domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 20

Will sentou de pernas cruzadas sob o sol de fim da manhã fora de sua tenda, debruçado sobre a mensagem que Alyss tinha enviado na noite anterior.
Mortinn, um menino ex-taberneiro que tinha vindo para Malcolm depois de ser desfigurado horrorosamente por um caldeirão derramando água fervente, vigiava na borda da floresta durante a noite, obedientemente anotando os padrões de luz, que Alyss os enviou de sua janela.
Ele cometeu alguns erros, mas a essência da mensagem era bastante clara.
A tentação de Horace, sentado diante da sua própria tenda sem nada para ocupá-lo, era assistir ao processo. Mas, sabendo da preocupação de Will sobre o segredo do código, ele se afastou para checar as correntes segurando MacHaddish e seus dois guerreiros. Ciente de que eles ainda estavam seguros, parou para coçar a cabeça do cão quando ele passou. A cauda pesada bateu várias vezes no chão. O cão havia permanecido em vigília durante toda a noite enquanto os guardas humanos haviam mudado a cada poucas horas. Agora, Horace viu, Trobar tinha retomado a posição de guarda.
— Boa cadela, Pretinha — disse Horace.
As palavras foram saudadas por outro baque rabo do cão e um brilho de raiva de Trobar. O gigante raramente falava, Horace sabia. Seu paladar foi deformado, e isso fez de falar um esforço para ele. Além disso, suas palavras eram tão arrastadas que eram difíceis de compreender, e as inevitáveis perguntas que resultavam tendiam a embaraçar o grande homem. Desta vez, porém, ele estava suficientemente aborrecido para fazer o esforço.
 — Pe’tia Nã— disse ele.
Horace hesitou, então pensou que sabia o que tinha sido dito. Ele havia notado que Trobar tinha problemas com algumas consoantes.
— Pretinha não? — Ele arriscou, e o rosto irritado assentiu com veemência.
Horace encolheu desculpando-se, confuso. Todo mundo parecia estar a denegrir a sua escolha de nome para o cão, ele pensou.
— Então, qual é seu nome? — Perguntou ele.
Trobar pausou, depois, tentando com toda dificuldade para enunciar claramente, falou:
—Xom... bra— havia apenas uma sugestão mais leve do som de b no p.
Horace considerou por um momento, então, perguntou:
— Sombra?
O rosto grande se iluminou num sorriso e Trobar concordou com entusiasmo.
— Xom... bra.
Repetia, satisfeito que ele tinha comunicado algo. A cauda do cão bateu novamente quando ele disse a palavra. Horace estudou o cão, pensando como ela caiu junto, perto da barriga para o chão, movendo-se silenciosamente, como um fantasma.
— Esse é um bom nome — disse ele, verdadeiramente impressionado com a criatividade do gigante.
Trobar acenou favorável, uma vez mais.
— Me...or te Pe’tia — disse com desdém.
Horace levantou as sobrancelhas, no sarcasmo.
— De repente, todos viraram críticos — disse ele, e se virou para ver se o Will tinha acabado a decodificação da mensagem.
Atrás dele, quando ele se afastou, ele ouviu o barulho do riso profundo de Trobar.
Will foi escondendo sua cola em um bolso interno quando Horace retornou.
— Quais as novidades de Alyss? — Perguntou ele.
— Principalmente ela queria nos dizer sobre a visita de MacHaddish. Mas há notícias para Orman também. Temo que seu pai esteja morto.
O rosto de Horace endureceu.
— Keren mandou matá-lo?
Will deu de ombros.
— Não diretamente. Foi mais um acidente do que qualquer coisa, mas ao longo prazo ele é responsável. Alyss diz que nunca vai desistir. Sua única esperança é ir em frente com seu plano com os scottis.
— E não creio que ela tem alguma ideia do seu calendário? — Horace perguntou.
Will balançou a cabeça.
— Com toda a sorte, Malcolm vai pegar isso de MacHaddish hoje à noite — disse ele.
Mas Horace parecia duvidoso.
— Eu não dependeria disso. Ele parece um osso duro de roer. Você tem alguma ideia do que Malcolm tem em mente?
— Não tenho a menor ideia. Espero descobrir hoje à noite. Por agora, vou ter que dizer a Orman sobre seu pai.
Ele se levantou devagar, olhando para a folha de mensagem novamente, como se lhe dissesse alguma maneira fácil de dar a notícia dolorosa para Orman. Horace deixou cair uma grande mão no ombro do amigo.
— Eu vou com você — disse ele.
Não havia nada de concreto que pudesse fazer para tornar a situação melhor. Mas ele sabia que sua presença iria fornecer algum conforto e suporte para Will.
— Obrigado — disse Will, e eles começaram a atravessar a clareira juntos.
MacHaddish estava atento a cada movimento na clareira e os assistiu irem.
Orman estava na pequena cabine com Malcolm e Xander quando Will deu a notícia da morte de Syron. Orman aceitou a fatalidade.
— Alyss diz que ele não sentiu nenhuma dor, pelo menos — Will disse-lhe, na esperança de fazer a notícia mais fácil de suportar. — Ele estava inconsciente no final e só faleceu.
— Obrigado por me dizer — disse Orman. — Eu acho que sabia disso de qualquer maneira. Eu senti alguma coisa, uma falta ou uma perda. Sabia no meu coração que meu pai deveria estar morto.
Xander tinha os olhos cheios de lágrimas com a notícia. Ele serviu a família Syron desde que era adolescente. Sua tristeza não resultava tanto de um sentimento de carinho para a família, Xander era demais um servo para presumir afeição por seus mestres. Sua tristeza veio de um senso de dever. A morte de Syron trouxe com ele uma perda de sentido no homem pequeno, como se um braço ou uma perna que havia sido cortada.
Apesar do fato de que ele estava servindo como secretário de Orman nos últimos poucos meses, sua lealdade inicial tinha sido de Syron, e como Will e Horace havia notado em várias ocasiões anteriores, essa lealdade era profunda e integral ao seu caráter.
Ele lidou agora como sempre fez, tentando encontrar alguma maneira de servir Orman, agora oficialmente estabelecido como seu mestre permanente.
— Meu senhor, há algo que eu possa trazer para você? Qualquer coisa que eu possa fazer?
Orman deu um tapinha no ombro suavemente.
— Obrigado, Xander, mas você precisa chorar também. Ele era seu mestre antes de mim, e eu sei que você sempre serviu fielmente. Não se incomode sobre mim por um tempo.
O rosto do mordomo parecia dobrar perante eles, e Orman percebeu que o caminho mais eficaz para Xander lidar com a perda seria o de ocupar-se fazendo as coisas para seu mestre.
Em um segundo pensamento, ele disse:
— Acho que eu poderia usar um copo grande de chá agora mesmo. Se não estiver incomodando demais.
O rosto de Xander limpou imediatamente.
— Agora mesmo, meu senhor! — Disse ele. Olhou para os outros. — Alguém mais? — Perguntou ele.
Will e Horace esconderam sua surpresa. O mordomo pouco tinha sido decididamente espinhoso sobre os últimos dias. Malcolm, no entanto, entendeu sua necessidade de algo para fazer.
— Eu gostaria de um copo também, Xander, se você não se importa — disse ele suavemente.
Xander assentiu com a cabeça várias vezes e se movimentava em direção a cozinha da pequena cabana, esfregando as mãos energicamente juntas.
— Qual é o plano de ação para essa noite? — Will perguntou para Malcolm quando o mordomo tinha deixado o quarto.
— Há uma clareira um pouco a leste de aqui — disse Malcolm. — Meu povo está criando algumas coisas agora. Nós levaremos MacHaddish lá uma vez que a lua aparecer.
Horace franziu a testa, pensativo. Ele estava pensando há algum tempo como Malcolm pretendia fazer MacHaddish responder a perguntas.
— O que exatamente você tem em mente? — Perguntou ele.
O curandeiro o considerou. Seu rosto normalmente gentil estava desprovido de expressão.
— Estou planejando atacar as superstições e medos de MacHaddish. Os scottis têm uma série de demônios e seres sobrenaturais que eu posso usar.
— Você sabe quais são? — Orman perguntou, olhando o curandeiro com algum interesse.
Malcolm timidamente deu de ombros.
— Bem, sim. Uma das minhas pessoas passou seus primeiros anos de vida ao norte da fronteira. Ele está familiarizado com os demônios scottis e superstições. — Um pensamento chegou e ele olhou para Will. — Acho que vamos precisar de alguns escandinavos hoje a noite como guardas — disse ele. — Pergunte Gundar se podemos ter dois ou três de seus mais simplórios e supersticiosos homens.
— Eu vou dizer a ele — disse Will com dúvida. — Mas não podemos estar melhores, com guardas mais inteligentes?
Malcolm balançou a cabeça.
— O terror se alimenta de si mesmo. Se MacHaddish vir que os escandinavos estão aterrorizados, vai tornar mais fácil para amedrontá-lo. E vai ser melhor se não estiverem atuando.
Xander voltou nesse momento, com uma bandeja com duas canecas de chá fumegante. Ofereceu a bandeja a Orman, que tomou um copo com cuidado.
— Obrigado, Xander — disse ele. — Eu não sei o que eu faria sem você.
Xander sorriu. Era uma manifestação incomum em seu rosto, e Will e Horace trocaram um olhar surpreso. Eles tinham acabado de testemunhar uma lição de liderança e autoridade.
— E graças a vocês — disse Malcolm, por sua vez. Ele deu um gole apreciando seu chá, então perguntou a Will e Horace: — Eu suponho que você dois estarão lá para assistir hoje à noite?
— Claro — respondeu Will. — Nós não perderíamos isso por nada deste mundo.
Malcolm balançou a cabeça.
— Pensei que você poderia dizer isso. Bem, eu vou pedir para Trobar trazer vocês todos quando a hora certa chegar. Eu vou deixar pouco tempo para conseguir algumas coisas prontas na clareira.
Olhou para baixo em sua xícara de chá e sorriu.
— Tão logo eu terminar este chá excelente.

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