domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 26

Alyss sorria calmamente enquanto lia a mensagem codificada novamente. Ela já tinha lido na noite anterior, quando Will tinha enviado para ela, é claro. Mas ela a salvou para ler mais uma vez na luz da manhã, antes de cuidadosamente a colocar no fogo que ardia em sua grade.
Ela se inclinou diante da lareira agora, vendo a folha de papel ficar preta e se enrolar nas chamas. O papel pode ter ido, mas a mensagem de esperança que continha ficou claro em seu coração. Era típico de Will, ela pensou, que ele iria se dar ao trabalho de viajar quilômetros através das trilhas sombrias ao redor da Floresta Grimsdell no meio da noite para enviar uma mensagem para ela.
Não era uma mensagem urgente. Não houve importantes instruções a seguir. Foi simplesmente destinada a reforçar sua esperança e deixá-la saber que ela não tinha sido esquecida.
Havia uma estranha referência velada que a tinha confundido. Ela leu, temos um convidado da terra do Cobblenosskin. Ela franziu a testa ao longo de vários minutos. O nome era vagamente familiar, e ela procurou através de sua memória para ele. Então apareceu para ela.
Cobblenosskin tinha sido um personagem de um conto de fadas que ela e Will tinham ouvido quando eram crianças, protegidos de Redmont. Ele era um gnomo travesso que vivia nas montanhas selvagens de Picta, longe no norte. Não era uma referência que seria imediatamente evidente para qualquer um não familiarizado com o velho conto, Keren por exemplo. Will estava obviamente tomando precauções contra a possibilidade de que a mensagem pudesse cair acidentalmente em suas mãos. Mas ela entendeu que, de alguma forma, Will tinha capturado alguém de Picta, e o único candidato possível que ela podia pensar era o general scotti que tinha visitado Macindaw alguns dias antes.
Pelo menos, é o que ela esperava que significasse.
Ele é um sujeito falador a mensagem dizia. Se suas suspeitas estavam corretas, isso significava que Will e seus aliados tinham obtido os detalhes do plano de Keren.
E isso era de fato um motivo para sorrir.
Mas, mais ainda, foram os outros fatos obscuros contidos na mensagem. Na maior parte, era uma conversa casual, parte fofoqueira, na medida do que era possível dentro das limitações de uma breve mensagem codificada, destinada a manter sua esperança para cima e para lembrar-lhe que tinha amigos por perto. E agora ela sabia que havia mais do que um velho amigo lá fora na floresta. Desde que ela havia garantido a Will que a estelita foi eficaz na luta contra o mesmerismo Keren, ele sentiu que era seguro incluir outro fato.
Amor de Puxão, a última linha da mensagem lida, e de Kicker, seu grande amigo.
Kicker... teria a ver com seu significado em inglês, chutar?
Ela havia ouvido o nome antes. Obviamente, Will pensou que isso significaria algo para ela. Era um animal de algum tipo? Parecia o nome de um animal. Um cão? Não com esse nome. Cães não chutam. Cavalos chutam. E então, mais uma vez, o significado era claro. Kicker era o nome do cavalo de batalha que Horace montava. Horace estava aqui!
Ela pensou sobre isso agora, abraçando a notícia para si mesma como um manto quente. Will e Horace trabalhando em conjunto, Will com sua inteligência, intuição e mente rápida, e Horace, confiável, determinado, talvez um dos guerreiros mais capazes que Araluen tinha visto em anos.
Ela não tinha dúvida de que os dois conseguiriam derrotar Keren e qualquer número de scottis.
Ela quase sentiu pena do usurpador. Quase. Ela sorriu novamente, e em seguida ouviu a chave girar na fechadura.
Ela olhou rapidamente para a lareira, se certificando que a página estava completamente queimada. Ela enfiou na brasa um ferro de fogo para desintegrar a folha em pó enegrecido, em seguida, levantou-se apressadamente, espanando as mãos conforme a porta se abria.
Era Keren, é claro, e as mãos dela foram automaticamente atrás das costas, os dedos pesquisando e encontrando a pedrinha brilhante preta que ficava permanentemente aninhado no punho de sua manga. Mas não havia nenhum sinal da joia azul de Keren, e ela relaxou. Ele tinha ido para outra de suas conversas.
— Você está parecendo alegre esta manhã, minha senhorita — Keren disse.
Ela percebeu que ainda estava sorrindo, ainda sentindo o calor que a mensagem tinha trazido ela. Seria um erro tentar esconder o fato de agora e adotar um ar miserável; Keren seria imediatamente tomado por uma suspeita.
Ele quer saber o que ela tinha para estar otimista a respeito, em primeiro lugar. Em vez disso, ela ampliou o seu sorriso e apontou para a janela.
— É um belo dia, Sir Keren. Mesmo em cativeiro não posso deixar de ter as esperanças levantadas por essa visão.
E, de fato, ela estava certa. O céu estava um azul brilhante, filmado com uma luz penetrante e não com uma nuvem à vista. No ar gelado havia uma clareza que trouxe os objetos mais distantes em foco. A beleza selvagem da floresta e os campos cobertos de neve que cercavam o castelo pareciam perto o suficiente para tocar.
Keren sorriu para ela e moveu-se para a janela para estudar a visão por si mesmo. Ele colocou um pé em cima da parte de baixo da janela. Por um momento, ela tinha o receio terrível de que poderia apoiar o seu peso nas barras de que ela estava gradualmente enfraquecendo com o ácido que Will tinha deixado para trás. Mas na última hora, sua mão foi até a pedra em torno da janela.
— É bonito, de fato — disse ele, sua expressão se amolecendo por alguns segundos. — Acho que este é o momento mais encantador de todos neste país.
Havia aquele traço de tristeza em sua voz novamente, num tom que ela havia se acostumado em suas últimas reuniões. Ela sabia que ele estava dilacerado por sua traição. Não poderia ser mais fácil por um lado a amar o país tanto quanto parecia, e por outro, estar preparado para entregá-lo aos seus tradicionais inimigos.
Claro, ela sabia, não fazia diferença para a terra. Ela seria bonita e selvagem e acidentada, não importava quem a controlasse. Ainda assim, o impacto emocional deveria ser enorme, e Keren deveria saber que de alguma forma, as coisas nunca mais seriam as mesmas. Mas ele tinha feito sua escolha, e não havia nenhum ponto atraente para ele agora para desviar-se do caminho que estava seguindo. Ela assistiu impassível como ele se endireitou, colocando o pé para baixo do peitoril, e se virou para ela. Ele fez um esforço visível para empurrar a melancolia para longe, sorrindo para ela novamente.
— Você é uma garota incrível, Alyss — disse ele. — Pode permanecer positiva e alegre, mesmo quando tudo tem ido contra você.
Ela deu de ombros.
— Não há nenhum ponto em se preocupar com coisas que não podem ser alterados, Sir Keren.
Ele fez um gesto com a mão renunciando.
— Por favor, não vamos ser formais. Chame-me de Keren. Podemos estar em lados opostos, mas não há nenhuma razão para que nós não possamos ser amigos.
Nenhuma razão ela pensou, além do fato de que eu sou uma oficial do rei e você é um traidor de seu país. Mas ela não verbalizou o pensamento. Não havia sentido em alienar Keren batendo de lado suas propostas de amizade. Irritando o cavaleiro traidor ela não ganharia nada. Fazendo amizade com ele, por outro lado, poderia ganhar muito, principalmente em termos de informação. Ela sorriu para ele.
— Em um dia tão bonito, como eu poderia discordar? — Disse ela, e ampliou seu próprio sorriso em troca.
Ela pensou que ela viu uma sensação de alívio nele também, como se ele estivesse esperando que a sua oferta de amizade não fosse rejeitado fora de mão.
— Você sabe, eu estive pensando — ele disse finalmente. — Você já pensou o que poderia acontecer com você quando os scottis chegarem?
Alyss encolheu os ombros.
— Eu imagino que vou ficar aqui na torre — disse ela. — Suponho que você não estava pensando em me entregar a eles?
Por um momento, ela sentiu um calafrio de medo. Talvez era o que Keren estava planejando. Ela realmente não tinha pensado sobre o que poderia acontecer. Afinal, ela tinha assumido que Will e agora Horace com ele, teriam um efetivo resgate e a tirariam desse lugar.
Keren parecia ligeiramente ferido na sugestão, e seu medo foi rapidamente dissipado.
— Claro que não! — Disse ele com alguma veemência. — Não há nenhuma maneira que eu dê a mão de uma senhorita de sua qualidade para esses bárbaros.
— Seus aliados — ela lembrou-lhe secamente.
Ele deu de ombros o comentário de lado.
— Talvez. Mas só por necessidade. Não escolha.
— Você acha que eles falam de você em termos tão brilhantes? — Alyss lhe perguntou.
Ele se encontrou com o seu olhar francamente.
— Eu ficaria surpreso se eles não fizessem isso — disse ele. — Não há amor entre nós. Esta é somente uma medida prática. Não tenho a pretensão de que é mais do que isso. Eles precisam de mim, e estão dispostos a pagar-me bem para os meus serviços. Vou pegar uma parte de todo o espólio que tirarem de Araluen.
— Deve ser assustador — disse ela, com certa simpatia genuína — ver um futuro em que você não tem amigos, apenas companheiros criados por necessidade.
Mas sua simpatia caiu em ouvidos surdos. Keren a olhou friamente, e ela percebeu que não tinha gostado dela ter soletrado o futuro que ele enfrentaria.
— Eu não vou ficar aqui para sempre — disse ele. — Uma vez que eu tenha dinheiro suficiente, irei para Gálica ou Teutônia, onde posso comprar um feudo para eu mesmo. Como um barão, eu não precisarei de amigos.
Era uma prática comum, ela sabia que, para os reis da Teutônia e Gálica vender feudos pela melhor oferta. Em Araluen, naturalmente, o avanço era dependente do desempenho e da lealdade. Mas a tristeza subjacente nas palavras de Keren a levou, contra seu melhor juízo, para tentar um último apelo para ele.
— Oh, Keren — disse ela, e mais uma vez a sua preocupação por ele era verdadeira — você não pode ver o que sua vida vai se tornar? Você está falando de solidão e exílio, mesmo que seja autoimposto.
Ele ergueu-se um pouco mais reta.
— Eu sei o que estou fazendo — disse ele com firmeza.
— Você sabe? Você sabe realmente? Porque não é tarde demais. Os scottis ainda não estão aqui ainda. Você pode enviar pedido de ajuda e defender o castelo contra eles. Macindaw é uma grande pedra no caminho, e eles não se atreveriam a ir mais distante em Araluen com este castelo à sua volta.
— Você está esquecendo o pequeno problema de morte de Syron? — Perguntou ele.
Ela não podia dizer nada para isso, e ele continuou:
— Afinal de contas, não posso ter pretendido, mas sua morte foi um resultado direto de minha conspiração para trair o meu país. Eu duvido que o rei ficaria muito feliz sobre isso.
— Talvez ele possa ficar — ela começou, mas ele parou-a com uma mão levantada.
— E então há a pequena questão de meus homens. Eu prometi pagá-los, e o dinheiro para isso vem dos scottis. Se eu me negar a lidar com eles, como vou pagar meus homens? E se eu não fizer, como você acha que eles vão reagir a isso?
Alyss sabia que ele estava certo. Ela tinha entendido até antes que ele falasse. Suas próximas palavras a trouxeram de volta à realidade.
— Mas começamos a discutir o seu futuro, não meu — ele a lembrou. — Pode me levar dois ou três anos trabalhando com os scottis para levantar o dinheiro que preciso. Mas quando eu for o que você acha que será de você?
Ela não tinha resposta. Sabia que se Will e Horace não conseguissem tirá-la aqui, enfrentaria anos de prisão. Não haveria esperança de resgate. Diplomatas, por força de sua ocupação, eram obrigados a entrar em situações perigosas e incertas. Eles vivem pela sua inteligência e sobrevivem por causa do respeito dado a sua posição e do poder do reino que servem. E se Duncan pagasse o resgate para ter uma diplomata solta, seria um sinal para todos os rebeldes e criminosos menores que havia lucro a ser feito por aprisionar mensageiras e exigir dinheiro de Araluen.
Todos aqueles no serviço diplomático entraram na profissão sabendo que, se fossem capturados, eles não poderiam esperar nenhuma ajuda do reino. Vingança, sim. Se uma diplomata fosse prejudicada, o rei Duncan e os seus conselheiros poderiam trazer uma terrível vingança sobre os culpados. Eles haviam feito no passado em várias ocasiões. Dessa forma, outros seriam desencorajados de tentar o mesmo truque.
Claro que, se ela estivesse morta, ganharia pouco conforto no fato de que ela havia sido vingada. Ela percebeu que o silêncio seguinte à pergunta de Keren tinha esticado por muito tempo.
— Eu imagino que vou enfrentar, de alguma forma — disse ela.
Keren balançou a cabeça.
— Alyss, você pode me enganar com essa atitude. Mas duvido que esteja enganando a si mesma. Você é inteligente demais para isso. Como minha prisioneira, você aproveita de certos privilégios, mas os scottis não vêem qualquer razão para continuar com isso. Você vai se tornar uma escrava. Um burro de carga. Seu único valor lhes caberá no trabalho duro que você pode realizar. Eles vão te enviar para o norte da fronteira e vendê-la. Não é uma perspectiva agradável, acredite. As vilas dos scottis são bastante primitivas. As acomodações de seus escravos são quase insuportáveis.
Alyss se levantou, levantando-se a sua altura total.
— Quão amável de você apontar tudo isso para mim — disse ela friamente.
Keren balançou a cabeça, sorrindo para ela, tentando acalmá-la.
— Estou apenas apontando os fatos — disse ele. — Antes de sugerir uma alternativa. A única alternativa, eu acho.
— Alternativa — ela repetiu.
Ele teve sua atenção agora, porque pela vida dela, ela não poderia pensar no que ele estava falando.
— Que alternativa?
— Você poderia se tornar minha esposa — disse ele simplesmente.
— Sua esposa? — Repetiu, levantando o tom de sua voz evidentemente pelo choque que sentiu com a sugestão. — Por que eu iria ser sua esposa?
Ele deu de ombros. O sorriso havia desaparecido de seu rosto na sua resposta, mas agora ele voltou. Ela sentiu que era menos do que real, mais uma tentativa de persuadir.
— Não é uma sugestão completamente ultrajante — disse ele. — Como a minha esposa, os scottis teriam de conceder-lhe o grau adequado de respeito. Você teria liberdade no castelo. — Ele se levantou e acenou para a zona rural circundante fora da janela. — E as terras por aqui. Você estaria livre para ir e vir como quiser.
— Você confiaria em mim para não fugir? — Disse ela, ainda chocada com a grandiosidade da ideia, e a arrogância por trás dele.
Ele parecia não perceber o fato.
— Onde? Nós estaríamos cercados por scottis, lembre-se. Eles estão planejando uma invasão aqui, e não apenas um ataque simples. E, além disso, se você fosse se casar comigo, mostraria certa, digamos assim... simpatia... por minhas ações.
— Você quer dizer — disse friamente: — Eu me marcaria como uma traidora também?
Ele recuou um pouco na palavra.
— Não julgue muito severamente, Alyss. Lembre-se, não seria sempre aqui. Em Gálica, você seria uma baronesa comigo.
Ela sabia que não deveria contrariá-lo, sabia que deveria o deixar humorado. Mas a sua presunção foi tão grande que ela não podia controlar seus sentimentos.
— Há um pequeno entrave — disse ela. — Eu não te amo. Eu nem mesmo gosto de você.
Ele estendeu as mãos em um gesto de desprezo.
— Isso é tão importante? Quantos casamentos você tem visto entre as pessoas de nossa classe, que estava baseado no amor? Na maioria dos casos, a conveniência é o fator decisivo. E eu não sou um tão ruim, afinal, sou? — Ele acrescentou a última pergunta num tom leve, ainda tentando convencê-la da ideia.
— A nossa classe — ela falou friamente. — Deixe-me dizer-lhe a que classe pertenço. Eu sou uma órfã. Não tenho família. Tenho pessoas a quem devo obediência e gratidão e até mesmo o amor. Assim, como uma classe inferior, sendo menor do que você deixe-me dizer que eu acredito que o amor é importante em um casamento.
Seu rosto escureceu com raiva.
— É naquele arqueiro que você está pensando, não é? Eu sabia que havia alguma coisa entre vocês.
Alyss passou anos treinando na diplomacia. Mas ela também passou os anos de formação para fazer o seu ponto de forma rápida e sucinta. Ela esqueceu a diplomacia agora.
— Isso não é de sua conta — disse ela. — O fato é, provavelmente há cinquenta pessoas a quem eu iria encontrar amor mais fácil do que você. Cavaleiros. Arqueiros. Mensageiros. Escribas. Artesãos. Taberneiros. Garotos do Estábulo. Porque no final do dia, todos teriam uma enorme vantagem sobre você. Eles não seriam traidores.
Ela podia ver que suas palavras o cortavam como um chicote. Ele estava zangado, e agora estava furioso. Ele virou-se duramente e caminhou até a porta. Quando chegou lá, olhou para ela.
— Muito bem. Mas lembre-se, quando estiver com suas mãos e joelhos na chuva gelada em um vilarejo scotti, esfregando uma latrina ou alimentando os suínos, pense que você poderia ter sido uma baronesa!
Ele pensou que teria a última palavra. Mas conforme foi fechando a porta atrás de si, ela disse suavemente:
— O preço seria alto demais.
Ele virou-se e seus olhos se encontraram. Não havia mais cordialidade entre eles. Ela cruzou a linha em seu relacionamento, e eles nunca mais voltariam.
— Maldita seja você — disse ele calmamente, e fechou a porta atrás dele.

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