sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 27 - Divida minha alma

A última vez em que Kit Rook viu o pai foi um dia comum e eles estavam sentados na sala. Kit, esticado no chão, lia um livro sobre golpes e trapaças. De acordo com Johnny Rook, era hora de “aprender os clássicos” – o que, para a maioria das pessoas, significaria Hemingway e Shakespeare, mas para Kit significava decorar coisas como o Prisioneiro Espanhol e a Derrubada do Melão.
Johnny estava em sua cadeira favorita, na habitual pose reflexiva: dedos sob o queixo, pernas cruzadas. Era em momentos como aquele, quando o sol entrava pela janela e iluminava os ossos pontudos do rosto de seu pai, que Kit pensava em todas as coisas que não sabia – quem foi a mãe; se era verdade, como se fofocava no Mercado, que a família de Johnny era da aristocracia britânica, que o descartou quando ele manifestou sua Visão. Não que Kit quisesse ser da aristocracia, mas a questão era que ele imaginava como seria fazer parte de uma família com mais de duas pessoas.
De repente, o chão tremeu embaixo dele. O livro de Kit voou e deslizou por alguns metros no chão até bater na mesa de centro. Ele se sentou, com o coração acelerado, e viu que o pai já estava na janela.
Kit se levantou.
— Terremoto? — perguntou o garoto. Quando a pessoa morava no sul da Califórnia, se acostumava a pequenas sacudidas das falhas geológicas da Terra, acordando no meio da noite com vidros batendo dentro dos armários da cozinha.
Johnny deu as costas para a janela, com o rosto mortalmente pálido.
— Alguma coisa aconteceu com o Guardião — explicou Rook. — Os feitiços de proteção em torno da casa sumiram.
— Quê? — Kit estava pasmo. A casa deles era protegida desde que ele conseguia se lembrar. O pai falava das barreiras como se elas fossem o teto ou o alicerce da casa: essenciais, necessários, parte do material de construção.
Ele se lembrou, então, no ano passado, do pai falando alguma coisa sobre feitiços de proteção demoníacos mais poderosos...
Johnny xingou, uma porção de impropérios em série, e girou para a estante de livros. Ele pegou um livro de feitiços envelhecido.
— Desça, Kit — falou, indo tirar o tapete do meio da sala e revelando o círculo de proteção ali.
— Mas...
— Eu falei para descer! — Johnny deu um passo na direção do filho, como se quisesse pegá-lo, tocá-lo no ombro, talvez. Então ele abaixou o braço. — Fique no porão e não saia, não importa o que aconteça. — Ele rosnou e voltou a se virar para o círculo.
Kit começou a recuar para as escadas. Ele tropeçou em um degrau, depois em outro, antes de parar.
O telefone de Johnny estava em uma prateleira baixa, alcançável dos degraus, Kit o pegou, procurando o nome, o nome dela. Mas se mudar de ideia, você tem meu telefone. Carstairs.
Ele mal teve tempo de digitar uma mensagem quando o chão da sala explodiu.
Coisas entornaram do espaço abaixo. Pareciam enormes louva-a-deus, seus corpos no tom verde e amargo de veneno. Tinham pequenas cabeças triangulares com bocas imensas cheias de dentes serrilhados e patas dianteiras afiadas.
O pai de Kit estava congelado no meio do círculo. Um demônio se lançou contra ele e ricocheteou no feitiço que o cercava. Outro repetiu o gesto e também fracassou. Os demônios começaram a chiar alto.
Kit não conseguia se mover. Ele sabia sobre demônios, é claro. Já tinha visto fotos e até sentido o cheiro de magia demoníaca. Mas isso era diferente. Ele captou o olhar do pai: Johnny o estava encarando com uma mistura de pânico e fúria.
Desça.
Kit tentou fazer os pés se moverem, carregarem-no. Não obedeciam. O pânico o fez congelar.
O maior dos demônios pareceu sentir seu cheiro e zumbiu de animação. Começou a ir em direção a ele.
Kit olhou para o pai. Mas Johnny não se mexeu. Ele ficou dentro do círculo, com os olhos arregalados. O demônio avançou para Kit, as patas dianteiras afiadas estendidas.
E Kit pulou. Não fazia ideia de como tinha feito isso ou de como seu corpo soube o que fazer. Ele saltou das escadas, por cima do corrimão, aterrissando agachado na sala. O demônio, que estava tentando alcançá-lo, soltou um grito ao perder o equilíbrio e caiu lá para baixo, batendo na parede do térreo.
Kit girou outra vez. Por um instante, captou o olhar do pai. Havia alguma coisa na expressão de Johnny que era quase pesarosa – um olhar que Kit jamais vira antes – e depois mais um pedaço do chão desmoronou, levando consigo uma parte do círculo de proteção.
Kit se jogou para trás. Saltou pelo ar e caiu equilibrado nos braços de uma cadeira, bem a tempo de ver dois dos demônios pegarem o pai e o cortarem em dois.


Emma estava no meio de um sonho muito confuso com Magnus Bane e uma tropa de palhaços quando foi acordada pela mão em seu ombro. Ela murmurou e se enterrou ainda mais profundamente nos lençóis, mas a mão foi insistente.
Acariciou um de seus braços, o que, na verdade, foi muito agradável. Uma boca morna tocou a beira de seus lábios.
— Emma? — chamou Julian.
Vagas lembranças, dele carregando-a pelo corredor até o quarto e depois caindo ao lado dela, vagaram pela névoa cansada em seu cérebro. Hmm, pensou ela. Realmente não parecia haver motivo para levantar, não quando Julian estava sendo carinhoso. Ela fingiu que dormia enquanto ele a beijava na bochecha, em seguida, no queixo, e depois...
Ela se sentou no mesmo instante, falando atabalhoadamente.
— Você enfiou a língua na minha orelha!
— Isso. — Ele sorriu. — Fez com que se levantasse, não foi?
— Eca! — Ela lhe jogou uma almofada EU AMO CALI, e Julian desviou.
Ele estava de calça jeans e uma camiseta cinza que deixava seus olhos azuis. Claramente tinha acabado de acordar e estava com os cabelos desalinhados, e tão fofo que ela teve que colocar as mãos nas costas para se controlar e não atacá-lo.
— Por que está com as mãos nas costas? — perguntou ele.
— Não tenho motivo nenhum. — Ela franziu o nariz. — Essa coisa da orelha foi estranha. Não faça mais.
— Que tal isso? — Ele sugeriu, e se inclinou para lhe beijar a base da garganta.
Sensações irradiaram do ponto que os lábios dele tocaram – primeiro, a clavícula, em seguida, o pescoço, depois, o canto da boca.
Ela tirou as mãos de trás das costas e o alcançou. Sua pele estava quente de sol.
Seus rostos estavam tão próximos que ela conseguiu ver pequenas explosões de cor em seus olhos: ouro-claro, azul mais claro ainda. Ele não estava sorrindo. Sua expressão parecia intensa demais para isso. Havia um desejo nos olhos de Julian que a fez sentir como se ela estivesse desmoronando.
As pernas deles se emaranharam nas cobertas ao se juntarem, bocas se procurando. Julian ainda não era especialista em beijos, mas ela gostava disso. Gostava de lembrar que ele nunca tinha estado com ninguém além dela. Que era a primeira. Emma gostava do fato de que um simples beijo ainda o maravilhava.
Ela usou a língua para traçar os cantos de sua boca, os lábios, até ele afundar de volta na cama, puxando-a para cima dele. Seu corpo estremeceu, arqueando para o dela, as mãos deslizando para pegá-la pelo quadril.
— Emma? — Bateram à porta.
Eles se desgrudaram um do outro, Julian rolando para fora da cama, Emma se sentando ereta, com o coração acelerado.
— Emma, sou eu, Dru. Você viu Jules?
— Não. — Emma resmungou. — Não vi.
A porta começou a abrir.
— Não — disse Emma. — Eu... estou me vestindo.
— Tanto faz — falou Dru, com indiferença, mas a porta não se abriu mais.
Propositalmente, Emma não olhou para Julian. Está tudo bem, ela disse a si mesma. Calma, fique calma.
— Bem, se encontrar com ele, pode avisar que Tavvy e todo mundo precisa de almoço? E Livvy e Ty estão fazendo a maior bagunça na cozinha.
A voz dela trazia o tom de satisfação de um irmão entregando o outro.
— Claro — disse Emma. — Você olhou no estúdio? Ele pode estar lá.
Houve uma movimentação.
— Não, ainda não. Boa ideia. Até mais tarde!
— Tchau — falou Emma suavemente.
Os passos de Dru se afastavam pelo corredor.
Finalmente, Emma se permitiu olhar para Julian. Ele estava apoiado na parede, o peito subindo e descendo aceleradamente, seus olhos semifechados, dentes enterrados no lábio.
Ele suspirou.
— Raziel — murmurou. — Essa foi por pouco.
Emma se levantou, a camisola balançando em volta dos joelhos. Ela estava tremendo.
— Não podemos — começou ela. — Não podemos... Vão nos flagrar...
Julian já tinha atravessado o quarto, pegando-a nos braços. Ela podia sentir o coração dele batendo em suas costelas, mas a voz estava firme.
— É uma lei estúpida — disse ele. — É uma lei ruim, Em.
Existe um motivo pelo qual não é permitido se apaixonar por seu parabatai, Emma. E quando você descobrir qual é, sentirá a crueldade dos Caçadores de Sombras, exatamente como aconteceu comigo.
A voz de Malcolm, inevitável e indesejada, invadiu o cérebro de Emma. Ela tinha feito o possível para se esquecer, se esquecer do que ele tinha dito. Ele estava mentindo – tinha mentido sobre todas as outras coisas. Isso tinha que ser mentira também.
Mesmo assim. Ela havia adiado, mas sabia que precisava contar para Julian. Ele tinha o direito de saber.
— Temos que conversar — avisou Emma.
Ela sentiu o coração de Julian pular.
— Não diga isso. Sei que não é bom. — Ele a abraçou mais forte. — Não tenha medo, Emma — sussurrou. — Não desista da gente porque está com medo.
— Estou com medo. Não por mim, mas por você. Tudo que fez, tanta coisa que escondeu, fingiu, para manter as crianças juntas... a situação não mudou, Julian. Se eu machucar algum de vocês...
Ele a beijou, contendo a enxurrada de palavras. Apesar de tudo, ela sentiu o beijo em todo o corpo.
— Eu costumava ler livros sobre a Lei — disse ele, afastando-a. — Partes sobre parabatai. Li um milhão de vezes. Nunca houve um caso de dois parabatai que se apaixonaram, foram pegos e acabaram perdoados. Só histórias de horror. E não posso perder minha família. Você estava certa, isso me mataria. — Os olhos dele pareciam muito azuis. — Mas as histórias de horror são sobre os que foram pegos — emendou. — Se tomarmos cuidado, não seremos.
Ela ficou imaginando se Julian tinha se obrigado a passar por cima de algum ponto na noite anterior, um ponto onde as responsabilidades pareciam insuperáveis. Não era comum que Julian quisesse violar as regras, e apesar de querer o mesmo que ele, isso a enervava.
— Teríamos que estabelecer regras — falou ele. — Rigorosas. Quando poderíamos nos ver. Teríamos que ter cuidado. Muito mais cuidado do que temos tido. Sem praia, sem estúdio. Temos que ter certeza de que sempre estaríamos em algum lugar onde não seríamos pegos.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Inclusive, não falar no assunto seria melhor — disse ela. — Não no Instituto. Não onde alguém poderia nos ouvir.
Julian fez que sim com a cabeça. Suas pupilas estavam ligeiramente dilatadas, os olhos da cor de uma iminente tempestade no oceano.
— Tem razão — disse. — Não podemos conversar aqui. Vamos preparar alguma coisa para as crianças, para não continuarem me procurando. Depois você me encontra na praia, tudo bem? Sabe onde.
Onde eu a tirei da água. Onde tudo começou.
— Tudo bem — falou Emma, após breve hesitação. — Vai primeiro e depois eu te encontro. Mas ainda tem uma coisa que preciso contar.
— O importante é que fiquemos juntos, Emma. É o que importa...
Ela se levantou na ponta dos pés e o beijou. Um beijo longo, lento, intoxicante que o fez gemer baixo.
Quando ela se afastou, Julian estava olhando para ela.
— Como as pessoas lidam com esses sentimentos? — Ele parecia verdadeiramente espantado. — Como não ficam grudadas umas nas outras o tempo todo se estão, você sabe, apaixonadas?
Emma engoliu em seco o impulso súbito de chorar. Apaixonado. Ele ainda não tinha dito isso.
Eu te amo, Julian Blacktorn, pensou ela, olhando-o ali, no seu quarto, onde já tinha estado milhões de vezes; no entanto, agora era diferente. Como alguma coisa podia ser tão segura e familiar, e, ao mesmo tempo, tão assustadora, avassaladora e nova?
Ela via as marcas desbotadas de lápis na moldura da porta atrás dele, onde outrora registraram suas alturas, todo ano. Pararam de fazer isso quando Julian ficou mais alto do que ela, o que significava muito abaixo da cabeça dele anualmente.
— Nos vemos na praia — sussurrou ela.
Ele hesitou por um instante, em seguida, assentiu e saiu do quarto. Havia uma estranha sensação de presságio no peito de Emma ao vê-lo partir – como ele reagiria ao que Malcolm havia dito a ela? Mesmo que Julian considerasse mentira, como poderia planejar uma vida se escondendo e mentindo como se fosse uma situação feliz? Ela nunca tinha entendido o objetivo de festas de noivado e coisas do tipo antes (apesar de estar feliz por Isabelle e Simon), mas agora sim: quando você se apaixona, quer contar para as pessoas, mas isso era exatamente o que não podiam fazer.
Ao menos, ela podia tranquilizá-lo quanto ao fato de que o amava. De que sempre amaria. De que ninguém poderia tomar o seu lugar.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma vibração alta. O telefone. Ela foi até a mesa pegá-lo, usando o polegar para abrir a tela inicial.
Havia uma mensagem de texto, com letras vermelhas em negrito.

EMERGÊNCIA
POR FAVOR VENHA AGORA
POR FAVOR
KIT ROOK.


— Cristina?
Cristina se esticou lentamente. Suas costas e pernas doíam; tinha dormido na cadeira ao lado da cama. Poderia ter se encolhido no chão, mas teria sido mais difícil ficar de olho em Diego desse modo.
O ferimento em seu ombro tinha sido muito pior do que imaginara: um corte profundo cercado pela bolha vermelha de queimadura de magia negra que deixava os símbolos quase ineficientes. Ela havia cortado o uniforme ensanguentado e a camisa dele também, ensopada de sangue e suor. Trouxera toalhas e cobrira a cama com elas, tinha molhado algumas para limpar o sangue do seu rosto e pescoço. E tinha aplicado nele símbolos e mais símbolos de alívio de dor, símbolos e mais símbolos de cura. Mesmo assim, ele continuou se revirando na cama durante quase toda a noite, seus cabelos negros emaranhados contra o travesseiro.
Desde que deixara o México ela não se lembrava com tanta clareza do que tinham sido um para o outro quando mais jovens. Do quanto ela o havia amado. Seu coração se despedaçou quando ele gritou pelo irmão, implorando. Jaime, Jaime, ayúdame. Me ajuda. E depois quando gritou por ela, e isso foi pior ainda. Cristina, no me dejes. Regresa.
Cristina, não me deixe. Volte.
Estou aqui, disse a ele. Estoy aquí, mas ele não acordou, e seus dedos se enterraram nos lençóis até ele cair em um sono conturbado.
Ela não se lembrava de quanto tempo demorou a dormir depois disso. Ela ouviu vozes lá embaixo e, depois, passos no corredor. Emma tinha aberto a porta para dar uma olhada nela e em Diego, abraçou-a e foi dormir quando Cristina garantiu que estava tudo bem.
Mas agora havia luz entrando pela janela, e Diego a encarava com olhos de clara dor e febre.
¿Estás bien? — sussurrou ela, a garganta seca.
Ele se sentou, e o lençol caiu. Foi um lembrete um tanto súbito de que ele estava sem camisa, pensou Cristina de repente. Ela se concentrou no fato de que havia uma marca no peito dele, onde Malcolm o atingiu com sua magia.
Era acima do coração, como uma Marca de casamento seria, e tinha um violeta mais intenso do que um hematoma. Era quase da cor dos olhos de Malcolm.
— Sim, estou — disse ele, soando um pouco surpreso. — Estou bem. Você estava com... — Ele olhou para baixo e, por um instante, ficou muito parecido com o menininho de quem Cristina se lembrava, seguindo os passos desastrosos de Jaime, enfrentando confusões e olhares de reprovação silenciosamente. — Sonhei que você tinha ficado comigo.
— Eu fiquei com você. — Ela conteve o impulso de se inclinar e afastar o cabelo dele do rosto.
— E ficou tudo bem? — perguntou ele. — Não me lembro de muita coisa depois que voltamos.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Ficou surpreendentemente bem.
— Esse é o seu quarto? — Diego quis saber, olhando em volta. Seu olhar se iluminou em algo depois da orelha esquerda dela, e ele sorriu. — Eu me lembro disso.
Cristina virou e olhou. Sobre uma prateleira perto da cama havia uma árbol de vida, uma árvore da vida – uma moldura delicada de cerâmica se pendurava sobre ela com flores, luas, sóis, leões, sereias e flechas de cerâmica. O anjo Gabriel descansava no fundo, as costas na árvore, o escudo nos joelhos. Era uma das poucas lembranças de casa que ela trouxera consigo.
— Você que fez — disse ela. — Para o meu aniversário. Eu tinha 13 anos.
Ele se inclinou para a frente, com as mãos nos joelhos.
— Você sente falta de casa, Cristina? — perguntou ele. — Um pouquinho que seja?
— Claro que sinto — retrucou ela. A linha das costas dele era suave, intacta. Ela se lembrava de enterrar as unhas nas omoplatas dele quando se beijavam. — Sinto falta da minha família. Sinto falta até do trânsito da Cidade do México; não que aqui seja muito melhor. Sinto falta da comida, você não acreditaria no que eles chamam de comida mexicana aqui. Sinto falta de comer jicaletas no parque com você. — Ela se lembrou de limão e pimenta em pó nas mãos, um pouco amargo, e um pouco quente.
— Sinto falta de você — disse ele. — Todos os dias, sinto sua falta.
— Diego... — Ela deslizou da cadeira para a cama e alcançou a mão direita dele. Era grande e quente contra as de Cristina, e ela sentiu a pressão do anel da família dele em sua mão; os dois usavam o anel da família Rosales, mas o dela tinha a matriz dos Mendoza na parte de dentro, e o dele, o dos Rocio. — Você salvou a minha vida — disse ela. — Eu lamento ter sido tão inflexível. Eu deveria ter sabido. Deveria tê-lo conhecido melhor.
— Cristina... — A mão livre dela encontrou o seu cabelo, sua bochecha. As pontas dos dedos dele tocaram levemente a pele de Cristina. Ele se inclinou, dando bastante tempo para ela recuar. Ela não o fez. Quando a boca de Diego encontrou a dela, Cristina inclinou a cabeça para o beijo, seu coração se expandindo com a estranha sensação de que ela estava caminhando ao mesmo tempo para o futuro e para o passado.


Em algum lugar, pensou Mark. Estava em algum lugar da casa. Julian havia dito que tinha encaixotado todas as coisas do quarto dele e colocado na área de armazenamento leste. Já tinha passado da hora de reclamar os seus pertences e deixar o seu quarto com o aspecto de um lugar onde vivia alguém. O que significava que Mark tinha que achar o armazém.
Teria perguntado a Julian onde ficava, mas não tinha conseguido encontrá-lo. Talvez ele estivesse se escondendo em algum lugar, resolvendo questões relativas ao Instituto. Parecia mais do que estranho para Mark que as coisas fossem voltar ao que eram antes, com Julian dirigindo o Instituto e a Clave sem a menor ideia.
Certamente devia haver um jeito de ajudar a tirar o fardo de cima do irmão. Agora que ele e Emma sabiam, as coisas seriam mais fáceis para Jules.
Provavelmente era hora de contar também aos mais novos. Em silêncio, Mark jurou que ficaria ao lado do irmão para isso. Era mais fácil viver em verdade do que em mentira, Kieran sempre dizia.
Mark se encolheu ao pensar em Kieran e abriu a porta. Uma sala de música. Obviamente não era muito usada – havia um piano empoeirado, uma série de instrumentos de cordas pendurados nas paredes e uma caixa de violino. Ao menos, esta parecia lustrada. O pai de Emma tocava violino, Mark se lembrou: a obsessão das Cortes das Fadas com aqueles que produziam música tinha mantido Mark longe de qualquer interesse em melodia.
— Mark?
Ele pulou e se virou. Ty estava atrás dele, descalço, com um casaco preto e jeans escuros. As cores escuras o deixavam ainda mais magro.
— Oi, Tiberius. — Mark gostava da versão longa do nome de seu irmãozinho. Parecia compatível com ele e sua postura solene. — Está procurando alguma coisa?
— Estava procurando por você — disse Ty diretamente. — Tentei ontem à noite, mas não consegui encontrá-lo, depois dormi.
— Eu estava me despedindo de Kieran — explicou Mark.
— Despedindo? — Ty levantou os ombros. — Isso quer dizer que vai ficar aqui para sempre?
Mark não pôde deixar de sorrir.
— Vou. Vou ficar aqui.
Ty deu um suspiro longo; pareceu em parte alívio, em parte nervosismo.
— Ótimo — falou. — Isso é ótimo.
— Eu achei que sim.
— É — disse Ty, como se Mark estivesse um pouco lento —, porque você pode assumir por Julian.
— Assumir? — Mark o encarou confuso.
— Julian tecnicamente não é o mais velho — disse Ty. — E apesar de que nunca o colocariam oficialmente no cargo, porque é parte fada, você ainda poderia fazer o que Julian faz. Cuidar da gente, nos dizer o que fazer. Não precisa ser ele. Pode ser você.
Mark se apoiou na porta. Ty exibia uma expressão completamente aberta, e havia esperança no fundo de seus olhos cinza-claro, e Mark sentiu uma onda de pânico que quase o deixou nauseado.
— Você falou alguma coisa sobre isso com Julian? — perguntou ele. — Falou que estava planejando me pedir isso?
Ty, sem captar o tom semifurioso na voz de Mark, franziu as delicadas sobrancelhas.
— Acho que mencionei para ele.
— Ty — falou Mark. — Você não pode simplesmente arrumar a vida dos outros assim. Por que acha que isso seria uma boa ideia?
Os olhos de Ty vasculharam a sala, repousando em todos os lugares, menos em Mark.
— Não tive a intenção de irritá-lo. Achei que tinha se divertido aquele dia na cozinha, quando Julian o deixou encarregado...
— Eu me diverti. Todos nós nos divertimos. Também causei um incêndio no fogão e cobri seu irmãozinho de açúcar. Não é como as coisas devem ser o tempo todo. Não é assim... — Mark se interrompeu, apoiado na parede. Ele estava tremendo. — O que poderia fazê-lo imaginar que eu estava qualificado para ser o guardião de Tavvy? Ou de Dru? Você e Livvy, vocês são mais velhos, mas isso não significa que não precisem de um pai. Julian é o pai de vocês.
— Julian é meu irmão — retrucou Ty, mas as palavras soaram abafadas. — E você também. Você é como eu — acrescentou. — Somos parecidos.
— Não — respondeu Mark com rispidez. — Eu sou completamente perturbado, Ty. Mal sei como viver nesse mundo. Você é capaz. Eu não. Você é uma pessoa completa; foi criado por alguém que o ama, o ama mais do que a si mesmo, e isso não é nada para se sentir agradecido, isso é o que um pai faz, mas durante anos, eu não tive isso. Pelo Anjo, eu mal sei cuidar de mim mesmo. Certamente não posso tomar conta de vocês.
Os lábios de Ty pareciam brancos. Ele deu um passo para trás, em seguida, foi para o corredor, seus passos corridos desaparecendo.
Meu Deus, ele pensou. Que desastre. Que completo desastre. Ele já estava começando a entrar em pânico. O que ele tinha dito para Ty? Será que o havia feito se sentir um fardo? Será que tinha estragado as coisas com o irmão, magoado Ty de um jeito irreparável?
Ele era um covarde, pensou, franzindo o rosto por causa da responsabilidade que Julian carregou durante anos, em pânico com o que poderia acontecer com a família em suas mãos descuidadas e inexperientes.
Ele precisava desesperadamente falar com alguém. Não Julian; seria mais um fardo para ele. E Emma não conseguia guardar segredos de Julian. Livvy o mataria; os outros eram jovens demais...
Cristina. Cristina sempre lhe dava bons conselhos; o sorriso doce de Cristina acalmava seu coração. Ele correu para o quarto dela.
Deveria ter batido, é claro. Era o que pessoas normais faziam. Mas Mark, que passou tantos anos vivendo em um mundo sem portas, abriu a de Cristina sem pensar.
A luz do sol entrava pela varanda. Ela estava sentada na cama, com a cabeça apoiada nos travesseiros, e Diego, ajoelhado na frente dela, a beijava. Ele segurava a cabeça de Cristina em suas mãos como se fosse algo precioso, e os cabelos negros escorriam por seus dedos.
Nenhum dos dois notou quando Mark congelou na entrada, nem quando fechou de novo a porta, o mais silenciosamente possível. Ele se apoiou na parede, ardendo de vergonha.
Entendi tudo errado, de pensou. Estraguei tudo. Seus sentimentos por Cristina eram turvos e estranhos, mas vê-la beijando Diego doeu mais do que ele imaginava. Parte da dor era ciúme. Parte era a constatação de que tinha passado tanto tempo longe de pessoas normais que não mais as entendia.
Talvez jamais fosse entender.
Eu devia ter ficado com a Caçada. Ele deslizou para o chão, enterrando o rosto nas mãos.


Uma nuvem de poeira, madeira e gesso se ergueu diante do local onde o chão de Rook tinha sido destruído. A isso um esguicho fino de sangue tinha se somado. Kit deslizou da cadeira onde estava e ficou parado, em choque. Seu rosto estava respingado de sangue, e ele sentia o cheiro pela sala, o fedor quente e férrea.
O sangue do meu pai.
Os demônios estavam reunidos em um círculo, devorando algo no chão. O corpo do pai de Kit. O som de pele rasgando preencheu o recinto. Nauseado, Kit sentiu o estômago revirar – exatamente quando o demônio que tinha caído pela escada subia de novo, chiando.
Seus olhos, bulbos leitosos na cabeça esponjosa, pareciam fixos em Kit. Avançou até ele, que pegou a cadeira ao seu lado e usou como escudo. No fundo da mente, tinha consciência de que não deveria ser possível que um menino sem treino de 15 anos pudesse manejar um pedaço pesado de carvalho como se fosse um brinquedo.
Mas Kit não se importou; ele estava quase louco de pânico e pavor. Conforme o demônio recuava à sua frente, ele avançava com a cadeira, derrubando-o para trás. Ele levantou e o atacou novamente. Kit combateu, mas dessa vez uma pata dianteira afiada desceu, cortando a cadeira ao meio. O demônio avançou com os dentes expostos, e Kit segurou os restos da cadeira, que estilhaçou em suas mãos. Ele foi jogado de costas contra a parede.
A cabeça dele bateu com força, e ele foi invadido pela tontura. Kit viu, em um torpor, o monstro louva-a-deus vindo em sua direção. Seja rápido, ele pensou. Pelo amor de Deus, me deixe morrer rápido.
O demônio desceu em cima dele, com a boca aberta, exibindo filas e filas de dentes e uma garganta negra que pareceu preencher sua visão. Ele levantou a mão para bloqueá-la – estava cada vez mais perto – e depois ela pareceu explodir. A cabeça foi para um lado, e o corpo para outro. Sangue negro esverdeado de demônio esguichou no garoto.
Ele ficou olhando para o alto e no torpor viu duas pessoas sobre ele. Uma era a menina loura Caçadora de Sombras do Instituto, Emma Carstairs. Ela estava empunhando uma espada dourada, manchada de icor. Ao seu lado havia outra mulher que parecia alguns anos mais velha. Ela era alta e magra, com cabelos longos e cacheados. Vagamente, ele sabia que já a tinha visto antes – no Mercado das Sombras? Ele não tinha certeza.
— Você cuida de Kit — disse Emma, — Vou cuidar dos outros Mantis.
Emma desapareceu do estreito campo de visão de Kit. Ele só estava vendo a outra mulher. Ela tinha um rosto gentil e suave, e olhava para ele com um afeto surpreendente,
— Sou Tessa Gray — falou. — Levante-se, Christopher.
Kit piscou os olhos. Ninguém nunca o chamava de Christopher. Ninguém além de seu pai, quando estava bravo. Pensar em Johnny o machucou, e ele ficou olhando para o lugar onde o corpo de seu pai estava caído.
Para sua surpresa, havia duas pessoas ali. Um homem alto e de cabelos escuros, brandindo uma bengala com cabeça de espada, tinha se juntado a Emma e os dois estavam lutando, cortando demônios em pedaços. Icor verde esguichava pelo ar como de um hidrante.
— Meu pai — falou Kit, lambendo a boca seca e sentindo o gosto de sangue. — Ele...
— Você deve sofrer mais tarde. Agora está em grave perigo. Mais desses podem vir e coisas piores também.
— Você é Caçadora de Sombras?
— Não — respondeu Tessa Gray com uma firmeza surpreendente. — Mas você é. — Ela esticou a mão para ele. — Vamos, agora — falou. — De pé, Christopher Herondale. Estamos procurando por você há muito tempo.


— Diga alguma coisa — pediu Emma. — Por favor.
Mas o menino no banco do passageiro não falou nada. Ele observava o mar pela janela; tinham chegado até a Coast Highway sem que Kit dissesse uma palavra.
— Não tem problema — disse Tessa do banco de trás. A voz dela estava suave, mas, pensando bem, a voz dela sempre era suave. — Você não precisa falar, Christopher.
— Meu nome não é esse — disse Kit.
Emma deu um pulinho. Kit tinha um tom de voz monótono e continuava olhando pela janela. Ela sabia que ele era um pouco mais jovem do que ela, mas mais pelo seu comportamento do que por qualquer outro motivo. Ele era bem alto, e seus movimentos na casa, combatendo os demônios Mantis, foram impressionantes.
Ele estava com jeans ensanguentados e uma camiseta empapada de sangue, que provavelmente tinha sido azul um dia. As pontas dos cabelos louros estavam grudentas com icor e sangue.
Emma soube que a situação era grave ao chegar à casa de Johnny Rook. Apesar de a casa parecer a mesma, apesar de a porca estar fechada, assim como as janelas, e tudo estar quieto, ela sentiu a feita da energia mágica que estava muito aparente quando estiveram ali antes. Ela havia olhado para baixo, para a mensagem seguinte no celular, e pegado Cortana.
Parecia que uma bomba tinha explodido no interior da casa. Estava claro que os Mantis tinham vindo do chão – demônios frequentemente viajavam sob a terra para evitar a luz do sol. Eles tinham explodido pelo piso; havia icor, sangue e serragem por todos os lados.
E Mantis. Pareciam muito mais grotescos na sala de Johnny Rook do que no alto das falésias das Montanhas de Santa Monica. Mais monstruosos, mais parecidos com insetos. Suas patas afiadas rasgavam paredes de madeira, destruíam móveis e livros.
Emma empunhou Cortana. Ela cortou um Mantis; ele desapareceu com um grito, desbloqueando sua visão. Vários dos outros Mantis estavam sujos de sangue vermelho, humano. Eles cercavam os restos do que outrora havia sido Johnny Rook, em pedaços, no chão.
Kit. Emma olhou em volta, enlouquecida, viu o menino agachado perto das escadas. Ele estava desarmado. Ela correu na direção dele, exatamente quando ele pegou uma cadeira e a quebrou na cabeça do demônio Mantis.
Só o treinamento impediu Emma de parar onde estava. Crianças humanas não faziam isso. Elas não sabiam como combater demônios. Elas não tinham o instinto...
A porta atrás de Emma se abriu, e mais uma vez só o seu treinamento a impediu de parar, surpresa. Ela conseguiu cortar a cabeça de outro demônio Mantis, manchando a lâmina de Cortana com icor, mesmo enquanto Jem Carstairs entrava na sala, seguido por Tessa.
Eles entraram na batalha sem dizer uma palavra um para o outro, ou para Emma, mas Emma tinha trocado um olhar com Jem enquanto lutavam, e soube que ele não estava surpreso em vê-la. Ele parecia mais velho do que em Idris – agora mais próximo de 26, mais um homem do que um menino, apesar de Tessa estar igual.
Ela exibia a mesma expressão doce de que Emma se lembrava, e a mesma voz suave. Ela olhou para Kit com amor e tristeza quando foi até ele e estendeu a mão.
Christopher Herondale.
— Mas Kit é um apelido para Christopher, não é? — perguntou Tessa, ainda gentil. Kit não respondeu. — Christopher Jonathan Herondale é o verdadeiro nome. E seu pai também era Jonathan, certo?
Johnny. Jonathan.
Havia mil Caçadores de Sombras chamados Jonathan. Jonathan Caçador de Sombras tinha fundado toda a raça dos Nephilim. Também era o nome de Jace.
Emma tinha ouvido Tessa na casa, é claro, mas ainda não conseguia acreditar.
Não apenas um Caçador de Sombras escondido, mas um Herondale.
Clary e Jace teriam que saber. Provavelmente viriam correndo.
— Ele é um Herondale? Como Jace?
— Jace Herondale — murmurou Kit. — Meu pai disse que ele era um dos piores.
— Um dos piores o quê? — perguntou Jem.
— Caçadores de Sombras. — Kit falou as palavras com desprezo. — E não sou um deles, aliás. Eu saberia.
— Saberia? — A voz de Jem estava calma. — Como?
— Não é da sua conta — falou. — Sei o que está fazendo. Meu pai me disse que vocês sequestram qualquer pessoa com menos de 19 anos que tenha a Visão. Qualquer um que vocês possam transformar em Caçador de Sombras. Não sobrou quase nenhum de vocês depois da Guerra Maligna.
Emma abriu a boca para protestar indignada, mas Tessa já estava falando:
— Seu pai disse muitas coisas que não eram verdadeiras. Sem querer falar mal dos mortos, Christopher, mas duvido que eu esteja falando algo que você ainda não saiba. E uma coisa é ter a Visão. Outra é combater um demônio Mantis sem treinamento.
— Você disse que estava procurando por ele? — perguntou Emma, quando passaram pelo Motel Topanga Canyon, cujas janelas manchadas tinham um tom marrom ao sol. — Por quê?
— Porque ele é um Herondale — disse Jem. — E os Carstairs devem aos Herondale.
Um leve tremor passou por Emma. Seu pai havia lhe dito a mesma coisa, muitas e muitas vezes.
— Há muitos anos Tobias Herondale foi condenado como desertor — disse Jem. — Ele foi condenado à morte, mas não foi encontrado, então a sentença foi aplicada à esposa. Ela estava grávida. Uma feiticeira, Catarina Loss, contrabandeou o bebê para a segurança no Novo Mundo.
— A sentença foi aplicada na esposa grávida dele? — falou Kit. — Qual é o problema de vocês?
— Isso é horrível — disse Emma, pela primeira vez concordando com Kit. — Então Kit aqui é descendente de Tobias Herondale?
Tessa fez que sim com a cabeça.
— Não há defesa para as ações da Clave. Como sabe, eu um dia fui Tessa Herondale; eu sabia sobre Tobias; a história dele era uma lenda de horror. Mas só ha alguns anos Catarina me contou que a criança tinha sobrevivido. Eu e Jem viemos para cá descobrir o que havia acontecido com a linhagem Herondale. Muitas pesquisas nos levaram ao seu pai, Kit.
— O sobrenome do meu pai era Rook — murmurou Kit.
— Legalmente, sua família já teve muitos nomes — disse Tessa. — Dificultou muito nossa busca. Presumo que seu pai soubesse que tinha sangue Nephilim e o estava escondendo de nós. Certamente se apresentar abertamente como um mundano com a Visão foi inteligente. Ele pôde fazer conexões, proteger a casa, enterrar sua identidade. Enterrá-lo.
Kit falou com a voz monótona.
— Ele costumava dizer que eu era o seu maior segredo.
Emma virou na rua para o Instituto.
— Christopher — disse Tessa. — Não somos Caçadores de Sombras, eu e Jem. Não somos da Clave, decididos a marcá-lo como algo que você não quer ser. Mas seu pai tinha muitos inimigos. Agora que ele está morto e não pode protegê-lo, vão vir atrás de você. Estará mais seguro no Instituto.
Kit resmungou. Ele não pareceu nem impressionado, nem confiante.
Era estranho, pensou Emma, ao pararem no fim da rua. As únicas coisas que Kit tinha em comum com o pai eram a altura e o porte. Ao saltar do carro, sobre a camisa ensanguentada, ele tinha olhos claramente azuis. Seus cabelos, dourados e ondulados – isso era totalmente Herondale. E seu rosto também, os ossos finos, a graça. Ele estava ensanguentado, arranhado e arrasado demais para que isso ficasse aparente agora, mas ele seria arrasador um dia.
Kit olhou para o Instituto, todo vidro e madeira, brilhando à luz da tarde, com desprezo.
— Institutos não são como prisões?
Emma deu um muxoxo.
— São como casas grandes. Caçadores de Sombras do mundo inteiro podem ficar neles. Têm um milhão de quartos. Eu moro naquele.
— Que seja. — Kit parecia triste. — Não quero entrar.
— Você pode fugir — disse Tessa, e pela primeira vez Emma ouviu a severidade em seu tom de voz suave. Era um lembrete de que ela e Jace tinham o mesmo sangue. — Mas provavelmente seria devorado por um Mantis assim que o sol se pusesse.
— Não sou um Caçador de Sombras — disse Kit, saltando do carro. — Pare de agir como se eu fosse.
— Bem, existe um teste rápido para isso — disse Jem. — Só um Caçador de Sombras pode abrir a porta do Instituto.
— A porta? — Kit o encarou. Ele estava mantendo um braço perto do corpo.
O olhar de Emma se aguçou. Tendo Julian como parabatai, ela havia aprendido a reconhecer a maneira como meninos tentavam esconder um machucado. Talvez parte do sangue fosse dele.
— Kit — começou ela.
— Deixe-me entender — interrompeu Kit. — Se eu tentar abrir essa porta e não conseguir, vocês me deixam ir?
Tessa assentiu. Antes que Emma pudesse falar qualquer coisa, Kit subiu as escadas mancando. Ela correu atrás dele, Tessa e Jem a seguiram. Kit colocou o ombro na porta. Empurrou.
A porta se abriu, e ele meio que caiu lá dentro, por pouco não derrubou Tiberius, que estava atravessando a entrada. Ty cambaleou para trás e encarou o menino no chão.
Kit estava ajoelhado, com a mão claramente apoiando o braço esquerdo. Ele estava arfando ao olhar em volta, assimilando a entrada – a porta de mármore, cheia de símbolos. As espadas penduradas nas paredes. O mural do Anjo e dos Instrumentos Mortais.
— É impossível — falou ele. — Não pode ser.
O olhar de espanto de Ty desapareceu.
— Você está bem?
— Você — disse Kit, olhando para Ty. Olhos azuis encontraram olhos cinzentos. — Você apontou uma faca para mim.
Ty pareceu pouco à vontade. Ele esticou o braço para puxar uma mecha dos próprios cabelos escuros.
— Foi só trabalho. Nada pessoal.
Kit começou a rir. Ainda rindo, ele se jogou novamente no chão. Tessa se ajoelhou ao lado dele, colocando as mãos em seus ombros. Emma não pôde deixar de enxergar a si própria, na Guerra Maligna, sofrendo um colapso ao perceber que os pais estavam mortos.
Kit olhou para ela. Sua expressão era um borrão. A expressão de alguém que usava todas as suas forças para não chorar.
— Um milhão de quartos — disse ele.
— Quê? — falou Emma.
— Você disse que havia um milhão de quartos aqui — repetiu ele, se levantando. — Eu vou encontrar um vazio. E depois vou me trancar nele. Se alguém tentar arrombar a porta, eu mato.


— Acha que ele vai ficar bem? — perguntou Emma. — Kit, quero dizer.
Ela estava nos degraus de entrada com Jem, que estava embalando Church nos braços. O gato tinha vindo correndo alguns instantes depois que Jem chegou e praticamente lançou o corpinho peludo nos braços dele. Jem estava acarinhando ele agora, esfregando embaixo do queixo e atrás das orelhas, despreocupadamente. O gato tinha ficado mole sob os seus cuidados, como um pedacinho de pano.
O oceano se elevava e descia no horizonte. Tessa tinha se afastado do Instituto para fazer uma ligação. Emma estava ouvindo sua voz ao longe, mas não as palavras isoladas.
— Você pode ajudá-lo — disse Jem. — Perdeu seus pais. Sabe como é.
— Mas não acho que... — Emma estava alarmada. — Se ele ficar, eu não sei... — Ela pensou em Julian, no tio Arthur, em Diana, e nos segredos que todos eles escondiam. — Você não pode ficar? — perguntou ela, e ficou surpresa com o lamento na própria voz.
Jem sorriu. Aquele sorriso do qual ela se lembrava da primeira vez em que realmente viu o rosto dele, o sorriso que lembrava, de um jeito que ela não podia descrever, o próprio pai. O sangue Carstairs que eles compartilhavam.
— Eu gostaria de ficar — disse ele. — Desde que nos conhecemos em Idris, eu sinto a sua falta, e pensei muitas vezes em você. Eu gostaria de visitá-la. Passar um tempo com meu violino. Mas Tessa e eu temos que ir. Temos que encontrar o corpo de Malcolm e o Volume Negro, pois mesmo a léguas submarinas um livro daqueles pode causar problemas.
— Você se lembra de quando nos conhecemos na minha cerimônia parabatai? Você me disse que queria poder cuidar de mim, mas havia algo que você e Tessa precisavam encontrar. Essa coisa era Kit?
— Sim. — Jem colocou as mãos nos bolsos. Ainda parecia jovem, era impossível Emma pensar nele como um ancestral, mesmo um tio. — Estamos procurando por ele há anos. Restringimos a busca a essa área e depois, finalmente, ao Mercado das Sombras. Mas Johnny Rook era especialista em se esconder. — Ele suspirou. — Gostaria que não tivesse sido. Se ele tivesse confiado em nós, poderia estar vivo agora. — Ele passou a mão distraidamente no cabelo. Uma mecha era prateada, cor de alumínio. Ele estava olhando para Tessa, e Emma percebeu a expressão em seus olhos quando olhou para ela. O amor que nunca diminuiu em mais de um século.
O amor é a fraqueza dos humanos; os anjos os desprezam, por isso a Clave os despreza também, por isso, os punem. Você sabe o que acontece com dois parabatai que se apaixonam? Sabe por que é proibido?
— Malcolm... — começou ela.
Jem virou novamente para Emma, o brilho da solidariedade em seus olhos escuros.
— Magnus nos contou que foi você que matou Malcolm — falou ele. — Deve ter sido difícil. Você o conhecia. Não é como matar demônios.
— Eu conheci Malcolm — disse Emma. — Pelo menos, eu achava que conhecia.
— Nós o conhecíamos também. Tessa ficou arrasada ao saber que Malcolm achava que tínhamos mentido para ele. Que tínhamos escondido dele que Annabel não era uma Irmã de Ferro, que na verdade estava morta e tinha sido assassinada pela própria família. Acreditamos na história também, mas ele morreu pensando que todos sabíamos a verdade. Como deve ter se sentido traído.
— É estranho pensar que ele era amigo de vocês. Embora, eu acho, tenha sido nosso amigo também.
— As pessoas podem ser mais do que uma coisa. Feiticeiros também. Ele também foi nosso amigo um dia. Eu sequer hesitaria em dizer que ele um dia fez o bem, antes de fazer o mal. Foi uma das grandes lições de crescer, aprender que as pessoas podem fazer as duas coisas.
— A história dele... sobre Annabel... coisas terríveis aconteceram aos dois só porque se apaixonaram. Malcolm disse uma coisa, e eu fiquei pensando se seria verdade. Pareceu tão estranho.
Jem pareceu confuso.
— O que foi?
— Que a Clave despreza o amor porque é algo que seres humanos sentem. Que é por isso que criam todas aquelas leis, sobre pessoas não se apaixonarem por integrantes do Submundo ou seus parabatai... E as Leis não fazem sentido... — Emma ficou olhando para Jem com o canto do olho. Será que estava sendo muito óbvia?
— A Clave pode ser terrível — disse ele. — Limitada e cruel. Mas algumas das coisas que fazem se baseiam na história. A Lei parabatai, por exemplo.
Emma sentiu como se a temperatura de seu corpo tivesse despencado muitos graus.
— Como assim?
— Não sei se deveria contar — disse Jem, olhando para o mar, com uma expressão tão sombria que Emma sentiu o coração congelar no peito. — É um segredo... um segredo guardado até dos próprios parabatai... Só alguns sabem: os Irmãos do Silêncio, o Cônsul... Eu fiz um juramento.
— Mas você não é mais um Caçador de Sombras. O juramento não se mantém. — Quando ele não disse nada, ela pressionou: — Você me deve, sabe? Por não estar por perto?
O canto da boca dele formou um sorriso.
— Você negocia bem, Emma Carstairs. — Ele respirou fundo. Emma podia ouvir a voz de Tessa, fraca ao vento. Ela estava falando o nome de Jace. — O ritual parabatai foi criado para que dois Caçadores de Sombras pudessem ser mais fortes juntos do que separados. Sempre foi uma de nossas armas mais poderosas. Não são todos que tem um parabatai, mas eles existirem é parte dos Nephilim como eles são. Sem eles, seriamos infinitamente mais fracos, de formas que sou até proibido de explicar. Idealmente, aumenta o poder de cada parabatai, símbolos aplicados um no outro são mais fortes, e, quanto mais próximo o laço pessoal, maior o poder.
Emma pensou nos símbolos de cura que ela havia desenhado em Julian depois do envenenamento pela flecha. No jeito como brilharam. Na runa da Resistência que ele lhe dera. Como havia funcionado diferente de qualquer outra.
— Não muito tempo depois que o ritual já era empregado por algumas gerações — falou Jem, diminuindo a voz — foi descoberto que o laço era próximo demais e, se virasse um amor romântico... aí começaria a virar e mudar o tipo de poder gerado pelo feitiço. Amor unilateral, mesmo uma paixonite, tudo isso parece passar pela regra, mas amor verdadeiro, correspondido, romântico? O custo era terrível.
— Perderiam os poderes? — sugeriu Emma. — Como Caçadores de Sombras?
— O poder ia crescer — corrigiu Jem. — Os símbolos que criassem seriam diferentes de todos os outros. Começariam a manipular magia, como fazem os feiticeiros. Mas Nephilim não devem ser mágicos. Logo o poder os enlouqueceria até que se tomassem monstros. Destruiriam suas famílias, os outros que amavam. A morte os cercaria até que eles próprios morressem.
Emma sentiu como se estivesse engasgando.
— Por que eles não nos contam isso? Por que não alertam os Nephilim?
— É poder, Emma — disse Jem. — Alguns sabiamente evitariam o laço, mas muitos outros se apressariam em tirar vantagem disso por motivos errados. O poder sempre atrai os gananciosos e os fracos.
— Eu não quereria isso — falou Emma suavemente. — Não esse tipo de poder.
— A natureza humana também tem de ser levada em conta — falou Jem e sorriu para Tessa, que estava no telefone e subindo a trilha em direção a eles. — Ouvir falar que o amor é proibido não o mata. Isso o fortalece.
— Do que vocês dois estão falando? — Tessa sorriu para eles do pé da escada.
— Amor — disse Jem. — Como acabar com ele, eu suponho.
— Ah, se ao menos pudéssemos acabar com o amor por vontade própria, a vida seria muito diferente! — Tessa riu. — É mais fácil acabar com o amor que alguém sente por você do que com o amor que você sente por alguém. Convencê-lo de que não o ama ou que é alguém que ele não pode respeitar. De preferência, os dois. — Os olhos dela eram grandes, cinzentos e jovens; era difícil acreditar que ela tivesse mais do que 19 anos. — Mudar o próprio coração, isso é quase impossível.
Surgiu um brilho no ar. Um Portal de repente apareceu, reluzente como uma porta fantasma, logo acima do chão. Ele se abriu, e Emma enxergou como se estivesse olhando por um buraco de fechadura: Magnus Bane estava do outro lado do Portal, e ao seu lado encontrava-se Alec Lightwood, alto, com cabelos escuros e segurando um garotinho de camisa branca, com pele azul-marinho.
Alec estava desalinhado e feliz, e a forma como segurava Max lembrava o jeito como Julian costumava segurar Tavvy.
Quando estava levantando a mão para cumprimentar Emma, Alec parou, virou a cabeça e disse algo que soou como “Raphael”. Estranho, pensou Emma.
Alec entregou Max para Magnus e despareceu de novo nas sombras.
— Tessa Gray! — gritou Magnus, se inclinando para fora do Portal como se estivesse se inclinando sobre uma varanda. — Jem Carstairs! Hora de ir!
Alguém vinha se aproximando da estrada pela praia. Emma só viu a silhueta.
Mas ela sabia que era Julian, Julian, voltando da praia onde havia esperado por ela. Ela sempre saberia que era Julian.
Com a cordialidade da geração de muitos anos antes, Jem se curvou diante da mão dela em uma reverência gentil.
— Se precisar de mim, diga a Church — disse ele, se esticando. — Ele vai se certificar de que eu venha até você.
Então ele se virou e foi em direção ao Portal. Tessa pegou a mão dele e sorriu, e um instante mais tarde tinham atravessado a porta brilhante. Ela desapareceu com um clarão de luz fraca e dourada, e Emma, piscando, olhou para onde Julian a encarava, do pé da escada.
— Emma? — Julian subiu correndo, alcançando-a. — Emma, o que aconteceu? Eu esperei na praia...
Ela se afastou do toque dele. Um esboço de dor passou pelo rosto de Julian, em seguida, ele olhou em volta, como se tivesse percebido onde estava, e fez um sinal positivo com a cabeça.
— Venha comigo — falou com a voz baixa.
Emma o seguiu, meio entorpecida, ao circularem o Instituto para o estacionamento. Ele desviou das estátuas e passou pelo pequeno jardim, Emma atrás, até estarem escondidos do prédio por filas de arbustos e cactos.
Ele se virou para ficarem cara a cara. Ela pôde ver a preocupação nos olhos de Julian. Ele esticou o braço para tocá-la no rosto, e sentiu seu coração bater forte nas costelas.
— Você pode me falar — disse ele. — Por que não apareceu?
Com a voz pesada, Emma contou a ele sobre a mensagem apavorada de Kit, sobre como imediatamente correu para o carro. Como um dia depois do Instituto passar pelo que passou, ela não conseguiu arrastar ninguém com ela para a casa do Rook. Como Rook parecia responsabilidade dela. Como ela tentou ligar para avisar que tinha saído, e ele não atendeu. Sobre os Mantis na casa de Rook, a chegada de Jem e Tessa, a verdade sobre Kit. Tudo, menos o que Jem havia lhe dito sobre os parabatai.
— Fico feliz que esteja bem — disse ele, quando ela acabou. Passou o polegar na maçã do rosto de Emma. — Apesar de eu ter imaginado que, se você tivesse se ferido, eu saberia.
Emma não levantou as mãos para tocá-lo. Estavam cerradas em punhos nas laterais do corpo. Ela fizera coisas difíceis na vida, pensou. Seus anos de treinamento. Sobreviver às mortes dos pais. Matar Malcolm.
Mas o olhar no rosto de Julian – aberto e confiante – dizia que esta seria a coisa mais difícil que jamais faria.
Ela esticou o braço e cobriu sua mão. Lentamente, entrelaçou os dedos.
Ainda mais lentamente, afastou a mão de Julian de seu rosto, tentando aquietar a voz em sua mente que dizia: Esta é a última vez que ele a tocará assim, a última.
Eles ainda estavam de mãos dadas, mas a dela estava rija, um peso morto.
Julian pareceu confuso.
— Emma...?
— Não podemos fazer isso — disse ela, com a voz seca e direta. — Era isso que eu queria falar antes. Não podemos ficar juntos. Não assim.
Ele afastou a mão da dela.
— Não entendo. O que está dizendo?
É tarde demais, ela queria dizer a ele. Estou dizendo que a runa da Resistência que você me deu, quando Malcolm me atacou, salvou minha vida. E, embora eu seja grata, não deveria ter sido possível. Estou dizendo que já estamos nos transformando no que Jem me alertou. Estou dizendo que não é uma questão de parar o relógio, mas de fazê-lo andar para trás. E, para isso, o relógio terá de ser quebrado.
— Nada de beijos, de toques, de se apaixonar, de namorar. Está claro o suficiente para você?
Julian não parecia que tinha sido golpeado por ela. Ele era um guerreiro: aguentava qualquer golpe e estaria pronto para atacar de volta, duas vezes mais forte.
Foi muito pior do que isso.
Emma queria desesperadamente retirar o que disse, contar a verdade, mas as palavras de Jem ecoaram em sua mente.
Ouvir que o amor é proibido não o mata. Isso o fortalece.
— Não quero ter esse tipo de relação — disse ela. — Me escondendo, mentindo, dando escapadas. Não entende? Envenenaria tudo que temos. Mataria todas as partes boas de ser parabatai, até de continuarmos amigos.
— Isso não precisa ser verdade. — Ele parecia nauseado, mas determinado. — Só precisamos esconder um pouco, só enquanto as crianças ainda são novas o suficiente para precisarem de mim...
— Tavvy ainda vai precisar de você por mais oito anos — disse Emma, o mais friamente possível. — Não podemos nos esconder por tanto tempo.
— Podemos adiar... podemos nos adiar...
— Eu não vou esperar. — Ela pôde senti-lo olhando para ela, sentir o peso de sua dor. Estava feliz por conseguir sentir. Ela merecia sentir.
— Não acredito em você.
— Por que eu diria se não fosse verdade? Não faria de mim uma pessoa boa, Jules.
— Jules? — Ele engasgou a palavra. — Está me chamando assim de novo? Como se fôssemos crianças? Não somos crianças, Emma!
— Claro que não — falou ela. — Mas somos jovens. Cometemos erros. Essa coisa entre a gente foi um erro. O risco é alto demais. — As palavras tinham gosto amargo em sua boca. — A Lei...
— Não há nada mais importante do que o amor — disse Julian, com uma voz estranha e distante, como se estivesse se lembrando de alguma coisa que tinha ouvido. — Nenhuma Lei maior.
— É fácil falar — disse Emma. — Mas se formos correr esse tipo de risco, deveria ser por um amor verdadeiro e para a vida inteira. E eu gosto de você, Jules, óbvio que gosto. Até te amo. Te amei por toda a vida. — Pelo menos, essa parte era verdade. — Porém não o suficiente. Não é o suficiente.
É mais fácil acabar com o amor que alguém sente por você do que com o amor que você sente por alguém. Convencê-lo de que não o ama, ou que você é alguém que ele não pode respeitar.
Julian arfava. Mas seus olhos, fixos nos dela, estavam firmes.
— Eu te conheço — disse ele. — Eu te conheço, Emma, e você está tentando fazer o que acha que é certo. Tentando me afastar para me proteger.
Não, pensou ela desesperadamente. Não me conceda o benefício da dúvida, Julian. Isso tem que dar certo. Tem que dar.
— Por favor, não — falou ela. — Você estava certo... Eu e você não faríamos sentido... Eu e Mark faríamos sentido...
Dor cresceu no rosto dele como um ferimento. Ela o viu forçá-la a se afastar.
Mark, ela pensou. O nome de Mark foi como a cabeça de flecha que ela usava, capaz de perfurar a armadura de Julian.
Perto, ela pensou. Estou muito perto. Ele quase acredita.
Mas Julian era um mentiroso especialista. E mentirosos especialistas conseguiam enxergar mentiras quando outras pessoas as contavam.
— Você também está tentando proteger as crianças — disse ele. — Você entende, Emma? Sei o que está fazendo, e eu te amo por isso. Eu te amo.
— Ah, Jules — disse ela, em desespero. — Será que não vê? Está falando em nós dois ficarmos juntos fugindo, e eu acabei de voltar da casa de Rook. Vi Kit e o que significa viver escondido, o custo, não só para nós dois, mas... e se tivéssemos filhos um dia? Teríamos que abrir mão de quem somos. Eu teria que desistir de ser Caçadora de Sombras. E isso me mataria, Jules. Acabaria comigo.
— Então daremos outro jeito — disse ele. Sua voz soou como uma lixa. — Algum jeito em que continuaremos sendo Caçadores de Sombras. Vamos descobrir juntos.
— Não vamos — sussurrou ela. Mas os olhos dele estavam arregalados, implorando para que ela mudasse de ideia, trocasse suas palavras, colasse o que estava quebrando.
— Emma — falou, alcançando a mão dela. — Eu nunca, nunca vou desistir de você.
Era uma estranha ironia, pensou ela, uma terrível ironia que, pelo fato de amá-lo tanto e conhecê-lo tão bem, ela sabia exatamente o que deveria fazer para destruir tudo que ele sentia por ela, com um único golpe.
Ela se afastou dele e começou a voltar para a casa.
— Vai — disse ela. — Vai sim.


Emma não tinha ideia de quanto tempo estava sentada na cama. A casa estava barulhenta – ela ouviu Arthur gritando alguma coisa logo que entrou, e depois silêncio. Kit tinha sido colocado em um dos quartos vagos, conforme havia pedido, e Ty estava sentado lá fora, lendo. Ela havia perguntado o que ele estava fazendo – guardando Kit? Guardando o Instituto contra Kit? – mas ele apenas deu de ombros.
Livvy estava na sala de treinamento com Dru. Emma pôde ouvir suas vozes abafadas pela porta.
Ela queria Cristina. Ela queria a única outra pessoa que sabia o que ela sentia por Julian, para poder chorar em seus braços e para que Cristina pudesse lhe dizer que ficaria tudo bem, e que ela estava fazendo a coisa certa.
Mas Emma não tinha certeza se Cristina algum dia realmente acharia que ela estava fazendo a coisa certa.
Mas ela sabia, no coração, que era necessário.
Emma ouviu o clique da maçaneta girando e fechou os olhos. Ela não conseguia deixar de ver o rosto de Julian ao dar as costas para ele.
Jules, ela pensou, com o coração doendo. Se ao menos você não acreditasse em mim, isso não seria necessário.
— Emma? — A voz de Mark. Ele ficou parado na entrada, com a aparência muito humana com uma camisa branca e jeans. — Acabei de receber sua mensagem. Você queria conversar?
Emma se levantou e alisou o vestido que tinha colocado. Era bonito, com flores amarelas em um fundo marrom.
— Preciso de um favor — disse ela.
As sobrancelhas claras de Mark se ergueram.
— Favores não são coisas leves para fadas.
— E nem para Caçadores de Sombras. — Ela esticou os ombros. — Você disse que me devia um favor. Por eu ter cuidado de Julian. Por salvar a vida dele. Você disse que faria qualquer coisa.
Mark cruzou os braços. Dava para ver os símbolos pretos em sua pele outra vez: na clavícula, nos pulsos. Ele estava mais bronzeado do que antes, e ele já tinha mais músculos agora que estava se alimentando. Caçadores de Sombras ganhavam músculos rápido.
— Por favor, prossiga, então — disse ele. — E se for um favor que eu tenha o poder de conceder, eu o farei.
— Se Julian perguntar... — Ela firmou a voz. — Não. Se ele perguntar ou não. Preciso que você finja que estamos namorando. Que estamos nos apaixonando.
Mark soltou os braços para as laterais.
— Quê?
— Você ouviu — disse ela. Gostaria de conseguir ler o rosto de Mark. Se ele protestasse, ela sabia que não teria como forçá-lo. Não poderia fazer isso Ela não tinha, ironicamente, a implacabilidade de Julian. — Sei que parece estranho — admitiu ela.
— Parece muito estranho — respondeu Mark. — Se quer que Julian pense que você tem um namorado, por que não pede a Cameron Ashdown?
Se você e Mark algum dia... Acho que eu não teria como me recuperar.
— Tem que ser você — disse ela.
— Qualquer um seria seu namorado. Você é uma garota linda. Não precisa que alguém minta.
— Não é uma questão de ego. — Emma se irritou. — E eu não quero um namorado. Quero a mentira.
— Você quer que eu minta só para Julian ou para todo mundo? — perguntou Mark. Sua mão estava na garganta, tamborilando na pulsação. Procurando, talvez, pelo cordão de flecha, que, Emma agora percebeu, tinha sumido.
— Suponho que todos tenham que acreditar — respondeu Emma relutante. — Não podemos pedir que todos mintam para Julian.
— Não — retrucou Mark, e sua boca se curvou no canto. — Isso não seria prático.
— Se não vai fazer, diga — falou Emma. — Ou diga o que posso fazer para convencê-lo. Isso não é por mim, Mark, é por Julian. Pode salvar a vida dele. Não posso revelar mais do que isso. Tenho que pedir que confie em mim. Eu o protegi todos esses anos. Isso... isso faz parte.
O sol estava se pondo. O quarto era preenchido por uma luz avermelhada. Projetava um brilho rosado sobre o cabelo e a pele de Mark. Emma se lembrou dela mesma aos 12 anos, como achava Mark bonito. Não foi tão longe a ponto de se transformar em paixonite, mas ela conseguia enxergar outro passado para si, um em que ela se apaixonaria por ele, e não pelo irmão. Um em que ela se tornasse parabatai de Julian, e se casasse com o irmão dele, e eles estariam na vida um do outro, ligados eternamente de todas as formas que as pessoas pudessem ser ligadas, e seria tudo que deveriam querer.
— Você quer que eu diga a ele, a todos, que estamos nos apaixonando? — falou. — Não que já estamos apaixonados?
Ela ruborizou.
— Tem que ser plausível.
— Há muita coisa que não está me contando. — Os olhos dele estavam acesos. Ele estava parecendo menos humano e mais fada agora, pensou ela, examinando a situação, se posicionando na cuidadosa dança da manipulação. — Presumo que queria que todos saibam que nos beijamos. Talvez feito mais.
Ela fez que sim com a cabeça. Definitivamente podia sentir as bochechas ruborizando.
— Juro para você, explicarei o máximo que puder — falou ela — se você concordar. E juro que isso pode salvar a vida de Julian. Detesto pedir que minta, mas...
— Mas por quem você ama, você faz qualquer coisa — disse ele, e ela não tinha resposta para isso. Ele definitivamente estava sorrindo agora, a boca curvada com divertimento. Ela não sabia dizer se era um divertimento humano ou fada, que adorava o caos. — Dá para entender por que me escolheu. Estou aqui, perto, e teria sido fácil iniciarmos uma relação. E não estamos comprometidos com mais ninguém. E você é, como eu disse, uma menina linda, e espero que não me ache horroroso.
— Não — falou Emma. Alívio e mil outras emoções correram por suas veias. — Não é horroroso.
— Então, suponha que eu só tenha mais uma pergunta — disse Mark. — Mas primeiro...
Ele se virou, e muito deliberadamente fechou a porta dela. Quando olhou novamente para ela, ele nunca se pareceu tanto com um integrante do Povo das Fadas. Seus olhos estavam cheios de um entretenimento selvagem, um descuido que insinuava um mundo onde não havia Lei humana.
Ele pareceu trazer a selvageria do Reino das Fadas para o quarto consigo: uma magia doce e fria que não deixava de ser amarga em suas raízes.
A tempestade lhe chama, assim como a mim, não é mesmo?
Ele estendeu a mão para ela, meio chamando, meio oferecendo.
— Por que mentir? — disse ele.

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