sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 2 - Nem os anjos no céu

— Julian diz que isto é minha Parede da Loucura — disse Emma.
Ela e Cristina estavam na frente do armário no quarto de Emma, cuja porta estava aberta.
O armário não continha roupas. O guarda-roupa de Emma, basicamente vestidos vintage e jeans comprados em brechós em Silver Lake e Santa Monica, ficava pendurado no outro roupeiro ou dobrado na cômoda. As paredes internas desse armário em seu quarto azul (o mural na parede, com andorinhas voando sobre as torres de um castelo, tinha sido feito por Julian quando ela se mudou, uma referência ao símbolo da família Carstairs) eram cobertas por fotos, recortes de jornal e anotações com a letra de Emma.
— Tudo é organizado por cor — explicou, apontando para as anotações. — Histórias de jornais mundanos, pesquisas sobre feitiços, pesquisas sobre línguas demoníacas, coisas que consegui extrair de Diana ao longo dos anos... Tudo que já encontrei que, de alguma forma, se relacione às mortes dos meus pais.
Cristina se aproximou para examinar as paredes, em seguida, girou de súbito e encarou Emma.
— Algumas dessas coisas parecem arquivos oficiais da Clave.
— E são — disse Emma. — Eu roubei o arquivo da sala da Consulesa em Idris quando tinha 12 anos.
— Você roubou isso de Jia Penhallow? — Cristina pareceu horrorizada.
Emma não podia culpá-la. A Consulesa era a oficial mais alta eleita pela Clave: só o Inquisidor chegava perto em termos de poder e influência.
— Onde mais eu conseguiria fotos dos corpos de meus pais? — perguntou Emma, tirando o casaco e o colocando na cama. Ela usava uma camiseta por baixo, a brisa esfriando seus braços.
— Então, as fotos que tirei hoje, onde elas se encaixam?
Cristina as entregou para Emma. Ainda estavam úmidas – a primeira coisa que fizeram ao chegar ao Instituto foi imprimir as duas fotos mais nítidas dos corpos no beco. Emma se inclinou e as prendeu cuidadosamente ao lado das fotos da Clave dos corpos de seus pais, agora desbotadas pelo tempo e se encurvando nas bordas.
Ela se inclinou para trás e olhou uma a uma. As marcas eram feias, espetadas, e era difícil se concentrar nelas. Pareciam se proteger contra a visão de alguém. Não era uma língua demoníaca identificada por ninguém, mas parecia que nenhuma mente humana teria sido capaz de concebê-la.
— E agora? — perguntou Cristina. —– Quero dizer, qual é o seu plano para o próximo passo?
— Vou ver o que Diana me diz amanhã — respondeu Emma. — Ver se ela descobriu alguma coisa. Será que os Irmãos do Silencio já sabem sobre os assassinatos de que o Rook falou? Se não souberem, voltarei ao Mercado das Sombras. Vou catar qualquer dinheiro que eu tenha ou ficarei devendo um favor a Johnny Rook, não me importo. Se alguém está matando pessoas e cobrindo corpos com essas marcas, então isso significa que... significa que Sebastian Morgenstern não matou meus pais há cinco anos. Significa que tenho razão e as mortes deles foram outra coisa.
— Pode não significar exatamente isso, Emma. — A voz de Cristina era gentil.
— Sou uma das poucas pessoas vivas que viu Sebastian Morgenstern atacar um Instituto — disse Emma. Era ao mesmo tempo uma de suas lembranças mais claras e um borrão: se lembrava de ter pego o bebê Tavvy com Dru atrás dela, de carregá-lo pelo Instituto enquanto os Crepusculares de Sebastian uivavam; se lembrava da visão do próprio Sebastian, com cabelos brancos e olhos pretos, mortos e demoníacos; se lembrava do sangue e de Mark; se lembrava de Julian esperando por ela. — Eu o vi. Vi o rosto dele, os olhos, quando me encarou. Não é que eu não ache que ele poderia matar meus pais. Ele teria matado qualquer um que se colocasse em seu caminho. É que acho que ele não teria perdido tempo com isso. — Seus olhos arderam. — Só preciso de mais provas. Tenho que convencer a Clave. Porque, enquanto isso estiver nas costas de Sebastian, o verdadeiro assassino, a pessoa responsável, não será punida. E não acho que sou capaz de suportar isso.
— Emma. — Cristina tocou levemente o braço da menina. — Sabe que acho que o Anjo tem planos para nós. Para você, e o que eu puder fazer para ajudá-la, farei.
Emma sabia disso. Para muitos Caçadores de Sombras, o Anjo que criou a raça dos Nephilim era uma figura distante. Para Cristina, Raziel era uma presença viva. No pescoço, ela usava uma medalha consagrada ao Anjo. Raziel era esculpido na frente, e havia palavras escritas em latim atrás: Abençoado seja o Anjo, minha força, que guia minhas mãos na guerra e meus dedos na luta.
Cristina frequentemente tocava a medalha: para pedir força, antes das provas, antes das batalhas. De muitas formas, Emma invejava Cristina pela fé que possuía. Às vezes, ela achava que as únicas coisas em que tinha fé eram na vingança e em Julian.
Emma encostou no mural, papel e anotações ásperos contra seu ombro nu.
— Mesmo que isso signifique violar regras? Sei que você detesta isso.
— Não sou tão monótona quanto você parece achar. — Cristina bateu levemente no ombro de Emma, fingindo estar ofendida. — Enfim, não podemos fazer mais nada por hoje. O que ajudaria a distrair sua mente? Filmes ruins? Sorvete?
— Apresentá-la aos Blackthorn — respondeu Emma, se afastando da parede do armário.
— Mas eles não estão aqui. — Cristina olhou para Emma como se estivesse preocupada com a possibilidade de ela ter batido a cabeça.
— Não estão e estão. — Emma estendeu a mão. — Venha comigo.
Cristina se permitiu ser guiada pelo corredor. Era todo de madeira e vidro, as janelas tinham vista para o mar, para a areia e o deserto. Quando Emma se mudou para o Instituto, achou que eventualmente a vista fosse desbotar de sua consciência, que ela não fosse acordar toda manhã ainda impressionada com o azul do oceano e do céu. Isso não aconteceu. O mar ainda a fascinava, com sua superfície que mudava constantemente, e o deserto, com suas sombras e flores.
Ela agora podia ver o brilho da lua no mar através das janelas noturnas: prata e preto.
Emma e Cristina atravessaram o corredor. Emma parou no topo de uma grande escadaria que descia para a entrada do Instituto. Ficava exatamente no meio do Instituto, bifurcando para as alas norte e sul. Emma tinha escolhido deliberadamente um quarto, há anos, que ficava no lado oposto dos Blackthorn. Era uma forma silenciosa de declarar que ainda era uma Carstairs.
Ela se apoiou no corrimão e olhou para baixo, com Cristina ao seu lado. Institutos eram feitos para impressionar: eram locais de reuniões de Caçadores de Sombras, o coração dos Conclaves – comunidades de Nephilim locais. A entrada imponente, uma sala quadrada cujo ponto de foco era a enorme escadaria que levava aos outros andares, o chão de mármore preto e branco, decorado com moveis de aparência desconfortável, nos quais ninguém se sentava. Parecia a entrada de um museu.
Do patamar, dava para ver que os mármores brancos e pretos que estampavam o chão formavam o Anjo Raziel, que se erguia das águas do Lago Lyn, em Idris, e segurava dois dos Instrumentos Mortais – uma espada brilhante e um cálice de ouro.
Era uma imagem que toda criança Caçadora de Sombras conhecia. Há mil anos o Anjo Raziel foi invocado por Jonathan Caçador de Sombras, o pai de todos os Nephilim, para exterminar a praga dos demônios. Raziel presenteou Jonathan com os Instrumentos Mortais e o Livro Gray, no qual se encontravam todos os símbolos. Ele também misturou seu sangue a sangue humano e deu para que Jonathan e seus seguidores bebessem, permitindo que suas peles suportassem os símbolos e que os primeiros Nephilim fossem criados. A imagem de Raziel emergindo da água era sagrada para os Nephilim: chamava-se Tríptico e era vista nos lugares onde Caçadores de Sombras se encontravam ou onde morriam.
A imagem no chão da entrada do Instituto era um memorial. Quando Sebastian Morgenstern e seu exército de fadas invadiram o Instituto, o chão era todo de mármore liso. Após a Guerra Maligna, as crianças Blackthorn voltaram para o Instituto e viram que o cômodo onde tantos morreram estava sendo derrubado. As pedras onde os Caçadores de Sombras sangraram foram substituídas, e o mural foi colocado para recordar os que morreram.
Toda vez que Emma passava por ali, se lembrava de seus pais e do pai de Julian. Ela não se incomodava; não queria esquecer.
— Quando você disse que estão e não estão, estava falando sobre Arthur estar aqui? — perguntou Cristina. Ela fitava o Anjo pensativamente.
— Definitivamente não. — Arthur Blackthorn era o diretor do Instituto de Los Angeles. Pelo menos, esse era seu título. Ele era um classicista, obcecado por mitologia grega e romana, constantemente trancado no sótão com fragmentos de cerâmica antiga, livros mofados, ensaios intermináveis e monografias. Emma achava que nunca o vira demostrar qualquer interesse pela causa dos Caçadores de Sombras. Ela podia contar nos dedos as vezes em que Cristina o viu desde sua chegada ao Instituto. — Apesar de me impressionar o fato de você saber onde ele mora.
Cristina revirou os olhos.
— Não revire os olhos. Enfraquece meu momento dramático. Quero meu momento dramático intacto.
— Que momento dramático? — perguntou Cristina — Por que me arrastou para cá quando eu quero tomar banho e trocar de roupa? Além disso, prefiro de café.
— Você sempre precisa de café — disse Emma, voltando pelo corredor para a outra ala da casa. — É um vício debilitante.
Cristina disse alguma coisa ofensiva baixinho em espanhol, mas seguiu Emma, a curiosidade claramente vencendo. Emma girou para poder andas de costas, como se fosse uma guia turística.
— Tudo bem, a maioria da família está na ala sul — explicou. — Primeira parada, quarto do Tavvy. — A porta do quarto de Octavian Blackthorn já estava aberta. Ele não ligava muito para privacidade por ter apenas 7 anos. Emma se inclinou para dentro, e Cristina, parecendo confusa, se inclinou ao lado dela.
O quarto cotinha uma pequena cama com uma colcha listrada colorida, uma casa de brinquedos quase da altura de Emma e uma tenda cheia de livros e brinquedos.
— Tavvy tem pesadelos — disse Emma. — Às vezes, Julian vem e dorme na tenda com ele.
Cristina sorriu.
— Di... minha mãe fazia isso comigo quando eu era pequena.
O quarto seguinte foi o de Drusilla. Dru tinha 13 anos e era obcecada com filmes de terror. Livros sobre filmes sangrentos e assassinos em série lotavam o chão. As paredes eram pretas, e pôsteres antigos de terror estavam colados sobre as janelas.
— Dru ama filmes de terror — disse Emma. — Qualquer coisa com “sangue”, “horror” ou “formatura”. Porque que chamam de formatura, me pergunto...
— Tem a ver com “término de curso” — disse Cristina.
— Por que você fala a minha língua tão melhor do que eu?
— Não é sua língua — observou Cristina, enquanto Emma avançava pelo corredor. — Vem de formatum. É latim.
— Os gêmeos têm quartos um de frente para o outro. — Emma gesticulou para as duas portas fechadas. — Esse é o de Livvy — ela abriu a porta revelando um quarto lindo, limpo e decorado. Alguém havia coberto caprichosamente a cabeceira da cama com um tecido estampado com xicaras de chá. Bijuterias brilhantes pendiam de telas pregadas nas paredes. Havia livros sobre computadores e linguagem de programação empilhados em fileiras cuidadosamente perto da cama.
— Linguagem de programação! — exclamou Cristina. — Ela gosta de computadores?
— Ela e Ty — respondeu Emma. — Ty gosta de computadores, ele gosta da forma como organizam padrões para que possa analisá-los, mas na verdade ele não é muito bom em matemática. Livvy cuida dessa parte, e eles trabalham em equipe.
O quarto seguinte era o de Ty.
— Tiberius Nero Blackthorn — anunciou Emma. — Acho que os pais dele exageram um pouco no nome. É como chamar alguém de Desgraçado Magnifico.
Cristina riu. O quarto de Ty era organizado, com livros alinhados por cores, e não em ordem alfabética. Cores que Ty mais gostava, como azul, dourado e verde, ficavam na frente do quarto e perto da cama. Cores das quais ele não gostava – laranja e roxo – eram relegadas a cantos e espaços perto da janela. Poderia parecer casual para outra pessoa, mas Emma sabia que Ty tinha consciência da localização de cada volume.
Na cabeceira ficavam seus livros preferidos: histórias de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle. Ao lado deles, havia uma coleção de pequenos brinquedos. Julian os fez para Ty há anos, quando descobriu que ter alguma coisa nas mãos acalmava o irmão e o ajudava a se concentrar. Havia uma bola de panos limpadores de cachimbo e um cubo preto de plástico feito por peças que clicavam e podiam ser giradas para diferentes desenhos.
Cristina olhou para a expressão carinhosa de Emma e disse:
— Você já falou de Tiberius antes. É ele que adora animais.
Emma fez que sim com a cabeça.
— Ele vive lá fora, perturbando os lagartos e esquilos. — Ela acenou o braço para indicar o deserto que se espalhava atrás do Instituto; terra virgem, sem casas ou ocupação humana, que se estendia até as encostas das montanhas que separavam a praia do Vale. — Espero que ele esteja se divertindo na Inglaterra, colecionando girinos, rãs e “sapos no buraco”...
— Isso é um tipo de comida!
— Não pode ser — disse Emma, seguindo pelo corredor.
— É uma massa! — protestou Cristina, enquanto Emma ia até a porta seguinte e a abria.
O interior do quarto era pintado quase com a mesma cor de azul que o mar e o céu lá fora. Durante o dia parecia parte deles, um azul eterno e flutuante. Murais cobriam as paredes com estampas elaboradas e, ao longo de uma parede de frente para o deserto, com o contorno de um castelo envolvido por um muro alto de espinhos. Um príncipe cavalgava em direção a ele, com a cabeça abaixada e a espada quebrada.
— La Bella Durmiente — disse Cristina. — A Bela Adormecida. Mas eu não me lembrava de que era tão triste ou de que o príncipe era tão derrotado. — Ela olhou para Emma. — Ele é um menino triste, Julian?
— Não — respondeu Emma, sem prestar muita atenção. Ela não entrava no quarto de Julian desde que ele viajara. Parecia que ele não o tinha arrumado antes de sair, e havia roupas pelo chão, desenhos incompletos sobre a mesa e até uma xícara na cabeceira, que provavelmente continha café mofado. — Não é depressivo nem nada disso.
— Depressivo não é o mesmo que triste — observou Cristina.
Mas Emma não queria pensar em Julian triste, não agora, não quando ele estava tão perto de voltar para casa. Agora que já passava de meia-noite, ele tecnicamente voltava no dia seguinte. Ela sentiu uma onda de alegria e alivio.
— Vamos. — Ela saiu do quarto e atravessou o corredor, com Cristina atrás.
Emma colocou a mão em uma porta fechada. Era de madeira, igual às outras, a superfície esfarrapada como se ninguém a limpasse ou lixasse há muito tempo.
— Esse era o quarto de Mark — explicou.
Todo Caçador de Sombras conhecia o nome de Mark Blackthorn. O menino meio fada, meio Nephilim que foi levado durante a guerra e integrado a Caçada Selvagem, as piores fadas. As que cavalgavam pelo céu uma vez por mês, atacando humanos, visitando campos de batalhas, se alimentando de medo e morte, como falcoes assassinos.
Mark sempre foi bondoso. Emma ficou imaginando se ainda era.
— Mark Blackthorn foi parte do motivo pelo qual vim para cá — disse Cristina, um pouco tímida. — Sempre tive a esperança de um dia conseguir um tratado melhor do que a Paz Fria. Algo mais justo com os integrantes do Submundo e com os Caçadores de Sombras que os amam.
Erra sentiu os olhos arregalarem.
— Eu não sabia. Você nunca me contou isso.
Cristina gesticulou ao redor.
— Você dividiu uma coisa comigo — falou a garota. — Dividiu os Blackthorn. Achei que eu devia compartilhar algo com você.
— Estou muito feliz que tenha vindo pata cá — confessou Emma impulsivamente, e Cristina ruborizou. — Mesmo que tenha sido em parte por Mark. E mesmo que não me diga mais nada a respeito dos seus motivos.
Cristina deu de ombros.
— Eu gosto de Los Angeles. — Ela deu a Emma um sorriso tímido, de lado. — Tem certeza de que não quer filmes ruins e sorvete?
Emma respirou fundo. Ela se lembrou de uma vez em que Julian lhe disse que, quando as coisas se tornavam complicadas demais, ele se imaginava trancando certas situações e emoções em uma caixa. Tranque longe, ele disse, e não vão incomodar. Elas desaparecem.
Ela imaginou, agora, que estava pegando suas lembranças do corpo no beco, de Sebastian Morgenstern e da Clave, o término do namoro com Cameron, sua necessidade de respostas, sua raiva do mundo pela morte dos pais, e a ansiedade em ver Julian, e trancando em uma caixa. Imaginou-se colocando a caixa em algum lugar de fácil acesso, algum lugar onde poderia encontrá-la e reabrir.
— Emma? — chamou Cristina ansiosa. — Tudo bem? Você está com cara de quem vai vomitar.
A caixa fez um clique e se trancou. Em sua mente, Emma a deixou de lado, de volta ao mundo, sorriu para Cristina.
— Sorvete e filmes ruins parecem uma ótima ideia — respondeu. — Vamos.


O céu estava manchado de rosa no alto pelo pôr do sol. Emma desacelerou a corrida, puxando o ar com o coração acelerado no peito.
Normalmente Emma treinava à tarde e à noite, e corria pela manhã, mas ela havia acordado tarde depois de ter passado a noite quase toda em claro com Cristina. Passou o dia reorganizando suas provas de forma febril, lingando para Johnny Rook para tentar arrancar dele mais detalhes sobre os assassinatos, escrevendo anotações para a parede da loucura e esperando impacientemente que Diana aparecesse.
Ao contrário de muitos tutores, Diana não morava no Instituto com os Blackthorn: tinha a própria casa em Santa Monica. Tecnicamente, Diana não precisava ir ao Instituto naquele dia, mas Emma já tinha mandando pelo menos seis mensagens. Talvez sete. Cristina a impediu de mandar a oitava, sugerindo que ela fosse correr para descarregar a ansiedade.
Ela se inclinou para a frente, com as mãos nos joelhos dobrados, tentando recuperar o fôlego. A praia estava praticamente deserta, exceto por alguns casais mundanos encerrando suas caminhadas românticas ao pôr do sol, voltando para os carros que deixaram estacionados na rodovia.
Ela ficou imaginando quantos quilômetros teria corrido por essa orla durante os anos em que morava no Instituto. Oito quilômetros por dia, todos os dias. E isso depois de pelo menos três horas na sala de treinamento. Metade das cicatrizes de Emma foram causadas por ela mesma, aprendendo a cair das vigas mais altas, se acostumando a enfrentar a dor ao treinar descalça... sobre vidro quebrado.
A pior de suas cicatrizes era no antebraço e também tinha sido feita por ela mesma, de certa forma. Veio de Cortana, no dia em que seus pais morreram. Julian tinha colocado a lâmina nos braços dela, e ela a segurou apesar do sangue e da dor, chorando enquanto cortava a pele. Tinha deixado uma longa linha branca em seu braço, um que, às vezes, a deixava tímida em relação a usar mangas curtas ou vestidos sem manga. Ela se perguntava se outros Caçadores de Sombras viam a cicatriz e imaginavam de onde teria vindo.
Mas Julian nunca olhava.
Ela se esticou. Da orla, dava para ver o Instituto, todo de pedra e vidro, na colina sobre a praia. Ela podia ver o ressalto do sótão de Arthur e até mesmo a janela escura do próprio quarto. Ela dormira inquieta à noite, sonhando com o mundano morto, as marcas em seu corpo, as marcas em seus pais. Tinha tentando conjurar uma visão do que faria quando descobrisse quem havia matado os dois. Como se qualquer dor física que ela pudesse impor ao responsável pudesse começar a compensar o que ela perdeu.
Julian também passou pelo sonho. Ela não sabia exatamente o que tinha sonhado, mas acordou com sua imagem clara na mente – Jules, alto e esguio, com seus cachos castanhos e olhos azul-esverdeados hipnotizantes. Os cílios escuros e a pele pálida, a forma como ele roía as unhas quando estava nervoso, seu manejo confiante de armas, e o manejo ainda mais confiante de pincéis e tintas.
Julian, que chegaria no outro dia. Julian, que entenderia exatamente o que ela estava sentindo – quanto tempo ela esperou por uma pista sobre seus pais. Como ela agora tinha encontrado uma, o mundo de repente parecia cheio de possibilidades terrivelmente iminentes. Ela se lembrava do que Jem, o ex-Irmão do Silencio que ajudou a presidir sua cerimônia parabatai, disse a respeito do que Julian era para ela: havia uma expressão em sua língua chinesa nativa, zhi yin. “Aquele que entende sua música.”
Emma não sabia tocar nenhuma nota em nenhum instrumento, mas Julian entendia sua música. Até a música da vingança.
Nuvens escuras vinham do oceano. Estava prestes a chover. Tentando tirar Jules da cabeça, Emma voltou a correr, subindo pela estrada de terra para o Instituto. Ao se aproximar da construção, ela engoliu em seco e observou. Havia um homem descendo pelos degraus. Ele era alto e esguio, e trajava um comprido casaco negro. O cabelo era quase todo grisalho. Ele normalmente usava preto; ela desconfiava que fosse essa a origem de seu sobrenome. Ele não era um feiticeiro, Johnny Rook, mesmo que tivesse um nome apropriado para um. Ele era outra coisa.
Ele a viu, e seus olhos cor de âmbar se arregalaram. Ela acelerou, impedindo-o antes que ele pudesse virar e circular a casa para longe dela.
Ela parou na frente dele, bloqueando a passagem.
— O que você está fazendo aqui?
Os olhos dele vagaram, procurando uma rota de fuga.
— Nada. Só dando uma passada.
— Você falou alguma coisa sobre eu ter ido ao Mercado das Sombras para Diana? Por que se falou...
Ele se recompôs. Havia algo de estranho em seu rosto, assim como nos olhos; tinha uma expressão quase afobada, como se algo terrível tivesse acontecido com ele quando era jovem, algo que abriu linhas como cicatrizes de faca em sua pele.
— Você não é a diretora do Instituto, Emma Carstairs — disse ele. — A informação que lhe dei era boa.
— Você disse que ia ficar quieto!
— Emma. — O nome dela, dito com firmeza e precisão. Emma se virou lentamente e viu Diana, que a observava do alto da escada, o vento noturno soprando seus cabelos cacheados. Ela usava um vestido longo e elegante que a deixava alta e imponente. E também parecia absolutamente furiosa.
— Imagino que tenha recebido minhas mensagens — disse Emma.
Diana não reagiu.
— Deixe o Sr. Rook em paz. Precisamos conversar. Quero vê-la em meu escritório em exatos dez minutos.
Diana virou e voltou para o Instituto. Emma lançou um olhar venenoso a Rook.
— Negócios com você deveriam ser secretos — falou, batendo com forca o dedo no peito dele. — Talvez não tenha prometido que manteria a boca fechada, mas nós dois sabemos que é isso que as pessoas querem de você. É o que esperam.
Um pequeno sorriso se formou nos lábios dele.
— Você não me assusta, Emma Carstairs.
— Talvez devesse.
— Isso é que é engraçado em vocês, Nephilim — disse Rook. — Vocês sabem sobre o Submundo, mas não vivem nele. — Ele colocou os lábios no ouvido de Emma, desconfortavelmente perto. Seu hálito arrepiou os pelos da nunca de Emma ao falar. — Existem coisas muito mais assustadoras nesse mundo, Emma Carstairs.
Emma se afastou dele, virou e correu pela escada do Instituto.


Dez minutos depois, Emma estava diante da mesa de Diana, os cabelos, ainda molhados do banho, pingando no chão de mármore.
Apesar de Diana não morar no Instituto, ela tinha um escritório lá, uma sala confortável de canto, com vista para as montanhas. Emma podia vê-las se erguendo contra o crepúsculo, uma sombra azul e vegetação costeira. Começou a chover, escorrendo pelas janelas.
O escritório era escassamente decorado. Sobre a mesa havia uma foto de um homem alto com o braço em volta de uma garotinha que parecia Diana, apesar de tão jovem. Estavam na frente de uma loja chamada FLECHA DE DIANA.
Havia flores no parapeito, que Diana colocara para alegrar o ambiente. Ela cruzou os braços sobre a mesa e olhou para Emma no mesmo nível.
— Você mentiu para mim ontem à noite — falou.
— Não menti — disse Emma. — Não exatamente. Eu...
— Não diga que omitiu, Emma — disse Diana. — Você sabe muito bem que não deve fazer isso.
— O que Johnny Rook disse? — perguntou Emma, e imediatamente se arrependeu. A expressão de Diana se fechou.
— Por que não me diz? — insistiu. — Aliás, diga o que fez e qual deveria ser o seu castigo. Isso parece justo?
Emma cruzou os braços desafiadoramente. Ela detestava ser pega, e Diana era ótima em fazê-lo. Diana era inteligente, o que normalmente era o máximo, mas não quando estava irritada.
Emma poderia contar para Diana o que achava que a estava irritando, e, talvez, assim, revelar mais do que Diana já sabia, ou podia ficar em silêncio, e talvez irritar Diana ainda mais. Após um momento de ponderação, ela disse:
— Eu deveria ter que cuidar de uma caixa de filhotinhos de gato. Você sabe o quando gatinhos são cruéis, com as garras pequeninas e aquele comportamento horroroso.
— Por falar em comportamento horroroso — repetiu Diana. Ela estava brincando ociosamente com um lápis. — Você foi ao Mercado das Sombras, contrariando regras específicas. Você falou com Johnny Rook. Ele deu a dica de que haveria a desova de um corpo no Sepulcro, que poderia ter alguma relação com as mortes de seus pais. Você não estava lá por acaso. Não estava patrulhando.
— Eu paguei a Rook para não dizer nada — murmurou a menina. — Confiei nele!
Diana derrubou o lápis.
— Emma, o cara é conhecido como Rook, o Trapaceiro. Inclusive, ele não é apenas um trapaceiro: está na lista de observação da Clave por que trabalha com fadas sem permissão. Qualquer integrante do Submundo ou mundano que trabalhe em segredo com fadas é excluído pelos Caçadores de Sombras e abre mão de sua proteção, você sabe disso.
Emma jogou as mãos para o alto.
— Mas essas são algumas das pessoas mais úteis que existem! Cortá-los não ajuda a Clave, mas pune os Caçadores de Sombras.
Diana balançou a cabeça.
— As regras são regras por um motivo. Ser Caçador de Sombras, um bom Caçador de Sombras, é mais do que treinar catorze horas por dia e conhecer sessenta e cinco maneiras de matar um homem com pinças de salada.
— Sessenta e sete — respondeu Emma automaticamente. — Diana, sinto muito. Sinto muito mesmo, principalmente por ter arrastado Cristina para essa história. Não é culpa dela.
— Ah, eu sei disso. — Diana continuava com uma carranca no rosto.
Emma seguiu falando:
— Ontem à noite, você disse que acreditava em mim. Quanto a Sebastian não ter matado meus pais. Quanto à história ser mais do que isso. As mortes deles não foram simplesmente... simplesmente Sebastian acabando com o Conclave. Alguém os queria mortos. As mortes deles significaram alguma coisa...
— A morte de todo mundo significa alguma coisa. — O tom de Diana era cortante, ela passou a mãos nos olhos. — Conversei com os Irmãos do Silencio ontem à noite. Descobri o que eles sabem. E, meu Deus, passei o dizendo a mim mesma que deveria mentir para você, passei o dia sofrendo com isso...
— Por favor — sussurrou Emma. — Por favor, não minta.
— Mas não posso. Lembro de quando você veio aqui; era uma garotinha, tinha 12 anos de idade e estava destruída. Tinha perdido tudo. Só o que a segurava era Julian e sua necessidade de vingança. Que Sebastian não fosse a razão pela qual seus pais morreram, porque, se fosse, como você poderia puni-lo? — Ela respirou fundo. — Sei que Johnny Rook disse que ocorreram vários assassinatos. Ele tem razão. Doze, no total, contando o da noite passada. Nenhum rastro do assassino foi deixado. Todas as vítimas permanecem não identificadas. Dentes quebrados, carteiras desaparecidas, impressões digitais raspadas.
— E os Irmãos do Silencio não sabiam disso? A Clave, o Conselho...?
— Sabiam. E é desta parte que você não vai gostar. — Diana batucou o vidro da mesa com as unhas dos dedos. — Vários dos mortos eram do Povo das Fadas. Isso faz do assunto uma questão para a Scholomance, os Centuriões e os Irmãos do Silêncio. Não para os Institutos. Os Irmãos do Silencio sabiam. A Clave sabia. Eles não nos contaram, deliberadamente, por que não nos querem envolvidos.
 Scholomance?
A Scholomance era um pedaço vivo da história dos Caçadores de Sombras. Um castelo frio de torres e corredores esculpidos na lateral de uma montanha nos Cárpatos, existiu durante séculos como um lugar onde a maior parte da elite dos Caçadores de Sombras era treinada para lidar com as ameaças duplas de demônios e integrantes do Submundo. Foi fechada com a assinatura dos primeiros Acordos: uma demonstração de fé de que integrantes do Submundo e Caçadores de Sombras não estavam mais em guerra.
— Pode não ser justo, mas é verdade.
— Mas as marcas. Admitiram que eram as mesmas que viram nos corpos dos meus pais?
— Não admitiram nada — retrucou Diana. — Disseram que cuidariam do assunto. Disseram para não nos envolvermos, que a ordem tinha vindo do próprio Conselho.
— Os corpos? — disse Emma. — Os corpos se dissolveram quando tentaram movê-los, como os dos meus pais?
— Emma! — Diana se levantou. Seus cabelos formavam uma adorável nuvem escura ao redor do rosto. — Não interferimos com o que acontece com as fadas, não mais. É isso que a Paz Fria significa. A Clave não sugeriu, simplesmente, que não façamos isso. É proibido interferir em assuntos de fadas. Se você se envolver, pode haver consequências não só para você, mas para Julian.
Foi como se Diana tivesse pegado um dos pesos de papel da mesa e jogado no peito de Emma.
— Julian?
— O que ele faz todo ano? No aniversário da Paz Fria?
Emma pensou em Julian, sentado ali, naquele escritório. Ano após ano, desde que tinha 12 anos e cotovelos ralados e jeans rasgados. Ele se sentava pacientemente com caneta e tinta, escrevendo sua carta para a Clave, pedindo que sua irmã Helen voltasse da Ilha de Wrangel.
A Ilha de Wrangel era o local de todas as barreiras de proteção do mundo, um conjunto de feitiços mágicos que tinha sido levantado para proteger a Terra contra certos demônios há mil anos. Era também um bloquinho de gelo a milhares de quilômetros no Oceano Ártico. Quando a Paz Fria foi declarada, Helen foi mandada para lá; a Clave disse que era para que ela estudasse as barreiras, mas ninguém acreditava que fosse alguma coisa além de exilio.
Ela havia sido autorizada a fazer algumas viagens para casa desde então, inclusive, a viagem para Idris quando se casou com Aline Penhallow, a filha da Consulesa. Mas nem essa forte relação pessoal podia libertá-la. Todo ano Julian escrevia. E todo ano lhe negavam.
Diana falou com voz mais suave.
— Todo ano a Clave nega, por que Helen pode ser leal ao Povo das Fadas. O que eles vão pensar se acharem que estamos investigando mortes de fadas contra as ordens deles? Como isso afetaria a chance de libertarem Helen?
— Julian ia querer que eu... — Emma começou.
— Julian cortaria a própria mão se você pedisse. Isso não significa que você deva pedir. — Diana esfregou as têmporas como se estivessem doendo. — Vingança não é família, Emma. Não é uma amiga e é uma amante fria. — Ela abaixou a mão e foi para perto da janela, olhando por cima do ombro para a menina. — Sabe por que aceitei esse trabalho, aqui no Instituto? Nada de respostas sarcásticas.
Emma olhou para o chão. Era feito de ladrilhos alternados em azul e branco; nos brancos havia desenhos: uma rosa, um castelo, um pináculo de igreja, um bando de pássaros, cada um diferente.
— Por que você estava em Alicante durante a Guerra Maligna — disse Emma, a voz estrangulada. — Você esteve presente quando Julian teve que... que conter o pai. Você nos viu lutar, achou que fôssemos corajosos e quis ajudar. Isso é o que você sempre disse.
— Eu tive alguém quando eu era mais nova, que me ajudou a me tornar quem realmente sou — falou Diana. Emma prestou atenção. Diana raramente falava sobre sua vida. Os Wrayburn foram uma família de Caçadores de Sombras bastante conhecidas por muitas gerações, mas Diana era a última. Ela nunca falava sobre sua infância, sua família. Era como se sua vida tivesse começado quando ela assumiu a loja do pai em Alicante. — Eu queria ajudá-la a se tornar quem você realmente é.
— E quem eu sou?
— A melhor Caçadora de Sombras da sua geração — respondeu Diana. — Você treina e luta como ninguém. E é exatamente por isso que não quero vê-la desperdiçar seu potencial na busca de algo que não vai curar suas feridas.
Desperdiçar meu potencial? Diana não sabia, ela não entendia. Ninguém da família dela morreu na Guerra Maligna. E os pais de Emma não morreram lutando; foram assassinados, torturados e mutilados. Gritando por ela, talvez, naqueles momentos, curtos, longos ou intermináveis, entre a vida e a morte.
Ouviu-se uma batida forte na porta. Ela se abriu para revelar Cristina. Ela estava de calca jeans, um casaco e com as bochechas rosadas, como se estivesse constrangida por interromper.
— Os Blackthorn — avisou. — Eles chegaram.
Emma se esqueceu completamente do que estava prestes a falar para Diana e correu para a porta.
— Quê? Só era para eles chegarem amanhã!
Cristina deu de ombros sem saber o que dizer.
— Pode ser que seja outra família imensa que chegou de Portal.
Emma colocou a mão no peito. Cristina estava certa. Ela podia sentir: a dorzinha que permanecia atrás de suas costelas desde que Julian se foi, de repente, melhorou e piorou – menos dor, mais como uma borboleta voando desesperadamente sob seu coração.
Ela saiu correndo, os pés descalços batendo forte contra o chão polido do corredor. Chegou à escadaria e desceu dois degraus de cada vez, girando nos patamares. E agora também podia ouvir as vozes. Pensou ter ouvido a voz aguda e suave de Dru elevada em uma pergunta, e Livvy respondendo.
E então estava lá, na galeria do segundo andar que dava para a sala de estar. O espaço estava iluminado como se fosse dia, cheio de cores em redemoinho, restos de um Portal desbotando. No centro do recinto, estavam os Blackthorn: Julian se erguendo acima dos gêmeos de 15 anos, Livvy e Ty. Ao lado deles, Drusilla, segurando a mão do caçula, Tavvy, que parecia dormir em pé, a cabeça cacheada apoiada no braço de Dru, os olhos fechados.
— Vocês voltaram! — gritou a menina.
Todos olharam para ela. Os Blackthorn sempre foram uma família com muitas semelhanças físicas: tinham os mesmos cabelos cacheados e castanho-escuros, cor de chocolate amargo, e os mesmos olhos azul-esverdeados. Mas Ty, com seus olhos cinzentos, porte magro e cabelos negros desalinhados parecia vir de outro ramo da família.
Dru e Livvy estavam sorrindo, e havia receptividade no aceno de cabeça de Ty, mas Julian que Emma viu. Ela sentiu o símbolo parabatai no braço latejar quando ele a encarou.
Emma correu pelas escadas. Julian estava abaixado para falar alguma coisa para Dru. Em seguida, ele se virou e deu vários passos largos na direção de Emma. Ele preencheu a visão dela; era tudo o que ela conseguia enxergar. Não só Julian como estava agora, caminhando até ela no chão com o desenho do Anjo, mas Julian lhe entregando as lâminas serafim às quais dera um nome, Julian sempre lhe dando um cobertor quando ela sentia frio no carro, Julian diante dela na Cidade do Silêncio, com fogo branco e dourado se elevando entre eles enquanto recitavam seus votos de parabatai.
Eles colidiram no meio da sala, e ela jogou os braços em volta dele.
— Jules — falou, mas o som foi abafado pelo ombro dele enquanto ele retribuía o abraço. Ela pode ouvir os votos de parabatai no fundo da sua mente enquanto respirava o cheiro familiar dele: cravo, sabão e sal.
Onde fores, irei.
Por um momento, os braços dele ficaram tão apertados em volta dela que Emma mal conseguiu respirar. Então ele a soltou e deu um passo para trás.
Emma quase se desequilibrou. Ela não esperava um abraço tão apertado nem um empurrão tão rápido.
Ele também parecia diferente. A mente dela não conseguiu assimilar.
— Pensei que viessem amanhã de manhã — comentou Emma. Ela tentou capturar o olhar de Julian, fazê-lo retribuir seu sorriso receptivo. Em vez disso, ele estava olhando para os irmãos como se estivessem contando para ter certeza de que estavam todos ali.
— Malcolm apareceu mais cedo — explicou a ela, por cima do próprio ombro. — Apareceu de repente na cozinha da tia Marjorie, de pijama. Disse que se esqueceu do fuso horário. Ela gritou feito uma louca.
Emma sentiu a tensão no peito passando. Malcolm Fade, o líder dos feiticeiros de Los Angeles, era amigo da família, e a excentricidade dele era uma piada antiga entre ela e Jules.
— Aí ele acidentalmente nos transportou para Londres, em vez de nos mandar para cá! — anunciou Livvy, avançando para abraçar Emma. — E tivemos que caçar alguém para abrir outro Portal... Diana!
Livvy largou Emma e correu para cumprimentar a tutora. Por alguns instantes, tudo se tornou um burburinho: perguntas, cumprimentos e abraços. Tavvy tinha acordado e estava vagando com sono, puxando as mandas das pessoas. Emma afagou o cabelo dele.
Os seus serão os meus. A família de Julian se tornou a família de Emma quando eles se tornaram parabatai. Era quase como um casamento nesse ponto.
Emma olhou para Julian. Ele observava a família, com expressão concentrada. Como se tivesse se esquecido de que ela estava ali. E naquele momento sua mente pareceu acordar repentinamente e lhe apresentar um catálogo dos modos pelos quais ele parecia diferente.
Ele sempre teve cabelos curtos e práticos, mas deve ter se esquecido de cortá-los na Inglaterra: tinham crescido em cachos espessos e belos, típicos de um Blackthorn. As pontas estavam abaixo das orelhas. Ele estava bronzeado, e não é que ela não soubesse a cor dos olhos dele, mas agora pareciam, ao mesmo tempo, mais brilhantes e mais escuros, o intenso azul-esverdeado de um oceano a um quilômetro e meio da superfície. O formato do rosto também tinha mudado, moldando linhas mais adultas, perdendo a suavidade da infância, revelando a mandíbula que destacava seu queixo ligeiramente pontudo, um eco do padrão da asa de sua clavícula, visível logo abaixo do colarinho da camiseta.
Ela desviou o olhar. Para sua surpresa, o coração batia acelerado, como se ela estivesse nervosa. Afobada, Emma se abaixou para abraçar Tavvy.
— Você está banguela — constatou quando ele sorriu para ela. — Foi muito descuidado.
— Dru me disse que fadas roubam seus dentes enquanto você dorme — revelou Tavvy.
— É porque eu contei isso a ela — falou Emma, se levantando. Sentiu um leve toque no ombro.
Era Julian. Com o dedo começou a traçar palavras na pele dela – era algo que sempre fizeram, desde que perceberam que precisavam de uma maneira para se comunicar silenciosamente durante sessões monótonas de estudo ou conversa com adultos. V-O-C-Ê-E-S-T-Á-B-E-M?
Ela acenou com a cabeça para ele. Julian olhava para ela com uma ligeira preocupação, o que foi um alívio. Pareceu familiar. Será que ele realmente estava tão diferente? Estava menos magro, mais musculoso, apesar de ser um músculo meio magro. Ele parecia um dos nadadores que ela admirava pela beleza. E continuava usando as mesmas pulseiras de couro, vidros do mar e conchas nos pulsos. As mãos continuavam marcadas de tinta. Ele continuava sendo Julian.
— Vocês estão todos bronzeados — comentava Diana. — Como estão tão bronzeados? Pensei que chovesse o tempo todo na Inglaterra!
— Eu não estou bronzeado — retrucou Tiberius, seguro. Era verdade, não estava. Ty detestava sol. Quando todos iam para a praia, ele normalmente ficava embaixo de um guarda-sol assustadoramente grande, lendo alguma história de detetive.
— Tia Marjorie nos fazia treinar ao ar livre o dia todo — explicou Livvy. — Bem, menos Tavvy. Ela deixava que ele ficasse lá dentro e lhe dava geleia de amora preta.
— Tiberius se escondia — disse Drusilla. — No celeiro.
— Não era esconderijo — argumentou Ty. — Era um retiro estratégico.
— Era esconderijo — teimou Dru, com uma careta se espalhando em seu rosto. As tranças saltavam de ambos os lados da cabeça, como as de Pippi Meialonga. Emma puxou uma delas afetuosamente.
— Não discuta com seu irmão — disse Julian, e olhou para Ty. — Não discuta com sua irmã. Vocês dois estão cansados.
— O que o cansaço tem a ver com não discutir? — perguntou Ty.
— Julian está querendo dizer que vocês todos deveriam ir dormir — disse Diana.
— São só oito horas! — protestou Emma. — Eles acabaram de chegar!
Diana apontou. Tavvy tinha se encolhido no chão e estava dormindo sob o feixe de luz de uma lâmpada, exatamente como um gato.
— Na Inglaterra, é muito mais tarde.
Livvy deu um passo para a frente e pegou Tavvy gentilmente. A cabeça dele se aconchegou no pescoço dela.
— Eu o coloco na cama.
Os olhos de Julian encontraram brevemente dos de Diana.
— Obrigado, Livvy — falou ele. — Vou avisar ao tio Arthur que chegamos bem. — Ele olhou em volta e suspirou. — Podemos cuidar das malas amanhã cedo. Pessoal, para a cama.
Livvy resmungou alguma coisa; Emma não ouviu. Ficou confusa: mais do que confusa. Apesar de Julian ter respondido suas mensagens e ligações com respostas curtas e neutras, ela não estava preparada para um Julian de aparência diferente. Ela queria que ele estivesse como sempre foi, com o sorriso que parecia reservado às interações deles.
Diana dava boa-noite, pegando as chaves e a bolsa. Aproveitando-se da distração, Emma esticou o braço para escrever suavemente com o dedo na pele de Julian.
P-R-E-C-I-S-O-C-O-N-V-E-R-S-A-R-C-O-M-V-O-C-Ê, ela escreveu.
Sem olhar para ela, Julian abaixou a própria mão e escreveu no braço dela. S-O-B-R-E-O-Q-U-Ê?
A porta da entrada se abriu e fechou atrás de Diana, abrindo passagem para uma lufada fria de vento e chuva. Caiu água na bochecha de Emma quando ela virou para Julian.
— É importante — falou ela. Ficou imaginando se teria soado incrédula. Emma nunca tinha precisado dizer a ele que alguma coisa era importante. Se ela dizia que precisava falar com ele, ele sabia que era sério. — Só... – Ela diminuiu a voz. — Vá até o meu quarto depois de falar com Arthur.
Ele hesitou, só por um instante; as conchas e vidros do mar tilintaram quando ele tirou o cabelo do rosto. Livvy já estava subindo com Tavvy, e os outros iam atrás. Emma sentiu sua irritação imediatamente se transformar em culpa. Jules estava exausto, obviamente. Era só isso.
—- A não ser que você esteja cansado demais — emendou.
Ele balançou a cabeça, com o rosto ilegível. E Emma sempre soube lhe interpretar o rosto.
— Eu vou — disse ele, e, em seguida, colocou a mão no ombro dela. Levemente, um gesto casual. Como se não tivesse passado dois meses separados. — É muito bom ver você outra vez — falou, e se virou para subir atrás de Livvy.
Claro que ele teria que falar com Arthur, Emma pensou. Alguém tinha que avisar ao excêntrico guardião que os Blackthorn estavam em casa. E claro que ele estava cansado. E claro que ele parecia diferente: isso acontecia com as pessoas quando você ficava um tempo sem vê-las. Talvez um dia ou dois para voltarem ao que era antes: íntimos. Inseparáveis. Seguros.
Ela colocou a mão no peito dele. Apesar de a dor que ela sentiu durante a estadia de Julian na Inglaterra ter passado (uma sensação de elástico esticado que ela detestava), Emma agora sentia uma nova e estranha dor perto do coração.

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