sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 26 - Os serafins aliados do Paraíso

A maldição dos parabatai. A Clave nunca vai falar... é proibido...
As palavras de Malcolm soaram nos ouvidos de Emma enquanto ela voltava para a noite, seguindo os outros pelos corredores molhados da convergência.
Julian e Emma caminharam deliberadamente afastados, mantendo distância entre si. A exaustão e a dor estavam desacelerando Emma. Cortana tinha voltado para sua bainha. Ela sentiu a espada vibrando de energia; ficou imaginando se teria absorvido a magia de Malcolm.
Mas ela não queria pensar em Malcolm, as raias vermelhas do seu sangue se desenrolando pela água escura, como bandeirolas.
Ela não queria pensar nas coisas que ele tinha dito Emma foi a última a sair da caverna, para a escuridão do mundo lá fora. Ty, Livvy e Dru esperavam sentados no chão com Tavvy – o pequeno estava no colo de Livvy, aparentando dormir, porém, acordado. Kieran mantinha-se distante, com uma carranca que só se desfez quando Mark saiu da convergência.
— Como está Tavvy? Está tudo bem? — Julian se aproximou dos irmãos.
Dru deu um salto e o abraçou firme. Em seguida, suspirou e apontou.
Um barulho alto de algo sendo triturado se espalhou pelo ar. A abertura na colina estava se fechando atrás deles, como um machucado cicatrizando. Diana correu, como se pudesse manter a passagem aberta, mas a pedra se fechou; ela puxou a mão de volta bem a tempo de impedir que fosse esmagada.
— Não pode impedir — disse Kieran. — A abertura e o corredor aí dentro foram feitos por Malcolm. Essa colina não tem túneis nem cavernas naturais. Agora que ele está morto, os encantos estão se quebrando. Talvez haja alguma outra entrada para este espaço, em alguma outra convergência de Linhas Ley. Mas esta porta não vai se abrir de novo.
— Como você soube que ele estava morto? — perguntou Emma.
— Pelas luzes se acendendo na cidade — disse Kieran. — O... não sei qual é a sua palavra mundana para isso...
— Blecaute — explicou Mark. — O blecaute acabou. E Malcolm foi quem lançou o feitiço responsável pelo blecaute, então... é.
— Isso significa que temos sinal nos nossos telefones? — Ty ficou imaginando.
— Vou checar — falou Julian, e se afastou para levar o telefone ao ouvido.
Emma teve a impressão de tê-lo ouvido falar o nome do tio Arthur, mas não tinha como ter certeza, e ele saiu do alcance antes que ela pudesse ouvir mais alguma coisa.
Diego e Cristina tinham se juntado a Livvy, Ty e Dru. Cristina estava inclinada sobre Tavvy, e Diego pegava alguma coisa no casaco do uniforme.
Emma foi para perto deles; ao se aproximar, viu que Diego estava com um frasco prateado.
— Não vai dar álcool para ele, vai? — Emma quis saber. — Ele é um pouco jovem para isso.
Diego revirou os olhos.
— É uma bebida para dar energia. Feita pelos Irmãos do Silêncio. Pode combater o que quer que Malcolm tenha dado para deixá-lo com sono.
Livvy pegou o frasco de Diego e provou o conteúdo; com um aceno afirmativo de cabeça, ela entornou o líquido na boca do irmãozinho. Tavvy tomou, agradecido, e Emma se ajoelhou e colocou a mão na bochecha dele.
— Oi, querido — falou. — Você está bem?
Ele sorriu para ela, piscando os olhos. Ele parecia Julian quando os dois eram crianças. Antes de o mundo mudá-lo. Meu melhor amigo e meu maior amor.
Ela pensou em Malcolm. A maldição dos parabatai. Com o coração doendo, ela beijou a bochecha macia de bebê de Tavvy e se levantou para se deparar com Cristina atrás dela.
— Seu braço esquerdo — observou Cristina gentilmente, e a levou dali. — Pode esticar?
Emma obedeceu e viu que a pele da mão e do pulso estava vermelha e cheia de bolhas, como se tivesse sido queimada.
Cristina balançou a cabeça, retirando a estela do casaco.
— Por alguns momentos, quando você estava por trás daquela parede que Malcolm criou, achei que não fosse sair.
Emma bateu com a cabeça no ombro de Cristina.
— Sinto muito.
— Eu sei. — Cristina se virou rapidamente, levantando a manga de Emma. — Você precisa de símbolos de cura.
Emma se apoiou em Cristina enquanto a estela percorria sua pele, tirando conforto do fato de que ela estava ali.
— Foi estranho, ficar presa ali com Malcolm — confessou a garota. — Basicamente ele só queria me contar sobre Annabel. E a questão é que... eu, de fato, me senti mal por ele.
— Não é estranho — disse Cristina. — É uma história terrível. Nem ele nem Annabel fizeram algo errado. Ver uma pessoa que você ama sofrendo uma punição tão terrível e sendo torturada... achar que essa pessoa o abandonou para depois descobrir que, na verdade, foi você quem a abandonou... — Cristina estremeceu.
— Eu não tinha pensado por esse lado — falou Emma. — Acha que ele se sentia culpado?
— Tenho certeza de que sim. Qualquer um se sentiria.
Emma pensou em Annabel com uma pontada de dor. Ela era inocente, uma vítima. Com sorte, não teve consciência de nada, não soube dos esforços de Malcolm para revivê-la.
— Eu disse a ele que ele era tão ruim quanto a Clave, e ele pareceu sinceramente surpreso.
— Ninguém é o vilão da própria história. — Cristina soltou Emma, parando para examinar seu trabalho de cura. A dor no braço de Emma já estava diminuindo. Ela sabia que um símbolo aplicado por Julian provavelmente teria agido mais depressa, mas depois do que aconteceu com o símbolo de Resistência, ela não ousou permitir que ele a marcasse na frente de todos.
Julian. Sobre o ombro de Cristina, ela poderia vê-lo, perto do carro. Ele estava com o telefone no ouvido. Enquanto o observava, ele tocou a tela e o guardou de volta no bolso.
— Então, os sinais estão funcionando outra vez? — perguntou Ty. — Para quem você estava ligando?
— Pizza — respondeu Julian.
Todos ficaram olhando para ele. Como os outros, ele estava imundo, com um longo arranhão na bochecha e os cabelos emaranhados. Ao luar, seus olhos tinham a cor de um rio subterrâneo.
— Achei que todos pudéssemos estar com fome — falou com uma calma enganadora, que Emma agora sabia significar que, o que quer que estivesse acontecendo na superfície, não era o mesmo que se passava em sua mente. — É melhor irmos — pediu ele. — O colapso da convergência significa que a Clave vai conseguir enxergar no mapa a magia negra que irradia deste lugar. Quando voltarmos, acho que não estaremos sozinhos.


Eles se apressaram a fim de preparar todo mundo para ir. Livvy com Octavius no colo no banco de trás do Toyota, Diana levando Cristina e Diego na picape que tinha escondido entre arbustos. Kieran ofereceu Lança do Vento novamente para Mark, mas Mark declinou.
— Quero ir com meus irmãos — respondeu ele simplesmente.
Julian voltou-se para Kieran. Os olhos da fada estavam opacos, sem brilho. Julian desejava conseguir enxergar o que o irmão amou: um Kieran caloroso ou gentil com Mark. Gostaria de poder agradecer a Kieran por não ter deixado Mark sozinho na Caçada.
Gostaria de ter menos ódio no coração.
— Não precisa voltar conosco — disse Julian para Kieran. — Não precisamos mais da sua ajuda.
— Não vou até saber que Mark está seguro.
Julian deu de ombros.
— Como quiser. Quando voltarmos, não entre no Instituto até dissermos que é seguro. Estaríamos encrencados só de lutar ao seu lado.
A boca de Kieran enrijeceu.
— Sem mim, teriam saído derrotados hoje.
— Provavelmente — falou Julian. — Vou me lembrar de sentir gratidão cada vez que vir as cicatrizes nas costas de Emma.
Kieran se encolheu. Julian virou e foi para o carro. Diana cortou na frente dele, levantando a mão. Ela estava com um xale pesado e o rosto mareado por sangue, como se fossem sardas claras.
— A Clave pode muito bem estar esperando por vocês — disse ela sem preâmbulo. — Se quiser, levo a culpa por tudo e me coloco à mercê deles.
Julian olhou para ela por um longo instante. Ele tinha vivido sob regras muito rígidas por muito tempo. Proteja Tavvy, proteja Livvy e Ty, proteja DruProteja Emma. Recentemente isso tinha se expandido um pouco – ele ia proteger Mark, porque Mark tinha voltado, e ele protegeria Cristina, porque Emma a amava.
Era um tipo de amor que poucas pessoas podiam entender. Era total, avassalador e podia ser cruel. Julian destruiria uma cidade inteira se achasse que representava alguma ameaça à sua família.
Quando você tinha 12 anos e era a única coisa entre sua família e a aniquilação, você não aprendia a ter moderação.
Ele considerou agora, com todo o distanciamento que conseguia ter, o que aconteceria se Diana tentasse levar a culpa; pensou na ideia, revirou-a na mente e a rejeitou.
— Não — disse ele. — E não estou sendo gentil. Não acho que funcionaria.
— Julian...
— Você esconde coisas — disse ele. — O Anjo sabe que tem alguma coisa que você ainda esconde, algum motivo pelo qual não podia assumir o Instituto. Algo que não vai contar. Você esconde bem, mas não é uma boa mentirosa. Não vão acreditar em você. Mas vão acreditar em mim.
— Então você já tem uma história para eles? — perguntou Diana, os olhos escuros se arregalando.
Julian não disse nada.
Ela suspirou, apertando o xale.
— Você é uma figura e tanto, Julian Blackthorn.
— Vou aceitar como um elogio — falou ele, apesar de duvidar que fosse essa a intenção de Diana.
— Sabia que eu estaria aqui hoje? — perguntou ela. — Achou que eu estivesse aliada a Malcolm?
— Não achei provável — respondeu Julian. — Mas, por outro lado, não confio plenamente em ninguém.
— Isso não é verdade — disse Diana, olhando para onde Mark estava ajudando Emma a sentar no lado esquerdo do carro. Os cabelos louros voavam como faíscas sob as estrelas. Diana olhou para Julian. — É melhor voltar. Vou ficar longe até amanhã.
— Vou falar que você não sabia de nada. As pessoas enganam seus tutores o tempo todo. E você nem mora com a gente. — Ele ouviu o carro dar a partida. Os outros estavam esperando por ele. — Então vai deixar Cristina e Diego no Instituto e depois vai para casa?
— Vou para algum lugar — falou ela.
Ele começou a caminhar para o carro, em seguida, parou e se virou para olhar para ela.
— Você, às vezes, se arrepende? De ter escolhido ser nossa tutora? Não precisava ser.
O vento soprou seus cabelos escuros sobre o rosto.
— Não — disse ela. — Sou quem sou porque faço parte da sua família. Nunca se esqueça, Jules. As escolhas que fazemos também nos fazem.


A volta para casa foi silenciosa e exausta. Ty estava quieto, olhando pela janela do passageiro. Dru mantinha-se encolhida feito uma bola. Emma apoiava-se em uma janela do banco de trás, segurando Cortana, os cabelos louros molhados caindo em seu rosto, os olhos fechados. Mark estava espremido ao lado dela.
Julian queria alcançar Emma, dar a mão para ela, mas não ousou, não na frente dos outros. Mas não conseguia deixar de esticar o braço para trás para tocar Tavvy, certificando-se de que seu garotinho continuava vivo, continuava bem.
Todos ainda estavam vivos, e isso era quase um milagre. Julian sentia-se como se todos os nervos do seu corpo tivessem sido arrancados da pele. Imaginou as terminações nervosas expostas, cada uma como um Sensor, reagindo à presença da família ao seu redor.
Ele pensou em Diana dizendo: Vai ter que cortar o cordão.
E ele sabia que era verdade. Um dia teria que abrir as mãos, permitir que seus irmãos e irmãs seguissem livres no mundo, um mundo que iria feri-los, machucá-los e derrubá-los, e que não os ajudaria a levantar depois. Algum dia ele teria que fazer isso.
Mas ainda não. Ainda não.
— Ty — disse Julian. Ele falou baixinho, para que os passageiros do banco de trás não ouvissem.
— Oi? — Ty olhou para ele. As sombras sob seus olhos estavam tão cinza quanto as íris.
— Você estava certo — falou Julian. — Eu estava errado.
— Estava? — Ty pareceu surpreso. — Em relação a quê?
— A vir conosco para a convergência — disse Julian. — Você lutou bem, incrivelmente bem, na verdade. Se não estivesse lá... — Sua garganta se fechou. Levou um momento até que pudesse falar outra vez. — Estou agradecido — falou. — E também peço desculpas. Deveria tê-lo ouvido. Você estava certo quanto ao que podia fazer.
— Obrigado — falou Ty. — Por se desculpar. — Ele ficou em silêncio, e Julian interpretou aquilo como o fim da conversa. Mas após alguns segundos Ty se inclinou e tocou levemente a cabeça no ombro do irmão; uma batida de cabeça amigável, como se fosse Church, procurando afeto. Julian esticou o braço para afagar o cabelo do irmão, e quase sorriu.
O sorriso incipiente desapareceu assim que pararam na frente do Instituto. Tinha sido iluminado como uma árvore de Natal. Estava escuro quando saíram, e, enquanto saltavam do carro, Julian reparou um brilho muito fraco no ar.
Trocou olhares com Emma. Luz no ar significava um Portal, e um Portal significava a Clave.
A picape de Diana encostou, e Diego e Cristina saíram. Fecharam as portas, e o carro seguiu caminho. Todos os Blackthorn tinham saltado também: alguns estavam piscando e praticamente dormindo (Dru, Mark), outros, suspeitamente quietos (Ty), e alguns, nervosos (Livvy, que estava segurando Tavvy com firmeza). Ao longe, Julian teve a impressão de ter visto a forma pálida da égua, Lança do Vento.
Foram juntos para a escada do Instituto. No topo, Julian hesitou com a mão na porta da frente.
Qualquer coisa podia estar esperando por ele do outro lado, desde os muitos integrantes do Conselho a alguns guerreiros da Clave. Julian sabia que não tinha mais como esconder Mark. Ele sabia quais eram seus planos. Sabia que se equilibravam, como um milhão de anjos, na cabeça de um alfinete. Acaso, circunstância e determinação os mantinham juntos.
Ele olhou ao redor e viu Emma olhando para ele. Apesar do rosto cansado e sujo não ter se aberto em um sorriso, ele viu nos olhos de Emma a segurança e a confiança que ela tinha nele.
Mas tinha se esquecido de uma coisa, pensou. Acaso, circunstância, determinação... e fé.
Ele abriu a porta.
A luz na entrada brilhava forte. Ambos os lustres de luz enfeitiçada estavam acesos, e a galeria superior, iluminada por fileiras de tochas que a família quase nunca usava. Luz brilhava sob as portas do Santuário.
No meio do recinto estava Magnus Bane, magnífico, com uma roupa elegante: um paletó e calças de brocado, os dedos adornados com dúzias de anéis. Ao seu lado, estava Clary Fairchild, os cabelos vermelho-escuros presos em um coque bagunçado, usando um delicado vestido verde. Ambos pareciam ter vindo de alguma festa.
Quando Julian e os outros entraram, Magnus ergueu uma sobrancelha.
— Ora, ora — falou o feiticeiro. — Vamos abater o gado gordo e tudo mais. Os filhos pródigos voltaram.
A mão de Clary voou para a boca.
— Emma, Julian... — Ela empalideceu. — Mark? Mark Blackthorn?
Mark não disse nada. Nenhum deles o fez. Julian percebeu que, inconscientemente, eles tinham se agrupado em torno de Mark, com um círculo frouxo protegendo-o. Até Diego, fazendo uma careta e respingado de sangue, estava participando.
Mark ficou em silêncio, os cabelos claros e desalinhados formando uma auréola em volta da cabeça, as orelhas pontudas e os olhos bicolores claramente visíveis sob a luz clara.
Magnus encarou bem Mark antes de olhar para o segundo andar.
— Jace! — chamou. — Desça aqui!
Clary foi em direção aos Blackthorn, mas Magnus a puxou gentilmente. Ela estava franzindo o rosto.
— Você está bem? — perguntou ela, direcionando a pergunta a Emma, mas claramente se referindo a todos. — Algum machucado?
Antes que qualquer um pudesse falar, houve uma comoção no topo da escada e uma figura alta apareceu.
Jace.
Na primeira vez que Julian realmente viu Jace Herondale, que era famoso entre os Caçadores de Sombras, Jace tinha mais ou menos 17 anos, e Julian tinha 12. Emma, que também tinha 12, não teve pudores em deixar claro para o mundo que achava Jace a pessoa mais linda e mais incrível que já agraciara o planeta com sua presença.
Julian não concordava, mas ninguém lhe perguntou.
Jace desceu as escadas de um jeito que fez Julian pensar se ele achava que tinha um magnífico trilho de trem atrás de si – lenta, deliberadamente e como se estivesse ciente de que era o foco de todos os olhares.
Ou talvez só estivesse acostumado a ser olhado. Emma parou de falar em Jace obsessivamente, em algum momento, mas o mundo dos Caçadores de Sombras o considerava fora do comum em termos de aparência. Seus cabelos eram absurdamente dourados, assim como os olhos. Assim como Magnus e Clary, ele parecia estar vindo de uma festa: usava um blazer cor de vinho e tinha um ar de elegância casual. Ao chegar ao degrau de baixo, ele olhou para Julian – coberto de sangue e sujeira – e depois para os outros, tão sujos e esfarrapados quanto ele.
— Bem, ou estavam combatendo as forças do mal ou estavam em uma festa muito mais selvagem do que a nossa. Olá, família Blackthorn.
Livvy suspirou. Ela estava olhando para Jace como Emma o fazia aos 12 anos. Dru, fiel à sua paixonite por Diego, apenas o encarou.
— Por que estão aqui? — perguntou Julian, apesar de já saber a resposta.
Mesmo assim, era melhor transmitir a ideia de estar surpreso. As pessoas confiavam mais em suas respostas quando não achavam que eram ensaiadas.
— Magia negra — disse Magnus. — Um brilho enorme no mapa. No ponto da convergência. — Ele desviou o olhar para Emma. — Achei que tivesse alguma relação com aquela informação que passei. No que se refere a linhas Ley, a convergência sempre é a chave.
— Por que não foi lá, então? — perguntou Emma. — Para a convergência?
— Magnus checou com um feitiço — respondeu Clary. — Não havia nada além de destroços, então pegamos um Portal para cá.
— Da festa de noivado da minha irmã, para ser exato — disse Jace. — Era open bar.
— Ah! — Um olhar de felicidade passou pelo rosto de Emma. — Isabelle vai se casar com Simon?
Até onde Julian sabia, nenhuma garota que já tivesse nascido se comparava a Emma, mas, quando Clary sorria, ela era muito bonita. O rosto todo se iluminava. Era algo que ela e Emma tinham em comum, na verdade.
— Sim — disse Clary. — Ele está muito feliz.
— Mazeltov para eles — disse Jace, se apoiando no corrimão da escada. — Enfim, estávamos na festa, e Magnus recebeu um alerta de magia necromante perto do Instituto de Los Angeles; tentamos falar com Malcolm, mas sem sorte. Então saímos discretamente, só nós quatro. O que é uma perda e tanto para a festa, se querem minha opinião, porque eu ia fazer um brinde e seria glorioso, Simon nunca mais ia poder mostrar a cara em público.
— Não é bem esse o objetivo de um discurso de noivado, Jace — censurou Clary. Ela estava olhando preocupada para Diego. Ele estava terrivelmente pálido.
— Quatro? — Emma olhou em volta. — Alec está aqui?
Magnus abriu a boca para responder, mas naquele instante as portas do Santuário se abriram, e um homem alto e robusto com cabelos escuros emergiu; Robert Lightwood, o atual Inquisidor, o segundo homem do comando de Idris e encarregado de investigar Caçadores de Sombras que transgrediam a Lei.
Julian tinha visto o Inquisidor exatamente uma vez na vida, quando foi forçado a se colocar diante do Conselho e fazer o seu relato sobre o ataque de Sebastian ao Instituto. Ele se lembrava de ter segurado a Espada Mortal na mão. A sensação de ter a verdade arrancada de você com facas e ganchos de seus órgãos internos se rasgando.
Ele não mentiu em nenhum momento quando foi interrogado sobre o ataque, jamais quis nem planejou. Mas doeu assim mesmo. E segurar a Espada Mortal, ainda que por pouco tempo, formou em sua mente uma conexão inegável entre verdade e dor.
O Inquisidor marchou na direção dele. Era um pouco mais velho do que o Robert Lightwood de quem Julian se lembrava, os cabelos mais marcados com cinza. Mas o olhar em seus olhos azul-escuros era o mesmo: duro e frio.
— O que está acontecendo aqui? — Ele quis saber. — Rastreamos magia necromante até este Instituto há horas, e seu tio alega não saber de nada. O que é ainda mais perturbador, ele se recusou a nos contar para onde vocês tinham ido. — E se virou, os olhos avaliando o grupo e parando em Mark. — Mark Blackthorn? — perguntou, incrédulo.
— Eu já disse isso — falou Clary.
Julian teve a sensação de que ela não morria de amores pelo futuro sogro; se era isso que ele era. Ele percebeu que não sabia se Jace e Clary tinham planos de se casar.
— Sim — falou Mark. Ele estava ereto, como se encarasse o esquadrão de fuzilamento. Encontrou o olhar de Robert Lightwood, e Julian viu o Inquisidor ficar tenso ao ver os olhos da Caçada Selvagem no rosto de um Caçador de Sombras.
Eram uma acusação contra a Clave, aqueles olhos. Eles diziam vocês me abandonaramNão me protegeramEu estava sozinho.
— Eu voltei — disse Mark.
— A Caçada Selvagem jamais o teria libertado — retrucou o Inquisidor. — Você era valioso demais para eles. E fadas não devolvem o que tomam.
— Robert... — começou Magnus.
— Diga que estou errado — interrompeu Robert Lightwood. — Magnus? Alguém?
Magnus ficou em silêncio, seu descontentamento evidente. Os olhos dourados de Jace eram ilegíveis.
Dru emitiu um ruído assustado e abafado. Clary virou-se para Robert.
— Não é justo interrogá-los — disse ela. — São apenas crianças.
— Acha que não me lembro do tipo de encrenca em que você e Jace se metiam quando eram “apenas crianças”?
— Ele tem um bom argumento. — Jace sorriu para Julian e Emma, e o sorriso era como ouro derretendo sobre aço. Dava para ver o quanto a suavidade era um disfarce e como o que havia embaixo tinha dado a Jace o título de melhor Caçador de Sombras de sua geração.
— Não usamos necromancia — disse Julian. — Não precisamos. A questão das fadas... estão sempre dispostas a fazer acordos.
Duas figuras apareceram na entrada do Santuário. Anselm Nightshade, o rosto afiado e ossudo, cauteloso. E, ao lado dele, Arthur, parecendo cansado e trazendo uma taça de vinho. Julian tinha deixado a garrafa no Santuário mais cedo naquela noite. Era uma boa safra.
O espaço protegido do Santuário se estendia até um pouquinho depois das portas. Anselm esticou um dedo do pé sobre a linha, fez uma careta, e rapidamente o puxou de volta.
— Arthur. Você alegou estar discutindo Sófocles com Anselm Nightshade a noite inteira? — indagou Robert Lightwood.
— “Se tentar curar o mal com o mal, trará mais dor ao seu destino” — mencionou Arthur.
Robert ergueu uma sobrancelha.
— Ele está citando Antígona — respondeu Julian, lentamente. — Está querendo dizer que sim.
— Entre na sala, Arthur — pediu Robert. — Por favor, não me deixe com a impressão de que está se escondendo no Santuário.
— Quando você usa essa voz, eu quero me esconder no Santuário — disse Magnus.
Ele tinha começado a vagar pela sala, pegando objetos e os pousando outra vez. Suas ações pareciam aleatórias, mas Julian sabia que não. Magnus fazia pouca coisa sem premeditação.
Assim como Jace. Ele estava sentado no degrau mais baixo da escada, o olhar aguçado fixo. Julian sentiu o peso, como uma pressão contra o peito. Ele limpou a garganta.
— Meus irmãos mais novos não têm nada com isso — falou. — E Tavvy está exausto. Ele quase foi morto hoje.
— Quê?! — exclamou Clary, o alarme escurecendo seus olhos verdes. — Como isso aconteceu?
— Eu explico — disse Julian. — Deixe os outros irem.
Robert hesitou por um instante antes de concordar com um aceno curto de cabeça.
— Eles podem ir.
Julian foi tomado por alívio quando Ty, Livvy e Dru subiram as escadas; Livvy ainda segurava Octavius no colo. No topo, Ty parou por um instante e olhou para baixo. Ele estava olhando para Mark, e a expressão em seu rosto era de medo.
— É a doença da tirania não confiar em nenhum amigo, Inquisidor — disse Anselm Nightshade — Ésquilo.
— Eu não vim até aqui, largando a festa de noivado da minha filha, para receber uma aula sobre os clássicos — retrucou Robert. — E isso não é assunto do Submundo. Por favor, nos espere no Santuário, Anselm.
Arthur entregou sua taça a Anselm, que a ergueu ironicamente, mas obedeceu, parecendo aliviado por se afastar da linha demarcatória onde o território sacro começava.
Assim que ele se retirou, Robert foi para cima de Arthur.
— O que sabe sobre isso tudo, Blackthorn?
— Um comitê do Reino das Fadas veio até nós — revelou Arthur. — Ofereceram Mark de volta para a família, e, em troca, nós os ajudaríamos a descobrir quem estava matando fadas em Los Angeles.
— E você não relatou nada disso à Clave? — indagou Robert — Apesar de saber que estava violando a Lei, a Paz Fria...
— Eu queria meu sobrinho de volta — disse Arthur. — Você não teria feito o mesmo pela sua família?
— Você é um Caçador de Sombras — falou Robert — Se precisar escolher entre a sua família e a Lei, escolha a Lei!
— Lex malla, lex nulla — citou Arthur. — Você conhece o lema da nossa.
— Ele fez a coisa certa. — Pela primeira vez não havia humor na voz de Jace. — Eu teria feito o mesmo. Qualquer um de nós teria.
Robert pareceu exasperada.
— E descobriram? Quem estava matando as fedas?
— Descobrimos hoje — disse Julian. — Era Malcolm Fade.
Magnus enrijeceu, os olhos felinos brilhando.
— Malcolm? — Uma expressão confusa tomou seu rosto, e ele seguiu na direção de Julian. — E por que acha que foi um feiticeiro? Porque sabemos usar magia? Toda magia negra é culpa nossa?
— Porque ele confessou que foi ele — respondeu Julian.
Clary ficou boquiaberta. Jace permaneceu sentado, com o rosto inexpressivo como o de um gato.
O semblante de Robert escureceu.
— Arthur, você é o diretor do Instituto. Fale. Ou vai deixar isso nas mãos do seu sobrinho?
— Há coisas — disse Julian —, coisas que não contamos a Arthur. Coisas que ele não sabe.
Arthur colocou a mão na cabeça, como se estivesse com dor.
— Se fui enganado — falou o homem —, então deixe Julian explicar.
O olhar severo de Robert passou pelo grupo e se fixou em Diego.
— Centurião — chamou. — Um passo à frente.
Julian ficou tenso. Diego. Ele não o tinha considerado, mas Diego era um Centurião e, como tal, tinha um juramento de contar a verdade para a Clave.
Claro que Robert ia querer falar com Diego em vez dele.
Ele sabia que não havia motivo real para Robert querer falar com ele. Ele não dirigia o Instituto. Arthur o fazia. Não importa que há anos respondesse as cartas de Robert e reconhecesse o jeito de Robert fazer as coisas melhor do que qualquer um dos presentes; não fazia diferença o fato de que através de correspondências oficiais, pelo menos, eles se conheciam muito bem. Ele era só um adolescente.
— Sim, Inquisidor? — disse Diego.
— Fale-nos de Malcolm Fade.
— Malcolm não é quem você pensa — começou Diego. — Ele foi responsável por muitas mortes. Foi o responsável pelas mortes dos pais de Emma.
Robert balançou a cabeleira escura.
— Como isso é possível? Os Carstairs foram mortos por Sebastian Morgenstern.
Ao ouvir o nome de Sebastian, Clary ficou pálida. Ela imediatamente olhou para Jace, que olhou para ela – um olhar costurado com anos de história compartilhada.
— Não — disse Clary. — Não foram. Sebastian era um assassino, mas Emma nunca acreditou que ele fosse o responsável pela morte de seus pais, e nem eu ou Jace. — Ela se virou para olhar para Emma. — Você estava certa — falou. — Sempre achei que um dia isso ficaria provado. Mas sinto muito que tenha sido Malcolm. Ele era seu amigo.
— E meu — disse Magnus, com tensão na voz.
Clary foi para perto dele, colocando a mão em seu braço.
— Ele também era o Alto Feiticeiro — falou Robert. — Como isso aconteceu? O que quer dizer com isso, que ele andou matando pessoas?
— Uma série de assassinatos em Los Angeles — acrescentou Diego. — Ele estava convencendo mundanos a cometerem assassinatos e depois recolhia partes de seus corpos para poder usá-las com necromancia.
— A Clave devia ter sido chamada. — Robert pareceu furioso. — A Clave devia ter sido chamada no instante em que um comitê de fadas os procurou...
— Inquisidor — disse Diego. Ele parecia cansado. Todo o ombro direito do uniforme estava manchado de sangue. — Sou um Centurião. Respondo direto ao Conselho. Eu também não relatei o que estava acontecendo, porque depois que as coisas começaram, reportar teria atrasado tudo. — Ele não olhou para Cristina. — A Clave teria iniciado a investigação outra vez. Não havia tempo para isso, e a vida de uma criança estava em jogo. — Ele colocou a mão no peito. — Se quiser tirar meu medalhão, eu entenderei. Mas manterei até o fim que o que os Blackthorn fizeram foi o certo.
— Não vou retirar seu medalhão, Diego Rocio Rosales — disse Robert. — Temos poucos Centuriões, e você é um dos melhores. — Ele olhou criticamente para Diego, para o braço sangrento e o rosto exaurido. — O Conselho vai esperar um relatório amanhã, mas por agora, vá cuidar de seus ferimentos.
— Vou com ele — disse Cristina.
Ela ajudou Diego a subir, com ele se apoiando no corpo magro dela. Mark olhou para os dois, depois desviou o olhar quando eles desapareceram para além da luz enfeitiçada, para as sombras.
— Robert, quando Julian tinha 12 anos, ele testemunhou diante do Conselho. Já se passaram cinco anos. Deixe que ele fale agora — pediu Jace, quando eles se foram.
Apesar da expressão de evidente relutância no rosto, Robert fez que sim com a cabeça.
— Muito bem — concordou. — Todo mundo quer ouvi-lo, Julian Blackthorn. Então fale.


Julian falou. Calmamente e sem floreios, ele começou a descrever a investigação, dos primeiros corpos encontrados até a conclusão, naquela noite, de que Malcolm era culpado.
Emma observou seu parabatai falar, e ficou imaginando como as coisas teriam sido diferentes se Sebastian Morgenstern não tivesse atacado o Instituto de Los Angeles há cinco anos.
Na mente de Emma, há anos, existiam dois Julian. Julian antes do ataque, que era como todo mundo – amava a família, mas também se irritava com ela; um irmão entre irmãos e irmãs com quem ele brigava, discutia, implicava e ria.
E Julian depois. Julian, ainda uma criança, aprendendo sozinho a alimentar e trocar fraldas de um bebê, preparando quatro refeições diferentes para quatro irmãos mais novos que gostavam e desgostavam de coisas diferentes; Julian, escondendo a doença do tio de um bando de adultos que teriam tirado dele as suas crianças; Julian, acordando aos berros com pesadelos de que algo tinha acontecido a Ty, Livvy ou Dru.
Emma sempre esteve presente para abraçá-lo, mas nunca entendeu de fato – como poderia, quando não sabia sobre Arthur, não sabia o quão sozinho Julian realmente estava? Ela apenas sabia que os pesadelos tinham diminuído e que uma força silenciosa havia assentado em Jules, uma grande determinação diante da qual a suavidade da infância se dissipou.
Ele não era um menino fazia muito tempo. Era aquele menino que Emma achava que poderia ser seu parabatai. Ela jamais teria se apaixonado por tal Julian. Mas tinha se apaixonado por aquele, sem saber, porque como poderia se apaixonar por alguém que ela apenas imaginava que existia?
Ficou pensando se Mark reconhecia a mesma dissonância, de alguma forma, se enxergava a estranheza na postura e no jeito como Julian falava com o Inquisidor naquele momento, como se fossem dois adultos. Se ele via o cuidado com o qual Julian contava o que tinha acontecido: os detalhes-chave que deixava de fora, a forma como fazia parecer natural, inevitável, que não tivessem contado para a Clave o que estavam fazendo. A maneira como deixou Kit e Johnny Rook de fora da história. Teceu um conto com uma série de eventos que não foram culpa de ninguém, que ninguém poderia ter antevisto ou prevenido; e o fez sem que nenhum traço de hesitação cruzasse seu rosto.
Quando terminou, Emma estremeceu por dentro. Ela amava Julian, sempre o amaria. Mas, naquele instante, sentiu um pouco de medo dele também.
— Malcolm estava criando assassinos? — Robert ecoou quando Julian parou de falar.
— Faz sentido — disse Magnus. Ele se levantou com a mão no queixo e um dedo longo batendo na maçã do rosto. — Uma das razões pelas quais a necromancia é proibida tem relação com os ingredientes necessários; coisas como a mão de um assassino que matou a sangue-frio ou o olho de um enforcado que ainda guarda a imagem da última coisa que ele viu. Obter esses ingredientes orquestrando as situações de criação foi engenhoso. — Ele pareceu notar Robert o encarando. — E também muito cruel — acrescentou. — Muito.
— Seu sobrinho faz um relato convincente, Arthur — disse Robert. — Mas você está notavelmente ausente da história. Como não notou que tudo isso estava acontecendo?
Julian tinha montado a história de um jeito que a ausência de Arthur parecesse natural. Mas Robert era como um cão farejador. Emma supunha que fosse esta a razão pela qual fora eleito para a posição de Inquisidor: Emma olhou para o outro lado da sala e encontrou o olhar verde de Clary. Ela pensou em Clary, ajoelhando diante dela em Idris, segurando suas mãos, elogiando Cortana. Ela pensou em como as gentilezas demonstradas para as crianças eram coisas que elas jamais esqueciam.
— Robert — disse Clary. — Não há razão para isso. Eles tomaram decisões difíceis, mas não foram decisões erradas.
— Então deixe-me perguntar isso a Arthur, Clary — falou Robert. — Que castigo ele escolheria para Nephilim, mesmo jovens, que transgrediram a Lei?
— Bem, isso depende — retrucou Arthur — se eles já foram punidos há cinco anos, com a perda do pai, do irmão e da irmã.
Robert ruborizou.
— Foi a Guerra Maligna que levou a família deles...
— Foi a Clave que levou Mark e Helen — argumentou Magnus. — Esperamos traições de nossos inimigos. Não daqueles que supostamente devem cuidar de nós.
— Nós teríamos protegido Mark — disse Robert Lightwood. — Não havia razão para temer a Clave.
Arthur estava pálido, os olhos dilatados. Mesmo assim, Emma nunca o tinha ouvido falar tão eloquentemente ou com tanta clareza. Era bizarro.
— Teriam? — Quis saber. — Nesse caso, por que Helen ainda está na Ilha Wrangel? — continuou Arthur.
— Ela está mais segura lá — disparou Robert. — Existem aqueles... não eu... que ainda odeiam as fadas pela traição da Guerra Maligna. Como acha que ela seria tratada se estivesse entre outros Caçadores de Sombras?
— Então não poderiam ter protegido Mark — disse Arthur. — Você admite.
Antes que Robert pudesse falar, Julian disse:
— Tio Arthur, pode contar a verdade a eles.
Arthur pareceu confuso; por mais clara que sua mente parecesse no momento, ele não parecia saber do que Julian falava. Estava com a respiração acelerada, como aconteceu no Santuário quando teve dor de cabeça.
Julian voltou-se para Robert.
— Arthur queria ir até o Conselho assim que o Povo das Fadas trouxe Mark para cá — disse ele. — Imploramos que não fosse. Tememos que nosso irmão fosse ser levado. Achamos que se pudéssemos resolver os assassinatos, se Mark nos ajudasse, talvez fosse mais bem-visto pelo Conselho. Poderia ajudar a convencê-los a deixá-lo ficar.
— Mas você entende o que vocês fizeram? — O Inquisidor quis saber. — Malcolm... se estava em busca de poder maligno... ele poderia ter representado uma ameaça para toda a Clave. — Mas Robert não soou convencido disso.
— Ele não estava em busca de poder — respondeu Julian. — Ele queria trazer de volta dos mortos uma pessoa que amou. Foi horrível o que ele fez. E ele morreu por isso, como deveria ser. Mas era seu único objetivo e único plano. Ele nunca se importou com a Clave ou com os Caçadores de Sombras. Ele só se importava com ela.
— Pobre Malcolm — disse Magnus baixinho. — Perder a pessoa amada, desse jeito. Sabíamos que ele tinha amado uma garota que virara Irmã de Ferro. Mas não tínhamos ideia da verdade.
— Robert — interveio Jace — esses meninos não fizeram nada de errado.
— Talvez não, mas eu sou o Inquisidor. Não posso esconder isso. Com Malcolm Fade morto, tendo levado o Volume Negro para o fundo do oceano consigo, e com tudo isso tendo acontecido sem que o diretor do Instituto percebesse...
Julian deu um passo à frente.
— Tem algo que o tio Arthur não está lhe contando — falou ele. — Ele não estava simplesmente nos deixando soltos enquanto não fazia nada. Ele estava rastreando outra fonte de magia negra.
Julian olhou para Magnus ao falar. Magnus, que os havia ajudado no passado. Ele parecia querer que Magnus entendesse e acreditasse nele.
— Não é coincidência que Anselm Nightshade estivesse no Santuário — prosseguiu Julian com a voz firme. — Arthur o trouxe porque sabia que vocês viriam.
Robert ergueu uma sobrancelha.
— É verdade? Arthur?
— É melhor contar para eles — disse Julian, olhando fixamente para o tio. — Eles vão acabar descobrindo de qualquer jeito.
— Eu... — Arthur estava encarando Julian. A expressão tão vazia que o estômago de Emma embrulhou. Julian parecia querer que Arthur seguisse sua linha. — Eu não queria mencionar — disse Arthur —, porque parece bobagem perto do que descobrimos sobre Malcolm.
— Mencionar o quê?
— Nightshade anda usando magia negra com fins lucrativos — disse Julian. Ele manteve a expressão calma, um pouco tristonha. — Ele tem ganhado muito dinheiro com pós viciantes que põe na pizza que vende.
— Isso... é verdade! — falou Emma, passando por cima do silêncio atordoado de Arthur. — Há pessoas tão viciadas por toda a cidade que fazem qualquer coisa por ele, só para conseguir mais.
— Vício em pizza? — disse Jace. — Isso é, sem dúvida, a coisa mais estranha... — Ele se interrompeu quando Clary pisou no pé dele. — Parece sério — emendou. — Pós demoníacos viciantes e tudo mais.
Julian atravessou o recinto para o armário e abriu a porta. Várias caixas de pizza caíram.
— Magnus? — chamou Julian.
Magnus jogou a ponta do cachecol sobre o ombro e se aproximou de Julian e das caixas. Ele levantou a tampa de uma caixa com tanto cuidado quanto se estivesse abrindo um baú do tesouro trancado.
Estendeu a mão para a caixa, virando da esquerda para a direita. Depois levantou o olhar.
— Arthur está certo — falou. — Magia negra.
Um grito ecoou de dentro do Santuário.
— Traição! — gritou Anselm. — Et tu, Brute?
— Ele não pode sair — disse Arthur, parecendo entorpecido. — As portas de fora estão trancadas.
Robert saiu correndo para o Santuário. Após um instante, Jace e Clary foram atrás, deixando apenas Magnus, com as mãos nos bolsos, na antessala.
Magnus olhou para Julian, os olhos dourados-esverdeados muito sérios.
— Muito bem — disse ele. — Não sei exatamente de que outro jeito descrever, mas... muito bem.
Julian olhou para Arthur, que estava apoiado na parede perto da porta do Santuário, com os olhos semifechados e dor no rosto.
— Vou queimar no inferno por isso — murmurou ele baixinho.
— Não é vergonha nenhuma queimar pela família — disse Mark. — Queimarei ao seu lado, com todo prazer.
Julian olhou para ele, com surpresa e gratidão no rosto.
— E eu também — falou Emma. Ela olhou para Magnus. — Sinto muito — emendou. — Fui eu que matei Malcolm. Sei que ele era seu amigo e eu gostaria de...
— Ele era meu amigo — disse Magnus, e seus olhos escureceram. — Eu sabia que ele tinha amado alguém que morreu. Não sabia do restante da história. A Clave o traiu, exatamente como ele os traiu. Eu já vivi muito... vi muitas traições e muitos corações partidos. Existem pessoas que se permitem ser devoradas pelo luto. Que se esquecem de que outros também sentem dor. Se Alec morresse... — Ele olhou para as próprias mãos. — Preciso pensar que eu não seria assim.
— Só estou feliz por finalmente saber o que aconteceu com meus pais — falou Emma. — Finalmente, eu sei.
Antes que qualquer outra pessoa pudesse acrescentar mais alguma coisa, houve uma explosão na entrada do Santuário. No mesmo instante Jace apareceu, derrapando, com o blazer chique rasgado e os cabelos louros desalinhados. Ele sorriu para os outros, um sorriso tão alegre que pareceu iluminar o recinto.
— Clary está com Nightshade preso em um canto — falou. — Ele é bem ágil para um vampiro tão velho. Obrigado pelo exercício, aliás. E pensar que eu achei que a noite fosse ser monótona!


Depois que tudo foi resolvido com o Inquisidor, que tinha levado Anselm Nightshade (ainda jurando vingança), e a maioria dos moradores do Instituto foi para a cama, Mark seguiu até a porta da frente e olhou para fora.
Já amanhecia. Mark podia ver o sol nascendo, ao longe, na beira leste da curva da praia. Havia uma luminosidade perolada na água, como se tinta branca estivesse entornando no mundo por uma rachadura no céu.
— Mark — disse uma voz atrás dele.
Ele virou. Era Jace Herondale.
Era estranho olhar para Jace e Clary, estranho de um jeito que ele duvidava que fosse para seus irmãos. Afinal, na última vez em que os vira, eles tinham a idade de Julian. Foram os últimos Caçadores de Sombras que viu antes de ser levado pela Caçada.
Estavam longe de serem irreconhecíveis – provavelmente tinham apenas 21 ou 22 anos. Mas, de perto, Mark via que Jace tinha adquirido uma aura incontestável de decisão e maturidade. Fazia muito tempo que havia deixado de ser o menino que tinha olhado nos olhos de Mark e dito com a voz trêmula: A Caçada SelvagemVocê é um deles agora.
— Mark Blackthorn — disse Jace. — Eu seria educado e diria que você mudou, mas não é o caso.
— Eu mudei — afirmou Mark. — Mas não de um jeito que você consiga enxergar.
Jace pareceu receber o comentário com humor; fez um sinal afirmativo com a cabeça e olhou para o oceano.
— Um cientista uma vez disse que, se o mar fosse tão claro quanto o céu, que se pudéssemos ver tudo que tem nele, ninguém entraria na água. É aterrorizante, o que vive na água, 8 quilômetros abaixo.
— Assim diz alguém que não conhece os terrores do céu — falou Mark.
— Talvez não — respondeu Jace. — Você ainda tem a luz enfeitiçada que lhe dei?
Mark fez que sim com a cabeça.
— Guardei comigo no Reino das Fadas.
— Eu só dei pedras de luz enfeitiçada para duas pessoas na minha vida — falou Jace. — Clary e você — Ele inclinou a cabeça para o lado. — Tinha alguma coisa em você quando o encontramos no túnel. Estava apavorado, mas não ia desistir. Nunca tive a menor dúvida de que voltaria a vê-lo.
— Sério? — perguntou Mark, desconfiado.
— Sério. — Jace sorriu daquele seu jeito simples e charmoso. — Apenas lembre-se de que o Instituto de Nova York está com você — falou. — Não deixe Julian se esquecer disso se algum dia tiverem problemas outra vez. Não é fácil dirigir um Instituto. Disso eu sei.
Mark começou a protestar, mas Jace já tinha se virado e voltado para perto de Clary. Por alguma razão, Mark duvidou que Jace fosse ter dado atenção seu protesto, caso ele o tivesse concluído. Ele claramente enxergava a situação tal qual ela era, mas não planejava fazer nada que afetasse o equilíbrio.
Mark examinou o horizonte outra vez. O alvorecer estava se espalhando. A rua e a estrada, as árvores do deserto, todos aliviados pela luz que aumentava.
E ali, perto da beira da estrada, encontrava-se Kieran, olhando para o mar.
Mark só o enxergava como uma sombra, mas, mesmo como sombra, Kieran não poderia ser mais ninguém.
Ele desceu os degraus e foi para onde Kieran estava. Ele não tinha trocado de roupa, e a lâmina de sua espada, pendurada na lateral dele, estava manchada de sangue seco.
— Kieran — disse Mark.
— Você vai ficar? — perguntou Kieran, e se pegou com um olhar pesaroso. — Claro que vai ficar.
— Se está me perguntando se vou ficar com minha família ou voltar para a Caçada Selvagem, então sim, você tem a sua resposta — disse Mark. — A investigação acabou. O assassino e seus Seguidores se foram.
— Esses não eram os termos da barganha — falou Kieran. — Os Caçadores de Sombras tinham que entregar o assassino para as Fadas, para aplicarmos a nossa justiça.
— Considerando a morte de Malcolm e a magnitude da traição de Iarlath, espero que o seu povo considere com leniência a minha escolha — anunciou Mark.
— Meu povo — ecoou Kieran. — Você sabe que não são lenientes. Não foram comigo. — Mark pensou na primeira vez que viu os olhos negros de Kieran encarando desafiadoramente através do emaranhado de cabelos escuros. Pensou no júbilo dos outros Caçadores em terem um príncipe para atormentar e gozar. Em como Kieran enfrentou o fato de que seu pai o jogou para a Caçada como alguém pode jogar um osso para um cachorro. Kieran não tinha um irmão que o amasse e lutasse para tê-lo de volta. Ele não tinha Julian. — Mas vou lutar por você — falou ele, encontrando o olhar de Mark. — Vou dizer a eles que é seu direito ficar — hesitou. — Nós... vamos voltar a nos ver?
— Acho que não, Kieran — disse Mark, o mais gentilmente possível. — Não depois de tudo que aconteceu.
Uma breve onda de dor, rapidamente escondida, passou pelo rosto de Kieran. A cor de seu cabelo desbotou para um azul-prateado, não muito diferente do mar pela manhã.
— Eu não esperava outra resposta — falou ele. — Mas tive esperança. É difícil matar a esperança. Mas suponho que o tenha perdido há muito tempo.
— Não tanto — disse Mark. — Você me perdeu quando veio aqui com Gwyn e Iarlath e deixou que chicoteassem meu irmão. Eu poderia perdoar qualquer dor causada a mim. Mas jamais o perdoarei pelo que Julian e Emma sofreram.
— Emma? — falou Kieran, contraindo as sobrancelhas. — Achei que fosse a outra menina que o tivesse encantado. Sua princesa.
Mark soltou um riso engasgado.
— Pelo Anjo — falou, e viu Kieran se encolher com as palavras dos Caçadores de Sombras. — Sua imaginação é limitada pelo seu ciúme. Kieran... todos que moram sob este teto, sejam ou não ligados por sangue, nós somos ligados por uma rede invisível de amor, obrigação, lealdade e honra. É isso que significa ser um Caçador de Sombras. Família...
— O que eu saberia sobre família? Meu pai me vendeu para a Caçada Selvagem. Eu não conheço minha mãe. Tenho três dúzias de irmãos, e todos eles ficariam felizes em me ver morto. Mark, você é tudo que eu tenho.
— Kieran...
— E eu te amo — disse Kieran. — Você é tudo que eu amo na terra e sob o céu.
Mark olhou nos olhos de Kieran, o prata e o preto, e viu neles, como sempre o fazia, o céu noturno. E sentiu aquele puxão traiçoeiro sob as costelas, o que dizia que as nuvens poderiam ser sua estrada. Que ele não precisava se preocupar com questões humanas: dinheiro, abrigo, regras e leis. Ele poderia cavalgar os céus sobre geleiras, sobre copas de florestas que nenhum humano sabia que existia. Ele poderia dormir nas ruínas de cidades perdidas havia séculos. Seu abrigo poderia ser um único cobertor. Ele poderia deitar nos braços de Kieran e contar as estrelas.
Mas ele sempre nomeou as estrelas com os nomes de seus irmãos. Havia uma beleza na ideia de liberdade, mas era uma ilusão. Todo coração humano era acorrentado pelo amor.
Mark esticou o braço e tirou do pescoço o cordão que prendia sua flecha de elfo. Ele esticou o braço e pegou a mão de Kieran, virando-a de modo a exibir a palma e deixando o colar cair nela.
— Não vou mais atirar flechas para a Caçada Selvagem — disse ele. — Fique com isso e talvez lembre-se de mim.
A mão de Kieran apertou a ponta da flecha, suas juntas embranquecendo.
— As estrelas vão se apagar antes de eu esquecê-lo, Mark Blackthorn.
Levemente, Mark tocou a face de Kieran. Os olhos do príncipe fada estavam arregalados e sem lágrimas. Mas neles Mark enxergava um grande deserto de solidão. Mil noites escuras cavalgando sem ter uma casa aonde chegar.
— Eu não o perdoo — disse ele. — Mas você veio nos ajudar, no final. Não sei o que teria acontecido se não tivesse aparecido. Então, se precisar de mim, se for uma necessidade verdadeira, mande me chamar e eu irei.
Kieran semicerrou os olhos.
— Mark...
Mas Mark já tinha se virado. Kieran ficou parado, olhando-o partir, e, apesar de não ter se mexido ou falado, na beira da falésia, Lança do Vento empinou e gritou, seus cascos mirando o céu.


A janela de Julian tinha vista para o deserto. Em algum momento durante os últimos cinco anos, ele poderia ter se mudado para o quarto de Mark, que tinha vista para o mar, mas isso seria o mesmo que desistir da ideia de ter Mark de volta. Além disso, o quarto dele era o único com um banco sob a janela, coberto com almofadas atualmente um pouco puídas. Ele e Emma tinham passado horas ali juntos, o sol entrando pelo vidro, transformando em fogo os cabelos claros da garota.
Ele estava sentado ali agora, com a janela aberta para tirar os cheiros que pareciam grudados nele, mesmo depois do banho: sangue e pedra molhada, água do mar e magia negra.
Uma hora tudo acabava, ele pensou. Até mesmo a noite mais estranha de sua vida. Clary tinha puxado ele e Emma de lado depois que Anselm foi capturado, os abraçou e os lembrou de que sempre podiam ligar. Ele sabia que Clary estava, com seu jeito quieto, tentando dizer aos dois que não tinha problema descarregarem seus fardos nela.
Ele sabia que nunca o faria.
O telefone dele tocou. Ele olhou para a tela: era Emma. Ela havia mandado uma foto para ele. Sem palavras, só a foto do armário dela: a porta aberta, as fotos e os mapas, e cordas e notas saltando para fora.
Ele vestiu uma calça e uma camiseta, e seguiu pelo corredor. O Instituto estava em silêncio, todos dormindo, o único som era o vento do deserto do lado de fora, soprando contra vidro e pedra.
Emma estava no quarto, sentada contra o encosto ao pé da cama, o telefone ao seu lado. Ela vestia uma camisola longa e com alcinhas, branca e clara ao luar.
— Julian — falou, sabendo que ele estava ali sem precisar levantar os olhos. — Você estava acordado, certo? Eu tive a sensação de que estaria.
Ela se levantou, ainda olhando para o armário.
— Não sei o que fazer com isso — declarou ela. — Passei tanto tempo coletando tudo que parecia evidência, tirando conclusões, pensando nisso e em nada além disso. Este era o meu grande segredo, o coração de tudo que sempre fiz. — Ela olhou para ele. — Agora é só um armário cheio de lixo.
— Não posso dizer o que você deveria fazer com tudo isso — disse ele. — Mas posso falar que não precisa pensar nisso agora.
O cabelo dela estava solto, como luz sobre os ombros, tocando seu rosto com as pontas dos cachos, e ele enterrou os dedos nas palmas para se segurar e não puxá-la para si, enterrar o rosto e as mãos nele.
Em vez disso, ele olhou para os cortes que já se curavam nos braços e mãos dela, o vermelho desbotado dos pulsos queimados, as evidências de que a última noite não tinha sido fácil.
Nada do que faziam era.
— Mark vai ficar — falou ela. — Certo? Não há nada que a Clave possa fazer para mandá-lo embora agora?
Mark. O primeiro pensamento dela é sobre Mark. Julian afastou o pensamento: era indigno, ridículo. Eles não tinham mais 12 anos.
— Nada — disse Julian. — Ele não foi exilado. A regra era só que não podíamos procurar por ele. Não procuramos. Ele encontrou o caminho de casa, e não podemos mudar isso. E acho, depois da ajuda que nos deu com Malcolm, que não seria uma jogada muito bem aceita.
Ela esboçou um sorriso para ele, antes de voltar para a cama, deslizando as pernas nuas para baixo da coberta.
— Fui dar uma olhada em Diego e Cristina — falou. — Ele estava desmaiado na cama dela e ela dormia por cima das cobertas. Eu vou tirar o maior sarro dela amanhã.
— Cristina está apaixonada por ele? Diego, quero dizer — perguntou Julian, sentando-se na lateral da cama de Emma.
— Não tenho certeza. — Emma mexeu os dedos. — Eles têm, você sabe. Coisas.
— Não, não sei. — Ele imitou o gesto dela. — O que é isso?
— Assuntos emocionais mal resolvidos — respondeu, puxando a coberta.
— Mexer os dedos significa assuntos mal resolvidos? Terei que manter isso em mente. — Julian sentiu um sorriso se formar nos cantos da boca. Só Emma poderia fazê-lo sorrir depois de uma noite como a que tiveram.
Ela puxou um canto da coberta.
— Fica? — pediu Emma.
Não havia nada que Julian quisesse mais do que se deitar ao lado dela, para traçar o formato de seu rosto com os dedos: maçãs do rosto grandes, queixo pontudo, olhos semifechados, cílios como seda contra as pontas dos seus dedos.
Seu corpo e mente estavam mais do que exaustos, cansados demais para o desejo, mas a vontade de ter proximidade e companheirismo permaneciam. O toque das mãos dela, a pele de Emma eram um conforto que nada mais poderia reproduzir.
Ele se lembrou da praia, de ter passado horas deitado e acordado, tentando memorizar o que era abraçar Emma. Eles já tinham dormido um ao lado do outro muitas vezes, mas ele nunca tinha percebido o quanto era diferente quando você podia envolver o formato de alguém em seus braços. Sincronizar sua respiração com a dela.
Ele engatinhou na cama para ficar ao lado dela, ainda de roupa, e deitou embaixo das cobertas. Ela estava de lado, com a cabeça apoiada na mão. Sua expressão era séria, decidida.
— A forma como você orquestrou tudo hoje, Julian. Você me assustou um pouco.
Ele tocou a ponta do cabelo dela, brevemente, antes de abaixar a mão. Uma dor lenta se espalhou pelo corpo dele, uma dor profunda que parecia irradiar da medula.
— Você nunca deveria ter medo de mim — disse ele. — Nunca. Você é uma das pessoas que eu jamais machucaria.
Emma esticou a mão e colocou a palma no coração dele. O tecido da camiseta separava a mão dela do peito de Julian, mas ele sentiu o toque como se fosse na pele nua.
— Diga-me o que aconteceu quando voltamos, com Arthur e Anselm — pediu ela. — Porque acho que nem eu entendi.
Então Julian contou para ela. Contou sobre como há meses vinha entornando os restos dos frascos que Malcolm lhe dava em uma garrafa de vinho, só por via das dúvidas. Como deixou o vinho com essa superdosagem no Santuário, sem saber quando seria necessário. Como percebeu na convergência que Arthur teria que estar com a cabeça boa quando voltassem, estar funcionando. Como ligou para Arthur, avisando que ele teria que oferecer o vinho a Anselm e tomar um pouco, sabendo que só o tio seria afetado. Como sabia que tinha feito uma coisa horrível, dando aquilo para o tio sem que o próprio soubesse. Como tinha guardado as caixas de pizza no armário há dias, só por via das dúvidas; como sabia que tinha feito uma coisa horrível mesmo com Anselm, que não merecia a punição que provavelmente iria receber. Como ele não sabia que, às vezes, era capaz de fazer as coisas que fazia, e ao mesmo tempo não conseguia deixar de fazê-las.
Quando Julian terminou, ela se inclinou para perto, tocando gentilmente a bochecha dele. Emma tinha um cheiro suave de sabão de água de rosas.
— Eu sei quem você é — disse ela. — Você é meu parabatai. Você é o menino que faz o que tem que ser feito, porque mais ninguém o fará.
Parabatai. Ele nunca tinha pensado nessa palavra com amargura antes, mesmo sentindo o que sentia e sabendo o que sabia. E, no entanto, agora, ele pensou nos anos e anos pela frente em que jamais se sentiriam totalmente seguros juntos, não teriam como se tocar, se beijar ou consolar um ao outro sem medo da descoberta, e uma súbita emoção o invadiu, incontrolável.
— E se fugíssemos? — perguntou ele.
— Fugir? — repetiu da, parecendo confusa. — Para onde?
— Para algum lugar onde não nos encontrariam. Eu poderia fazer isso. Poderia encontrar um lugar.
Julian viu a solidariedade nos olhos dela.
— Descobririam o motivo. Não poderíamos voltar.
— Eles nos perdoaram por violar a Paz Fria — falou, e sabia que soara desesperado. Julian sabia que suas palavras estavam tropeçando umas nas outras. Mas eram palavras que ele queria e não ousou dizer durante anos eram palavras que pertenciam a uma parte dele que tinha ficado trancada por tanto tempo que nem sabia que ainda existiam. — Precisam de Caçadores de Sombras. Não há o suficiente. Pode ser que nos perdoem por isso também.
— Julian... você não aguentaria viver se deixasse as crianças. E Mark, e Helen. Quero dizer, você acabou de ganhar Mark de volta. Não tem como.
Ele conteve o pensamento deles, de seus irmãos e irmãs, como se fosse Poseidon contendo a maré.
— Você está falando isso porque não quer ir embora comigo? Porque se não quiser...
Ao longe, no corredor, um grito fino se elevou: Tavvy.
Julian saiu da cama em segundos, o chão frio sob os pés descalços.
— É melhor eu ir.
Emma se apoiou nos cotovelos. Estava com o rosto sério, dominado pelos grandes olhos escuros.
— Vou com você.
Eles se apressaram pelo corredor para o quarto de Tavvy. A porta estava semiaberta, uma fraca luz enfeitiçada queimando no interior. Tavvy estava encolhido, metade do corpo para fora da tenda, girando e se mexendo enquanto dormia.
Em instantes, Emma se ajoelhou perto dele, afagando seus desalinhados cabelos castanhos.
— Bebê — murmurou ela. — Pobre bebê, pelo Anjo, que noite você teve.
Ela se deitou de lado, olhando para Tavvy, e Julian se deitou do outro lado do menininho. Tavvy soltou um grito, e se aconchegou a Julian, a respiração suavizando enquanto ele relaxava no sono.
Julian olhou sobre a cabeça cacheada do irmão para Emma.
— Você se lembra? — perguntou.
Ele pôde ver nos olhos dela que sim. Dos anos em que cuidaram dos outros, das noites em que passaram acordados com Tavvy ou Dru, com Ty e Livvy.
— Lembro — falou ela. — Por isso falei que você não poderia deixá-los. Você não suportaria. — Ela apoiou a cabeça na mão, a cicatriz no braço era uma linha branca sob a pouca luz. — Não quero que faça algo de que vai se arrepender por toda a vida.
— Já fiz algo de que vou me arrepender para sempre — falou, pensando nos círculos de fogo na Cidade do Silêncio, na Marca na clavícula. — Agora estou tentando consertar.
Ela abaixou a cabeça gentilmente para o chão ao lado de Tavvy, os cabelos claros formando um travesseiro.
— Como você disse sobre o meu armário — falou ela. — Vamos conversar amanhã. Tudo bem?
Ele fez que sim com a cabeça, olhando enquanto ela fechava os olhos, enquanto sua respiração se uniformizava ao cair no sono. Ele tinha esperado todo esse tempo, afinal. Podia esperar mais um dia.
Antes do amanhecer, Emma acordou de um pesadelo, gritando os nomes de seus pais – e de Malcolm – em voz alta. Julian a pegou nos braços e a levou pelo corredor para o quarto dela.

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