sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 23 - Amar e ser amado

Cristina saiu sorumbática do quarto de Emma.
Mark deu uma olhada no cômodo antes de a porta se fechar: viu a forma parada de Emma, parecendo pequena sob uma pilha de cobertas pesadas; Julian estava sentado na cama ao seu lado. A cabeça de seu irmão estava abaixada, os cabelos escuros caindo no rosto.
Mark nunca o tinha visto tão arrasado.
— Ela está bem? — perguntou a Cristina. Estavam sozinhos no corredor. A maioria das crianças continuava dormindo.
Mark não queria se lembrar do rosto do irmão quando Julian acordou perto da árvore e viu Mark ajoelhado sobre o corpo de Emma, desenhando símbolos em sua pele lacerada com a mão trêmula e sem prática de alguém há muito tempo desacostumado à língua dos anjos.
Ele não queria se lembrar de como Julian estava quando entraram, Mark carregando Cortana, e Julian com Emma nos braços, o sangue dela todo espalhado por sua camisa, os cabelos grudados. Ele não queria se lembrar de como Emma gritou quando foi atingida pelo chicote nem de como parou de gritar quando sucumbiu.
E não queria se lembrar do rosto de Kieran quando Mark e Julian correram de volta para o Instituto. Kieran tentou conter Mark, colocou a mão em seu braço. Estava com o rosto pálido e suplicante, seus cabelos uma revolta desesperada em preto e azul.
Mark sacudiu o braço para afastá-lo.
— Encoste a mão em mim novamente e a verá arrancada de seu pulso para sempre — rosnou, e Gwyn afastou Kieran, falando com ele com um tom ao mesmo tempo severo e lamentoso.
— Deixe-o, Kieran — pediu o Caçador. — Já se fez muito aqui por hoje.
Eles levaram Emma para o quarto, e Julian ajudou a deitá-la na cama enquanto Mark ia buscar Cristina.
Cristina não gritou quando ele a acordou, nem mesmo quando viu Emma com as roupas rasgadas e ensopadas de sangue. Ela entrou em ação para ajudá-los: vestiu Emma com roupas limpas e secas, pegou ataduras para Julian, lavou o sangue do cabelo da amiga.
— Ela vai ficar bem — disse Cristina agora. — Vai se curar.
Mark não queria se lembrar de como a pele de Emma tinha aberto com os golpes de chicote. O cheiro de sangue misturado ao sal do ar marinho.
— Mark. — Cristina tocou o rosto dele. Ele virou a bochecha na palma dela, involuntariamente. Ela cheirava a café e curativos. Ele ficou imaginando se Julian teria contado tudo; sobre as desconfianças de Kieran em relação a ela, sobre a incapacidade de Mark de proteger o irmão e Emma.
A pele dela era suave contra a dele; seus olhos, erguidos, eram grandes e escuros.
Mark pensou nos olhos de Kieran, como fragmentos de vidro em um caleidoscópio, estilhaçados e policromáticos. Os de Cristina eram firmes. Singulares.
Ela abaixou a mão pela lateral da mandíbula dele, sua expressão pensativa. Mark sentiu como se o corpo inteiro estivesse enrijecendo em um nó.
— Mark? — Foi a voz de Julian, baixa, do outro lado da porta.
— Você deveria entrar para ficar com seu irmão. — Cristina abaixou a mão, esfregando o ombro dele uma vez, tranquilizando-o. — A culpa não é sua — disse. — Não é. Entendeu?
Mark fez que sim com a cabeça, sem conseguir falar.
— Vou acordar as crianças e contar para elas — avisou ela, e seguiu pelo corredor, os passos firmes como se ela estivesse de uniforme de combate, apesar de estar usando uma camiseta e calça de pijama.
Mark respirou fundo e abriu a porta para o quarto de Emma.
Emma continuava imóvel, deitada, os cabelos claros espalhados sobre o travesseiro, o peito subindo e descendo uniformemente. Tinham aplicado símbolos de sono nela, assim como símbolos para acalmar a dor, conter a perda de sangue e curar.
Julian ainda estava sentado ao lado dela. A mão de Emma parecia flácida sobre o cobertor; Julian tinha movido a própria mão para perto da dela, seus dedos entrelaçados, mas sem tocar. Sua cabeça virou para longe da de Mark; Mark só conseguia ver a forma corcunda dos ombros de Julian, o jeito como a curva vulnerável da nuca parecia a curva das costas de Emma enquanto ela era chicoteada.
Ele parecia muito jovem.
— Tentei — disse Mark. — Tentei levar os golpes. Gwyn não permitiu.
— Eu sei. Vi que tentou — retrucou Julian com a voz neutra. — Mas Emma matou fadas. Você não. Eles não quereriam chicoteá-lo, tendo a chance de fazer isso com ela. Não importa o que você fizesse.
Mark se repreendeu silenciosamente. Ele não fazia ideia de quais eram as palavras humanas com as quais confortaria o seu irmão.
— Se ela morresse — prosseguiu Julian, com o mesmo tom de voz —, eu ia querer morrer. Sei que isso não é saudável. Mas é verdade.
— Ela não vai morrer — disse Mark. — Ela vai ficar bem. Só precisa se recuperar. E já vi como os homens, como as pessoas, ficam quando vão morrer. Tem uma aparência que não é essa.
— Não posso deixar de pensar — disse Julian. — Essa questão toda. Alguém está tentando trazer de volta a pessoa amada, uma pessoa que morreu. Parece quase errado. Quase como se devêssemos deixar.
— Jules — disse Mark. Ele conseguia sentir as bordas afiadas das emoções do irmão mais novo, como o toque de uma navalha na pele coberta por ataduras. É isso que é ser família, pensou ele. Sofrer quando alguém sofre. Querer protegê-los. — Eles estão roubando vidas. Não pode pagar por uma tragédia com mais tragédia, ou extrair vida a partir da morte.
— Eu só sei que se fosse ela, se fosse Emma, eu faria a mesma coisa. — Os olhos de Julian estavam assombrados. — Eu faria tudo que tivesse que fazer.
— Não faria. — Mark colocou a mão no ombro de Julian, puxando-o. Julian se moveu relutantemente para ficar de frente para o irmão. — Você faria a coisa certa. Por toda a vida, você fez a coisa certa.
— Sinto muito — disse Julian.
— Você sente muito? Tudo isso, Jules, o comitê... Se eu não tivesse contado a Cristina sobre a capa de Gwyn...
— Eles teriam encontrado outro motivo para puni-lo — argumentou Julian. — Kieran queria machucá-lo. Você o machucou, então ele quis retribuir. Sinto muito... sinto muito por Kieran, porque dá para ver que você gostava dele. Sinto muito por não ter sabido que você tinha deixado alguém de quem gostava para trás. Sinto muito por ter achado durante anos que era você que tinha liberdade, que estava se divertindo no Reino das Fadas enquanto eu me matava aqui, tentando criar quatro crianças, administrar o Instituto e guardar os segredos de Arthur. Eu queria acreditar que você estava bem, queria acreditar que um de nós estava bem. Queria tanto.
— Você queria acreditar que eu estava feliz, exatamente como eu queria acreditar no mesmo em relação a você — emendou Mark. — Eu me perguntava se vocês estavam felizes, alegres, vivendo. Nunca parei para pensar que tipo de homem você se tornaria ao crescer. — Ele parou de falar. — Tenho orgulho de você. Tive pouca influência na sua formação, mas, mesmo assim, tenho orgulho de ser seu irmão, de ser irmão de todos vocês. E não vou deixá-lo outra vez.
Os olhos de Julian se arregalaram, a cor Blackthorn brilhante nas sombras.
— Não vai voltar para o Reino das Fadas?
— Independentemente do que acontecer — disse Mark —, vou ficar aqui sempre, sempre ficarei aqui.
Ele colocou os braços em volta de Julian e o abraçou forte. Julian expirou, como se estivesse soltando alguma coisa pesada que tinha carregado por muito tempo, e, apoiando-se no ombro de Mark, ele permitiu que o irmão mais velho sustentasse um pouquinho do seu peso.


Emma sonhou com seus pais.
Eles estavam em uma pequena casa branca em Veneza, onde moraram quando ela era criança. Dava para ver o fraco brilho dos canais pela janela. Sua mãe estava na cozinha, um tecido espalhado na frente dela. No tecido, havia um arranjo de facas, organizadas da menor para a maior. A maior era Cortana, e Emma olhou para ela faminta, absorvendo o ouro liso, o brilho afiado da lâmina.
Em comparação ao brilho da arma, sua mãe parecia uma sombra. Enquanto ela trabalhava, os cabelos brilhavam, e as mãos, mas seu contorno era confuso; Emma tinha pavor de que se alcançasse a mãe, ela desapareceria.
Música inflou em torno de Emma. O pai de Emma, John, entrou na cozinha, seu violino apoiado no ombro. Normalmente ele tocava com uma espaleira, mas agora não. O violino entornava música como se fosse água e...
O estalo agudo de um chicote, dor como fogo.
Emma engasgou. Sua mãe levantou a cabeça.
— Aconteceu alguma coisa, Emma?
— Eu... não, nada. — Ela se virou para o pai. — Continue tocando, pai.
O pai dela sorriu um sorriso gentil.
— Tem certeza de que não quer tentar? — Emma balançou a cabeça. Sempre que ela tocava o arco nas cordas, vinha o som de um gato estrangulado.
— A música está no sangue dos Carstairs — disse ele. — Esse violino pertencia a Jem Carstairs.
Jem, pensou Emma. Jem, que a ajudou em sua cerimônia parabatai com mãos suaves e um sorriso pensativo. Jem, que tinha dado seu gato para cuidar dela.
Dor que cortava sua pele como uma lâmina. A voz de Cristina dizendo – Emma, oh, Emma, por que eles a machucaram tanto?
Sua mãe levantou Cortana.
— Emma, tenho certeza de que você está a mil quilômetros de distância.
— Talvez não tanto assim. — Seu pai abaixou o arco.
“Emma”. Era a voz de Mark. “Emma, volte. Por Julian, por favor. Volte.”
— Confie nele — disse John Carstairs. — Ele virá até você e vai precisar da sua ajuda. Confie em James Carstairs.
— Mas ele disse que tinha que ir, papai. — Emma não chamava o pai de papai desde muito pequena. — Ele disse que estava procurando alguma coisa.
— Ele está prestes a encontrar — disse John Carstairs. — E aí você terá ainda mais o que fazer.
“Jules, venha comer alguma coisa...”
“Agora não, Livvy. Preciso ficar com ela.”
— Mas, papai — sussurrou Emma —, papai, você está morto.
John Carstairs abriu um sorriso triste.
— Desde que haja amor e lembrança, não existe morte de verdade — falou.
Ele tocou o arco nas cordas e começou a tocar de novo. Música inflou, girando pela cozinha como fumaça.
Emma se levantou da cadeira da cozinha. O céu estava escurecendo lá fora, o sol poente refletido na água do canal.
— Tenho que ir.
— Ah, Em. — A mãe dela cercou a bancada da cozinha em direção a ela. Estava carregando Cortana. — Eu sei.
Sombras se moviam no interior de sua mente. Alguém estava segurando sua mão com tanta força que doeu. “Emma, por favor”, disse a voz que ela mais amava no mundo. “Emma, volte.”
A mãe de Emma colocou a espada em suas mãos.
— Aço e calma, filha — disse ela. — E lembre-se de que uma lâmina feita pelo Ferreiro Wayland pode cortar qualquer coisa.
— Volte. — Seu pai beijou-a na testa. — Volte, Emma, para onde precisam de você.
— Mamãe — sussurrou ela. — Papai. — Ela cerrou a mão no cabo da espada. A cozinha girou para longe dela, dobrando como um envelope. A mãe e o pai desapareceram também, como palavras escritas há muito tempo.


— Cortana. — Emma engasgou.
Ela se levantou e gritou de dor. Lençóis estavam enrolados em sua cintura. Ela estava na cama, em seu quarto. As luzes estavam acesas, mas fracas, a janela, só com uma fresta aberta. A mesa próxima à cama era cheia de curativos e toalhas dobradas. O quarto cheirava a sangue e fogo.
— Emma? — Uma voz incrédula. Cristina estava sentada no pé da cama, com um rolo de gaze e uma tesoura na mão. Ela a derrubou no chão ao ver que os olhos de Emma estavam abertos, e se jogou na cama. — Ah, Emma!
Cristina abraçou Emma pelos ombros, e por um instante Emma se agarrou a ela e ficou imaginando se era assim que era ter uma irmã mais velha, alguém que pudesse ser sua amiga, e também cuidar de você.
— Ai — disse Emma fracamente. — Está doendo.
Cristina recuou. Seus olhos estavam contornados de vermelho.
— Emma, você está bem? Se lembra de tudo que aconteceu?
Emma colocou a mão na cabeça. A garganta doía. Ela ficou imaginando se seria consequência dos gritos. Torceu para que não. Não queria dar a Iarlath essa satisfação.
— Eu... há quanto tempo estou desmaiada?
— Desmaiada? Ah, dormindo. Desde hoje de manhã. O dia todo, na verdade. Julian ficou com você o tempo todo. Finalmente consegui convencê-lo a comer alguma coisa. Ele vai ficar arrasado por você ter acordado sem ele aqui. — Cristina puxou o cabelo emaranhado de Emma para trás.
— Eu deveria levantar... deveria ver... está todo mundo bem? Aconteceu alguma coisa? — De repente, sua cabeça estava cheia de imagens terríveis das fadas, após terminarem com ela, indo atrás de Mark ou Julian, ou, de algum jeito, até mesmo das crianças, e Emma tentou empurrar as pernas para a lateral da cama.
— Não aconteceu nada. — Cristina a empurrou gentilmente. — Você está cansada e fraca; precisa de comida e símbolos. Uma chibatada assim... dá para chicotear alguém até a morte, você sabe disso, Emma?
— Sim — sussurrou ela. — Minhas costas ficarão marcadas para sempre?
— Provavelmente — respondeu Cristina. — Mas não vai ser ruim; os iratzes fecharam os machucados rapidamente. Não conseguiram curá-los. Vão ficar marcas, mas serão leves. — Seus olhos estavam vermelhos. — Emma, por que você fez isso? Por quê? Você realmente acha que seu corpo é muito mais forte que o de Mark ou Julian?
— Não — respondeu Emma. — Acho que todos são fortes ou fracos de maneiras diferentes. Existem coisas das quais morro de medo, e que Mark não teme. Como o mar. Mas ele já foi suficientemente torturado... o que isso teria causado a ele, eu nem sei. E Julian... Eu senti quando ele foi chicoteado. No meu corpo, no meu coração. Foi a pior coisa que já senti, Cristina. Eu teria feito qualquer coisa para impedir. Foi uma atitude egoísta.
— Não foi egoísta. — Cristina pegou a mão de Emma e a apertou. — Há um tempo penso que eu jamais quereria um parabatai — disse ela. — Mas seria diferente, eu acho, se a parabatai fosse você.
Eu também queria que você fosse minha parabatai, pensou Emma, mas não podia falar isso, parecia uma deslealdade a Julian, apesar de tudo.
Em vez disso, ela falou:
— Eu te amo, Cristina. — E apertou a mão dela de volta. — Mas a investigação... tenho que ir com você...
— Para onde? Para a biblioteca? Todo mundo passou o dia lendo e procurando mais informações sobre a Dama da Meia-Noite. Vamos encontrar alguma coisa, mas temos bastante gente para pesquisar.
— Existem outras coisas a se fazer além de pesquisa em livros...
A porta se abriu, e Julian estava na entrada. Seus olhos se arregalaram, e por um instante foram tudo que Emma enxergou, como portas azuis-esverdeadas que desaguavam em um outro mundo.
— Emma — sussurrou ele. Sua voz soou rouca e quebrada. Ele vestia calça jeans e uma camiseta branca solta, e por baixo o contorno de uma atadura, envolvendo seu peito, era visível. Seus olhos pareciam vermelhos, o cabelo emaranhado, e tinha uma leve sombra de barba no queixo e nas bochechas.
Julian jamais deixava de se barbear, desde a primeira vez que apareceu uma barbicha e Ty disse a ele, sem preâmbulo: “não gostei”.
— Julian — disse Emma —, você está b...
Mas Julian tinha começado a correr pelo quarto. Sem parecer notar nada além de Emma, ele caiu de joelhos e a abraçou, enterrando o rosto em sua barriga.
Ela esticou a mão trêmula e acariciou os cachos dele, erguendo os olhos em alarme para olhar Cristina. Mas Cristina já estava se levantando, murmurando que ia avisar aos outros que Julian estava cuidando de Emma. Emma ouviu a tranca estalar quando ela fechou a porta.
— Julian — murmurou Emma, com a mão no cabelo dele. Ele não estava mexendo. Parecia completamente imóvel. Respirou trêmulo antes de levantar a cabeça.
— Pelo Anjo, Emma — disse ele em um sussurro rouco. — Por que você fez isso? — Ela fez uma careta, e de repente ele estava de pé. — Você precisa de mais marcas de cura — disse ele. — Claro, como sou burro, claro que precisa.
Era verdade: ela estava machucada. Alguns pontos doíam menos, outros mais agudamente. Emma respirou fundo, como Diana havia lhe ensinado, lenta e firmemente, enquanto ele pegava a estela.
Ele sentou na cama ao lado dela.
— Fique parada — falou, e tocou sua pele com o instrumento. Ela sentiu a dor diminuir, até se tornar um incômodo suportável.
— Quanto tempo... Quando você acordou? — perguntou Emma.
Ele estava colocando a estela sobre a mesa.
— Se quer saber se o vi dando chicotadas em você, não — respondeu sombriamente. — Do que você se lembra?
— Eu me lembro de quando Gwyn e os outros vieram... Iarlath... Kieran. — Ela pensou no sol ardente, uma árvore com um tronco cor de sangue. Olhos preto e prata. — Kieran e Mark se amam.
— Amavam — disse Julian. — Não sei como Mark se sente em relação a ele agora.
Ela respirou fundo falhando.
— Eu derrubei Cortana...
— Mark a trouxe para dentro — respondeu ele com uma voz que indicava que Cortana era a última coisa em que pensava. — Meu Deus, Emma, quando recuperei a consciência e o comitê já tinha se retirado, vi você no chão, sangrando, e Mark estava tentando levantá-la, pensei que você estivesse morta — falou, e não havia nenhum indício de calma em sua voz, apenas uma selvageria voraz que ela jamais havia associado a Julian antes. — Eles te chicotearam, Emma, você levou a surra que devia ser de Mark ou minha. Detesto que tenha feito isso, você entende, detesto. — Emoção estalou e queimou em sua voz, como um fogo se descontrolando. — Como pôde?
— Mark não teria suportado a surra — disse ela. — Teria acabado com ele. E eu não suportaria vê-los dando chicotadas em você. Teria acabado comigo.
— Acha que não sinto a mesma coisa? — perguntou ele. — Acha que não passei o dia aqui sentado, totalmente destruído e destroçado? Prefiro perder o braço a vê-la perder uma unha, Emma.
— Não era só uma questão sobre você — explicou ela. — As crianças... veja, elas esperam que eu lute e me machuque. Pensam: lá está Emma, toda arranhada outra vez, cortada e cheia de curativos. Mas você, elas olham para você de um jeito que não olham para mim. Se você se machucasse seriamente, ficariam muito assustados. E eu não podia suportar isso.
Os dedos de Julian se apertaram em uma espiral. Ela viu o pulso dele correndo sob a pele. E pensou, aleatoriamente, em uma pichação que tinha visto no Píer Malibu: Seu coração é uma arma do tamanho do seu pulso.
— Meu Deus, Emma — disse ele. — O que eu fiz com você.
— Eles também são a minha família — disse ela. E a emoção ameaçava sufocá-la. Ela a conteve.
— Às vezes, eu gostaria... eu queria... que nós fôssemos casados e que eles fossem nossos filhos — disse ele rapidamente. Estava com a cabeça abaixada.
— Casados? — repetiu Emma, assustada.
A cabeça dele levantou. Os olhos ardiam.
— Por que você acha que eu...
— Me ama menos do que eu te amo? — perguntou ela. Ele se encolheu visivelmente ao ouvir essas palavras. — Porque você disse. Eu praticamente disse na praia o que eu sentia, e você falou “não desse jeito, Emma”.
— Eu não...
— Estou cansada de mentirmos um para o outro — falou Emma. — Entendeu? Cansada, Julian.
Ele passou as mãos pelo cabelo.
— Não vejo nenhum jeito disso dar certo — confessou ele. — Não enxergo nada além de um pesadelo onde tudo vai ruir e onde eu não a tenho.
— Você não me tem agora — retrucou Emma. — Não do jeito que importa. Do jeito verdadeiro. — Ela tentou se ajoelhar na cama. Suas costas doíam, e os braços e pernas estavam cansados, como se ela tivesse corrido e escalado por vários quilômetros.
Os olhos de Julian escureceram.
— Ainda está doendo? — Ele mexeu nos itens da cabeceira e pegou um frasco. — Malcolm preparou isso para mim há um tempo. Beba.
O frasco estava cheio de um líquido dourado. Tinha um gosto parecido com champanhe velho. Assim que Emma engoliu, sentiu um torpor varrê-la. A dor em seus membros retraiu, e uma energia fria e fluida tomou o seu lugar.
Julian pegou o frasco dela e o deixou cair na cama. Ele deslizou um braço sob seus joelhos e o outro sob os ombros, e levantou o corpo dela da cama. Por um instante ela se agarrou a ele em surpresa. Dava para sentir seu coração batendo, o cheiro de sabão, tinta e cravo. Ele tinha cabelos macios contra sua bochecha.
— O que você está fazendo? — disse ela.
— Preciso que venha comigo. — A voz dele estava tensa, como se ele estivesse reunindo coragem para fazer alguma coisa horrível. — Preciso que veja uma coisa.
— Você está fazendo parecer que é um assassino em série com um freezer cheio de braços — murmurou Emma, quando ele abriu a porta com o ombro.
— A Clave provavelmente ficaria mais feliz se fosse esse o caso.
Emma queria esfregar a bochecha na dele, sentir a aspereza da barba. Ele estava todo bagunçado, na verdade, a camisa, do avesso, e os pés, descalços.
Ela sentiu uma onda de afeto e uma vontade tão intensa que seu corpo inteiro enrijeceu.
— Pode me colocar no chão — pediu ela. — Estou bem. Não preciso ser princesa-carregada.
Ele riu, uma risada curta e engasgada.
— Eu não sabia que isso existia — retrucou ele, mas a colocou de pé.
Cuidadosa e lentamente, e eles se inclinaram um no outro, como se nenhum deles pudesse suportar o fato de que em um instante, não estariam mais se tocando.
O coração de Emma começou a acelerar. Acelerou enquanto ela seguia Julian pelo corredor vazio, e acelerou enquanto eles subiam a escada dos fundos para o estúdio dele. Acelerou quando ela se apoiou na bancada cheia de tintas e Julian foi pegar uma chave da gaveta perto da janela.
Ela o viu respirar fundo, seus ombros se levantando. Ele estava como ficou quando se preparava para as chicotadas.
Tendo reunido coragem, ele foi até a porta da sala trancada, a que ninguém além dele atravessava. Girou a chave com um estalo decidido, e a porta se abriu.
Ele chegou para o lado.
— Entre — pediu.
Os anos de hábito de respeito à privacidade de Emma a contiveram.
— Tem certeza?
Ele fez que sim com a cabeça. Estava pálido. Ela se afastou da bancada e atravessou a sala com apreensão. Talvez ele realmente tivesse corpos ali. O que quer que fosse, só podia ser algo terrível. Ela nunca o tinha visto daquele jeito.
Ela entrou no quarto. Por um instante pensou que tinha entrado em uma casa de espelho. Reflexos dela mesma a olhavam de todas as superfícies. As paredes eram cobertas por desenhos e pinturas, e havia também um cavalete, armado em um canto perto de uma janela solitária, com desenhos incompletos. Duas bancadas percorriam as extensões das paredes leste e oeste, e essas também estavam cobertas de arte.
Todas as imagens eram dela.
Lá estava ela treinando, empunhando Cortana, brincando com Tavvy, lendo para Dru. Uma em aquarela, era dela dormindo na praia, com a cabeça apoiada na mão. Os detalhes da curva de seu ombro, os grãos individuais de areia grudados em sua pele como açúcar, tinham sido desenhados com tanto carinho que ela quase ficou tonta. Em outra, ela se erguia sobre a cidade de Los Angeles. Estava nua, seu corpo transparente – só dava para ver os contornos; as estrelas da noite brilhavam através dela. Estava com os cabelos soltos, como luz brilhante, iluminando o mundo.
Ela se lembrou do que ele tinha dito a ela quando estavam dançando. Eu estava pensando em pintá-la. Pintar o seu cabelo. Eu teria que usar branco titânio para acertar a cor, o jeito como ele capta a luz e quase brilha. Mas isso não daria certo, daria? Não é todo de uma cor, o seu cabelo, não é só dourado: é âmbar e acastanhado, caramelo, trigo e mel.
Ela esticou o braço para tocar o próprio cabelo, que ela nunca pensou ser nada além de louro, e depois ficou olhando para a pintura no cavalete. Estava inacabada, uma imagem de Emma saindo do mar, Cortana presa em seu quadril. Os cabelos dela estavam soltos, como na maioria dos desenhos, e ele o tinha deixado parecer o spray do mar no pôr do sol. Quando os últimos raios de luz do dia deixavam a água dourada. Ela estava linda, feroz, tão terrível quanto uma deusa.
Ela mordeu o lábio.
— Você gosta do meu cabelo solto — declarou.
Julian soltou uma risada curta.
— Isso é tudo que você tem a dizer?
Ela se virou para olhar diretamente para ele. Eles estavam próximos.
— São lindos — elogiou ela. — Por que nunca me mostrou? Nem a ninguém? — Ele exalou, dando um sorriso lento e triste.
— Ems, ninguém poderia olhar para isso e não saber o que eu sinto por você.
Ela colocou a mão na bancada. De repente, parecia importante ter alguma coisa que a mantivesse firme.
— Há quanto tempo tem me desenhado?
Ele suspirou. Um instante mais tarde colocou a mão no cabelo dela. Seus dedos se entrelaçaram nas mechas.
— A vida toda.
— Eu me lembro que você desenhava, mas depois parou.
— Nunca parei. Só aprendi a esconder. — O sorriso desapareceu. — Meu último segredo.
— Duvido — disse Emma.
— Eu só tenho mentido, e mentido, e mentido — falou Julian lentamente. — Eu me tornei um especialista em contar mentiras. Parei de achar que mentiras poderiam ser destruidoras. Até mesmo más. Até estar naquela praia e dizer para você que eu não sentia aquilo por você.
Ela estava agarrando a bancada com tanta força que sua mão doeu.
— Sentia o quê?
— Você sabe — respondeu, afastando-se dela.
De repente, ela achou que tinha exagerado, forçado demais, mas a necessidade voraz de saber foi mais forte.
— Eu preciso ouvir. Soletre para mim, Julian.
Ele deu um passo para a porta. Pegou a maçaneta – por um instante ela achou que ele fosse sair – e fechou a porta da pequena sala. Trancou, fechando os dois lá dentro. Virou para ela. Seus olhos eram luminosos à pouca luz.
— Eu tentei impedir — disse ele. — Por isso fui para a Inglaterra. Achei que, se ficasse longe de você, talvez parasse de me sentir como estava me sentindo. Mas assim que voltei, no instante em que te vi, soube que não havia feito nenhuma diferença. — Ele olhou ao redor, a expressão era quase resignada. — Por que todos esses quadros com você? Porque sou um artista, Emma. Essas pinturas são o meu coração. E, se meu coração fosse uma tela, cada centímetro dela retrataria você.
O olhar dela parou no dele.
— Você está falando sério — disse ela. — Realmente está.
— Sei que menti para você na praia. Mas juro, pelos nossos votos parabatai, que estou dizendo a verdade agora. — Ele falou com clareza, deliberadamente, como se não fosse suportar se alguma palavra do que estava dizendo a ela fosse mal interpretada ou perdida. — Eu amo tudo em você, Emma. Eu amo o jeito como reconheço os seus passos no corredor do lado de fora do meu quarto, mesmo sem saber que você estava vindo. Mais ninguém anda ou respira ou se move como você. Eu amo o jeito como você arfa à noite, logo antes de dormir, como se seus sonhos a surpreendessem. Amo o jeito como quando estamos juntos na praia, nossas sombras se fundem em uma pessoa só. Amo o jeito como você escreve na minha pele com seus dedos, e eu consigo entender melhor do que se fosse qualquer outra pessoa gritando no meu ouvido. Eu não queria amá-la desse jeito. É a pior ideia do mundo amá-la desse jeito. Mas não consigo evitar. Acredite em mim, já tentei.
Foi a dor em sua voz que a convenceu. Era a mesma dor que vinha no compasso do próprio coração há tanto tempo, que ela já não sabia mais por que a sentia.
Ela soltou a bancada. Deu um passo em direção a Julian, e depois mais um.
— Você... você está apaixonado por mim?
O sorriso dele era ameno e triste.
— Muito.
Um instante mais tarde ela estava nos braços dele beijando-o. Ela não saberia dizer exatamente como aconteceu, só que parecia inevitável. E que tudo que a voz de Julian tinha de quieta quando ele falava, sua boca na dela tinha de ansiosa, e seu corpo era cheio de desejo e desespero. Ele a segurou, seus lábios traçando o contorno da boca. As mãos de Emma estavam vorazes no cabelo dele; ela sempre adorou seu cabelo e agora que podia tocá-lo livremente, enterrou as mãos nas ondas espessas, enrolando-as nos dedos.
As mãos de Julian deslizaram por trás das coxas dela, e ele a levantou como se ela não pesasse nada. Ela entrelaçou as mãos em volta do pescoço dele, enquanto ele a segurava com um braço. Ela teve consciência dele pegando os papéis na bancada e os jogando para o chão com os tubos de tinta até abrir um espaço onde pudesse colocá-la.
Ela o puxou para perto, mantendo as pernas enroladas na cintura dele. Não havia nada de fechado nele agora, nada de tímido, distante ou reticente enquanto os beijos se tornavam mais profundos, selvagens e quentes.
— Diga que eu não estraguei tudo para sempre. — Julian engasgou entre os beijos. — Eu fui tão babaca na praia... e quando a vi com Mark no seu quarto...
Emma deslizou as mãos pelos ombros dele, largos e fortes sob seu aperto. Ela se sentiu embriagada pelos beijos. Era por isso que pessoas lutavam guerras, ela pensou, e por isso se matavam, e por isso destruíam as próprias vidas: aquela mistura destruidora de desejo e prazer.
— Não estava acontecendo nada...
As mãos dele acariciaram o cabelo dela.
— Sei que é ridículo. Mas quando você tinha uma paixonite por Mark, aos 12 anos, é a primeira vez que me lembro de ter sentido ciúme. Não faz o menor sentido, eu sei disso, mas não conseguimos descartar as coisas que mais tememos. Se você e Mark algum dia... Acho que eu não teria como me recuperar.
Alguma coisa na honestidade crua da voz dele a tocou.
— Todo mundo tem medo de alguma coisa — sussurrou ela, chegando mais para perto, nos braços dele. Emma deslizou os dedos para baixo da bainha da camisa dele. — É parte de ser humano.
Os olhos dele semifecharam. Os dedos passaram pelos cabelos dela; suas mãos a acariciaram levemente nas costas, encontraram sua cintura, puxando-a mais forte para si. A cabeça dela pendeu para trás, quase batendo em um dos armários; os lábios de Julian arderam na clavícula de Emma. A pele estava quente ao toque dela. Emma, de repente, conseguiu entender por que as pessoas comparavam paixão a fogo: parecia que eles estavam acesos em uma fogueira e ardiam como as colinas secas de Malibu; prestes a se tornar cinzas que se misturariam para sempre.
— Diga que me ama, Emma — pediu Julian na garganta dela. — Mesmo que não seja verdade.
Ela engasgou; como ele podia achar, como ele podia não perceber...? Ouviu-se o ruído de passos no estúdio.
— Julian? — A voz de Livvy ecoou pela porta. — Ei, Jules, onde você está?
Emma e Julian se desgrudaram um do outro em pânico. Ambos estavam desalinhados, cabelos bagunçados, lábios inchados de beijos. E Emma não conseguia imaginar como explicariam por que estavam trancados na sala particular de Julian.
— Juuules! — Livvy gritava agora, com bom humor. — Estamos na biblioteca, Ty mandou buscá-lo... — Livvy pausou, provavelmente olhando ao redor da sala. — Sério, Julian, onde você está?
A maçaneta da porta girou.
Julian congelou. A maçaneta girou outra vez, a porta balançando contra a tranca. Emma ficou tensa.
Ouviu-se o som de um suspiro. A maçaneta parou de girar. Passos se afastaram deles; e então a porta do estúdio fechou.
Emma olhou para Julian. Ela se sentia como se o sangue tivesse congelado e descongelado subitamente; corria pelas veias como uma torrente.
— Tudo bem. — Suspirou.
Julian a pegou e a abraçou furiosamente, as mãos cheias de unhas roídas enterrando em seus ombros. Ele a agarrou com tanta força que ela mal conseguia respirar.
Então ele soltou. E o fez como se estivesse se forçando a isso, como se estivesse morto de fome e estivesse colocando de lado o último bocado de comida. Mas o fez.
— É melhor irmos.


De volta ao seu quarto, Emma tomou banho e trocou de roupa o mais rápido possível. Vestiu uma calça jeans e não conseguiu conter uma careta quando a camiseta desceu pelo pescoço, arranhando os curativos nas costas. Precisaria de novos em breve, e provavelmente de mais um iratze.
Ela saiu e descobriu que o corredor já estava ocupado.
— Emma — disse Mark, se afastando da parede. Sua voz parecia cansada. — Julian disse que você estava bem. Eu... eu sinto muito.
— Não é culpa sua, Mark — retrucou ela.
— É — argumentou ele. — Eu confiei em Kieran.
— Você confiou porque o amava.
Ele olhou para ela, surpreso. Parecia fora de prumo, e não só por causa de seus olhos: foi como se alguém tivesse alcançado dentro dele e sacudido toda a raiz de suas crenças. Ela ainda conseguia ouvi-lo gritando quando Iarlath chicoteou; primeiro, Julian, depois, ela.
— Ficou tão claro assim?
— Você olhou para ele como... — Como eu olho para Julian. — Como se olha para alguém que se ama — disse ela. — Sinto muito não ter percebido antes. Achei que você… — Gostasse de Cristina, talvez? Kieran certamente parecia com ciúmes dela. — Gostasse de meninas — concluiu. — Tenho que aprender a não fazer suposições.
— Eu gosto — admitiu ele, confuso. — De garotas.
— Ah! — exclamou ela. — Você é bissexual?
— Até onde eu sei, era assim que vocês chamavam — explicou ele com um breve olhar de divertimento. — Não existem termos para essas coisas no Reino das Fadas, então...
Ela fez uma careta.
— Desculpe duplamente pelas suposições.
— Tudo bem. Você está certa em relação a Kieran. Ele foi tudo que eu tive por um bom tempo.
— Se faz alguma diferença, ele o ama — disse Emma. — Deu para ver no rosto dele. Acho que ele não esperava que nenhum de nós fosse se machucar. Acho que ele pensou que ia levá-lo de volta para o Reino das Fadas, onde poderiam ficar juntos. Ele nunca imaginou...
Mas, com isso, veio a lembrança do chicote descendo não só nas suas costas, mas em Julian, e a garganta de Emma fechou.
— Emma — falou Mark. — No dia em que fui levado pela Caçada... a última coisa que falei para Julian, foi que ele deveria ficar com você. Eu pensava em você, mesmo quando estava longe, como uma menina delicada, uma garotinha de tranças louras. Eu sabia que, se alguma coisa lhe acontecesse, mesmo naquela época, Julian ficaria arrasado.
Emma sentiu o próprio coração parar, mas, se Mark quis dizer qualquer coisa fora do comum com o “arrasado”, não ficou claro.
— Hoje você o protegeu — disse Mark. — Você levou as chicotadas que deveriam ser dele. Não foi fácil ver o que fizeram com você. Queria que tivesse sido eu. Queria mil vezes. Mas sei por que meu irmão queria me proteger. E sou grato por você protegê-lo também.
Emma respirou apesar do aperto na garganta.
— Precisei fazer isso.
— Sempre estarei em débito com você — falou Mark, e sua voz foi a voz de um príncipe do Reino das Fadas, cujas promessas eram mais do que promessas. — Qualquer coisa que quiser, eu lhe darei.
— É uma promessa e tanto. Você não precisa...
— Eu quero — declarou ele de um jeito definitivo.
Após um instante Emma fez que sim com a cabeça e a estranheza se quebrou. Mark a fada voltou a ser Mark Blackthorn, contando a ela sobre o progresso da investigação enquanto desciam a fim de se juntar aos outros. Para impedir que tio Arthur descobrisse o que tinha se passado com Emma e o comitê de fadas, Julian tinha providenciado para que ele se encontrasse com Anselm Nightshade na pizzaria em Cross Creek Road. Nightshade havia mandado um carro para Arthur mais cedo, prometendo que ambos voltariam quando a noite caísse.
O restante da família estava na biblioteca. Tinham devorado pilhas de livros em busca de informações sobre a Dama da Meia-Noite.
— Eles descobriram alguma coisa? — perguntou ela.
— Não tenho certeza, eu estava indo para a biblioteca quando o Sr. Lindo e Sexy apareceu e disse que tinha informações.
— Uau. — Emma levantou a mão. — Sr. Lindo e Sexy?
— Diego Perfeito — resmungou Mark.
— Tudo bem, sei que você não voltou do Reino das Fadas há muito tempo, mas no mundo humano, Sr. Lindo e Sexy não é um insulto muito eficiente.
Mark não teve oportunidade de responder; tinham chegado à biblioteca. Assim que entraram, Emma quase foi derrubada por uma figura acelerada com um abraço determinado: era Livvy, que imediatamente começou a chorar.
— Aaaai — disse Emma, olhando em volta. Todo o recinto parecia coberto por pilhas de papel, montes de livros. — Livvy, cuidado com os curativos.
— Não posso acreditar que tenha deixado as fadas darem chicotadas em você; ah, eu odeio todas elas, odeio as Cortes, vou matar todos eles...
— “Deixar” talvez não seja a palavra — cortou Emma. — Enfim, eu estou bem. Está tudo bem. Nem doeu tanto assim.
— Ah, mentirosa! — disse Cristina, surgindo de trás de uma pilha de livros, com Diego ao seu lado. Interessante, Emma pensou. — Foi muito heroico o que você fez, mas também muito tolo.
Diego olhou para Emma com sérios olhos castanhos.
— Se eu soubesse o que estava para acontecer, teria ficado e me oferecido para as chibatadas. Sou mais musculoso e maior do que você, e provavelmente as teria recebido melhor.
— Eu as recebi bem — disse Emma, irritada. — Mas agradeço o lembrete de que você é enorme. Do contrário, eu poderia ter esquecido.
— Argh! Pare com isso! — Cristina se dissolveu em uma tempestade de espanhol.
Emma levantou as mãos.
— Cristina, devagar.
— Ajudaria? — perguntou Diego. — Você fala espanhol?
— Não muito — disse Emma.
Ele esboçou um sorriso.
— Ah, bem, nesse caso, ela está nos elogiando.
— Eu sei que não foram elogios — disse Emma, mas então a porta se abriu e era Julian, e, de repente, todo mundo se ocupou ajudando a carregar livros e alinhá-los sobre a mesa, separando os papéis.
Ty estava na cabeceira como se estivesse conduzindo uma reunião de conselho. Ele não sorriu para Emma, exatamente, mas lançou-lhe um olhar de lado que ela sabia que significava afeto, e depois voltou o olhar mais uma vez para o que estava fazendo.
Emma não encarou Julian, pelo menos, não mais do que uma olhada. Não se achava capaz. No entanto, ela estava ciente da presença dele quando atravessou a sala até a mesa comprida. Ele foi para o lado esquerdo de Ty, olhando para suas anotações.
— Onde estão Tavvy e Dru? — perguntou ela, pegando o primeiro livro de uma pilha.
— Tavvy estava inquieto. Dru o levou para a praia — disse Livvy. — Ty acha que ele pode ter descoberto alguma coisa.
— Quem ela era — revelou Ty. — Nossa Dama da Meia-Noite. O livro de Tavvy me lembrou uma história que li em um dos livros sobre a história Blackthorn...
— Mas já olhamos todos os livros de história Blackthorn — disse Julian.
Ty lançou a ele um olhar superior.
— Vimos tudo de cem anos para cá — argumentou. — Mas o livro de Tavvy dizia que a Dama da Meia-Noite estava apaixonada por alguém que era proibida de amar.
— Então, pensamos: o que é um amor proibido? — perguntou Livvy ansiosamente. — Quer dizer, entre parentes, eca, e pessoas que são muito mais novas ou mais velhas entre si, o que também é nojento, e pessoas que são inimigas declaradas, o que não é nojento, mas um pouco triste...
— Pessoas que gostam de Star Wars e pessoas que gostam de Star Trek — disse Emma. — Etc. Aonde quer chegar com isso, Livs?
— Ou parabatai, como Silas Pangborn e Eloisa Ravenscar — prosseguiu Livvy, e Emma instantaneamente se arrependeu de ter feito uma piada. Se sentiu muito consciente de onde Julian estava, do quanto estava próximo dela, do quanto ele ficou tenso. — Mas isso não parece provável. Então pensamos... Era totalmente proibido se apaixonar por habitantes do Submundo antes dos Acordos. Teria sido um verdadeiro escândalo.
— Então fomos atrás das histórias mais antigas — disse Ty. — E encontramos algo. Tinha uma família Blackthorn com uma filha que se apaixonou por um feiticeiro. Eles iam fugir juntos, mas a família dela os pegou. A garota foi então mandada embora para se tornar uma Irmã de Ferro.
— “Os pais a prenderam em um castelo de ferro.” — Mark tinha pegado o livro de Tavvy. — É isso que significa.
— Você fala a língua dos contos de fada — disse Diego. — Não é surpreendente, suponho.
— E então ela morreu — disse Emma. — Como se chamava?
— Annabel — falou Livvy. — Annabel Blackthorn.
Julian suspirou.
— Onde isso tudo aconteceu?
— Na Inglaterra — respondeu Ty. — Há duzentos anos. Antes de “Annabel Lee” ser escrito.
— Eu também encontrei uma coisa — disse Diego. Do bolso interno do casaco, ele retirou um galho cheio de folhas. Colocou-o sobre a mesa. — Não encostem — pediu ele, quando Livvy esticou o braço. Ela recolheu a mão. — É beladona. Erva mortal. Só é fatal se for ingerida ou absorvida pela corrente sanguínea, mas mesmo assim.
— Da convergência? — perguntou Mark. — Eu a notei lá.
— Sim — respondeu Diego. — É mais mortal do que uma beladona comum. Desconfio que tenha sido isso que manchou as flechas que comprei no Mercado das Sombras. — Ele franziu o rosto. — O mais estranho é que normalmente só cresce na Cornualha.
— A menina que se apaixonou pelo feiticeiro — falou Ty. — Foi na Cornualha.
No mesmo instante, tudo no recinto pareceu muito claro, brilhante e duro, como se entrasse em foco.
— Diego — chamou Emma —, de quem você comprou as flechas? No Mercado?
Diego franziu o rosto.
— De um humano com a Visão. Acho que o nome dele era Rook...
— Johnny Rook — disse Julian. Seus olhos, encontrando os de Emma, escureceram com uma súbita constatação. — Você acha...
Ela estendeu a mão.
— Me dê seu telefone.
Ela estava ciente dos olhares curiosos ao pegar o telefone de Julian e fazer a ligação enquanto cruzava a sala. O telefone tocou diversas vezes antes de atenderem.
— Alô?
— Rook — falou ela. — É Emma Carstairs.
— Eu disse para não me ligar. — A voz dele estava fria. — Depois do que seu amigo fez com meu filho...
— Se não falar comigo agora, a próxima visita que receberá será dos Irmãos do Silêncio. — Ela se irritou. Tinha raiva na voz, apesar de pouca ser destinada a ele. A raiva crescia nela como uma maré; raiva e a sensação de traição. — Sabe, sei que você vendeu algumas flechas ao meu amigo. Estavam envenenadas. Com um veneno ao qual só o Guardião dos Seguidores teria acesso. — Ela agora estava chutando, mas, pelo silêncio do outro lado da linha, concluiu que seu tiro no escuro não passara muito longe do alvo. — Você disse que não sabia quem ele era. Você mentiu.
— Não menti — refutou Rook após uma pausa. — Não sei quem ele é.
— Então como sabe que é homem?
— Veja, ele sempre apareceu de túnica, com luvas e capuz, entende? Completamente coberto. Ele me pediu para destilar aquelas folhas, fazer um composto que ele pudesse usar. Eu fiz.
— Para poder envenenar as flechas?
Ela pôde ouvir o sorriso na voz de Rook.
— Sobrou um pouco, e eu pensei em me divertir. Centuriões não são muito populares no Mercado das Sombras, e beladona é ilegal.
Emma queria gritar com ele, queria gritar que uma das flechas que ele envenenou por diversão quase matou Julian. Ela se conteve.
— O que mais você fez pelo Guardião?
— Não tenho que lhe contar nada, Carstairs. Você não tem nenhuma prova de que conheço o Guardião tão bem assim...
— Sério? Então como você sabia que aquele corpo ia ser desovado no Sepulcro? — Rook ficou em silêncio. — Sabe como são as prisões na Cidade do Silêncio? Quer mesmo conhecê-las pessoalmente?
— Não...
— Então me diga o que mais fez por ele. O Guardião. Você usou necromancia?
— Não! Nada disso. — Agora Rook pareceu um pouco apavorado. — Eu fiz coisas pelos Seguidores. Fiz amuletos da sorte, me certifiquei de que ganhassem dinheiro inesperadamente, acesso às festas, pré-estreias, pessoas se apaixonando por eles. Fechassem negócios. Nada de mais. Só o bastante para mantê-los felizes e acreditando que valia a pena ficar no oculto. Acreditando que o Guardião estava cuidando deles e eles iam conseguir tudo que queriam.
— E o que ele fazia para você em troca?
— Dinheiro — respondeu Rook secamente. — Proteção. Ele protegeu minha casa contra demônios. Ele tem poderes mágicos, aquele sujeito.
— Você trabalhou para um cara que sacrificou pessoas — observou Emma.
— Era um culto. — Rook praticamente rosnava. — Sempre existiram, sempre vão existir. As pessoas querem dinheiro e poder, e farão qualquer coisa para conseguir. Não é culpa minha.
— Sim, as pessoas, de fato, fazem qualquer coisa por dinheiro. Você é prova disso. — Emma tentou controlar a irritação, mas seu coração batia acelerado. — Conte qualquer coisa sobre esse cara. Você deve ter notado a voz, o jeito de andar, qualquer coisa estranha nele...
— Tudo é estranho em um sujeito que chega todo coberto de tecido. Não consegui nem ver os sapatos, entendeu? Ele não parecia estar totalmente presente. Foi ele que me contou sobre o Sepulcro. Tagarelou um monte de coisas sem sentido, uma vez disse que veio para Los Angeles a fim de trazer de volta o amor...
Emma desligou. Ela olhou para os outros com o coração acelerando no peito.
— É Malcolm — disse ela, com a voz soando distante e baixa aos próprios ouvidos. — Malcolm é o Guardião.
Todos olharam para ela com expressões atônitas, em silêncio.
— Malcolm é nosso amigo — lembrou Ty. — Isso não... Ele não faria isso.
— Ty está certo — disse Livvy. — Só porque Annabel Blackthorn se apaixonou por um feiticeiro...
— Ela se apaixonou por um feiticeiro. Na Cornualha. Magnus disse que Malcolm morava na Cornualha. Tem uma planta da Cornualha crescendo em torno da convergência. Malcolm tem nos ajudado com a investigação, mas não tem, na verdade. Ele não traduziu uma palavra do que entregamos a ele. Ele nos disse que era um feitiço de invocação; não é, é um feitiço necromântico. — Ela começou a andar de um lado para o outro. — Ele tem aquele anel com a pedra vermelha, e os brincos que encontrei na convergência eram de rubi... Tudo bem, não é exatamente uma prova conclusiva, mas ele teria que ter roupas para ela, certo? Para Annabel? Ela não poderia andar por ai com a mortalha quando ele a trouxesse de volta. Faz mais sentido que um necromante tenha roupas para a pessoa que ele está tentando ressuscitar dos mortos do que para de mesmo. — Ela se virou e viu que os outros a estavam encarando. — Malcolm só se mudou para Los Angeles cerca de cinco meses antes do ataque ao Instituto. Ele diz que estava fora quando aconteceu, mas... e se não estivesse? Ele era o Alto Feiticeiro. Poderia facilmente ter descoberto onde meus pais estavam naquele dia. Ele poderia tê-los matado. — Ela olhou para os outros. As expressões variavam entre o choque e a incredulidade.
— Eu simplesmente não acho que Malcolm faria isso — comentou Livvy com a voz fraca.
— Rook disse que o Guardião com quem ele se encontrou escondeu a identidade — falou Emma. — Mas ele também mencionou que o Guardião falou a de que tinha vindo para Los Angeles para trazer de volta o amor. Vocês se lembram do que Malcolm disse quando estávamos vendo o filme? “Eu vim aqui para trazer o verdadeiro amor de volta dos mortos.” — Ela agarrou o telefone com tanta força que doeu. — E se ele estivesse falando sério? literalmente? Ele veio aqui para trazer o seu verdadeiro amor de volta dos mortos. Annabel.
Fez-se um longo silêncio. Foi Cristina, para a surpresa de Emma, que finalmente o rompeu.
— Não conheço bem Malcolm, nem o amo como vocês — disse ela com sua voz suave. — Então me perdoem se o que digo magoá-los. Mas acho que Emma tem razão. Uma dessas coisas pode ser coincidência. Mas todas não. Annabel Blackthorn se apaixonou por um feiticeiro na Cornualha. Malcolm era um feiticeiro na Cornualha. Só isso já basta para levantar suspeitas suficientes para serem investigadas. — Ela olhou em volta com olhos escuros ansiosos. — Desculpe. Mas é que o próximo passo para o Guardião é sangue Blackthorn. Por isso não podemos esperar.
— Não se desculpe, Cristina. Você tem razão — disse Julian. Ele olhou para Emma, e ela pôde ver as palavras não ditas atrás dos olhos dele: foi assim que Belinda soube de Arthur.
— Precisamos encontrá-lo — disse Diego, a voz clara e prática rompendo o silêncio. — Precisamos partir imediatamente...
A porta da biblioteca abriu violentamente, e Dru entrou correndo. O rosto dela estava rosa, e seus cabelos castanhos ondulados tinham soltado das tranças. Ela quase colidiu contra Diego, mas saltou para trás com um ganida.
— Dru? — Foi Mark quem falou. — Está tudo bem?
Ela fez que sim com a cabeça, correndo para Julian.
— Por que você me chamou?
Julian pareceu confuso.
— Como assim?
— Eu estava na praia com Tavvy — falou a menina, se apoiando contra a beira da mesa para recuperar o fôlego. — Aí ele veio e falou que você precisava falar comigo. Então vim correndo...
— Quê? — Julian ecoou. — Não mandei ninguém atrás de você na praia, Dru.
— Mas ele disse... — Dru, de repente, pareceu alarmada. — Ele disse que você precisava de mim imediatamente.
Julian se levantou.
— Onde está Tavvy?
O lábio dela começou a tremer.
— Mas ele falou... ele disse que se eu corresse para casa, ele trazia Tavvy andando. Ele deu um brinquedo para ele. Ele já cuidou de Tavvy antes, não estou entendendo, o que houve...?
— Dru — falou Julian com a voz cautelosa e controlada. — Quem é “ele”? Quem está com Tavvy ?
Dru engoliu em seco, o rosto redondo completamente assustado.
— Malcolm — disse ela. — Malcolm está com ele.

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