domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 15

O vento cessou pouco antes da alvorada, como se soubesse que tinha feito seu trabalho de limpar as nuvens do céu, e que era hora de seguir adiante. O dia seguinte amanheceu frio e brilhante e quando Will se agitou do pequeno cômodo o taberneiro o cumprimentou. O sol da manhã adentrava brilhante através da janela da taberna.
Will agradeceu ao taberneiro pelo bule de café. A cozinheira serviu um café da manhã composto de torradas e fatias de presunto frio, mas, como sempre, era o bule de café quente que ele mais ansiava. E aparentemente o taberneiro tinha o mesmo gosto. Ele se serviu com uma caneca e sentou-se na frente de Will, dando pequenos goles e suspirando apreciativamente.
— Foi uma boa noite a noite passada — ele disse, com uma questão implícita nas suas palavras.
Will assentiu.
— Por falar nisso, Cullum Gelderris é meu nome, uma vez que não chegamos a fazer as apresentações na noite passada.
Will balançou a mão.
— Will Barton — ele disse.
O taverneiro concordou com a cabeça várias vezes como se o nome significasse alguma coisa para ele.
— Sim, foi uma boa noite — ele repetiu.
Will bebericava o café, sem falar nada. Até que finalmente Gelderris chegou ao assunto que estava pensando.
— Hoje a noite deverá ser melhor ainda. No fim de semana geralmente temos uma plateia maior. E será maior ainda se circular a novidade que temos um bardo na vila.
E olhando para Will por sobre sua caneca perguntou:
— Planeja ficar aqui mais uma noite?
Will estava esperando por essa pergunta. Apesar de estar ansioso para chegar ao Castelo Macindaw, sabia que seria melhor permanecer pelo menos por mais uma noite.
Os lucros eram bons em uma vila, como ele pudera perceber na noite anterior. Se Gelderris estivesse correto, e não havia nenhuma razão para crer o contrário, hoje a noite ele poderia ganhar mais. Poderia parecer suspeito se ele perdesse essa chance de ganhar um dinheiro, percebeu. Mas ainda assim, certa barganha era esperada.
— Eu ainda não decidi — respondeu — suponho que eu possa seguir adiante.
— E pretende ir para onde? — Gelderris perguntou rapidamente.
Will deu de ombros, como se fosse algo que não houvesse grande importância.
— Talvez para o Castelo Macindaw. Eu ouvi falar que o Lord Syron recebe muito bem os bardos. E suponho que lá haja poucas coisas para entreter as pessoas depois que a neve chegar. — Ele acrescentou.
Mas Gelderris logo respondeu.
— Você não conseguirá um bem-vindo de Syron. Ele não falou uma única palavra há dois meses ou mais.
Will franziu a testa levemente, fingindo que não havia entendido.
— Por que não? Ele se converteu a uma religião e fez um voto de silêncio? — falou e sorriu para que Gelderris percebesse que estava brincando. Mas não houve nenhum sorriso em resposta da parte do taberneiro.
— Há pouco de religião envolvido — ele respondeu — na verdade há o oposto de religião.
— Não me diga que há magia negra? — Will perguntou casualmente, usando o termo camponês para feitiçaria.
Dessa vez Gelderris olhou em volta antes de responder.
— É o que dizem — ele disse, em voz baixa. — Nocauteado, ele foi. Saudável como nós dois, num minuto. E de repente, estava agonizando, mal conseguindo respirar, olhos abertos, mas sem ver nada, sem falar nada.
— E os curandeiros, o que eles dizem? — Will perguntou.
Gelderris respondeu com escárnio.
— E o que eles sabem? Não conseguem explicar a condição dele. Nem conseguem fazer nada para melhorá-la. Ocasionalmente, ele desperta o suficiente para comer um pouco, mas mesmo assim está pouco consciente. E logo a seguir ele volta de novo ao seu estado anterior de transe.
Will abaixou sua caneca vazia, pensando em repetir a dose, então relutantemente abandonou a ideia. Desde que passara a morar sozinho, começou a se tornar um viciado em cafeína, e era hora de moderar o seu comportamento.
— E isso tem alguma coisa a ver com o que disseram ontem a noite? — ele perguntou — aquele negócio de guerreiro misterioso e tal?
E de novo, Gelderris hesitou antes de responder. Mas parecia mais fácil discutir esses assuntos na luz brilhante do dia.
— Se me perguntarem, eu digo que sim.
— As pessoas andam falando que Malkallam retornou à Floresta Grimsdell.
— Malkallam? — perguntou Will.
— Um adepto da magia negra. Um feiticeiro. Da pior espécie, aparentemente. Ele teve uma intensa rivalidade com o ancestral de Syron, há cem anos...
— Cem anos? — Will retrucou, com evidente descrença em sua voz. — Quanto tempo um feiticeiro vive, a propósito?
Gelderris levantou um dedo em advertência.
— Não seja tão rápido em desacreditar — ele disse — ninguém sabe quanto tempo um feiticeiro pode viver. Eu diria que cem anos é muito tempo mesmo. Mas essas coisas acontecendo em Grimsdell não têm nenhuma outra explicação. Nem a estranha doença de Lord Syron tem, e o povo comenta que o mesmo ocorreu com o ancestral dele após ele ter lutado com Malkallam.
— Então, se esse Malkallam está na Floresta Grimsdell, porque ninguém de Macindaw junta um punhado de soldados e o expulsa? — Will perguntou — deve ter alguém no comando depois que Syron ficou incapacitado, não?
— Você não simplesmente marcha para a Floresta Grimsdell, Will Barton. É uma mata serrada e uma vegetação rasteira, com trilhas que se torcem e contorcem entre espinheiros tão densos que você só consegue ver o sol se estiver em pleno meio dia. Há também o pântano, dê um passo no lugar errado e você afundará e nunca mais será visto.
Will refletiu sobre o que escutara por um momento. No fim, o taberneiro estava sendo uma mina de informações.
— Então não tem ninguém no comando de Macindaw? — Ele disse, e então acrescentou logo em seguida. — Isso não é bom, eu estava esperando passar o inverno lá, ou pelo menos algumas semanas.
Gelderris franziu os lábios.
— Oh, você irá encontrar alguém por lá. O filho de Syron tomou conta das coisas. Sujeito estranho é o que ele é — acrescentou sombriamente.
Will olhou para ele.
— Estranho, você diz?
E Gelderris assentiu enfaticamente.
— Há os que dizem que ele está por trás da doença do pai. Ele é muito esquivo, muito misterioso. Usa um robe preto, como se fosse monge, entretanto não é nenhum religioso. Um estudioso, ele se proclama. Mas o que ele estuda, é o que eu queria saber.
— Você acha que ele pode ser esse... — Will hesitou, como se procurasse se lembrar do nome, embora soubesse muito bem qual era. — Malkallam? — ele concluiu.
Gelderris ficou um pouco desconfortável, agora que fora perguntado diretamente para dizer sua opinião. Ele se mexeu no seu banco.
— Olha, eu não estou dizendo isso. — Ele disse finalmente. — O que estou falando é que não ficaria surpreso, se fosse isso. O que se fala é que Orman passa seus dias na sua torre, estudando livros e velhos pergaminhos. Ele pode até ser o senhor de Macindaw, mas ele não é nenhum líder-guerreiro. Graças a Deus, Sir Keren está lá para cuidar dessas outras coisas.
Ele ergueu uma sobrancelha a menção desse novo nome. Gelderris não precisou esperar que ele fizesse a pergunta.
— O sobrinho de Syron – primo de Orman. Ele é um bom guerreiro, alguns anos mais novo que Orman, mas um líder natural e muito popular entre os soldados. Penso que Syron iria preferir que seu herdeiro fosse Keren, ao invés de Orman.
— Tão perto da fronteira com Picta, é necessário a existência de um bom guerreiro no castelo — Will filosofou, e o taberneiro concordou.
— Isso é um fato. Tem mais que um de nós contentes pelo fato de que Keren está por aqui. Se os escoceses sonharem que temos um líder tão fraco no comando como Orman, estaríamos todos usando saias escocesas e comendo haggis antes do mês acabar.
Will enrubesceu e replicou:
— Ah, bom, isso é tudo política, e está muito acima do que um homem simples como eu posso entender. E se eu puder encontrar uma cama e teto no castelo de Orman, e puder ganhar um dinheirinho, para poder seguir meu caminho, fico satisfeito. Mas essa noite, é claro, passarei no seu castelo.
Cullum pareceu contente com as novidades. Ele apontou para a chaleira aquecendo no fogo.
— Por mim pode ser. Aceita mais um café enquanto está fresco?
As boas intenções voaram pela janela. Will refletiu que esse serviço de inteligência dava uma sede danada. Ele pegou sua caneca.
— Por que não? — ele disse.

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