sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 20 - Há muito tempo

A sala de jantar formal do Instituto raramente era usada, a família comia na cozinha, exceto pelas raras ocasiões em que o tio Arthur estava junto. A sala era cheia de pinturas emolduradas dos Blackthorn, trazidas da Inglaterra, os nomes escritos sob as imagens. Rupert. John. Tristan. Adelaide. Jesse. Tatiana. Eles olhavam de soslaio para uma longa mesa de carvalho rodeada por cadeiras de encostos altos.
Mark se ajeitou na mesa, fitando as paredes.
— Gosto deles — falou o garoto. — Dos retratos. Sempre gostei.
— Eles parecem amigáveis para você? — Emma se apoiava na entrada. A porta estava parcialmente aberta e através dela dava para ver a antessala e Julian falando com os irmãos.
Livvy agarrava o sabre e parecia furiosa. Ty, ao lado dela, estava com o rosto vazio, mas as mãos se ocupavam, amarrando e desamarrando.
— Tavvy está acordado brincando lá em cima — dizia Drusilla. Ela estava de pijama, seus cabelos castanhos, penteados. — Com sorte, ele vai apagar. Normalmente ele dorme até durante a guerra. Quero dizer...
— Isso não era uma guerra — explicou Julian. — Apesar de termos tidos alguns momentos difíceis antes de Malcolm aparecer.
— Julian chamou Malcolm, hum? — perguntou Emma, voltando-se novamente para a sala de jantar. — Apesar de você estar aqui, e Malcolm não saber?
— Ele teve que chamar — respondeu Mark, e Emma ficou impressionada pelo quão humano ele soou. E parecia humano, também, de jeans e casaco, sentado casualmente à mesa. — Tinham trezentos Seguidores cercando o local, e não podíamos chamar o Conclave.
— Ele poderia ter pedido para você se esconder — disse Emma. Tinha sangue e sujeira no casaco dela. Ela o colocou no encosto de uma cadeira próxima.
— Ele pediu — falou Mark. — Eu recusei.
— Quê? Por que você fez isso?
Mark não disse nada, apenas olhou para ela.
— Sua mão — disse ele. — Está sangrando.
Emma olhou para baixo. Ele tinha razão; havia um corte nas juntas.
— Não é nada.
Ele pegou a mão dela, olhando criticamente para o sangue.
— Eu poderia desenhar um iratze — falou Mark. — Só porque não os quero na minha pele, não significa que não vou desenhá-los em mais ninguém.
Emma retraiu a mão.
— Não se preocupe com isso — minimizou ela, voltando para olhar para a entrada.
— E da próxima vez? — Ty estava perguntando. — Teremos que chamar o Conclave. Não podemos fazer isso sozinhos e esperar que Malcolm sempre esteja por perto.
— O Conclave não pode saber — disse Julian.
— Jules — interveio Livvy. — Então, todos nós sabemos, mas não tem um jeito... Quero dizer, o Conclave teria que entender que Mark... ele é nosso irmão...
— Eu cuido disso — avisou Julian.
— E se eles voltarem? — insistiu Dru em voz baixa.
— Você confia em mim? — perguntou Julian gentilmente. Ela fez que sim com a cabeça. — Então não se preocupe com isso. Eles não vão voltar.
Emma suspirou para si mesma quando Julian mandou os irmãos para cima. Ele ficou ali parado, vendo-os subir, e depois se voltou para a sala de jantar.
Emma se afastou da porta e se sentou em uma das cadeiras de encosto alto quando Julian entrou.
O candelabro de luz enfeitiçada no alto brilhava para baixo: uma implacável interrogação branca e dura. Julian fechou a porta e se apoiou nela. Seus olhos azul-esverdeados brilhavam na face sem cor. Quando ele esticou a mão para tirar o cabelo da testa, Emma viu que seus dedos sangravam onde ele havia roído as unhas até o leito ungueal.
Leito ungueal. Ela aprendera o termo com Diana, vendo Julian roer as unhas sem parar enquanto Ty e Livvy usavam a sala de treinamento.
— Roer as unhas até o leito ungueal não vai ajudá-lo a aprender a segurar uma espada — dissera Diana, e Emma pesquisou o termo.
Leito ungueal: a carne macia abaixo da unha.
Ela não conseguia deixar de pensar nisso como uma metáfora para a vida, como se Julian estivesse tentando roer até a matéria sangrenta de sua vida, de algum jeito cauterizar toda a desordem. Ela sabia que ele fazia isso quando se sentia chateado e ansioso: quando Ty estava infeliz, quando o tio Arthur tinha uma reunião com a Clave, quando Helen ligava e ele dizia que estava tudo bem, e que ela e Aline não deveriam se preocupar, e sim, ele entendia por que elas não podiam voltar da Ilha Wrangel.
E ele estava fazendo isso agora.
— Julian — disse Emma. — Você não precisa fazer isso se não quiser. Não precisa nos contar nada...
— Preciso, na verdade — disse ele. — E preciso falar por um tempo sem ser interrompido. Depois disso, responderei qualquer pergunta que vocês tenham. Tudo bem?
Mark e Emma fizeram que sim com a cabeça.
— Depois da Guerra Maligna, só nos deixaram voltar para cá, para nossa casa, por causa do tio Arthur — começou Julian. — Só porque tínhamos um guardião pudemos ficar juntos. Um guardião que era nosso parente de sangue, nem tão jovem, nem tão velho, alguém que prometeu cuidar de seis crianças, se certificar de que fossem treinadas e educadas. Mais ninguém teria feito, exceto Helen, e ela havia sido exilada...
— E eu não estava mais aqui — disse Mark amargamente.
— Não foi culpa sua... — Julian parou, respirou fundo e balançou minimamente a cabeça. — Se vocês falarem — emendou —, se disserem qualquer coisa, não vou conseguir concluir.
Mark abaixou o queixo.
— Minhas desculpas.
— Mesmo que você não tivesse sido levado, Mark, você seria jovem demais. Só alguém com mais de 18 anos pode dirigir um Instituto e ser guardião de crianças. — Julian olhou para as próprias mãos, como se estivesse em uma batalha interna, e depois levantou novamente o olhar. — A Clave achou que o tio Arthur fosse ser esse guardião. Nós também. Pensei isso quando ele veio para cá, e mesmo semanas após sua chegada. Talvez meses. Não me lembro. Sei que ele nunca se esforçou de verdade para tentar nos conhecer, mas eu falei para mim mesmo que não tinha importância. Falei para mim mesmo que não precisávamos de um guardião que fosse nos amar. Só de alguém que nos mantivesse juntos.
Olhou nos olhos de Emma, e as próximas palavras pareceram diretamente para ela.
— Nós nos amávamos o suficiente, eu pensei. Para que isso não tivesse importância. Ele podia não demonstrar afeto, mas poderia cuidar do Instituto. Então, quando ele passou a descer cada vez menos, e as cartas de outros Institutos e as ligações da Clave passaram a ficar sem resposta, comecei a perceber que havia alguma coisa terrivelmente errada. Foi logo depois da Paz Fria, e as disputas territoriais estavam dividindo a cidade: vampiros, lobisomens e feiticeiros, indo atrás do que costumava pertencer às fadas. Ficamos cercados, eram telefonemas e visitas, pedindo que resolvêssemos os problemas. Eu subia para o sótão, levava a comida dele e implorava para que respondesse às cartas, aos telefonemas. Implorava para que ele fizesse o que tinha que fazer para impedir que a Clave se intrometesse. Porque eu sabia o que aconteceria nesse caso. Não teríamos mais um guardião, e aí não teríamos mais uma casa. E aí...
Ele respirou fundo.
— Eles teriam mandado Emma para a nova Academia em Idris. Era o que queriam fazer inicialmente. Teriam mandado o restante de nós para Londres, provavelmente. Tavvy era apenas um bebê. Ele teria sido colocado com outra família. Drusilla também. Quanto a Ty... Imagine o que teriam feito com Ty. Assim que ele começasse a agir de um jeito que achassem que não deveria, o teriam colocado no programa da “escória” da Academia. Ele teria sido separado de Livvy. Isso teria matado os dois.
Julian caminhou inquieto até o retrato de Jesse Blackthorn e olhou nos olhos verdes do ancestral.
— Então implorei que Arthur respondesse à Clave, fizesse qualquer coisa para demonstrar que era o diretor do Instituto. Cartas estavam se acumulando. Recados urgentes. Não tínhamos armas, e ele não as solicitava. Nossas lâminas serafim estavam se acabando. Subi as escadas uma noite para pedir a ele... — A voz falhou. — Para perguntar se ele podia assinar as cartas que eu tinha escrito, talvez isso ajudasse, e eu o encontrei no chão com uma faca. Ele estava cortando a própria pele, segundo ele, para o mal sair.
Julian ficou olhando firmemente para o retrato.
— Eu fiz um curativo. Mas depois que conversei com ele, percebi. A realidade do tio Arthur não é a nossa realidade. Ele vive em um mundo de sonhos onde às vezes eu sou Julian, e às vezes sou meu pai. Ele fala com pessoas que não estão presentes. Ah, tem vezes que ele sabe quem é e onde está. Mas esses momentos vêm e vão. E então há momentos de clareza em que se pode imaginar que ele está melhorando. Mas ele nunca vai ficar bom.
— Você está dizendo que ele é insano — disse Mark.
“Insanidade” era o termo das fadas; era um castigo das fadas, aliás, causar a insanidade, destruir a mente de alguém. “Loucura” é como os Caçadores de Sombras chamavam. Emma tinha a impressão de que havia termos diferentes entre os mundanos; tinha uma singela sensação de ter ouvido coisas em filmes, ou as lido em livros. Que havia uma forma menos cruel e absoluta de pensar naqueles cujas mentes funcionavam de um jeito diferente da maioria, cujos pensamentos causavam dor e medo. Mas a Clave era cruel e absoluta. Estava claro nas palavras que descreviam o código pelo qual viviam. A Lei é Dura, mas é a Lei.
— Lunático, acho que a Clave diria — disse Julian com uma curva amarga na boca. — É incrível que você continue sendo um Caçador de Sombras se tem uma doença física, mas aparentemente não o pode ser se tiver uma doença mental. Eu sabia mesmo aos 12 anos que se a Clave descobrisse em que tipo de estado Arthur realmente se encontrava, eles tomariam o Instituto. Acabariam com nossa família e seríamos separados. E eu não ia permitir que isso acontecesse.
Ele olhou de Mark para Emma, com os olhos em chamas.
— Já tivera gente o suficiente da minha família tirada de mim durante a guerra — continuou. — Todos nós tivemos. Já tínhamos perdido muito. Mamãe, papai, Helen, Mark. Eles teriam nos separado até virarmos adultos, e até lá não seríamos mais uma família. Eles eram minhas crianças. Livvy. Ty. Dru. Tavvy. Eu os criei. Eu me tornei o tio Arthur. Pegava a correspondência, respondia. Pagava as contas. Fazia os pedidos. Montava as agendas de patrulha. Nunca deixei que soubessem sobre a doença de Arthur. Eu dizia que ele era excêntrico, um gênio, que estava trabalhando no sótão. A verdade era... — Ele desviou o olhar. — Quando eu era mais novo, eu o odiava. Jamais queria que ele saísse do sótão, mas, às vezes, ele precisava. Havia reuniões presenciais que não podiam ser evitadas, e ninguém discutiria seus assuntos importantes com um menino de 12 anos. Então procurei Malcolm. Ele conseguiu criar um remédio que eu podia dar para o tio Arthur. Forçava períodos de clareza. Só duravam algumas horas, e, depois que o efeito passava, Arthur tinha dores de cabeça.
Emma pensou no jeito como Arthur segurou a cabeça depois do encontro com os representantes das fadas no Santuário. A lembrança da agonia no rosto dele – ela não conseguia esquecer, apesar de querer.
— Às vezes, eu o tentava manter fora do caminho com outros métodos — disse Julian, com a voz cheia de autodesprezo. — Como hoje, por exemplo, Malcolm deu um remédio para ele dormir. Sei que é errado. Acreditem em mim, tive a sensação de que iria para o Inferno por isso. Se existir um Inferno. Eu sabia que não devia fazer o que estava fazendo. Malcolm ficou quieto, jamais contou a ninguém, mas dava para perceber que ele não aprovava. Ele queria que eu contasse a verdade. Mas isso teria destruído nossa família.
Mark se inclinou para a frente. Sua expressão era indecifrável.
— E Diana?
— Eu nunca contei para ela, exatamente — respondeu Julian. — Mas acho que ela concluiu pelo menos algumas coisas.
— Por que ela não pediu para dirigir o Instituto? Em vez de deixá-lo nas mãos de um menino de 12 anos?
— Eu pedi para ela. Ela disse não. Falou que era impossível. Lamentou verdadeiramente e disse que ajudaria como pudesse. Diana tem... os próprios segredos. — Ele deu as costas para o retrato de Jesse. — Uma última coisa. Eu disse que odiava Arthur. Mas isso foi há muito tempo. Não o odeio agora. Odeio a Clave pelo que fariam com ele, e conosco, se soubessem.
Ele abaixou a cabeça. A luz enfeitiçada extremamente brilhante deixava as bordas de seus cabelos douradas, e as cicatrizes em sua pele prateadas.
— Então agora vocês sabem — concluiu Julian. Apertou o encosto da cadeira com as mãos. — Se me odiarem, entendo. Não consigo pensar em mais nada que eu pudesse ter feito. Mas entenderia.
Emma se levantou da cadeira.
— Acho que sabíamos — falou ela. — Não sabíamos... mas sabíamos. — Ela olhou para Julian. — Sabíamos, não sabíamos? Sabíamos que alguém estava cuidando de tudo, mas essa pessoa não era Arthur. Se nos permitimos crer que ele estava dirigindo o Instituto, é porque assim era mais fácil. Era o que queríamos que fosse verdade.
Julian fechou os olhos. Quando abriu novamente, estavam fixos no irmão.
— Mark? — chamou, e a pergunta estava implícita em uma única palavra: Mark, você me odeia?
Mark saiu da mesa. A luz enfeitiçada transformou em branco o cabelo claro.
— Não tenho direito de julgá-lo, irmão. Um dia fui o mais velho, mas você agora é mais velho do que eu. Quando eu estava no Reino das Fadas, toda noite pensava em cada um de vocês; você, Helen, Livvy, Ty, Dru e Tavvy. Eu dava os seus nomes às estrelas, de modo que, quando as via piscar para iluminar o céu, eu sentia como se estivessem comigo. Era tudo que eu podia fazer para acalentar o medo de que vocês estivessem feridos, ou morrendo, e que eu jamais saberia. Mas voltei para uma família que não só está viva e saudável, como também firme nos laços que não foram rompidos. Existe amor aqui, entre vocês. Tanto amor que fico até sem ar. Há até amor sobrando para mim.
Julian encarava Mark com um espanto hesitante. Emma sentiu lágrimas no fundo da garganta. Ela queria ir até Julian e abraçá-lo, mas mil coisas a contiveram.
— Se vocês quiserem que eu conte para os outros agora — disse Julian rouco — contarei.
— Agora é a hora de decidir — disse Mark, e com essa única frase, e do jeito que ele estava olhando para Julian agora, pela primeira vez desde a sua volta, Emma conseguiu enxergar um mundo no qual Julian e Mark estavam juntos, criaram os irmãos juntos e tomaram decisões sobre o que fazer juntos. Pela primeira vez, via a harmonia que tinham perdido. — Não quando houver inimigos nos cercando ou cercando o Instituto, não quando nossas vidas e nosso sangue estão em risco.
— É um fardo pesado a se carregar, esse segredo — retrucou Julian, e havia um tom de alerta em sua voz, mas havia esperança também. O coração de Emma doía pela situação: pelas escolhas dolorosas e desesperadas que tiveram que ser feitas por um menino de 12 anos, para manter sua família unida. Pela escuridão que cercava Arthur Blackthorn, e que não era culpa dele, mas que, se fosse revelada, o faria ser punido por seu próprio governo. Pelo peso de mil mentiras, contadas pelo bem, pois mentiras contadas pelo bem, eram mentiras ainda assim.
— E se os Seguidores cumprirem com sua ameaça...?
— Mas como eles sabem? — perguntou Emma. — Como sabem sobre Arthur?
Julian balançou a cabeça.
— Não sei — retrucou. — Mas acho que teremos que descobrir.


Cristina observou enquanto Diego, após tê-la colocado em uma das camas da enfermaria, percebia que não podia sentar ao lado dela com uma espada e uma besta presas ao corpo, e começou a retirá-las sem jeito.
Diego raramente ficava sem jeito. Em sua lembrança ele era gracioso, o mais gracioso dos irmãos Rocio Rosales, apesar de Jaime ser mais guerreiro e feroz.
Ele pendurou a besta e a espada, depois, abriu o zíper do casaco escuro e o pendurou em um dos cabides perto da porta.
Ele não estava olhando para ela; através da camiseta branca, ela pôde ver que ele tinha uma dúzia de novas cicatrizes, e ainda mais Marcas, algumas permanentes. Tinha um grande símbolo preto de Coragem na Batalha espalhada pela omoplata direita, uma linha subindo acima do colarinho. Ele parecia ter ficado mais largo, a cintura, os ombros e as costas duras com uma nova camada de músculos. O cabelo tinha crescido, o suficiente para tocar o colarinho. Resvalou nas bochechas quando ele se virou para encará-la.
Ela conseguira combater o choque de ver Diego no turbilhão de eventos que transcorreram desde que o viu no beco. Mas agora eram só os dois, sozinhos na enfermaria, e ela estava olhando para ele e enxergando o passado. O passado do qual tinha fugido e do qual tinha tentado se esquecer. Estava presente na forma como ele puxava a cadeira para se sentar ao lado dela e se inclinava para desamarrar-lhe cuidadosamente as botas, retirá-las, e enrolar a perna esquerda da calça. Estava presente na forma como seus cílios tocavam as bochechas quando ele se concentrava, passando a ponta da estela sobre sua perna ao lado do machucado, envolvendo-a em símbolos de cura. Estava presente na sarda que ele tinha no canto da boca e na maneira como ele franzia o rosto ao reclinar e examinar minuciosamente o seu trabalho.
— Cristina — chamou Diego. — Está melhor?
A dor tinha melhorado. Ela fez que sim com a cabeça, e ele relaxou com a estela na mão. Ele segurava o instrumento com força suficiente para que a velha cicatriz nas costas da mão se destacasse, muito branca, e ela se lembrou da mesma cicatriz e dos dedos desabotoando a camisa no quarto dela em San Miguel de Allende enquanto os sinos da paróquia soavam pelas janelas.
— Está melhor — disse ela.
— Ótimo. — Ele guardou a estela. — Tenemos que hablar.
— Em inglês, por favor — retrucou ela. — Estou tentando praticar.
Um olhar irritado tomou o rosto dele.
— Não precisa praticar. Seu inglês é perfeito, assim como o meu.
— Modesto, como sempre.
O sorriso dele brilhou.
— Senti falta de você me repreendendo.
— Diego... — Ela balançou a cabeça. — Você não deveria estar aqui. E não deveria falar que sente a minha falta.
O rosto dele era todo formado por linhas agudas: maçãs do rosto pronunciadas, além da mandíbula e das têmporas. Só a boca era suave, os cantos agora curvados para baixo com infelicidade. Ela se lembrou da primeira vez em que o beijou, no jardim do Instituto, e então afastou a lembrança vigorosamente.
— Mas é a verdade — disse ele. — Cristina, por que você fugiu daquele jeito? Por que não respondeu nenhuma das minhas mensagens nem as ligações?
Ela levantou a mão.
— Primeiro você — disse ela. — O que está fazendo em Los Angeles?
Ele apoiou o queixo nos braços cruzados.
— Depois que você partiu, eu não consegui ficar. Tudo me lembrava de você. Eu estava de licença da Scholomance. Íamos passar o verão juntos. E aí você se foi. Em um momento, estava na minha vida, e, em seguida, foi arrancada de mim. Eu estava perdido. Voltei a estudar, mas só pensava em você.
— Você tinha Jaime — disse ela com a voz dura.
— Ninguém tem Jaime. Acha que ele não entrou em pânico quando você foi embora? Vocês dois iam ser parabatai.
— Acho que ele vai sobreviver. — Cristina ouviu a própria voz, fria e baixa; parecia ter congelado e se tornado um pedacinho de gelo.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Relatórios chegavam de Los Angeles a Scholomance — emendou ele. — Incidências de magia necromante. Os esforços de sua amiga Emma em investigar a morte dos pais. A Clave acreditava que ela estava fazendo muito barulho por nada, que era claro que Sebastian tinha matado seus pais, mas ela não aceitava. Achei que ela pudesse estar certa, no entanto. Vim até aqui investigar, e, no meu primeiro dia, fui ao Mercado de Sombras. Ouça, é uma longa história... descobri onde era a casa de Wells...
— Onde você achou que seria uma boa ideia atirar com uma besta em um colega Caçador de Sombras?
— Eu não sabia que eles eram Caçadores de Sombras! Pensei que fossem assassinos... Eu não atirei para matar...
— No manches — disse Cristina secamente. — Você deveria ter ficado e dito a eles que era Nephilim. Aquelas flechas estavam envenenadas. Julian quase morreu.
— Eu imaginei. — Diego pareceu pesaroso. — As flechas não foram envenenadas por mim. Se eu soubesse, teria ficado. As armas que comprei no Mercado das Sombras deviam ter sido alteradas sem meu conhecimento.
— Bem, por que estava comprando armas lá, aliás? Por que não veio até o Instituto? — Cristina quis saber.
— Eu vim — falou Diego, para surpresa de Cristina. — Vim atrás de Arthur Blackthorn. E o encontrei no Santuário. Tentei dizer a ele quem eu era. Ele me disse que a danação dos Blackthorn era um assunto privado, que não queriam interferência, e que, se eu soubesse o que era melhor para mim, sairia da cidade antes que tudo ruísse.
— Ele disse isso? — Cristina se sentou, atônita.
— Percebi que não era bem-vindo aqui. Pensei até que os Blackhorn poderiam estar envolvidos na necromancia, de algum jeito.
— Eles nunca...!
— Bem, você pode dizer isso. Você os conhece. Eu não conhecia. Tudo que sabia era que o diretor do Instituto me mandou embora, mas eu não consegui porque você estava aqui. Talvez em perigo, talvez até ameaçada pelos Blackthorn. Tive que comprar armas no Mercado porque temi que, se fosse a algum dos tradicionais esconderijos de armas, descobririam que eu ainda estava aqui. Sabe, Cristina, não sou mentiroso...
— Você não mente? — Repetiu ela. — Quer saber por que saí de casa, Diego? Em maio estávamos em San Miguel de Allende. Eu fui até a praça e, quando voltei, você e Jaime conversavam no terraço. Ao atravessar o jardim, eu ouvi as vozes dos dois com clareza. Vocês não sabiam que eu estava ali...
Diego pareceu confuso.
— Eu não...
— Ouvi Jaime falando sobre como os Rosales errados estavam no poder. Deveriam ser vocês. Ele falava do plano que tinha. Certamente você se lembra. O plano em que você se casaria comigo, e ele se tornaria meu parabatai e juntos usariam a influência que tinham sobre mim e minha mãe para destituí-la da posição de diretora do Instituto de Cidade do México, e aí vocês assumiriam. Disse que a sua missão era fácil, se casando comigo, porque um dia poderia me deixar. Ser parabatai significaria estar comigo para sempre. Eu me lembro de Jaime falando isso.
— Cristina... — Diego estava pálido. — Por isso foi embora naquela noite. Não foi porque sua mãe estava doente e precisava de você no Instituto na cidade.
— Eu é que estava doente — disparou Cristina. — Você partiu meu coração, Diego, e seu irmão também. Não sei o que é pior, perder o seu melhor amigo, ou o menino por quem está apaixonada, mas posso dizer que foi como se os dois tivessem morrido para mim naquele dia. Por isso não atendo seus telefonemas nem respondo seus recados. Não se atende ligações de um morto.
— E quanto a Jaime? — Alguma coisa brilhou nos olhos dele. — E as ligações dele?
— Ele nunca ligou — disse Cristina, e quase sentiu prazer ao ver o choque no rosto dele. — Talvez ele seja mais sensato.
— Jaime? Jaime? — Diego estava de pé agora. Uma veia em sua têmpora pulsava. — Eu me lembro desse dia, Cristina. Jaime estava bêbado e tagarelando. Você me ouviu falar alguma coisa, ou só escutou o lado dele?
Cristina se forçou a pensar naquele dia. Na lembrança parecia uma cacofonia de vozes. Mas...
— Só ouvi Jaime — confessou. — Não ouvi você dizer uma única palavra. Nem para me defender. Nem para nada.
— Não havia razão para falar com Jaime quando ele estava daquele jeito — emendou Diego amargamente. — Deixei que ele falasse. Não devia ter feito isso. Eu não tinha o menor interesse no plano dele. Eu te amava. Queria partir com você. Ele é meu irmão, mas ele... ele nasceu com alguma coisa faltando, eu acho; algum pedaço do coração onde vive a compaixão.
— Ele ia ser meu parabatai — disse Cristina. — Eu ia me ligar a ele para sempre. E você não ia me falar nada? Não ia fazer nada para impedir?
— Ia — protestou Diego. — Jaime tinha planejado uma viagem a Idris. Eu estava esperando até que ele fosse embora. Precisava falar com você quando ele não estivesse presente.
Ela balançou a cabeça.
— Você não devia ter esperado.
— Cristina. — Ele veio em direção a ela, com as mãos estendidas. — Por favor, se não acredita em mais nada, acredite quando digo que sempre te amei. Realmente acha que menti desde a infância? Desde a primeira vez em que a beijei e você saiu correndo, rindo? Eu tinha 10 anos... realmente acha que aquilo foi algum tipo de plano?
Ela não pegou as mãos dele.
— Mas Jaime — retrucou ela. — Eu o conheço há muito tempo também. Ele sempre foi meu amigo. Mas não era, era? Ele disse coisas que nenhum amigo diria, e você sabia que ele estava me usando, e não falou nada.
— Eu ia contar...
— Intenções não significam nada — argumentou Cristina.
Ela achou que fosse sentir algum alívio, finalmente, ao contar para Diego por que o odiava, finalmente, descarregando o fato de que sabia o que tinha sido dito. Finalmente desfazendo o laço. Mas não parecia desfeito. Ela sentia o laço que os ligava, como sentiu quando desfaleceu na batida de carro na frente do Instituto e acordou com Diego segurando-a. Ele estava sussurrando ao seu ouvido que ela ficaria bem, que ela era a sua Cristina, era forte. E por um instante pareceu que os últimos meses tinham sido um sonho, e que ela estava em casa.
— Preciso ficar aqui — disse Diego. — Essas mortes, os Seguidores, eles são importantes demais. Sou um Centurião; não posso abandonar uma missão. Mas não preciso ficar no Instituto. Se quiser que eu vá embora, vou.
Cristina abriu a boca. Mas, antes que pudesse falar, seu telefone vibrou. Era uma mensagem de Emma.

PARE DE SE AGARRAR COM DIEGO PERFEITO E VENHA PARA A SALA DO COMPUTADOR, PRECISAMOS DE VOCÊ.

Cristina revirou os olhos, e guardou o telefone de volta no bolso.
— Temos que ir.

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