sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 22 - Aqueles que eram mais velhos

Mark estava na janela do quarto, olhando o sol que nascia sobre o deserto.
As montanhas pareciam recortadas em papel escuro, afiadas e distintas, contra o céu. Por um instante, ele imaginou que pudesse esticar o braço e tocá-las, que pudesse voar da janela e alcançar o pico mais alto.
O momento passou, e mais uma vez ele viu a distância entre ele e as montanhas.
Desde que tinha retornado ao Instituto, se sentia como se estivesse lutando para enxergar tudo através de uma camada fina de feitiço. Às vezes, ele enxergava o Instituto como era, às vezes, ele desaparecia de sua vista e, em seu lugar, Mark via uma paisagem vazia e os fogos da Caçada Selvagem ardendo em pequenos  campos.
Às vezes, ele virava para dizer alguma coisa a Kieran, apenas para descobrir que ele não estava lá. Kieran esteve ao seu lado todas as manhãs em que Mark acordou, durante anos, no Reino das Fadas.
Kieran deveria ter vindo vê-lo na noite em que Mark ficou cuidando das crianças na cozinha. Mas não apareceu. Também não houve nenhuma comunicação da parte dele, e Mark estava preocupado. Ele disse a si mesmo que o príncipe fada provavelmente só estava sendo cauteloso, mas pegou sua mão tocando aponta de flecha que trazia no pescoço com mais frequência que o normal.
Era um gesto que lhe lembrava Cristina, o jeito como ela tocava o medalhão que usava quando estava nervosa. Cristina. Ele ficou imaginando o que teria se passado entre ela e Diego.
Mark virou as costas para a janela quando veio o som. Sua audição tinha se aprimorado pelos anos na Caçada; ele duvidava que qualquer outra pessoa no Instituto tivesse ouvido ou acordado.
Foi uma única nota, o som do chifre de Gwyn, o Caçador: agudo e severo, tão solitário quanto as montanhas. O sangue de Mark esfriou. Não foi uma saudação, nem mesmo uma chamada à Caçada. Era a nota que Gwyn soprava quando estavam procurando um desertor. O som da traição.


Julian tinha se ajeitado, passando as mãos pelos cachos desalinhados, o queixo travado.
— Emma — chamou ele. — Entre.
Emma se virou e marchou de volta para o Instituto; apenas o bastante para pegar Cortana, que guardava perto da porta. Ela voltou para fora e viu que o comitê de fadas desmontara dos cavalos, que permaneciam absurdamente imóveis, como se estivessem amarrados. Tinham olhos vermelhos como sangue, e as crinas entrelaçadas por flores vermelhas. Alazões do Reino das Fadas.
Gwyn se aproximou da base da escada. Ele tinha uma face estranha, ligeiramente alienígena: olhos arregalados, maçãs do rosto largas, sobrancelhas malignas. Um olho preto, outro azul-claro.
Ao lado dele veio Iarlath, seus olhos amarelos sem piscar. E, do outro lado, Kieran. Ele era tão lindo quanto Emma se lembrava, e tão frio quanto. O rosto pálido era tão talhado quanto mármore, seus olhos preto e prata inconfundíveis à luz do sol.
— O que está havendo? — Emma quis saber. — Aconteceu alguma coisa?
Gwyn olhou para ela, descartando-a.
— Isso não é da sua conta, menina Carstairs — falou o Caçador. — Esse assunto envolve Mark Blackthorn. E mais nenhum de vocês.
Julian cruzou os braços.
— Qualquer coisa que envolve meu irmão me envolve. Aliás, envolve todos nós.
A boca de Kieran estava rija em uma linha intransigente.
— Nós somos Gwyn e Kieran, da Caçada Selvagem, e Iarlath, da Corte Unseelie, e estamos aqui para tratar de uma questão de justiça. E você vai buscar o seu irmão.
Emma foi para o meio do degrau superior, tirando Cortana da bainha, que soltou faíscas brilhantes no ar.
— Não diga a ele o que fazer — avisou ela. — Não aqui. Não nos degraus do Instituto.
Gwyn soltou uma risada inesperada.
— Não seja tola, menina Carstairs — respondeu ele. — Nenhum Caçador de Sombras pode conter três fadas, nem mesmo armado com uma das Grandes Espadas.
— Eu não subestimaria Emma — aconselhou Julian com a voz afiada feito uma navalha. — Ou encontrará sua cabeça no chão, ao lado do corpo ainda em espasmos.
— Que coisa mais gráfica — falou Iarlath, entretido.
— Estou aqui — disse uma voz arfante atrás deles, e Emma semicerrou os olhos, o medo atravessando-a como dor.
Mark.
Parecia que ele tinha vestido uma calça jeans e um casaco com pressa, e enfiado os pés em um par de tênis. Seus cabelos louros estavam emaranhados, e ele parecia mais jovem do que normalmente, com os olhos arregalados de surpresa e um espanto indefeso.
— Mas meu tempo não acabou — disse Mark. Ele estava falando com Gwyn, mas olhando para Kieran. Havia uma expressão em seu rosto, uma que Emma não conseguia interpretar ou descrever, uma que parecia misturar súplica, dor e satisfação. — Ainda estamos tentando descobrir o que está acontecendo. Estamos quase lá. Mas o prazo...
— Prazo? — Kieran ecoou. — Ouça a si próprio. Você parece um deles.
Mark pareceu surpreso.
— Mas, Kieran...
— Mark Blackthorn — disse Iarlath. — Você é acusado de ter compartilhado um dos segredos do Reino das Fadas com uma Caçadora de Sombras, apesar de ter sido expressamente proibido de fazê-lo.
Mark deixou a porta do Instituto se fechar. Ele deu alguns passos para a frente, até ficar ao lado de Julian. Ele fechou as mãos às costas; estavam tremendo.
— Eu... eu não sei do que está falando — contestou ele. — Não contei nada proibido à minha família.
— Não estamos falando de sua família — disse Kieran, com um tom horrível na voz. — Ela.
— Ela? — perguntou Julian, olhando para Emma, mas ela balançou a cabeça.
— Eu não — negou a garota. — Ele está falando de Cristina.
— Não achou que fôssemos deixá-lo sem supervisão, achou, Mark? — disse Kieran. Os olhos preto e prata pareciam adagas desenhadas. — Eu estava do lado de fora da janela quando o ouvi falando com ela. Você contou como Gwyn pode ser privado de seus poderes. Um segredo sabido apenas pela Caçada e proibido de ser repetido.
Mark tinha ficado cinza.
— Eu não...
— Não há razão para mentir — disse Iarlath. — Kieran é um príncipe do Reino das Fadas e não pode mentir. Se ele diz que ouviu isso, então ouviu.
Mark desviou o olhar para Kieran. O sol não mais parecia belo para Emma, mas implacável, batendo nos cabelos dourados e na pele de Mark. Dor se espalhou por seu rosto como a mancha vermelha provocada por um tapa.
— Jamais significaria nada para Cristina. Ela jamais contaria a ninguém. Ela jamais me machucaria ou à Caçada.
Kieran virou o rosto, sua bela boca se contorcendo no canto.
— Basta.
Mark deu um passo à frente.
— Kieran — suplicou Mark. — Como pôde fazer isso? Comigo?
O rosto de Kieran enrijeceu.
— A traição não é minha — retrucou ele. — Fale com sua princesa Caçadora de Sombras sobre promessas quebradas.
— Gwyn. — Mark virou para falar com o líder da Caçada. — O que existe entre mim e Kieran não é uma questão para a lei das Cortes ou a Caçada. Desde quando interferem em questões do coração?
Questões do coração. Emma viu nas faces de ambos, na de Mark e na de Kieran, no jeito como olhavam um para o outro, e no jeito como não olhavam. Ficou se perguntando como podia não ter percebido antes, no Santuário, que esses dois se amavam. Duas pessoas que machucaram uma à outra de um jeito que apenas duas pessoas apaixonadas poderiam fazê-lo.
Kieran olhou para Mark, como se Mark tivesse lhe tirado algo insubstituivelmente precioso. E Mark parecia...
Mark parecia arrasado. Emma pensou nela mesma na praia, de manhã com Julian, e no grito solitário das gaivotas que voavam acima.
— Criança — disse Gwyn e, para a surpresa de Emma, havia gentileza em sua voz. — Lamento a necessidade desta visita mais do que posso descrever. E, acredite em mim, a Caçada não interfere, como você diz, em questões do coração. Mas você violou uma das leis mais antigas da Caçada e colocou todos os integrantes em perigo.
— Exatamente — disse Kieran. — Mark transgrediu uma lei do Reino das Fadas e, por isso, ele deve voltar conosco e não mais ficar no mundo humano.
— Não — disse Iarlath. — Esse não é o castigo.
— Quê? — Kieran virou para ele, confuso. O cabelo brilhava nas pontas, com azul e branco, como uma geada. — Mas você disse...
— Eu não lhe disse nada sobre punições, pequeno príncipe — disse Iarlath, dando um passo à frente. — Você me contou sobre o comportamento de Mark Blackthorn, e eu disse que cuidaria disso. Se achou que isso significava que ele seria arrastado de volta para o Reino das Fadas para ser seu companheiro, então talvez você devesse se lembrar de que a segurança da nobreza do Reino das Fadas é mais suprema do que as vontades do filho do Rei Unseelie. — Ele olhou duramente para Mark, os olhos sombrios à luz do sol. — O Rei me deu permissão para escolher o seu castigo — anunciou. — Serão vinte chicotadas nas costas, e se considere sortudo por não serem mais.
— NÃO! — A palavra saiu como uma explosão. Para surpresa de Emma, foi Julian; Julian, que nunca levantava a voz. Julian, que jamais gritava. Ele começou a descer as escadas; Emma o seguiu, Cortana firme na mão.
Kieran e Mark estavam calados, olhando um para o outro. O resto do sangue deixou o rosto de Kieran, e ele parecia enjoado. Ele não se mexeu quando Julian avançou, bloqueando-o do olhar de Mark.
— Se algum de vocês tocar meu irmão para machucá-lo, eu mato.
Gwyn balançou a cabeça.
— Não pense que não admiro seu espírito, Blackthorn — disse ele. — Mas eu pensaria duas vezes antes de tentar agredir um comitê do Reino das Fadas.
— Tente impedir e nosso acordo se encerra — disse Iarlath. — A investigação cessará, e levaremos Mark conosco de volta ao Reino das Fadas. Ele será chicoteado lá e poderá acontecer coisa pior. Você não vai ganhar nada, mas vai perder muito.
Julian cerrou as mãos em punhos.
— Acha que só você entende honra? Não pode entender o que podemos perder ficando aqui parados e deixando que você humilhe e torture Mark? É por isso que fadas são detestadas, por causa dessa crueldade sem sentido.
— Cuidado, menino — resmungou Gwyn. — Você tem suas Leis, e nós temos as nossas. A diferença é que nós não fingimos que a nossa não é cruel.
— A Lei é dura — disse Iarlath, entretido —, mas é a Lei.
Mark falou pela primeira vez desde que Iarlath declarou sua sentença.
— Uma lei ruim não é lei — rebateu ele. Parecia entorpecido.
Emma pensou no menino que tinha caído no Santuário, que tinha gritado ao ser tocado e que falou de surras que claramente ainda o apavoravam. Ela sentiu como se seu coração estivesse sendo arrancado; chicotear Mark, logo ele? Mark cujo corpo poderia se curar, mas cuja alma jamais se recuperaria?
— Vocês nos procuraram — disse Julian. O tom era desesperado. — Vocês vieram até nós... fizeram uma barganha conosco. Precisavam da nossa ajuda. Nós arriscamos tudo, para resolver isso. Tudo bem, Mark cometeu um erro, mas esse teste de lealdade está sendo mal empregado.
— Não é uma questão de lealdade — disse Iarlath. — É uma questão de exemplo. Essas são as leis. É assim que funciona. Se permitirmos que Mark nos traia, outros aprenderão que somos fracos. — Seu olhar era satisfeito. Ganancioso. — A barganha é importante. Mas isso é mais.
Mark então deu um passo para a frente, pegando no ombro de Julian.
— Você não pode mudar isso, irmãozinho — falou. — Deixe que aconteça. — Ele olhou para Iarlath, e depois para Gwyn. Não olhou para Kieran. — Vou receber o castigo.
Emma ouviu Iarlath rir. Um ruído frio e agudo como gelo rachando. Ele alcançou a própria capa e pegou um punhado de pedras vermelhas como sangue. Jogou-as no chão. Mark, claramente familiarizado com o que Iarlath estava fazendo, ficou pálido.
No ponto do chão onde Iarlath jogou as pedras, algo começou a brotar. Uma árvore, torta e nodosa, seu tronco e folhas da cor de sangue. Mark assistiu com um fascínio horrorizado. Kieran parecia prestes a vomitar.
— Jules — sussurrou Emma. Era a primeira vez que o chamava assim desde a noite na praia.
Julian ficou encarando Emma cegamente por um instante antes de se virar e descer o resto da escada. Após um instante congelado, Emma foi atrás. Iarlath imediatamente se moveu para bloquear a passagem dela.
— Guarde a espada — rosnou ele. — Sem armas na presença do Povo das Fadas. Sabemos muito bem que não são confiáveis com elas.
Emma manejou Cortana com tanta velocidade que a lâmina foi um borrão. A ponta dela passou por baixo do queixo de Iarlath, a um milímetro da sua pele, descrevendo o arco de um sorriso mortal. Ele emitiu um ruído na garganta mesmo enquanto ela guardava a espada de volta na bainha, com força suficiente para que fosse audível. Ela o encarou, os olhos brilhando de raiva.
Gwyn riu.
— E eu achando que os Carstairs só serviam para música.
Iarlath lançou a Emma um olhar obsceno antes de girar e ir atrás de Mark. Ele tinha começado a desenrolar uma corda que trazia amarrada na cintura.
— Ponha as mãos no tronco da sorva — mandou ele. Emma presumiu que estivesse se referindo a árvore escura e retorcida com galhos afiados e folhas cor de sangue.
— Não. — Kieran, parecendo desesperado, girou de forma fluida para Iarlath. Então se jogou no chão, ajoelhando-se, com as mãos estendidas. — Eu imploro — pediu. — Como príncipe da Corte Unseelie, eu imploro. Não machuque Mark. Faça o que quiser comigo, em vez dele.
Iarlath desdenhou.
— Chicoteá-lo enfureceria seu pai. Isso não. Levante-se, principezinho. Não se envergonhe ainda mais.
Kieran levantou, cambaleante.
— Por favor — pediu de novo, olhando não para Iarlath, mas para Mark.
Mark lançou a ele um olhar tão cheio de ódio que Emma quase se encolheu. Kieran pareceu, se possível, ainda mais enjoado.
— Você deveria ter previsto isso, cãozinho — disse Iarlath, mas seu olhar não estava em Kieran; estava em Mark, faminto, cheio de apetite, como se a ideia de chicoteá-lo o estimulasse tanto quanto pensar em comida. Mark esticou o braço para a árvore...
Julian deu um passo à frente.
— Me chicoteie no lugar dele — disse o garoto.
Por um instante todo mundo congelou. Emma sentiu como se um taco de beisebol a tivesse acertado no peito.
— Não. — Ela tentou dizer, mas a palavra não saiu.
Mark virou para encarar o irmão.
— Não pode — disse ele. — Meu foi o crime. Meu deve ser o castigo.
Julian passou por Mark, quase o empurrando de lado com sua determinação de se apresentar diante de Gwyn. Ele estava com a coluna ereta e o queixo erguido.
— Em uma batalha de fadas, uma delas pode escolher um campeão para representá-la — disse ele. — Se posso representar meu irmão em uma luta, por que não agora?
— Porque fui eu que transgredi a lei! — Mark parecia desesperado.
— Meu irmão foi levado no início da Guerra Maligna — disse Julian. — Ele nunca lutou em combate. As mãos dele estão limpas de sangue de fada. Ao passo que eu estava em Alicante. Eu matei o Povo das Fadas.
— Ele está lhe incitando — disse Mark. — Ele não quer dizer nada disso...
— Quero sim — insistiu Julian. — É a verdade.
— Se alguém se oferece para tomar o lugar de um homem condenado, não podemos negar. — O olhar de Gwyn parecia perturbado. — Tem certeza, Julian Blackthorn? Esse castigo não é seu.
Julian inclinou a cabeça.
— Tenho certeza.
— Deixe que ele seja chicoteado — disse Kieran. — É o seu desejo. Deixe que o faça.
Depois disso, as coisas aconteceram muito depressa. Mark se jogou para cima de Kieran, com uma expressão assassina. Ele estava gritando ao enterrar os dedos na frente da camisa de Kieran, sacudindo-o. Emma avançou e foi derrubada por Gwyn, que foi separar Kieran e Mark, puxando Mark brutalmente de lado.
— Maldito — disse Mark. Sua boca estava sangrando. Ele cuspiu nos pés de Kieran. — Seu arrogante...
— Basta, Mark. — Gwyn se irritou. — Kieran é um príncipe da Corte Unseelie.
— Ele é meu inimigo — disse Mark. — Agora e para sempre, meu inimigo. — E ergueu a mão como se fosse agredir Kieran; Kieran não se mexeu, apenas olhou para ele, com aqueles olhos estilhaçados. Mark abaixou a mão e lhe deu as costas, como se não suportasse mais olhar para Kieran. — Jules. — Foi o que disse, afinal. — Julian, por favor, não faça isso.
Julian lançou um sorriso lento e doce ao irmão. Naquele sorriso estava todo o amor e o encanto de um garotinho que tinha perdido seu irmão, e, contra todas as probabilidades, o conseguido de volta.
— Não pode ser você, Mark...
— Leve-o. — Iarlath disse a Gwyn, e Gwyn, cheio de relutância, deu um passo para a frente e pegou Mark, puxando-o para longe de Julian. Mark se debateu, mas Gwyn era enorme, com braços imensos. Ele segurou Mark com firmeza, com a expressão impassível, enquanto Julian esticava o braço para tirar o casaco e depois a camisa.
À clara luz do dia, sua pele, levemente bronzeada, porém mais clara nas costas e no peito, parecia exposta e vulnerável. Os cabelos estavam inteiramente bagunçados pelo colarinho da camisa e, enquanto a jogava no chão, olhou para Emma.
O olhar de Julian rompeu o gelo que a agarrava.
— Julian. — A voz dela tremeu. — Você não pode fazer isso. — Ela avançou e encontrou Iarlath bloqueando sua passagem.
— Parada — sibilou Iarlath.
Ele se afastou de Emma, que tentou ir atrás dele, mas descobriu suas pernas fixas no lugar. Não conseguia se mexer. O chiado do feitiço coçava suas pernas e a espinha, mantendo-a firme no lugar, como uma armadilha para ursos. Ela tentou se soltar, e teve que conter um grito de dor quando a magia da fada puxou e rasgou sua pele.
Julian deu um passo para a frente e colocou as mãos na árvore, abaixando a cabeça. A longa linha da sua espinha era absurdamente linda para Emma. Parecia o arco de uma onda, logo antes de quebrar. Cicatrizes brancas e Marcas pretas decoravam suas costas como uma ilustração infantil feita em pele e sangue.
— Me solte! — gritou Mark, se contorcendo no aperto de Gwyn.
Era como um pesadelo, pensou Emma, um daqueles sonhos em que você corre, corre, e nunca chega a lugar nenhum, exceto que agora era real. Ela estava lutando para mexer os braços e pernas contra uma força invisível que a mantinha no lugar, como uma borboleta presa por um alfinete.
Iarlath marchou em direção a Julian. Algo brilhou em sua mão, algo longo, fino e prateado. Ao chegar para a frente, sentindo o ar, Emma viu que ele segurava o cabo de um chicote de prata. Ele encolheu o braço.
— Caçadores de Sombras tolos — falou o homem fada. — Ingênuos demais até para saberem em quem podem confiar.
O chicote desceu. Emma o viu agredir a pele de Julian, viu o sangue, viu as costas dele se encolherem e o corpo abaixar.
Dor explodiu dentro dela. Foi como se uma barra de fogo tivesse sido posta em sua coluna. Ela se encolheu, sentindo o gosto de sangue na boca.
— Pare! — berrou Mark. — Não vê que está machucando os dois? Esse não é o castigo! Solte-me, eu não tenho um parabatai, solte-me, me chicoteie em vez dele...
As palavras dele correram na cabeça de Emma. A dor ainda pulsava por seu corpo.
Gwyn, Iarlath e Kieran olhavam dela para Julian. Tinha uma longa ferida sangrenta e molhada em suas costas, e ele estava agarrando o tronco da árvore. Suor escurecia seus cabelos.
O coração de Emma se partiu. Se o que ela sentiu foi uma agonia, o que ele sentiu? Duas, quatro vezes mais?
— Tire-a daqui — disse Iarlath, irritado. — Esses gritos são ridículos.
— Isso não é histeria, Iarlath — retrucou Kieran. — É porque ela é parabatai dele. Sua parceira guerreira, eles são ligados...
— Pela Dama, que alvoroço — sibilou Iarlath, e chicoteou novamente. Desta vez Julian emitiu um ruído. Um som engasgado, quase inaudível.
Ele caiu de joelhos, ainda segurando a árvore. Emma sentiu dor outra vez, mas agora ela estava preparada. Ela gritou; e não foi um grito qualquer, mas um berro ecoante de horror e traição, um uivo de raiva, dor e fúria.
Gwyn esticou o braço para Iarlath, mas estava olhando para Emma.
— Pare — falou o Caçador.
Emma sentiu o peso do olhar dele, em seguida, uma leveza quando o feitiço que a prendia no lugar desapareceu.
Ela correu para Julian, e se ajoelhou ao lado dele, puxando a estela do cinto.
Ouviu Iarlath protestando e Gwyn dizendo a ele que ficasse quieto. Ela não prestou atenção. Tudo que conseguia enxergar era Julian – Julian de joelhos, com os braços em volta da árvore, com a testa contra o tronco. Sangue corria por suas costas expostas. Os músculos dos ombros flexionaram quando ela o alcançou, como se ele estivesse se preparando para um terceiro golpe.
Jules, ela pensou, e, como se a tivesse ouvido, ele virou um pouco o rosto.
Tinha mordido o lábio inferior. Sangue corria pelo queixo. Ele a olhou cegamente, como um homem que via uma miragem.
— Em? — Ele engasgou.
— Shh — disse ela, colocando a mão em sua bochecha, os dedos nos cabelos dele. Ele estava molhado de sangue e suor, as pupilas dilatadas. Ela conseguiu se enxergar nelas, ver seu rosto pálido, cansado.
Tocou a pele dele com a estela.
— Preciso curá-lo — disse ela. — Deixe-me curá-lo.
— Isso é ridículo — protestou Iarlath. — O menino deveria levar as chicotadas...
— Deixe, Iarlath — disse Gwyn. Seus braços estavam firmes em volta de Mark.
Iarlath retrocedeu, murmurando... Mark estava se debatendo e engasgando... a estela fria na mão de Emma... ainda mais fria ao tocá-la na pele de Julian...
Ela desenhou o símbolo.
— Durma, meu amor — sussurrou, tão baixo que só Julian podia escutar. Por um instante os olhos dele se arregalaram, claros e espantados. Depois se fecharam, e ele caiu no chão.
— Emma! — A voz de Mark foi um grito. — O que você fez?
Emma se levantou, virando para ver o rosto de Iarlath, ardendo em fúria.
Gwyn, no entanto... Ela achou que tinha detectado um quê de divertimento em seus olhos, como se ele esperasse que ela fizesse o que fez.
— Eu o apaguei — disse ela. — Ele está inconsciente. Nada do que você possa fazer vai acordá-lo.
O lábio de Iarlath se curvou.
— Acha que nos priva de nosso castigo por privá-lo da capacidade de sentir? Você é tão tola assim? — Ele se voltou para Gwyn. — Traga Mark — rosnou. — Vamos chicoteá-lo no lugar do menino, e aí teremos chicoteado dois dos Blackthorn.
— Não! — berrou Kieran. — Não! Eu proíbo... Não posso suportar...
— Ninguém liga para o que você pode suportar, principezinho, muito menos eu — disse Iarlath. Seu sorriso era retorcido. — Sim, vamos chicotear os dois irmãos — falou. — Mark não vai escapar. E eu duvido que seu parabatai a perdoe tão cedo por isso — acrescentou, voltando-se novamente para Emma.
— Em vez de chicotear dois Blackthorn — sugeriu ela — você pode chicotear um Blackthorn e uma Carstairs. Isso não seria melhor?
Gwyn não tinha se mexido ao comando de Iarlath; agora seus olhos se arregalaram. Kieran respirou fundo.
— Julian lhe contou que matou fadas durante a Guerra Maligna — disse ela. — Mas eu matei muito mais. Cortei suas gargantas; molhei meus dedos com o sangue delas. E faria tudo de novo.
— Silêncio! — Ódio preenchia a voz de Iarlath. — Como ousa se gabar de coisas assim?
Ela esticou a mão e levantou a camisa. Os olhos de Mark se arregalaram quando ela a jogou no chão. Estava na frente de todos eles, só de jeans e sutiã. Não se importava. Ela não se sentia nua, se sentia vestida de ódio e fúria, como uma guerreira de um dos contos de Arthur.
— Me chicoteie — falou ela. — Concorde com isso, e tudo acaba aqui. Do contrário, juro que o caçarei pela Terra das Fadas até a eternidade. Mark não pode, mas eu posso.
Iarlath disse algo exasperado em uma língua que Emma não conhecia, se virando para olhar para o mar. Kieran avançou em direção ao corpo encolhido de Julian.
— Não toque nele! — gritou Mark, mas Kieran não olhou para ele, apenas passou as mãos por baixo dos braços de Julian e o afastou da árvore. Ele o colocou a alguns metros de distância, retirando a própria túnica para envolvê-la em tomo do corpo inconsciente e ensanguentado de Julian.
Emma soltou um suspiro de alívio. O sol estava quente em suas costas nuas.
— Vá em frente — instigou ela. — A não ser que seja covarde demais para chicotear uma garota.
— Emma, pare — pediu Mark. A voz cheia de dor. — Deixe que seja eu.
Os olhos de Iarlath brilharam com uma luz cruel.
— Muito bem, Carstairs — falou ele. — Faça como fez o seu parabatai. Prepare-se para o chicote.
Emma viu a expressão de Gwyn se transformar em tristeza quando ela foi para a árvore. O tronco, de perto, era liso e tinha uma cor marrom-avermelhada escura. Era frio ao toque quando ela passou os braços em volta. Dava para ver as rachaduras individuais no tronco.
Ela agarrou a madeira com as mãos. Ouviu Mark chamar seu nome outra vez, mas parecia vir de muito longe. Iarlath foi para trás dela.
O chicote chiou quando ele o levantou. Ela fechou os olhos. Na escuridão por trás das pálpebras, ela viu Julian, e fogo em volta dele. Fogo na câmara da Cidade do Silêncio. Ela ouviu a voz dele sussurrar as palavras, aquelas velhas palavras da bíblia, retiradas e refeitas por Caçadores de Sombras para formarem o juramento parabatai.
Onde fores, irei...
O chicote desceu. Se ela achou que tinha sentido dor antes, agora foi agonia. Parecia que suas costas estavam sendo abertas por fogo. Ela cerrou os dentes para silenciar seu grito.
Rogai-me para não deixá-lo...
De novo. A dor foi pior desta vez. Seus dedos se enterraram na madeira da árvore.
Ou deixar de segui-lo...
De novo. Ela caiu de joelhos.
Assim o Anjo permita, e mais, se algo que não a morte nos separar.
De novo. A dor subiu com uma onda, bloqueando o sol. Ela gritou, mas não conseguia se ouvir – seus ouvidos estavam tapados, o mundo ruindo, se encolhendo. O chicote desceu uma quinta vez, sexta, sétima, e agora ela mal sentia enquanto a escuridão a engolia.

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