto e em seguida começaria a atirar. Ele provavelmente poderia ter reduzido a força disponível de Keren em oito homens dessa maneira. Em seguida, rejeitou a ideia. Alguns dos homens poderiam muito bem ser soldados de Orman, forçados a ir junto contra sua vontade. E mesmo se eles não fossem, sabia que não poderia levar o assassinato de oito homens a sangue frio, não importa o quanto eles podiam ser perigosos. Não foi isso que Halt o tinha ensinado durante anos até o nível de habilidade que ele agora possuía.
Buttle, no entanto, era um assunto completamente diferente. Sua total falta de escrúpulos e a natureza basicamente má do homem fariam dele um agente valioso para o usurpador. Homens como Keren precisava de homens como Buttle, Will sabia. Eles precisavam de homens que obedecessem às ordens para matar e roubar e destruir, sem qualquer hesitação. Esses homens tornariam mais fácil que outros seguissem o exemplo.
Ele não tinha nenhuma dúvida de que Buttle já estava estabelecido como um dos retentores chave de Keren. E lá estava ele sentado, apenas duzentos metros de Will, que tinha uma flecha preparada na corda para esticá-la já.
Isso seria um tiro de arco longo e havia um vento leve. Will podia ver o vento mexendo o topo dos amieiros nus que alinharam a estrada do outro lado. A maioria dos arqueiros teria conduzido tal tiro com desconfiança, mas Will era um arqueiro e para um arqueiro um tiro de duzentos metros era fácil até demais. E sabia que desconfiança era o início de um erro. Um tiro falho devido à ansiedade muitas vezes tem como recompensa o resultado que se pretendia evitar. Will ergueu seu arco para a posição de mira.
A flecha parecia deslizar para trás sem esforço, puxada pelos grandes músculos nas suas costas e ombros com uma facilidade nascida de milhares de repetições. Ele criou a sua imagem de observação, focalizando o alvo, e não a flecha ou o arco. Eles eram simplesmente duas partes da imagem global que culminou na figura de Buttle sentado em seu cavalo a de duzentos metros de distância.
Ele continuou levantando o arco até que estava convencido de que a elevação estava correta para a distância. Naquele momento, se alguém lhe perguntasse como ele sabia qual era a elevação correta, não poderia ter respondido. Isso era algo instintivo, outro produto dos anos de prática. Ele aprovou o vento e manteve-se um momento. Sua mão esquerda, segurando o arco, estava solta e relaxada, de modo que o aperto estava na brecha entre o polegar e o indicador, apoiado, mas não muito apertado.
O polegar de sua mão direita repousava contra o canto da boca, os três primeiros dedos refreando a corda na posição de pressão máxima, um acima e dois abaixo do ponto de entalhe.
Ele exalava a metade do último suspiro que havia tomado, vagamente consciente de sua própria pulsação e os ritmos naturais do corpo, e permitiu a corda libertar-se dos seus dedos, ambas as mãos passivas, sem um traço de empurrão ou torção. Todo o processo, uma vez que ele tinha levantado o arco, levou menos de quatro segundos.
O arco cantou e a flecha pulou fora. Ironicamente, foram os anos de prática que agora o traíram.
O tiro fora excelente. Em qualquer outro arqueiro, teria sido considerado um sucesso. Mas Will estava usando o arco de três peças, e não o arco de teixo com que havia praticado durante os três últimos anos de sua aprendizagem. Durante os duzentos metros que viajou – embora ele realmente cobriu mais distância através do ar, movendo-se em uma curva suave – a flecha caiu mais distante do que ele havia previsto. Em vez de bater em uma parte de cima do corpo de Buttle, ela surgiu do nada e bateu em sua coxa, rasgando a parte musculosa da perna e fixou-se no couro duro da sela.
Buttle gritou com agonia com a queimadura súbita em sua coxa. Seu cavalo se ergueu no susto, como fizeram vários outros ao redor dele. Seus homens, já cautelosos sobre se aventurar na direção da Floresta Grimsdell, deram uma olhada na flecha que havia paralisado o seu líder, se viraram e cavalgaram para a segurança da curva da estrada. Buttle, amaldiçoando a dor e os seus homens com selvageria igual, virou o cavalo indefeso, então, furioso, cedeu ao inevitável e cavalgou atrás deles, cambaleando na sela com a dor.
— Droga — disse Will desapaixonadamente, observando-o ir.
Ele lembrou as palavras de Crowley sobre o arco. Uma trajetória plana no início, mas então iria cair mais rapidamente do que ele estava acostumado.
— Sem mais tiros longos — disse ele a Puxão, cujas orelhas achataram contra a cabeça de volta em resposta.
Will olhou para o cão, que estava olhando para ele, sua cauda se movendo lentamente. Parecia que ela estava muito contente de ver a flecha bater em Buttle em qualquer lugar, ele meditou.
Ele olhou para a estrada. Não havia nenhum sinal de que os homens estavam recomeçando a perseguição. Assim, ele cutucou Puxão com um joelho para virá-lo e seguiu na pista na floresta.
Ele apanhou os outros a uma centena de metros abaixo da trilha, onde havia dito a Xander para esperar. Orman estava afundando mais e mais no estado de coma que ele tinha predito, balançando na sela, quase totalmente inconsciente, dizendo palavras sem sentido e choramingando baixo.
— Como ele está? — ele perguntou a Xander, embora a pergunta fosse claramente desnecessária.
O secretário franziu a testa.
— Nós não temos muito tempo — disse ele. — Você tem alguma ideia de onde Malkallam pode ter seu quartel general?
Will balançou a cabeça.
— Eu suponho que vai ser bem no centro da floresta — disse ele. — Mas onde é que isso pode ser é algo que ninguém sabe.
Xander olhou ansiosamente para seu mestre.
— Teremos de fazer alguma coisa — disse ele, a preocupação evidente em sua voz.
Will olhou ao redor, impotente, esperando por uma ideia. Ele sabia que a habilidade arqueiro não obstante, eles podiam cometer erros por dias nessa espessa floresta, com suas estreitas trilhas de intersecção. E eles tinham horas, na melhor das hipóteses.
Seu olhar caiu sobre a cadela, sentada pacientemente, a cabeça inclinada para o lado, olhando para ele de soslaio. Havia uma chance, ele percebeu.
— Venha — disse laconicamente a Xander, e cutucou Puxão, começando o caminho em que ele e Alyss seguiram apenas um dia atrás.
Tanta coisa aconteceu nesse curto espaço de tempo, ele pensou. Eles contornaram a borda do sinistro pântano até chegarem ao local onde Alyss tinha encontrado a grama queimada. Will parou lá agora e desmontou. Xander, após um momento de hesitação, o seguiu. Ele olhou para as marcas de queimaduras.
— O que causou isso? — ele perguntou.
Will disse-lhe da teoria de Alyss sobre uma gigante lanterna mágica. As sobrancelhas de Xander subiram, mas ele balançou a cabeça, pensativo.
— Sim, ela pode estar certa — disse ele. — Veja bem, você precisaria de uma lente quase perfeita para o trabalho.
— Uma lente? — Will perguntou.
— O dispositivo de foco que criaria um feixe de luz. Nunca vi um do padrão que precisaria para isso, mas eu imagino que seria possível construir um.
— Você precisa de uma infernal fonte de luz também — Will disse-lhe, mas o pequeno homem encolheu essa objeção para fora.
— Ah, há muitas maneiras que você pode conseguir isso — disse ele. — Pedra-branca, por exemplo.
— Pedra-branca? — Will perguntou.
O termo era desconhecido para ele. Xander assentiu novamente.
— É uma rocha porosa que libera um gás inflamável quando você joga água nela. O gás queima com uma chama branca intensa. Muito quente também... assim como o que provocou essas marcas de queimaduras. — Ele acenou para si mesmo várias vezes. — Sim, eu diria que as pedras-brancas iriam fazer o trabalho. Mas o que você tem em mente aqui? — acrescentou.
Will estalou os dedos e o cão aproximou-se dele, os olhos fixos nele, enquanto ela esperava para obter instruções.
— Eu imaginei que se havia algum tipo de lâmpada aqui, deve ter tido pessoas cuidando dela. E as pessoas deixam um odor. Talvez o cão possa segui-lo. Provavelmente se encontrarmos, nós vamos encontrar a caverna do feiticeiro também.
Ele afagou as orelhas do cão e apontou para o chão ao redor deles.
— Procure — disse ele.
A cabeça preto-e-branco desceu e começou a cheirar o solo pela margem do pântano. Após vários minutos, ela começou a andar cada vez mais e mais. Então parou, levantando uma pata dianteira no ar quando seu nariz ficou perto do chão. Ela cheirou várias vezes, em seguida, latiu uma vez, um urgente e afiado som.
— Boa garota! — Will respirou.
Xander parecia duvidoso.
— Como você sabe que ela não cheirou um cervo ou um texugo? — ele perguntou.
Will olhou para ele durante alguns segundos.
— Se você tem uma ideia melhor, agora é a hora de mencioná-la.
Xander fez um gesto de desculpas com as mãos.
— Não, não. Continue — disse ele suavemente.
Will virou-se para o cão. Como sempre, ela estava olhando para ele e esperando novas ordens. Moveu-se para ela, apontou para o chão onde ela tinha encontrado o cheiro, e disse:
— Siga.
O cão latiu uma vez e saltou para longe. Ela andou a poucos metros, parou e voltou para trás, olhando para ele. Ela latiu de novo, a mensagem óbvia: Venha logo! Não temos o dia todo.

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