sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 17 - Os demônios no fundo do mar

Parecia que a cozinha tinha explodido.
A geladeira estava vazia; a superfície outrora branca, decorada com redemoinhos vermelhos de ketchup; uma das portas da despensa, pendurada nas dobradiças. O pote de calda tinha sido arrastado, e havia calda em quase todas as superfícies possíveis. Um enorme saco de açúcar refinado tinha sido rasgado, e Tavvy estava sentado dentro dele, coberto de pó branco. Ele parecia um pequeno abominável homem das neves.
Mark aparentemente tinha tentado cozinhar, considerando que havia panelas no fogão, cheias de substâncias queimadas que lançavam fumaça no ar. As chamas continuavam acesas. Julian correu para desligar enquanto Emma observava.
A cozinha de Julian, que ele tinha estocado com comida por cinco anos, mantinha limpa e onde cozinhava e fazia panquecas – estava destruída. Sacos de bala foram rasgados e sujavam o chão. Dru ocupava a bancada, mexendo em um copo com um conteúdo estranho e cantarolando alegre para si mesma.
Livvy sentava em um dos bancos, rindo, com um pedaço de bala na mão. Ty estava ao lado dela, lambendo açúcar do próprio pulso.
Mark emergiu da despensa com um avental branco e estampa de corações vermelhos, trazendo dois pedaços de pão queimados.
— Torrada! — anunciou ele feliz, antes de ver Julian e Emma.
Fez-se um silêncio. Julian parecia procurar palavras; Emma se pegou recuando para a porta. De repente, se lembrou das brigas de Mark e Julian quando eram pequenos. Eram feias e sangrentas, e Julian batia tanto quanto apanhava.
Inclusive, às vezes, batia antes de apanhar.
Mark ergueu as sobrancelhas.
— Torrada?
— Essa é a minha torrada — observou Ty.
— Certo. — Mark atravessou o recinto, olhando Julian de lado ao fazê-lo. Julian continuava sem palavras, apoiado no fogão. — E o que você quer na sua torrada?
— Pudim — respondeu Ty imediatamente.
— Pudim? — Julian ecoou. Emma tinha que admitir que, quando imaginou a primeira palavra de Julian nessa situação, não pensou em “pudim”.
— Por que não? — perguntou Livvy com naturalidade, localizando um pote de pudim de tapioca e entregando ao seu irmão gêmeo, que começou a espalhá-lo no pão em pequenas doses.
Julian voltou-se para Mark.
— Achei que você tivesse dito que ela estava trancada no quarto.
— Ela saiu quando vocês avisaram que tinham encontrado Ty — disse Mark.
— Não vi motivo para não sair — explicou Livvy.
— E por que a torradeira está na despensa? — perguntou Julian.
— Não consegui achar nenhuma outra... — Mark parecia estar procurando as palavras. — Tomada elétrica.
— E por que Tavvy está em um saco de açúcar?
Mark deu de ombros.
— Ele queria entrar no saco de açúcar.
— Isso não significa que você deve colocá-lo em um saco de açúcar. — A voz de Julian se elevou. — Nem praticamente destruir o fogão. Ou deixar Drusilla beber... o que é isso nesse copo, Dru?
— Leite com chocolate — respondeu Dru imediatamente. — Com creme azedo e Pepsi.
Julian suspirou.
— Ela não deveria estar tomando isso.
— Por que não? — Mark tirou o avental e o jogou de lado. — Não entendo a origem da sua irritação, irmão. Estão todos vivos, não estão?
— Esse é um padrão bem baixo de exigência — disse Julian. — Se eu soubesse que você achava que só precisava mantê-los vivos...
— Foi isso que você disse — respondeu Mark, em parte irritado, e em parte espantado. — Você fez brincadeiras, disse que eles sabiam se cuidar...
— Eles sabem! — Julian se elevava agora; de repente, parecia uma torre sobre Mark, mais alto, mais largo, e em geral mais adulto do que o irmão. — É você que está causando todo o caos! Você é o irmão mais velho, sabe o que isso significa? Deveria saber cuidar deles melhor do que isso!
— Jules, está tudo bem — disse Livvy. — Estamos bem.
— Bem? — repetiu Julian. — Ty escapou – e falo com você depois – Livia, ele invadiu a casa de Johnny Rook e apontou uma faca para o filho dele; Livvy se trancou no quarto, e Tavvy talvez esteja com uma cobertura permanente de açúcar. Quanto a Dru, faltam cinco minutos para ela vomitar.
— Não vou — garantiu Dru, fazendo uma careta.
— Eu limpo — disse Mark.
— Você não sabe limpar! — Julian estava sem cor e furioso. Emma raramente o via tão irritado. — Você — disse ele, ainda olhando para Mark — você costumava cuidar deles, mas pelo visto se esqueceu disso. Acho que se esqueceu de como se faz qualquer coisa normal.
Mark se encolheu. Tiberius levantou; os olhos cinzentos ardiam no rosto pálido. Ele estava mexendo as mãos nas laterais, batendo-as. Asas de mariposa; asas que conseguiam empunhar uma faca, cortar uma garganta.
— Pare — disse ele.
Emma não sabia se ele estava falando com Julian, Mark, ou com o cômodo em geral, mas ela viu Julian congelar. Sentiu o coração contrair quando ele olhou em volta do recinto, para seus irmãos e irmãs. Dru ficou parada; Tavvy tinha saído do açúcar e estava olhando para Julian com arregalados olhos azul-esverdeados. Mark estava imóvel; o rosto branco, a cor desbotando das maçãs do rosto altas que marcavam sua herança de fada.
Havia amor nos olhos da família quando olharam para Julian, além de preocupação e medo, mas Emma ficou imaginando se Jules conseguia enxergar isso. Se tudo que ele enxergava eram as crianças por quem tinha aberto mão de boa parte da vida, felizes com outra pessoa. Se, assim como ela, ele olhava para a cozinha e se lembrava de como ele tinha aprendido a limpá-la aos 12 anos. Aprendeu a cozinhar: primeiro, coisas simples, macarrão na manteiga, torrada com queijo. Um milhão de queijos quentes, um milhão de queimaduras nas mãos e pulsos de Julian, por causa do fogão e da espátula. Como descia até a entrada da casa para receber as entregas do mercado, antes de aprender a dirigir. Como arrastava e carregava toda a comida colina acima.
Julian, de joelhos, muito magro, de jeans e moletom, esfregando o chão. A cozinha tinha sido montada por sua mãe, era parte dela, mas era também um pedaço de tudo que ele tinha dado à família ao longo dos anos.
E ele faria tudo de novo, pensou Emma. Claro que faria: ele os amava tanto assim. A única coisa que irritava Julian era medo, medo por seus irmãos e irmãs. Ele estava com medo agora, apesar de Emma não saber ao certo por quê. Ela só viu a expressão no rosto dele quando Julian registrou o ressentimento deles, a decepção. A chama pareceu se apagar dentro dele. Ele deslizou pela frente do fogão, até estar no chão.
— Jules. — Foi Tavvy que falou, com grãos brancos sobre o cabelo. Ele chegou perto e abraçou o pescoço de Julian.
Jules fez um barulho estranho e, em seguida, puxou o irmão e o abraçou forte. Caiu açúcar nas suas costas, sujando de pó branco o uniforme de combate.
A porta da cozinha se abriu, e Emma ouviu um engasgo de surpresa. Ela se virou e viu Cristina olhando para a bagunça.
— ¡Qué desastre!
Não precisava de tradução. Mark limpou a garganta e começou a empilhar louças sujas na pia. Não empilhou, exatamente, mas jogou. Livvy foi ajudá-lo enquanto Cristina observava.
— Onde está Diana? — perguntou Emma.
— Está em casa. Malcolm nos levou para lá por Portal, e depois trouxe de volta — revelou Cristina, sem tirar os olhos das panelas queimadas no fogão. — Diana disse que precisava colocar o sono em dia.
Ainda segurando Tavvy, Julian se levantou. Tinha açúcar na camisa, no cabelo, mas estava com o rosto calmo, sem expressão.
— Desculpe pela bagunça, Cristina.
— Tudo bem — amenizou ela, olhando em volta. — Não é minha cozinha. Mas — acrescentou apressadamente. — posso ajudar a limpar.
— Mark vai limpar — falou Julian, sem olhar para o irmão. — Você e Diana descobriram alguma coisa com Malcolm?
— Ele tinha ido encontrar alguns feiticeiros que achava que poderiam ajudar — respondeu Cristina. — Falamos sobre Catarina Loss. Já ouvi falar dela; ela às vezes dá aula na Academia, estudos do Submundo. Aparentemente tanto Malcolm quanto Diana são amigos dela, então ficaram conversando sobre algumas histórias que eu não entendi direito.
— Bem, eis o que descobrimos com Rook — disse Emma, e começou uma história, deixando de fora a parte em que Ty quase arrancou a cabeça de Kit Rook.
— Então alguém precisa seguir Sterling — decidiu Livvy, ansiosamente, quando Emma acabou. — Eu e Ty podemos cuidar disso.
— Vocês não dirigem — observou Emma. — E precisamos de vocês aqui para pesquisa.
Livvy fez uma careta.
— Então vamos ficar presos no Instituto lendo “há muitos e muitos anos" nove mil vezes?
— Não há motivo para não aprendermos a dirigir — disse Ty, parecendo entediado. — Mark estava falando, não é como se fizesse alguma diferença a nossa idade, não temos que obedecer às leis mundanas...
— Mark disse isso? — perguntou Julian baixinho. — Tudo bem. Mark pode ensiná-los a dirigir.
Mark derrubou um prato na pia com uma batida.
— Julian...
— O que foi, Mark? — disse Jules. — Ah, certo, você não sabe dirigir também. É claro que ensinar alguém a dirigir leva tempo, mas talvez você não esteja aqui. Porque não existem garantias de que você vá ficar.
— Isso não é verdade — argumentou Livvy. — Praticamente resolvemos o caso...
— Mas Mark tem uma escolha a fazer. — Julian olhou para o irmão mais velho por cima da cabeça do mais novo. Seu olhar azul-esverdeado era como uma fogueira constante. — Diga a eles, Mark. Diga que tem certeza de que vai nos escolher.
Prometa a eles, seu olhar dizia. Prometa que não vai magoá-los.
Mark não disse nada.
Ah, Emma pensou. Ela se lembrou do que Julian tinha lhe dito lá fora. Era isso que temia: que eles já amassem Mark demais. Ele abriria mão das crianças que amava por Mark sem titubear se fosse isso que quisessem se, como Ty havia dito, eles quisessem que Mark tomasse conta deles. Ele abriria mão porque os amava, porque a felicidade deles era a sua, porque eles eram seu sangue e seu oxigênio.
Mas Mark também era seu irmão e ele o amava do mesmo jeito. O que você fazia, o que podia fazer, quando a ameaça a quem você amava era alguém que você amava tanto quanto?
— Julian. — Para surpresa geral, quem falou foi o tio Arthur, parado na entrada. Ele lançou um olhar breve e desinteressado para a bagunça na cozinha, antes de focar no sobrinho. — Julian, preciso discutir um assunto com você. Em particular.
Uma singela preocupação passou pelos olhos de Julian. Ele assentiu ao mesmo tempo que algo vibrou no bolso de Emma. O telefone.
O estômago de Emma encolheu. Apenas duas palavras, e não vinham de um número, mas de uma porção de zeros.

A CONVERGÊNCIA.

Alguma coisa tinha aparecido na convergência. A mente dela acelerou. Era quase por do sol. A porta da convergência estaria se abrindo; mas os Mantis também estariam se agitando. Ela precisava sair imediatamente para chegar lá em um momento seguro.
— Alguém ligou? — perguntou Julian, olhando para ela. Ele estava colocando Tavvy no chão, mexendo no cabelo dele, gentilmente empurrando-o para perto de Dru, que parecia verde.
Emma conteve o impulso de franzir o rosto; será que ele também não teria recebido a mensagem? Ou não – ela se lembrou dele dizendo que estava quase sem bateria na casa de Johnny Rook. E só Deus sabia onde Diana se metera.
Emma se deu conta de que ela podia ser a única pessoa que recebeu a mensagem sobre a convergência.
— Só Cameron — respondeu ela, dizendo o primeiro nome em que conseguiu pensar.
Jules fechou os olhos; talvez ele ainda estivesse com medo de que ela fosse contar a Cameron sobre Mark. Ele estava pálido; sua expressão, calma, mas ela sentiu uma tristeza tensa irradiando dele em ondas. Ela pensou em como ele tinha abraçado Ty na frente da casa de Johnny Rook, em como olhou para Mark. Para Arthur.
Seu treinamento dizia que ela precisava levar Julian para a convergência. Ele era seu parabatai. Mas ela não poderia afastá-lo da família agora. Simplesmente não podia. Sua mente se rebelou contra o pensamento de um jeito que ela não conseguia examinar de perto.
— Cristina. — Emma virou para a amiga. — Posso falar com você no corredor?
Com um olhar preocupado, Cristina seguiu Emma para o corredor.
— É sobre Cameron? — disse Cristina assim que a porta da cozinha se fechou atrás delas. — Acho que não estou em condições de dar conselhos românticos agora...
— Eu preciso ver Cameron, de fato — disse Emma, com a mente acelerada. Ela podia levar a amiga para a convergência. Cristina era confiável; ela não contaria nada a ninguém. Mas Julian ficou tão claramente magoado, não apenas magoado, arrasado, quando ela foi para a caverna com Mark e não contou para ele. E tantas coisas desgastaram e prejudicaram a relação parabatai dos dois, ela não podia fazer isso de novo, levando outra pessoa. — Mas não é isso. Olha, alguém precisa seguir Sterling. Acho que nada vai acontecer com ele, ainda estamos no intervalo de dois dias, mas só por via das dúvidas.
Cristina assentiu.
— Eu posso fazer isso. Diana deixou a caminhonete; vou com ela. Mas preciso do endereço.
— Está com Julian. E vou deixar um bilhete para você entregar a ele.
— Ótimo, porque ele vai perguntar — respondeu Cristina secamente. Ouviu-se um terrível barulho súbito da cozinha: o som de Dru correndo e vomitando na pia.
— Ah, pobrezinha — disse Emma. — Mas, enfim, aquela coisa que ela bebeu era muito nojenta...
— Emma, eu sei que não está me contando a verdade. Sei que não vai se encontrar Cameron Ashdown. — Cristina levantou a mão, contendo o protesto de Emma. — E não tem problema. Você não mentiria para mim sem um bom motivo. É só que...
— Sim? — perguntou Emma. Ela tentou manter os olhos inocentes. Seria melhor, ela disse a si mesma. Se Diana descobrisse, se ela se encrencasse, se encrencaria sozinha: Cristina e Julian não mereciam isso. Ela podia resolver sozinha.
— Cuidado — aconselhou Cristina. — Não me faça me arrepender de mentir por você, Emma Carstairs.


O sol era uma bola brilhante de chamas sobre o oceano enquanto Emma guiava o Toyota pela estrada de terra que levava até a convergência. O céu escurecia rápido. O Toyota foi quicando sobre o campo nos últimos metros, quase rolando para uma vala rasa antes de ela parar e desligar o motor.
Ela saiu e se esticou para dentro novamente para pegar armas. Tinha deixado Cortana no Instituto. Isso lhe causou uma pontada, mas sair de casa com a espada nas costas teria despertado suspeitas. Pelo menos, havia lâminas serafim. Ela colocou uma no cinto e pegou a pedra de luz enfeitiçada do bolso, olhando em volta ao fazê-lo, estava estranhamente quieto ali sem barulho de insetos, pequenos animais ou pássaros cantando. Só o vento na grama.
Os demônios Mantis. À noite, eles provavelmente saíam e comiam todas as coisas vivas. Ela estremeceu e foi para a caverna. A entrada da convergência estava se abrindo, uma linha preta espessa contra o granito.
Ela olhou para trás uma vez, preocupada, o sol parecia mais baixo do que ela gostaria, tingindo a água do oceano com um tom sangrento. Emma tinha parado o mais próximo possível da caverna. Assim, para que se já estivesse escuro quando chegasse, poderia voltar rapidamente para o carro. Mas estava se tornando cada vez mais provável que ela tivesse que matar alguns Mantis no caminho.
À medida que se aproximou da parede de pedra, a linha se alargou um pouco mais, como se a estivesse recebendo. Ela se apoiou na pedra com uma das mãos, espiando pelo buraco. Tinha cheiro de água do mar.
Ela pensou nos pais. Por favor, me ajudem a achar alguma coisa, rezou. Por favor, me ajudem a encontrar uma pista, descobrir como isso se relaciona ao que fizeram com vocês. Por favor, me ajudem a vingá-los. Para eu conseguir dormir à noite.
No buraco, Emma viu o brilho fraco do corredor de pedra que levava ao coração da caverna.
Agarrando a luz enfeitiçada, Emma entrou na convergência.


A noite já tinha quase caído, o céu passava de azul a índigo, as primeiras estrelas piscavam sobre as montanhas distantes. Cristina sentou com as pernas no painel da caminhonete, os olhos fixos na casa de dois andares que pertencia a Casper Sterling.
O jipe que ela reconheceu estava estacionado no jardim na frente da casa, embaixo de uma oliveira. Um muro baixo corria em torno da propriedade; a vizinhança, próxima de Hancock Park, era cheia de casas caras, mas não particularmente vistosas. A de Sterling parecia fechada, trancada e escura. O único indício de que ele estava em casa era o carro parado.
Ela pensou em Mark, depois desejou que não o tivesse feito. Ela vinha fazendo isso com frequência ultimamente, pensava em Mark, depois se arrependia. Ela havia lutado para voltar à vida normal depois que saiu do México. Nada de romances com homens confusos e perturbados, não importa quão belos fossem.
Mark Blackthorn não era exatamente confuso ou perturbado. Mas Mark Blackthorn pertencia a Kieran e à Caçada Selvagem. Mark Blackthorn tinha um coração dividido.
Ele também tinha uma voz suave e rouca, olhos marcantes e um hábito de dizer coisas que viravam seu mundo ao contrário. E ele era um ótimo dançarino, pelo que tinha visto. Cristina dava muita importância à dança. Meninos que dançavam bem beijavam bem, era o que sua mãe sempre dizia.
Uma sombra escura correu pelo telhado da casa de Sterling.
Cristina levantou e saiu do carro em instantes, com a lâmina serafim na mão.
— Miguel — sussurrou ela, e a lâmina acendeu. Ela estava pesadamente enfeitiçada, o bastante para saber que nenhum mundano podia vê-la, mas a lâmina oferecia uma luz preciosa.
Ela avançou cuidadosamente, o coração acelerado. Lembrou-se do que Emma havia lhe dito sobre a noite em que Julian foi atingido: a sombra no telhado, a figura de preto. Ela se aproximou cuidadosamente da casa. As janelas estavam escuras, as cortinas, imóveis. Tudo estava parado e em silêncio.
Ela foi em direção ao Jeep. Tirou a estela do bolso quando uma forma aterrissou no chão ao lado dela com um umpf. Cristina pulou para fora do caminho quando a sombra se desdobrou; era Sterling, vestido com o que ela imaginava que os mundanos pensavam que fosse um uniforme de combate. Calça preta, botas pretas, um casaco preto sob medida.
Ele olhou fixamente para ela, e seu rosto se tornou roxo aos poucos.
— Você — rosnou ele.
— Posso ajudá-lo — disse Cristina, deixando a voz e a lâmina firmes. — Por favor, deixe-me ajudar.
O ódio no olhar dele a espantou.
— Fique longe — sibilou ele, e puxou alguma coisa do bolso.
Uma arma. Uma pistola, de pequeno calibre, mas o bastante para fazer Cristina recuar. Armas de fogo eram algo que raramente entrava na vida dos Caçadores de Sombras; pertenciam aos mundanos, ao mundo de crimes humanos comuns. Mas, mesmo assim, podiam derramar sangue Nephilim e quebrar ossos de Caçadores de Sombras. Ele recuou, apontando a arma para ela, até chegar ao final da entrada. Em seguida, se virou e correu.
Cristina foi atrás dele, mas quando chegou ao fim da entrada, ele desaparecia na esquina da rua. Aparentemente não tinha exagerado, licantropes eram realmente mais velozes do que humanos. Mais velozes até que Caçadores de Sombras.
Cristina murmurou uma singela praga e voltou para o jipe. Pegou a estela do cinto com a mão livre e, agachando, marcou cuidadosamente um símbolo de rastreamento na lateral do veículo, logo acima da roda.
Não foi um desastre completo, pensou ela, voltando para a caminhonete. Como Emma havia dito, ainda estavam no intervalo dos dois dias antes do início da “caçada”. E marcar um símbolo de rastreamento no carro certamente ajudaria. Se apenas ficassem longe da casa dele, o deixassem pensar que tinham desistido, com sorte, ele se descuidaria e começaria a dirigir.
Só quando entrou na caminhonete e fechou a porta foi que viu o telefone aceso. Tinha perdido uma chamada. Quando viu quem era, o coração despencou para o estômago.
Diego Rocio Rosales.
Ela derrubou o telefone como se ele tivesse se transformado em um escorpião.
Por que, por que, por que Diego ligaria para ela? Ela disse a ele para nunca mais voltar a falar com ela.
Sua mão voou para o pingente na garganta, e ela o agarrou, com os lábios se movendo em uma oração silenciosa. Dai-me força para não ligar de volta.


— Está se sentindo melhor, tio? — perguntou Julian.
Arthur, jogado atrás da mesa no escritório, levantou o olhar com olhos distantes e desbotados.
— Julian — disse ele. — Preciso falar com você.
— Eu sei. Você falou. — Julian se inclinou contra uma parede. — Você se lembra sobre o quê?
Ele estava exausto, esgotado, vazio como um osso seco. Ele sabia que devia se arrepender do que tinha dito sobre Mark na cozinha. Sabia que devia ser solidário com o tio. Mas não conseguia desenterrar a emoção.
Ele não se lembrava de ter saído da cozinha: lembrava-se de ter entregado Tavvy, até onde fosse possível entregar uma criança de 7 anos coberta de açúcar; lembrava-se de todos prometendo limpar os restos do jantar de queijo, brownies e coisas queimadas. Até Dru, depois que parou de vomitar na pia, jurou que limparia o chão e o ketchup das janelas.
Não que Julian tivesse percebido antes disso que havia ketchup nas janelas.
Ele acenou e foi se retirar, depois, parou e procurou Emma. Mas em algum momento Emma tinha saído com Cristina. Supostamente, estavam em algum lugar conversando sobre Cameron Ashdown. E não havia nada que Julian quisesse menos do que participar disso.
Ele não sabia quando tinha acontecido, quando a ideia de Cameron o fazia não querer ver Emma. Sua Emma. Você sempre quer ver o seu parabatai. Eles são o rosto mais bem recebido do mundo para você. Havia algo de errado em não querer, como se a Terra de repente tivesse começado à girar em outra direção.
— Acho que não — disse Arthur após um instante. — Eu queria ajudar com uma coisa. Algo a respeito da investigação. Vocês ainda estão investigando, não estão?
— Os assassinatos? Os que as fadas nos pediram para investigar? Estamos.
— Acho que era sobre o poema — disse Arthur. — O que Livia estava recitando na cozinha. — Ele esfregou os olhos, claramente cansado. — Eu estava passando e ouvi
— O poema? — repetiu Julian, confuso. — “Annabel Lee"?
Arthur falou com a voz profunda e retumbante, recitando os versos da poesia como se fossem versos de um feitiço.

Mas nosso amor era muito mais forte do que o amor
Daqueles que eram mais velhos do que nós…
De muitos mais sábios do que nós…
E nem os anjos no Céu acima.
Nem os demônios sob o mar
Podem separar a minha alma da alma
Da bela Annabel Lee...

— Eu conheço o poema — interrompeu Julian. — Mas não...
— “Aqueles que eram mais velhos” — disse Arthur. — Já ouvi essa frase antes. Em Londres. Não consigo me lembrar em que contexto. — Ele pegou uma caneta da mesa, batucou na madeira. — Sinto muito. Simplesmente... não consigo lembrar.
— “Aqueles Que São Mais Velhos” — ecoou Julian. De repente, se lembrou de Belinda, no teatro, sorrindo com seus lábios vermelhos. Que Aqueles Que São Mais Velhos nos concedam boa sorte, ela havia dito.
Uma ideia brotou no fundo da mente de Julian, mas, esquiva, desapareceu quando ele tentou persegui-la.
Ele precisava entrar no estúdio. Queria ficar sozinho, e pintar ajudaria o fluxo dos seus pensamentos. Ele se virou para se retirar e só parou quando a voz do tio Arthur cortou o ar empoeirado.
— Eu ajudei, menino? — perguntou ele.
— Sim — respondeu Julian. — Ajudou.


Quando Cristina voltou para o Instituto, este estava escuro e silencioso. As luzes da entrada tinham sido apagadas, e apenas algumas janelas pareciam iluminadas: o estúdio de Julian, o ponto brilhante no sótão, o quadrado que era a cozinha.
Franzindo o rosto, Cristina foi direto para lá, se perguntando se Emma já tinha voltado de sua tarefa misteriosa. Se os outros haviam conseguido limpar a bagunça que tinham feito.
À primeira vista, a cozinha parecia deserta, com apenas uma luz acesa.
Louças se encontravam empilhadas na pia, e, apesar de alguém claramente ter limpado as paredes e bancadas, ainda se viam comida grudada no fogão e dois sacos grandes de lixo, cheios e entornando os respectivos conteúdos, apoiados na parede.
— Cristina?
Ela piscou no escuro, apesar de a voz ser inconfundível.
Mark.
Ele estava sentado no chão, com as pernas cruzadas. Tavvy dormia ao seu lado – em cima dele, na verdade, com a cabeça apoiada no canto do braço de Mark, e pequenas pernas e braços encolhidos, como um inseto de batata. A camiseta e a calça jeans de Mark estavam cobertas de açúcar.
Cristina tirou lentamente o cachecol e o colocou na mesa.
— Emma já voltou?
— Não sei — respondeu Mark, acariciando cuidadosamente o cabelo de Tavvy. — Mas, se chegou, provavelmente foi dormir.
Cristina suspirou. Ela provavelmente teria que esperar até o outro dia para ver Emma e descobrir o que ela tinha ido fazer. Contar sobre o telefonema de Diego se tivesse coragem.
— Você poderia, se não se importar, me dar um copo d'água? — pediu Mark. Ele olhou para baixo, em tom de desculpas, para o menino no colo. — Não quero acordá-lo.
— Claro. — Cristina foi até a pia, encheu um copo e voltou, sentando de pernas cruzadas na frente de Mark. Ele pegou o copo com uma expressão agradecida.
— Tenho certeza de que Julian não está bravo com você — disse ela.
Mark emitiu um ruído deselegante, terminando a água e pousando o copo.
— Você pode pegar Tavvy — sugeriu Cristina. — Poderia levá-lo para cama. Se quiser que ele durma.
— Gosto dele aqui — disse Mark, olhando para os próprios dedos longos e claros passando pelos cachos castanhos do menino. — Ele... Todo mundo saiu, e ele dormiu em mim. — Ele soou impressionado, contemplativo.
— Claro que dormiu — disse Cristina. — Ele é seu irmão. Confia em você.
— Ninguém confia em um Caçador — falou Mark.
— Você não é um Caçador nessa casa. É um Blackthorn.
— Queria que Jules concordasse com você. Achei que estava deixando crianças felizes. Achei que fosse isso que Jules quisesse.
Tavvy se mexeu no colo de Mark, que se mexeu também, de modo que a ponta do seu sapato tocou o de Cristina. Ela sentiu o contato como um pequeno choque.
— Você precisa entender — disse ela. — Julian faz tudo por essas crianças. Tudo. Nunca vi um irmão que é tanto como um pai. Ele não pode dizer apenas sim, ele tem que dizer não. Ele precisa lidar com disciplina, punição e negação. Enquanto você, você pode dar qualquer coisa. Pode se divertir com eles.
— Julian pode se divertir com eles — argumentou Mark um tanto sorumbático.
— Não pode — disse Cristina. — Ele está com inveja porque os ama, mas não pode ser um irmão. Ele tem que ser pai. Na cabeça dele, eles têm medo dele, e adoram você.
— Julian está com ciúme? — Mark parecia espantado. — De mim?
— Acho que sim. — Cristina olhou nos olhos dele. Em algum momento, conhecendo Mark, a diferença entre os olhos azul e dourado deixou de parecer estranha para ela. Do mesmo jeito que parou de ser estranho estar na cozinha dos Blackthorn, falando outra língua, em vez de estar em casa, onde as coisas eram calorosas e familiares. — Seja gentil com ele. Julian tem uma alma gentil. Morre de medo de que você vá embora e parta os corações dessas crianças que ele tanto ama.
Mark olhou para Tavvy.
— Não sei o que vou fazer — disse ele. — Não sabia como ia partir meu coração estar entre eles outra vez. Foi pensar neles, na minha família, que me ajudou a sobreviver os primeiros anos na Caçada. Todo dia cavalgávamos e roubávamos dos mortos. Era uma vida fria, muito fria. E à noite eu deitava e pensava nos rostos deles para conseguir dormir. Eles eram tudo que eu tinha até...
Interrompeu-se. Tavvy sentou, passando a mão pelo cabelo emaranhado.
— Jules. — Ele bocejou.
— Não — respondeu o irmão baixinho. — Mark.
— Ah, certo. — Tavvy sorriu piscando para ele. — Acho que apaguei com todo o açúcar.
— Bem, você entrou em um saco — disse Mark. — Isso pode provocar esse efeito em qualquer um.
Tavvy se levantou e se espreguiçou, uma espreguiçada completa de menininho, com os braços levantados. Mark o observou, com um olhar de saudade nos olhos.
Cristina ficou imaginando se ele estaria pensando em todos os anos e conquistas que ele perdeu na vida de Tavvy. De todos os irmãos, o mais novo tinha sido o que mais mudou.
— Cama — falou Tavvy, e saiu da cozinha, pausando na porta para falar — Boa noite, Cristina! — timidamente antes de seguir.
Ela podia se levantar e ir para a cama, pensou Cristina. Provavelmente é o que deveria fazer. Não havia razão para ficar aqui sentada no chão com um menino que mal conhecia, que provavelmente desapareceria de sua vida em alguns meses, e que provavelmente estava apaixonado por outra pessoa.
O que, ela sabia, podia ser exatamente o que a atraiu para ele. Ela sabia como era deixar uma pessoa amada para trás.
— Até? — insistiu ela.
As pálpebras de Mark se levantaram lentamente, mostrando a ela o fogo nos olhos dourados e azuis.
— Quê?
— Você disse que sua família, a lembrança de sua família, era tudo que você tinha até alguma coisa. Até Kieran?
— É — respondeu Mark.
— Ele foi o único gentil com você?
— Na Caçada? — perguntou Mark. — Não existe gentileza na Caçada. Existe respeito, um tipo de camaradagem entre irmãos. Eles temiam Kieran, é claro. Kieran é nobre, um Príncipe no Reino das Fadas. O pai dele, o Rei, o entregou para a Caçada como um sinal de boa vontade com Gwyn, mas também exigiu que o filho fosse bem tratado. Esse tratamento foi estendido a mim, mas mesmo antes de Kieran, eles passaram a me respeitar lentamente. — Ele deu de ombros. — Era pior quando íamos a festas. Fadas de todo o mundo compareciam, e elas não apreciavam o comparecimento de um Caçador de Sombras. Faziam de tudo para me atrair, me provocar e me atormentar.
— E ninguém interferia?
Mark soltou um riso curto.
— A vida no Reino das Fadas é brutal — revelou ele. — Mesmo para os melhores deles. A Rainha da Corte Seelie pode ser privada de seus poderes se tiver a coroa roubada. Até Gwyn, que lidera a Caçada Selvagem, tem que ceder autoridade a qualquer um que roubar sua capa. Não pode imaginar que teriam compaixão por um menino que é parte Caçador de Sombras. — Seu lábio se curvou. — Tinham até um verso que usavam para me provocar.
— Um verso? — Cristina levantou a mão. — Deixe para lá, não precisa me contar, não se não quiser.
— Não me importo mais — disse Mark. — Era uma coisa estranha, Primeiro, a chama, depois, a tempestade, no fim, é sangue Blackthorn de verdade.
Cristina se sentou ereta.
— Quê?
— Eles alegavam que significava que o sangue Blackthorn era destrutivo, como tempestade ou fogo. Que quem quer que tivesse inventado a rima estava dizendo que Blackthorn era sinal de azar. Não que isso tenha importância. É só uma bobagem.
— Isso não é bobagem! — exclamou Cristina. — Significa alguma coisa. As palavras escritas nos corpos... — Ela franziu o rosto em concentração. — São as mesmas.
— O que quer dizer?
— “Fogo para água” — disse ela. — É a mesma coisa... são apenas traduções diferentes. Quando essa não é a sua primeira língua, você entende o sentido das palavras de outro jeito. Acredite em mim, “fogo para água” e “primeiro, a chama, depois, a tempestade”, podem ser a mesma coisa.
— Mas o que isso significa?
— Não sei ao certo. — Cristina passou as mãos no cabelo em sinal de frustração. — Por favor, prometa que vai mencionar isso para Emma e Jules assim que puder. Posso estar errada, mas...
Mark parecia estarrecido.
— Sim, claro...
— Prometa.
— Amanhã, eu prometo. — O sorriso dele parecia confuso. — Me ocorre que você sabe muito sobre mim, Cristina, e eu sei muito pouco sobre você. Sei seu nome, Mendoza Rosales. Sei que deixou algo para trás no México. O que foi?
— Não foi algo — disse ela. — Alguém.
— Diego Perfeito?
— E o irmão dele, Jaime. — Ela descartou com um aceno a sobrancelha erguida de Mark. — Por um deles, eu estava apaixonada, e o outro era meu melhor amigo. Ambos partiram meu coração. — Ela ficou quase chocada ao ouvir as palavras saindo de sua boca.
— Pelo seu coração duplamente partido, eu sinto muito — disse Mark. — Mas é errado que eu fique feliz por isso tê-la trazido para a minha vida? Se você não estivesse aqui quando cheguei... não sei se eu teria aguentado. Na primeira vez em que vi Julian, achei que ele fosse meu pai. Eu não sabia que meu irmão tinha crescido tanto. Eu os deixei crianças, e agora eles não mais o são. Quando eu me dei conta do que perdi, mesmo com Emma, aqueles anos de suas vidas... Você é a única de quem não perdi nada, apenas ganhei uma amizade nova.
— Amizade — concordou Cristina.
Ele estendeu a mão, e ela olhou para ele, confusa.
— É tradição — disse ele —, entre as fadas, que uma declaração de amizade seja acompanhada por um toque de mãos.
Ela colocou a mão na dele. Os dedos de Mark fecharam nos dela; eram ásperos onde eram calejados, mas ágeis e fortes. Ela tentou conter o tremor que ameaçou se espalhar por seu braço, se dando conta de que fazia tempo que não dava a mão assim para alguém.
— Cristina — falou Mark, e seu nome soou como música quando ele falou.
Nenhum dos dois notou o movimento na janela, o clarão de um rosto pálido olhando para dentro, nem o barulho de uma noz sendo terrivelmente esmagada entre dedos finos.


A grande câmara na caverna não tinha mudado desde a última visita de Emma.
As mesmas paredes cor de bronze, o mesmo círculo de giz no chão. As mesmas portas grandes de vidro fixadas nas paredes e a escuridão atrás delas.
Energia estalou em sua pele quando ela entrou no círculo. A magia do feitiço. De dentro do círculo, o local parecia diferente, as paredes pareciam desbotadas e fluidas, como se estivessem em um velho retrato. As portas do vão eram escuras.
O círculo em si estava vazio, apesar de haver um cheiro estranho ali dentro, uma mistura de enxofre e açúcar queimado. Fazendo uma careta, Emma saiu do círculo e se aproximou da porta mais à esquerda.
De perto não parecia mais escura. Havia luz por trás dela. Era iluminada por dentro, como uma exibição de museu. Ela se aproximou ainda mais e olhou através do vidro.
Além do vidro, havia um pequeno espaço quadrado como um armário.
Nele havia um grande candelabro de latão, apesar de não haver velas presas neles. Teria sido uma bela arma, Emma pensou, com seus longos espetos que eram feitos para suportar cera mole. Havia também uma pequena pilha do que, para Emma, pareciam vestes cerimoniais, uma túnica vermelha de veludo, um par de longos brincos que brilhavam com rubis. Sandálias de ouro delicadas.
Será que a necromante era uma mulher?
Emma foi rapidamente para a segunda porta. Com o nariz grudado no vidro, ela pôde ver o que parecia água. Agitada e se movendo, e formas escuras iam passando, uma bateu contra o vidro, e ela deu um pulo para trás com um grito antes de perceber que se tratava apenas de um pequeno peixe listrado com olhos cor de laranja. Ele olhou para ela por um instante, antes de desaparecer de volta pela água escura.
Ela levantou a pedra de luz enfeitiçada para o vidro, e a água se tomou realmente visível, era radiante, um azul-esverdeado profundo, a cor dos olhos Blackthorn. Ela pôde ver peixes e algas, e estranhas luzes e cores além do vidro.
Aparentemente estavam lidando com um necromante que gostava de aquários e peixes. Talvez até de tartarugas. Balançando a cabeça, Emma deu um passo para trás.
Seus olhos acenderam no objeto de metal fixado entre as portas. Inicialmente ela achou que parecia uma faca esculpida, saltada da parede, mas agora percebeu que era uma alavanca. Esticou o braço e fechou a mão em volta dela.
Era fria sob seus dedos.
Ela puxou.
Por um momento, nada aconteceu. Em seguida, as duas portas dos vãos se abriram.
Um uivo de outro mundo rasgou o recinto. Emma se virou e encarou horrorizada.
A segunda porta estava aberta e brilhando em azul, e Emma percebeu que não era um aquário, era uma porta para o oceano. Um grande e profundo universo de água se abriu do outro lado da porta, com algas balançando e correntes agitadas, e as formas escuras e sombreadas de coisas maiores que peixes.
O cheiro forte de água salgada estava por todos os lados. Inundação, Emma pensou, e, em seguida, o barulho dela sendo derrubada e arrastada para o mar, como se estivesse sendo sugada por um ralo. Ela só teve tempo de gritar uma vez antes de ser puxada pela porta e encoberta pela água.


Cameron Ashdown.
Julian estava pintando. Cristina tinha lhe entregado o bilhete de Emma depois que ele saiu do sótão: um bilhete inútil, sem qualquer finalidade, que só dizia que ela ia até a casa de Cameron, e pedindo para que não esperasse acordado.
Ele o amassou e murmurou alguma coisa para Cristina. Um segundo depois seguia para a escada, e para o seu estúdio. Abrindo violentamente o seu armário de materiais, derrubando as tintas. Abrindo o zíper do casaco do uniforme, jogando-o no chão, tirando as tampas dos tubos de tinta a óleo e apertando as cores na paleta até o cheiro forte de tinta preencher o recinto e interromper a nebulosidade na sua cabeça.
Ele atacou a tela, segurando o pincel como uma arma, e a tinta parecia escorrer dele, como sangue.
Ele pintava em preto, vermelho e dourado, deixando os eventos do dia vazarem dele, como se fossem um veneno forte. O pincel passou pela tela, e lá estava Mark na praia, o luar iluminando as cicatrizes horrorosas de suas costas. Lá estava Ty com a faca na garganta de Kit Rook. Tavvy gritando com pesadelos. Mark se esquivando da estela de Julian.
Estava ciente de que suava, o cabelo grudado na testa. Sentiu gosto de sal e tinta na boca. Sabia que não deveria estar ali; devia estar fazendo o que sempre fazia: cuidando de Tavvy, encontrando novos livros para alimentar a curiosidade de Ty, aplicando símbolos de cura em Livvy quando ela se cortasse lutando, sentando com Dru enquanto ela assistia a filmes de terror ruins.
Ele deveria estar com Emma. Mas Emma não estava ali; estava fora, vivendo a própria vida, e era assim que deveria ser, como parabatai deveria ser. Não era um casamento, a ligação parabatai. Era uma relação para a qual não havia palavras em língua mundana. Ele deveria querer a felicidade de Emma, mais que a própria, e queria. Queria.
Então por que se sentia como se estivesse sendo esfaqueado até a morte por dentro?
Ele procurou a tinta dourada, porque o desejo crescia dentro dele, batia em suas veias, e apenas pintando-a ele o faria passar. E não podia pintá-la sem dourado. Ele pegou o tubo e...
Engasgou. O pincel caiu no chão, e ele caiu de joelhos. Estava engasgando, o peito sofrendo espasmos. Não conseguia puxar ar para os pulmões. Seus olhos queimavam, e o fundo da garganta também.
Sal. Ele estava engasgando com sal. Não o sal do sangue, mas o sal do oceano. Sentiu o gosto do mar na boca e tossiu, o corpo se contorcendo enquanto cuspia água do mar no chão.
Água do mar? Ele limpou a boca com a parte de trás da mão, o coração acelerado. Não tinha nem passado perto do mar naquele dia. E, mesmo, assim podia escutá-lo nos ouvidos, como se estivesse ouvindo uma concha. Seu corpo doía, e a Marca de parabatai pulsava.
Assustado e tonto, ele colocou a mão sobre a Marca. E soube. Soube sem saber como, no fundo da alma, onde a ligação com Emma tinha sido firmada em sangue e fogo. Sabia porque sabia que ela era parte dele, que a respiração dela era a dele, e os sonhos dela eram os seus, e o sangue dela era o seu, e, quando o coração dela parasse, ele sabia que o dele também pararia, e ficaria feliz, porque não quereria viver um segundo em um mundo que não a incluísse.
Ele fechou os olhos e viu o oceano subir por trás de suas pálpebras, azul, preto e infinito, carregado com a força da primeira onda que quebrou na primeira praia deserta. E sabia.
Onde fores, irei.
— Emma — sussurrou ele, e saiu correndo.


Emma não sabia ao certo o que mais a apavorava em relação ao oceano. Tinha a fúria das ondas – azul-escuras e com as pontas brancas como um laço, eram traiçoeiramente lindas, mas, à medida que se aproximavam da costa, se fechavam como punhos. Ela ficou presa em uma onda quebrando uma vez, e se lembrou de ter tido a sensação de queda, como se estivesse despencando em um poço de elevador, e depois a força da água a prendeu contra a areia. Ela engasgou e se debateu, tentando se libertar, voltar para respirar.
Tinha também a profundidade. Ela já tinha lido anteriormente sobre pessoas abandonadas no mar, sobre como tinham enlouquecido pensando no que havia embaixo delas: os quilômetros e quilômetros de água, a escuridão e coisas dentuças e escorregadias que viviam ali.
Ao ser arrastada pela porta e para o mar, Emma foi engolida por água salgada, que preencheu seus olhos e ouvidos. Estava cercada de água, a escuridão se abria sob ela como um buraco. Era possível ver a porta clara e quadrada do vão diminuindo ao longe, mas, por mais que tentasse, não conseguia nadar até ela. A correnteza era forte demais.
Inutilmente, ela olhou para cima. Sua pedra de luz enfeitiçada tinha sumido, afundando na água abaixo dela. A luz da porta cada vez mais distante iluminava a área ao seu redor, mas não dava para ver nada além de escuridão acima. Seus ouvidos estalavam. Só Raziel sabia o quão afundara. A água perto da porta era verde-clara, cor de jade, mas em todos os outros lugares era negra como a morte.
Ela alcançou uma estela. Seus pulmões já doíam. Boiando na água, nadando contra a corrente, ela tocou a ponta da estela no braço e desenhou um símbolo de Respiração.
A dor nos pulmões aliviou. Com a dor sanada, veio o medo, tão intenso que era capaz de cegar. O símbolo de Respiração a impediu de lutar para respirar, mas o pavor do que podia haver em volta era quase tão intenso quanto. Ela alcançou a lâmina serafim no cinto e a libertou.
Manukel, pensou ela.
A lâmina ganhou vida em sua mão, transbordando luz, e a água ao redor se tomou dourada e turva. Por um instante, Emma ficou impressionada; depois a visão clareou e ela os viu.
Demônios.
Ela gritou, e as bolhas se ergueram, silenciosas. Estavam abaixo de Emma como pesadelos se elevando: criaturas cheias de calos e escorregadias. Tentáculos balançantes, com dentes afiados, vinham em sua direção. Ela manejou Manukel e cortou o membro cheio de pontas que tentava alcançar sua perna. Sangue negro explodiu na água, subindo em nuvens.
Algo vermelho e sinuoso singrou a água, chegando até a ela. Emma chutou, acertou algo macio e corpulento. Engasgou de nojo e golpeou para baixo; mais sangue entornado. O mar ao seu redor estava se tornando cor de carvão. Ela nadou para cima, carregada por sangue de demônio. Ao se elevar, pôde ver a lua branca, uma pérola borrada na superfície da água. O símbolo de Respiração tinha queimado em sua pele; parecia que seus pulmões entravam em colapso.
Dava para sentir o agito da água sob seus pés, não ousou olhar para baixo. Ela se esticou para cima, para onde a água acabava, sentiu a mão romper a superfície, o frio do ar em seus dedos.
Algo a pegou pelo pulso. Sua lâmina serafim caiu da mão, uma ponta brilhante de luz que escapou dela quando foi puxada para a superfície da água. Ela respirou o ar, mas se precipitou. Água encheu seus pulmões, seu peito, e a escuridão a derrubou com a força de um caminhão.


Idris, 2009
Foi na cerimônia parabatai de Emma e Julian que ela aprendeu duas coisas importantes. A primeira, que ela não era a única Carstairs que ainda restava nesse mundo.
A cerimônia parabatai foi executada em Idris, pois tinham lutado na Guerra Maligna, e o valor deles era reconhecido. Pelo menos, Julian disse, era reconhecido às vezes – não quando realmente queriam alguma coisa importante, como trazer a irmã de volta da Ilha Wrangel, mas quando os Nephilim queriam dar uma festa para celebrar o quão incrível os Nephilim eram, o valor deles sempre era citado.
Quando chegaram, olharam em volta das ruas de Alicante, espantados. Na última vez em que estiveram na capital de Idris, ela estava destruída pela Guerra. As ruas reviradas, pregos nas paredes para espantar as fadas, as portas do Salão dos Acordos arrancadas. Agora estava linda outra vez, as pedras de volta ao lugar, os canais cercando as casas, as torres demoníacas brilhando sobre tudo.
— Parece menor — disse Julian, olhando em volta dos degraus do Salão dos Acordos.
— Não é que seja menor. — A voz pertencia a um jovem com cabelos escuros, sorrindo para eles. — É que vocês cresceram.
Eles olharam para ele.
— Não se lembram de mim? — perguntou ele. Ele baixou o tom de voz como se tivesse recitando. — Emma Cordelia Carstairs. Fique com seu parabatai. Às vezes, é mais corajoso não lutar. Proteja-o e guarde sua vingança para outro dia.
— Irmão Zachariah? — Emma estava pasma. — Você nos ajudou durante a Guerra Maligna...
— Não sou mais um Irmão do Silêncio — disse ele. — Apenas um homem comum. Meu nome é James. James Carstairs. Mas todos me chamam de Jem.
Houve espanto e houve conversa, e Julian concedeu espaço para Emma ficar chocada e encher o ex-Irmão Zachariah de perguntas. Jem explicou que tinha se tomado um Irmão do Silêncio em 1878, mas abdicara da função agora para poder se casar com a mulher que amava, a feiticeira Tessa Gray. Julian perguntou se isso significava que ele tinha 150 anos, e Jem admitiu que quase isso, apesar de não aparentar. Ele parecia ter cerca de 23.
— Por que não me disse antes? — perguntou Emma, enquanto desciam para a Cidade do Silêncio, pelas longas escadas de pedra. — Que é um Carstairs?
— Achei que eu pudesse morrer — respondeu ele honestamente. — Era uma batalha. Parecia cruel lhe revelar isso se eu não fosse sobreviver até o dia seguinte. E depois disso Tessa me alertou de que deveria lhe dar tempo, para passar pelo luto dos seus pais, para se ajustar à sua nova vida. — Ele se virou e olhou para ela, com uma expressão ao mesmo tempo triste e afetuosa. — Você é uma Caçadora de Sombras, Emma. E nem eu nem Tessa somos Nephilim, não mais. Para morar comigo, apesar de muito bem-vinda, você teria que abrir mão de ser Caçadora de Sombras. E essa era uma escolha muito cruel para lhe apresentar.
— Morar com você? — Foi Julian, com um alerta agudo na voz. — Porque ela faria isso? Ela tem uma casa. Tem uma família.
— Exatamente — disse Jem. — E tem mais. Você poderia me permitir um instante a sós com Emma?
Julian consultou Emma com o olhar, e ela assentiu. Ele se virou e desceu as escadas, olhando várias vezes para trás para se certificar de que ela estava bem.
Jem a tocou no braço com dedos leves. Ela vestia trajes cerimoniais, pronta para o ritual, mas sentiu a cicatriz que tinha provocado em si mesma com Cortana arder quando ele a tocou, como se reconhecesse o sangue compartilhado.
— Eu quis estar presente por você, para isso — disse ele. — Pois eu, um dia, tive um parabatai, e esse laço é muito precioso para mim.
Emma não perguntou o que tinha acontecido com o parabatai de Jem. Irmãos do Silêncio eram proibidos de ter parabatai, e, além disso, 130 anos era um tempo muito, muito longo.
— Mas não sei quando poderei estar em sua companhia outra vez — disse ele. — Tessa e eu temos que encontrar algo. Algo importante. — Ele hesitou. — Será perigoso procurar por isso, mas, quando encontrar, eu gostaria fazer parte da sua vida outra vez. Como uma espécie de tio. — E deu um meio sorriso. — Você pode não imaginar, mas tenho muita experiência em ser tio.
O olhar dele estava firme no dela, e, apesar de não haver qualquer semelhança física entre os dois, naquele momento Emma se lembrou do pai, do seu olhar firme e do rosto gentil.
— Eu gostaria disso — revelou ela. — Posso perguntar mais uma coisa?
Ele fez que sim com a cabeça, a expressão séria. Era fácil imaginá-lo como um tio: ele parecia tão jovem, mas havia uma certeza calma por baixo disso que o fazia parecer sem idade, como uma fada ou um feiticeiro.
— Sim?
— Você me mandou o seu gato?
— Church? — Ele começou a rir. — Mandei. Ele tem cuidado de você? Levou os presentes que enviei?
— As conchas e vidros do mar? — Ela assentiu. — A pulseira de Julian foi feita com os vidros do mar que Church me trouxe.
A risada desbotou em um sorriso um pouco triste.
— Como deve ser — disse ele. — O que pertence a um parabatai, pertence ao outro. Pois agora são um coração. E uma alma.
Jem ficou com Emma durante a cerimônia, que foi testemunhada por Simon e Clary, que, ela desconfiava, se tornariam parabatai um dia.
Depois da cerimônia, Julian e Emma foram levados pelas ruas para o Salão dos Acordos, onde havia um jantar especial em sua homenagem. Tessa, uma menina bonita, de cabelos castanhos que parecia ter a idade de Clary, se juntara a eles, abraçando forte Emma e exclamando ao ver Cortana, que disse que já tinha conhecido havia muito tempo. Outros parabatai se levantaram e falaram sobre seu laço e suas experiências. Ondas de felicidade radiante pareciam irradiar dos pares de melhores amigos enquanto falavam. Jace e Alec falaram sobre quase terem morrido juntos nos reinos demoníacos e sorriram, e Emma se alegrou ao pensar que um dia ela e Jules estariam ali, sorrindo um para o outro, e falando sobre como seu elo os tinha ajudado a superar provações quando acharam que iam morrer.
Em algum momento durante os discursos, Jem se levantou discretamente da cadeira e desapareceu pelas portas para a Praça do Anjo. Tessa tinha derrubado o guardanapo e corrido atrás dele; enquanto as portas se fechavam, Emma os viu abraçados na escadaria. Jem descansou a cabeça no ombro de Tessa.
Ela quis segui-los, mas já estava sendo puxada para a frente do Salão por Clary, e mandaram que fizesse algum tipo de discurso; Julian estava com ela, sorrindo aquele sorriso calmo que escondia um milhão de pensamentos. E Emma se sentia feliz. Vestia um de seus primeiros grandes achados de brechó, um verdadeiro vestido de baile, nada como os jeans esfarrapados que normalmente usava até se rasgarem. Em vez disso, estava com um vestido marrom Paraphernalia com flores douradas espalhadas, como girassóis crescendo em um campo, e soltou o cabelo, que batia quase na cintura, do rabo de cavalo que normalmente usava. Ela tinha crescido muito no último ano, e batia quase no ombro de Jace quando ele veio dar os parabéns a ela e a Julian.
Ela teve uma paixonite forte por Jace aos 12 anos e ainda se sentia um pouco inquieta perto dele. Jace tinha quase 19 agora, e estava ainda mais bonito, mais alto, mais largo, bronzeado, e com cabelos clareados pelo sol, mas, acima de tudo, parecia mais feliz. Ela se lembrava de um menino lindo e tenso, que ardia com vingança e fogo celestial, e agora ele parecia tranquilo consigo mesmo.
O que era bom. Ela ficava feliz por ele, e por Clary, que sorriu e acenou para ela do outro lado da sala. Mas Emma não sentia mais borboletas no estômago quando ele sorria para ela, nem queria se arrastar para baixo de alguma coisa quando ele a abraçou e disse que ela estava bonita com o vestido novo.
— Você tem muita responsabilidade agora — disse ele para Julian. — Você terá que se certificar de que ela fique com alguém que a mereça.
Julian estava estranhamente pálido. Talvez estivesse sentindo os efeitos da cerimônia, Emma pensou. Foi uma magia forte, e ela ainda a sentia vibrando pelo sangue como bolhas de champanhe. Mas Jules parecia nauseado.
— E eu? — disse Emma rapidamente. — Não tenho que me certificar de que ele fique com uma garota que o mereça?
— Com certeza. Fiz isso por Alec, Alec fez por mim... Bem, na verdade, ele detestou Clary no início, mas acabou cedendo.
— Aposto que você também não gostou muito de Magnus — rebateu Julian, ainda com o mesmo olhar duro e estranho no rosto.
— Talvez não — respondeu Jace. — mas eu jamais teria dito nada.
— Porque Alec ficaria chateado? — perguntou Emma.
— Não — respondeu Jace —, porque Magnus teria me transformado em um cabideiro. — Então se voltou para Clary, que estava rindo com Alec, ambos parecendo felizes.
Era como deveria ser, pensou Emma. O seu parabatai deveria ser amigo da pessoa que você amava, do seu marido, da sua mulher, do namorado ou namorada. Porque era assim que funcionava. Embora quando ela tentava imaginar a pessoa com quem ela estaria, alguém para se casar e ficar junto para sempre, tudo que havia era um espaço borrado. Ela não conseguia imaginar essa pessoa de jeito nenhum.
— Tenho que ir — disse Julian. — Preciso de ar. — Ele passou as costas da mão na bochecha de Emma antes de sair pelas portas duplas do Saldo. Foi toque áspero: as unhas estavam completamente roídas.
Mais tarde naquela noite Emma acordou de um sonho em círculos de fogo, a pele ardendo, os lençóis enrolados nas pernas. Estavam na velha mansão Blackthorn, e Julian dormia longe, a corredores de distância, que ela não conhecia como os corredores do Instituto. Ela foi até a janela. Era uma altura baixa até o jardim. Ela calçou o chinelo e saltou.
A trilha se curvava ao redor dos jardins. Emma foi caminhando, respirando ar frio e limpo de Idris, livre de poluição. O céu acima brilhava com um milhão de estrelas, sem qualquer luz artificial, e ela desejou que Julian estivesse com ela, para ela o mostrar para ele, e então ouviu vozes.
A mansão Blackthorn incendiara há muito tempo, e foi construída perto da mansão Herondale. Emma foi caminhando por belas trilhas até encontrar uma parede. Havia um portão na parede. Quando Emma se aproximou, pôde ouvir as vozes com mais clareza. Ela rastejou para o lado do portão e espiou pelas barras.
Do outro lado, um gramado verde levava até a mansão Blackthorn, abaixo, uma pilha de pedras brancas e amarelas. A grama brilhava com o orvalho sob as estrelas e era marcada por flores brancas que só cresciam em Idris.
— E aquela constelação ali é a Coelho. Vê como tem orelhas? — Era a voz de Jace. Ele e Clary estavam sentados na grama, ombro a ombro. Ele usava calça jeans e camiseta, e Clary vestia camisola, com o casaco de Jace nos ombros, Jace apontava para o céu.
— Tenho quase certeza de que não existe uma constelação Coelho — disse Clary.
Ela não tinha mudado tanto quanto Jace nos últimos anos; continuava pequena, cabelos ruivos brilhantes como o Natal, o rosto sardentos e pensativo. Estava com a cabeça no ombro de Jace.
— Claro que tem — garantiu ele, e quando a luz das estrelas tocou seus cachos pálidos, Emma sentiu uma leve palpitação de sua antiga paixonite. — E aquela ali é a Calota. E tem a Grande Panqueca.
— Vou voltar para dentro — anunciou Clary. — Tinham me prometido uma aula de astronomia.
— O quê? Marinheiros navegavam se guiando pela Grande Panqueca — disse Jace, e Clary balançou a cabeça e começou a se levantar. Jace a pegou pelo calcanhar, e ela riu e tropeçou por cima dele, e então estavam se beijando; Emma congelou, pois o que fora um momento casual, que ela poderia ter interrompido com um “oi” amigável, de repente, tinha se tornado outra coisa.
Jace rolou por cima de Clary sobre a grama. Ela estava com os braços em volta dele, as mãos nos cabelos dele. O casaco de Jace já tinha caído dos seus ombros, e as alças da camisola, deslizado por seus braços claros.
Clary ria e dizia o nome dele, dizia que talvez devessem entrar, e Jace beijou o pescoço dela. Clary engasgou, e Emma o ouviu dizer:
— Lembra a mansão Wayland? Lembra aquela vez lá fora?
— Lembro. — A voz dela estava baixa e rouca.
— Não achei que pudesse tê-la — disse Jace. Ele estava por cima de Clary, apoiado nos cotovelos, traçando a linha da sua bochecha com o dedo. — Era como estar no Inferno. Eu teria feito qualquer coisa por você. Ainda faria.
Clary esticou a mão sobre o peito, no coração dele, e disse:
— Eu te amo.
Ele emitiu um ruído, um ruído nada Jace, e Emma se afastou do portão e correu de volta para a casa Blackthorn.
Ela chegou à janela e subiu, engasgando. A lua brilhava como uma inundação de luz, iluminando seu quarto. Tirou o chinelo e sentou-se na cama.
O coração batia acelerado no peito.
O jeito como Jace olhou para Clary, como tocou seu rosto. Ficou imaginando se um dia alguém a olharia assim. Não parecia possível. Ela não conseguia se imaginar amando ninguém daquele jeito.
Ninguém além de Jules.
Mas isso era diferente. Não era? Não conseguia imaginar Jules deitado em cima dela, beijando-a daquele jeito. Eles eram diferentes, eram outra coisa, não eram?
Ela deitou na cama, olhando para a porta do outro lado do quarto. Parte dela esperava que Jules a atravessasse, viesse até ela porque ela estava infeliz do jeito que ele frequentemente fazia, parecendo saber sem ser avisado. O por que ele acharia que ela estava infeliz? Aquele dia tinha sido sua cerimônia parabatai; deveria ser um dos dias mais felizes da sua vida, exceto, talvez, pelo seu casamento. Em vez disso, ela estava se sentindo agitada e preenchida pelo estranho impulso de chorar.
Jules, pensou ela, mas a porta não se abriu, e ele não apareceu. Em vez disso ela se encolheu em volta do travesseiro e ficou deitada até o amanhecer.

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