domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 23

Alyss olhou para os lados da via estreita que tinha sido cortada por entre as árvores.
— Para qual lado as luzes estavam se movendo, você se lembra? — perguntou ela.
Will já estava balançando em antecipação a questão.
— Eu não posso estar totalmente certo — disse ele — mas eu diria que elas estavam se movendo ao longo deste caminho.
Alyss apontou para o chão.
— Eu não sou uma perseguidora — disse ela — mas dizem que os arqueiros são. Qualquer sinal de alguém se movendo por esse caminho?
Will ficou de joelhos e estudou no chão. Ele franziu a testa depois de um momento ou dois.
— Pode ser — disse ele. — Difícil dizer, realmente. Existem marcas fracas aqui. Mas você esperaria isso num caminho como este, não é?
— Mas não o tipo de coisa que você esperaria se alguém estivesse correndo lá e para cá carregando uma lanterna? — ela perguntou, um leve tom de desapontamento em sua voz.
Will balançou a cabeça. Então, lembrando-se uma das primeiras lições de Halt, ele olhou para a cobertura da floresta, acima deles. Lembre-se sempre de olhar para cima, seu mentor havia lhe dito. É a direção em que a maioria das pessoas nunca pensa em checar.
Agora seus olhos se estreitaram quando ele viu alguma coisa nas árvores, algo fora do lugar. Alyss, vendo a mudança de expressão em seu rosto, olhou para cima também.
— O que é isso? — perguntou ela, quando Will moveu em direção a uma das árvores maiores, seus olhos procurando locais para mãos e pés que ele iria precisar.
— Vinhas — disse ele, durante um tempo. — Eu os vi crescer para baixo nas partes mais altas das árvores. Mas eu raramente os vi crescendo perpendicularmente a eles.
Ele era um alpinista natural e subiu a árvore em questão de segundos, parecendo para Alyss que ele deslizou até o tronco, aparentemente liso. A quatro metros do solo ele parou, e ela viu que ele estava estudando uma trepadeira verde que cresceu ao longo de um dos ramos de maior dimensão, em seguida, levado para fora da árvore vizinha, cedendo em um laço entre os dois.
— É corda — falou para ela. — Tinta verde para parecer uma videira, mas é uma corda com certeza.
Ele traçou a linha da corda que levou de uma árvore para outra, correndo ao longo acima da pista que havia descoberto. Ele acenou com a cabeça para si mesmo, satisfeito, então deslizou suavemente até o chão ao seu lado novamente.
— Não há necessidade de alguém para correr para cima e para baixo com a luz — disse ele. — Eles poderiam juntar a corda em uma roldana e transportar para trás e para frente com uma linha clara.
Alyss agradou a cabeça do cão carinhosamente.
— E esta jovem senhora percebeu as pessoas fazendo isso, talvez cheirou ou ouviu eles. É por isso que ela rosnou — disse ela. — Minha aposta é que se olhássemos iríamos encontrar outros caminhos como este e outras vinhas crescendo horizontalmente.
— Isso não explica o Guerreiro da Noite — Will salientou, e Alyss sorriu para ele.
— Talvez não. Mas se ele fosse real, por que se preocupar com as luzes de truque? — disse ela. — As probabilidades são de que ele era um truque, ainda menos importantes do que as luzes, a julgar pela reação do cão. Agora me mostre exatamente onde você estava quando você viu o gigante.
Ela abriu o caminho de volta para onde Puxão esperava na pista principal. O pônei olhava interrogativamente, como se perguntando o que ele tinha perdido. Will foi até o saco de dormir atrás da sela e desamarrou-o. Alyss observou curiosamente quando ele retirou os elementos que compõem o arco recurvo. Ele os encaixou e travou em uma série de movimentos hábeis. Em seguida, testou a pressão e encontrou o seu olhar com um olhar de satisfação feroz.
— Gosto mais assim — disse ele, que uma flecha na corda. — Se formos procurar este maldito Guerreiro da Noite, prefiro fazer isso com um arco em minhas mãos.
Ele liderou o caminho à frente até chegarem à beira do pântano. Mesmo à luz do dia, era um lugar sinistro, com cortinas de névoa subindo do lado oposto. A água em si era como mármore preto, liso e impenetrável aos olhos. Bolhas subiam para a superfície mais longe, sugerindo a presença de criaturas à espreita nas profundezas.
— Aqui — disse Will. — Pelo que me lembro. E a figura estava ali fora... no outro lado do pântano.
Alyss olhou com astúcia na direção que ele indicou, então olhou ao longo da borda do pântano, onde o caminho à frente deles seguiu a beirada. Em um ponto, era cortado dentro de um pequeno promontório, coberto de árvores e arbustos.
— Vamos dar uma olhada lá — disse ela.
Will a seguiu, sua curiosidade aumentando.
— O que você tem em mente? — ele perguntou.
Ficou claro para ele que Alyss tinha formado uma teoria de algum tipo. Mas ela levantou a mão para evitar suas perguntas.
— É apenas uma ideia — ela disse vagamente.
Seus olhos estavam procurando o chão à frente deles e para os lados do caminho.
— Você é melhor nisso do que eu — disse ela. — Verifique o terreno em qualquer mancha clara.
Will obedeceu, seu olho perseguidor treinado estava correndo sobre a terra. Havia uma evidência fraca de que alguém tinha estado lá antes deles, talvez, muito recentemente, duas noites atrás, ele pensou.
— Estou procurando alguma coisa em particular? — ele perguntou, seus olhos grudados no chão.
— Marcas de queimadura — disse Ayss, e assim que ele ouviu as palavras, viu uma grande mancha de terra nua, onde a neve tinha derretido e a grama estava seca e chamuscada.
— Aqui — disse ele.
Alyss se juntou a ele, ficou de joelhos correndo os dedos sobre a grama seca e quebradiça. Ela soltou um pequeno grunhido de satisfação.
— Tudo bem — Will disse a ela. — Descobri sua grama queimada. Agora, o que isso significa?
— Você já viu um show de lanternas mágicas? — perguntou ela.
Sendo crianças protegidas do Castelo Redmont, tinham visto diversas vezes um show de um viajante entretendo com mágicas usando lanternas, onde as sombras das figuras-estrelas, meia luas, bruxas e seus gatos, eram projetadas na parede de um quarto de luz de uma vela.
— Eu estou pensando — disse ela — que o seu Guerreiro da Noite é a mesma coisa, em princípio.
— Mas ele era enorme! — Will protestou. — E ele estava há trinta ou quarenta metros daqui. Você precisaria de uma luz terrivelmente poderosa para administrar isso.
Alyss assentiu.
— Exatamente. E uma luz poderosa significaria uma enorme quantidade de calor, portanto, o chão chamuscado aqui.
— Mas a distância... — Will começou.
Afinal, os shows que eles haviam visto enquanto eram crianças tinham sido encenados dentro de quartos, com as sombras apenas a poucos metros da fonte de luz.
— Há muitas maneiras de focalizar a luz, tornando-se um feixe, Will. É possível, acredite em mim. É muito caro e há apenas alguns artesãos que podem moldar o equipamento para isso. Mas pode ser feito. Uma luz poderosa, um dispositivo para focalizar e uma figura de recorte, e voilá, seu guerreiro gigante aparece a trinta metros de distância.
Will ainda estava perplexo.
— Aonde? — ele perguntou. — Não há nenhuma parede lá para projetar.
— A neblina — disse Alyss. — É como uma cortina de tão grossa, e olha como ela nasce a partir do pântano em uma linha. Isso daria a oscilação, o efeito pulsante que você notou também, assim como quando a neblina turbilhou e se moveu.
Fazia sentido, percebeu. Ele estava disposto a aceitar a palavra de Alyss de que era tecnicamente possível. E se assim fosse, estava pronto para se vingar do terror que ele tinha experimentado na floresta duas noites atrás.
— Alguém está criando um monte de problemas para manter os visitantes longe — disse Alyss pensativa. — Eu me pergunto por quê?
A raiva estava crescendo em Will agora, junto com uma sensação de alívio, alívio de que pode haver uma explicação lógica para tudo isso, e uma pessoa viva para se responsável por tudo. Naquele momento, queria nada mais do que trazer essa pessoa para prestar contas.
— Vamos encontrá-lo e perguntar a ele — disse ele, sombrio.
Mas Alyss estava olhando para o sol e balançando a cabeça.
— Nós estamos fora do tempo — disse ela. — Minha escolta estará de volta em alguns minutos para me pegar. E já que eles estão sendo seguidos, dificilmente podem andar por aí em círculos sem rumo, enquanto eu me divirto na floresta.
— Tudo bem — disse Will. — Você volta. Eu vou continuar procurando por isso... quem quer que seja.
Alyss colocou a mão em seu braço, e manteve-o ali até que se encontrou com seu olhar. Ela balançou a cabeça um pouco, vendo a raiva, vendo a determinação em seus olhos.
— Agora não, Will — disse ela. — Deixe-o por enquanto, nós vamos voltar mais tarde, juntos.
Ele não disse nada e ela continuou.
— Vamos fazer um pouco mais de pesquisa, descobrir um pouco mais sobre tudo isso. Quanto mais nós soubermos quando procurarmos, melhor. Você sabe disso.
Relutante, ele concordou. Sua formação lhe ensinou que quando estava a entrar em território inimigo, o melhor era descobrir tudo o que podia de antemão. Alyss viu a raiva sair de seus olhos e tirou a mão do braço dele. Ela sorriu para ele.
— Agora me de uma carona de volta para fora da floresta.
— Você está certa — disse ele virando-se para montar Puxão, então se inclinou para baixo para ajudá-la a montar atrás dele. — É só que eu queria alguém para culpar o que senti naquela noite.
Alyss, seus braços em volta de sua cintura, apertou-lhe suavemente.
— Eu não te culpo — disse ela. — E você vai ter sua chance, acredite em mim.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes enquanto eles andavam de volta através da floresta, inclinando sobre a garganta de Puxão de tempos em tempos para evitar cipós baixos e galhos que obstruíam a pista. Então ela falou novamente.
— Você sabe, talvez seja uma boa ideia se nós enviássemos um relatório a Halt e Crowley, para que eles saibam o que nós encontramos até agora. Eles podem ter algumas ideias sobre tudo isso. Nós vamos enviar isso por pombos mensageiros.
Pombos mensageiros, Will sabia, eram treinados pelo Serviço Diplomático para regressar ao seu último local de descanso. Uma vez que o pombo voou de volta para sua base de origem, estaria pronto para voltar ao ponto de onde tinha sido lançado.
Ninguém sabia como os pássaros conseguiam fixar as posições em suas mentes, mas eles eram inestimáveis para a comunicação nos feudos. Alyss continuou.
— Eu estou sendo vigiada, assim tenho que voltar para o castelo. Mas você poderia andar para trás, fazer contato com o tratador de pombos, e enviar um relatório?
Will concordou. Houve certamente muito a dizer a seus superiores, mesmo que, até agora, não havia conclusões a tirar.
— Como vou saber o seu homem? — ele perguntou.
— Ele vai saber que é você. Quando ele o ver, ele vai fazer contato.
Eles estavam de volta na borda da floresta e estava ficando mais claro. Will tocou Puxão com os calcanhares do pônei e ele passou para um pequeno galope. Ao chegarem ao pequeno bosque de árvores onde ele encontrou Alyss, ela escorregou rapidamente da sela, olhando ansiosamente ao longo da estrada até o ponto em que sua escolta deveria aparecer.
Até agora, não havia nenhum sinal deles, e isso significava que não havia nenhum sinal dos homens que os seguiam também.
— É melhor você fazer-se imperceptível — disse ela, e Will assentiu, pedindo Puxão nas sombras sob as árvores.
O cão seguiu, de bruços na grama longa.
De sua posição, Will podia ver a curva da estrada um par de cem metros de distância. Então ele viu o primeiro cavaleiro de escolta de Alyss fazendo a curva.
— Eles estão aqui — disse ele baixinho.
Alyss correu rapidamente para uma moita de mato grosso na ponta das árvores, soltando o manto curto e puxando a túnica sobre a cabeça dela. Ela estava vestindo apenas uma roupa mínima por debaixo da túnica e Will virou-se apressadamente quando ele teve um vislumbre de ombros nus e braços. Ele ouviu um farfalhar rápida dos arbustos, então Alyss o chamou.
— Você pode abrir os olhos agora. — Ela parecia vagamente divertida com seu embaraço.
Ela vestiu um longo vestido de cavalgar branco sobre suas calças justas e botas de montaria. O manto, túnica e cinto de faca foram agrupados em seus pés. Will olhou ao longo da estrada. A escolta de quatro homens, agrupados em torno do manequim amarrado ao cavalo Alyss, foi quase até eles. Do refúgio dos arbustos Alyss sinalizou para eles. Ela virou-se e acenou ao Will, um sorriso cúmplice no rosto.
— Te vejo de volta no castelo — disse ela.
Então, no que era obviamente uma peça cuidadosamente ensaiada de confusão, a escolta foi ao lado dela. Os cavalos moveram para frente e para trás, confundindo a cena, e um dos homens lançou um nó corrediço, permitindo que o manequim para deslizar para fora do cavalo. Antes de bater no chão, Alyss tinha se colocado em cima da sela. Outro membro da escolta rapidamente se curvou para recuperar o manequim e em questão de segundos, o grupo foi montado, o manequim já meio dobrado e fora da vista.
Enquanto eles se afastavam, Will esperou imóvel, nas árvores. Eles ainda estavam à vista, quando ouvidos Puxão tremeram e o cão soltou um baixo rosnado.
— Fica — Will disse a ambos.
Certo o bastante, dois homens armados estavam atravessando a curva, olhando com cautela ao longo da trilha para se certificar que não tinham chegado perto demais do grupo que estavam seguindo. Will ficou sentado, imóvel, enquanto eles passaram montados. Ele lhes deu vários minutos, então montou para fora, rumo ao sul para encontrar o tratador de pombos de Alyss.

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