sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 15 - Os anjos não muito felizes

— O que você está fazendo aqui? — Mark sibilou na escuridão.
Ele estava no guarda-volumes, cercado por cabides de roupas claras. A temperatura caía em Los Angeles durante a noite, mesmo no verão, mas os casacos eram leves: paletós masculinos de linho e algodão, xales leves e de seda para mulheres. Havia pouca luz, mas Mark não resistiu quando a mão clara se esticou de trás de um casaco de couro e o puxou pelos cabides.
Kieran. O cabelo dele estava no tom mais escuro de azul naquele dia, quase preto, a cor das ondas durante uma tempestade. O que significava que ele estava de péssimo humor. Seus olhos prata e preto brilharam no escuro.
— E de que outro jeito vou conseguir vê-lo? — perguntou ele, empurrando Mark contra a parede. Havia pouco espaço entre os casacos; era próximo e quente. Mark sentiu o ar sair de si, e não só pela força com que bateu na parede. Raiva irradiava de Kieran em ondas que Mark conseguia sentir; elas se contorciam dentro dele, profundamente, em um lugar onde as águas frias do Reino das Fadas outrora congelaram seu coração. — Não posso entrar no Instituto, exceto pelo Santuário, e eu seria morto se me encontrassem lá. Tenho que passar todas as noites no deserto esperando nas sombras na esperança de que você se proponha me visitar?
— Não — disse Mark, mesmo enquanto Kieran o pressionava mais para trás, ajeitando o joelho entre as pernas dele. As palavras eram furiosas, mas as mãos no corpo de Mark eram familiares: dedos magros e frios abrindo os botões de sua camisa, deslizando entre eles para tocar a pele. — Temos que ficar longe um do outro até que isso tudo acabe.
Os olhos de Kieran ardiam.
— E depois? Você vai voltar para a Caçada voluntariamente, por mim? Acha que sou tolo. Você sempre detestou aquilo.
— Mas não detestei você — disse Mark.
O guarda-volumes cheirava a milhões de perfumes misturados: colônias que ficavam nos casacos e cutucavam seu nariz. Eram cheiros sintéticos, não reais: tuberosa falsa, jasmim falso, lavanda falsa. Nada no mundo mundano era real.
Mas, pensando bem, alguma coisa no Reino das Fadas era mais real que isso?
Não me detestava? — zombou Kieran com a voz fria. — Que honra. Como me sinto elogiado. Sequer sente a minha falta?
— Sinto — disse Mark.
— E devo acreditar nisso? Lembre-se, sangue mestiço, que eu sei muito bem que você pode mentir.
Mark olhou nos olhos de Kieran. Ele viu a tempestade naqueles olhos, mas, por trás da tempestade, também viu dois meninos tão pequenos quanto estrelas em um céu distante, entrelaçados sob um cobertor. Tinham a mesma altura; ele só precisava se esticar ligeiramente e tocar a boca de Kieran com a sua.
O príncipe fada enrijeceu contra ele. Ele não se mexeu, mais hesitando que sem reação. As mãos de Mark subiram para acariciar o rosto de Kieran, e então Kieran se moveu, avançando para beijar com uma intensidade que fez Mark bater a cabeça na parede.
Kieran tinha gosto de sangue e do céu frio da noite, e, por um momento, Mark estava voando livre com a Caçada. O céu noturno era sua estrada a ser conquistada. Ele montava um cavalo branco e prata feito de luz da lua por um caminho de estrelas. Cercado por gritos, berros, risos e choros, ele cortou um caminho pela noite que abria o mundo a seus olhos investigativos; ele viu lugares que nenhum olhar humano havia visto, cachoeiras escondidas e vales secretos. Parou para descansar nas pontas de icebergs e galopou pela espuma de cachoeiras; os braços brancos de ninfas se esticando para pegá-lo. Ele se deitou com Kieran na grama de um pasto alpino, de mãos dadas, e contou quadrilhões de estrelas.
Kieran foi o primeiro a soltar.
Mark mal conseguia respirar.
— Tinha alguma mentira nesse beijo?
— Não. Mas... — Kieran parecia contemplativo. — Essas estrelas nos seus olhos são para mim ou para a Caçada?
— A Caçada era dor e glória — disse Mark. — Mas foi você quem me permitiu enxergar a glória, e não só a dor.
— Aquela garota — disse Kieran. — Você voltou para casa com ela naquela noite, no meu cavalo. — Mark percebeu com um susto que ele estava falando de Cristina. — Achei que talvez você a amasse.
Os olhos dele abaixaram. Os cabelos tinham clareado para um azul mais prateado, o mar após uma tempestade. Mark se lembrou de que Kieran não era mais velho do que ele; apesar de ser uma fada sem idade, ele tinha vivido menos de 20 anos. E ele sabia menos do que Mark sobre os humanos.
— Acho que ninguém se apaixona com essa velocidade — disse Mark. — Eu gosto dela.
— Não pode entregar seu coração a ela — disse Kieran —, apesar de poder fazer o que mais quiser com ela.
Mark teve que conter uma risada. Kieran, demonstrando um tipo de bondade só dele. Fadas acreditavam em promessas, muito mais que em fidelidade de corpo e coração. Uma pessoa fazia uma promessa ao seu amado, e cumpria essa promessa.
Exigir uma promessa de fidelidade física era coisa rara, mas era totalmente normal que alguém exigisse fidelidade do coração, e fadas normalmente o faziam. A punição por quebrar uma promessa de amor era severa.
— Ela é filha de uma família antiga — disse ele. — Um tipo de princesa. Acho que ela não olharia duas vezes para mim.
— Ela olhou para você diversas vezes enquanto dançava com aquela menina loura.
Mark piscou os olhos. Em parte, surpreso por ter se esquecido tão depressa como as fadas eram literais. E, em parte, surpreso por ele próprio ter se lembrado de uma expressão tão humana e a utilizado tão inconscientemente.
Não havia razão para explicar a Kieran todas as formas pelas quais Cristina jamais o quereria. Ela era gentil demais para demonstrar sua aversão ao sangue de fada, mas ele tinha certeza de que ela devia sentir aversão. Em vez disso, ele colocou as mãos na cintura de Kieran e o puxou para mais um beijo, e, com ele, memórias da Caçada, doces como vinho.
Os beijos deles eram quentes, emaranhados. Dois meninos sob um cobertor, tentando não fazer barulho, não acordar os outros. Beijos para apagar lembranças, beijos para limpar o sangue e a sujeira, beijos para espantar as lágrimas. As mãos de Mark subiram por baixo da camisa de Kieran, traçando as linhas das cicatrizes nas costas dele. Ali, eles tinham a mesma dor, apesar de que os que chicotearam Mark, pelo menos, não eram seus familiares.
As mãos de Kieran escorregaram sem eficiência pelos botões de pérola de Mark.
— Essas roupas mundanas — disse ele entre dentes. — Detesto.
— Então tire-as de mim — murmurou Mark, envolvido, hipnotizado e perdido na Caçada. Suas mãos estavam em Kieran, mas mentalmente ele girava pela aurora boreal, o céu pintado de azul e verde como o coração do oceano. Como olhos Blackthorn.
— Não. — Kieran sorriu e deu um passo para trás. Ele estava desgrenhado, a camisa aberta na frente. Querendo pulsar no sangue de Mark, se perder e esquecer. — Uma vez você me disse que humanos querem o que não podem ter. E você é meio humano.
— Queremos o que não podemos ter — disse Mark. — Mas amamos o que nos demonstra gentileza.
— Vou escolher a vontade, por agora — falou Kieran, colocando a mão no colar na garganta de Mark. — E a lembrança do meu presente para você.
Flechas de elfos necessitavam de muita magia para serem feitas, e eram muito valiosas. Kieran a tinha dado de presente para ele não muito depois de se juntar à Caçada Selvagem; colocara a ponta em um cordão para que Mark pudesse usá-la perto do coração.
— Atire com vontade e precisão — aconselhou Kieran. — Encontre o assassino, e depois volte para mim.
— Mas minha família — disse Mark, fechando a mão em um reflexo na de Kieran. — Kier, você precisa...
— Volte para mim — repetiu Kieran. Ele beijou a mão fechada de Mark uma vez e saiu pelo meio dos casacos pendurados. Apesar de Mark ter ido imediatamente atrás dele, ele já tinha desaparecido.

* * *

O interior do teatro era lindo, uma ode romântica aos dias de glória do cinema da era de ouro. Um teto abobadado se dividia em oito graças as vigas pintadas de ouro, cada segmento pintado com uma cena de um filme clássico, feito em tons barrocos: Emma reconheceu E O Vento Levou e Casablanca, mas os outros não – um homem carregando outro homem através de areias douradas em chamas, uma menina ajoelhada aos pés de um garoto segurando uma arma nos ombros, uma mulher cujo vestido branco voava ao seu redor como pétalas de uma orquídea.
Um aroma doce e pesado pairou pelo ar enquanto as pessoas se apressavam para sentar em um espaço semicircular. Os assentos eram forrados com veludo roxo, cada qual bordado com um M dourado no espaldar. Conforme a garota havia prometido, o ingresso agora tinha a fila e o assento impresso. Eles acharam as cadeiras e se sentaram; primeiro, Cristina, depois, Emma, em seguida, Julian. Ele se sentou ao lado de Emma.
— M de Meia-Noite? — perguntou, apontando para as traseiras dos assentos.
— Provavelmente — disse ele, e voltou a olhar para o palco. As cortinas estavam abertas, e uma enorme pintura de uma vista para o mar cobria a parede dos fundos. O palco estava vazio, o chão brilhava com tacos polidos.
Emma estava ruborizada. A voz de Julian soou calma, neutra. Mas a expressão do rosto dele há poucos minutos invadiu sua visão assim mesmo: o jeito como ele a olhara quando a segurou na pista de dança, aquela expressão nua em seus olhos, todo o fingimento deixado de lado.
Aquele olhar mostrou a ela um Julian decidido e agoniado que Emma não havia conhecido. Um rosto escondido que ela nunca vira, que não achava que alguém tivesse visto.
Ela sentiu Cristina se mexer ao seu lado e virou rápido com culpa: estava tão imersa no próprio espanto que se esqueceu de perguntar à amiga por que ela parecia tão inquieta.
Cristina olhava para o outro lado do teatro. Seus olhos estavam grudados no homem de terno. Ele ocupava a cadeira ao lado de uma mulher loura de vestido prateado e salto alto.
— Ugh — disse Cristina. — Praticamente tive que arrancá-lo de mim. Que pervertido. Minha mãe o teria esfaqueado.
— Quer que o matemos? — sugeriu Emma, brincando apenas em parte. — Podemos matá-lo, depois da apresentação.
— Seria desperdício de energia — falou Cristina, dispensando a ideia. — Vou dizer o que descobri: ele é parte licantrope. E é integrante dos Seguidores, foi assim que os chamou, há seis meses. Foi isso que quis dizer quanto a ser Azul.
— O fato de que ele é um Seguidor há um bom tempo, ou o fato de ser parte licantrope? — perguntou Julian.
— As duas coisas, eu acho — disse Cristina. — Ele se empenhou bastante para me contar o que significa ser parte lobisomem. Como é mais forte e mais rápido do que um humano. Ele diz que consegue arrebentar uma parede de tijolo. — Ela revirou os olhos.
— Não entendo — retrucou Emma. — Como a pessoa pode ser parte licantrope?
— Quer dizer que tem o vírus da licantropia, mas é um vírus inativo — explicou Jules. — Você pode transmitir, mas não pode se Transformar. Jamais será lobo, mas pode ter mais força e velocidade.
— Ele disse que todos eles têm força e velocidade aumentadas — acrescentou Cristina. — Ele contou que toda vez que apresentam uma Loteria todos os Seguidores se fortalecem.
— Magia solidária — disse Julian. De repente, houve uma comoção na fileira deles.
— Estou atrasado? — Era Mark, parecendo agitado, tropeçando no assento ao lado de Julian. Os cabelos claros pareciam ter sido expostos a uma máquina de vento. — Desculpem, me distraí.
Julian olhou para ele por um longo instante.
— Nem me conte — falou o irmão afinal. — Não quero saber.
Mark pareceu surpreso.
— Não quer? — perguntou ele. — Eu quereria.
— Eu quero — disse Emma, mas antes que Mark pudesse dizer qualquer coisa, as luzes do teatro diminuíram. O silêncio se abateu instantaneamente; não o sussurro que Emma teria imaginado, mas um silêncio súbito e inesperado.
Um tremor passou por sua nuca quando um único holofote se acendeu no palco. A banda tinha se reunido no lugar destinado a orquestra. Começaram a tocar uma melodia quieta, quase fúnebre, quando um objeto coberto por veludo preto foi levado para o palco por dois homens uniformizados. A música desbotou, e ouviu-se o estalido de saltos; um instante mais tarde a mulher que recebia os ingressos na porta apareceu. Ela havia trocado de roupa e estava com um belo vestido longo, preto e azul, de renda, que parecia espuma no mar. Mesmo de longe Emma viu o delineador escuro nos olhos dela.
A mulher estendeu a mão, as unhas pintadas de vermelho, e pegou o veludo preto, puxando-o de lado e jogando-o dramaticamente no chão.
Embaixo da coberta havia uma máquina. Um tambor grande e transparente se encontrava sobre um plinto metálico; dentro do vidro, havia centenas de bolas coloridas numeradas. Uma calha de metal saía da máquina, e na frente da calha, havia uma bandeja.
— Senhoras e senhores — disse a mulher no palco. — Eu sou Belinda Belle.
— Belinda Belle? — sussurrou Julian. — É um nome falso.
— Você é um detetive brilhante — murmurou Emma. — Brilhante.
Ele fez uma careta para ela, e Emma sentiu uma onda de alívio. Eram ela e Julian, fazendo caretas um para o outro, fazendo o outro rir. Isso era normal.
A mulher no palco continuou:
— Sejam bem-vindos à Loteria.
A sala estava em silêncio. Belinda sorriu, repousando a mão no dispositivo, perfeitamente imóvel.
— Uma máquina de loteria — murmurou Julian. — Isso é literal.
— O Guardião não pôde estar conosco essa noite — disse Belinda. — A segurança teve que ser aumentada. A última caçada foi interrompida por Nephilim, e o valor do sacrifício foi comprometido.
Houve um baixo murmúrio. Um choque passou por Emma. Nephilim. A mulher disse “Nephilim”. Essas pessoas sabiam sobre os Caçadores de Sombras. Não foi tanto uma surpresa quanto uma confirmação do que Emma tinha imaginado o tempo todo. Algo estava acontecendo ali, algo que se estendia até o Submundo e puxava as raízes de tudo que eles conheciam.
— O sacrifício? — sussurrou Emma. — Ela está falando de um sacrifício humano?
S-H-H-H, Julian escreveu no braço dela. Ela viu com uma pontada, quando seus dedos tocaram a pele, que as unhas de Julian estavam completamente roídas.
A música voltou. No palco, Belinda apertou um botão na lateral da máquina. Os braços metálicos ganharam vida. As bolas giraram no interior do globo, se transformando em um borrão de cor, como o interior de um caleidoscópio.
Giro, giro, giro. Emma na praia, os braços do seu pai em volta dela. Caleidoscópios são como mágica, Emma. Duas pessoas que olham para eles nunca veem a mesma coisa.
O coração de Emma doeu com a lembrança. A máquina girou mais depressa, mais depressa ainda, e cuspiu uma bola vermelha. Correu pela calha e caiu na bandeja.
Belinda a pegou delicadamente. Uma imobilidade tensa havia recaído sobre a multidão. Era a imobilidade de um gato prestes a atacar.
— Azul — disse ela, com a voz ressonante no silêncio. — Azul 304.
O momento se estendeu, suspenso e congelado. Foi interrompido por um homem se levantando. Ele se moveu com cautela, como uma estátua trazida à vida, súbita e relutantemente.
Era o homem com quem Cristina tinha dançado, o de terno. Ele estava muito pálido agora, e a mulher do vestido prateado se inclinava para longe dele.
— Sr. Sterling — chamou Belinda, e deixou a bola cair de volta na bandeja com um tilintar. — A Loteria o escolheu.
Emma não pôde deixar de olhar em volta, tentando não parecer que estava encarando. A plateia estava sentada, imóvel, a maioria sem expressão. Alguns tinham olhares de alívio. O homem de terno – Sterling – parecia atordoado, como se tivesse sido golpeado no plexo solar e estivesse prestes a engasgar no ar.
— Vocês conhecem as regras — disse Belinda. — O Sr. Sterling tem dois dias de liberdade antes do início da caçada. Ninguém pode ajudá-lo. Ninguém pode interferir na caçada. — Os olhos dela vasculharam a plateia. — Que Aqueles Que São Mais Velhos nos concedam boa sorte.
A música voltou. Todos começaram a se levantar, o salão foi preenchido pelo murmúrio de conversas baixas. Emma se levantou com um pulo, mas a mão de Julian fechou em torno do braço dela antes que pudesse se retirar. Ele estava sorrindo; um sorriso claramente falso, mas que provavelmente convenceria qualquer um que não o conhecesse.
— Eles vão matá-lo — sussurrou Emma com urgência. — Tudo que ela disse... a caçada...
— Não sabemos disso — falou Julian sem mover os lábios.
— Emma tem razão — emendou Mark. Eles estavam avançando apressados, empurrados para as saídas pela multidão. A banda tocava As Time Goes By, de Casablanca, a doce melodia completamente incongruente com a sensação de ansiedade chicoteando pela sala. — Uma caçada significa morte.
— Temos que oferecer ajuda a ele — disse Cristina. Seu tom foi seco.
— Mesmo que ele seja um pervertido — concordou Emma. — É o que fazemos...
— Você ouviu as regras — afirmou Jules. — Sem interferência.
Emma girou, parando onde estava. Seus olhos encontraram os de Julian.
— Essas regras — disse ela, e pegou a mão dele, passando os dedos sobre a pele. E-L-A-S-N-Ã-O-S-E-A-P-L-I-C-A-M-A-N-Ó-S.
Sombras brotaram nas íris azuis-esverdeadas que ela conhecia tão bem: uma admissão de derrota.
— Vá — disse ele. — Leve Cristina.
Emma pegou a mão de Cristina, e as duas atravessaram a multidão; Emma usando os cotovelos e as botas, pisando violentamente em vários pés, para ultrapassar os outros. Chegaram ao corredor central. Ela teve consciência de Cristina perguntando a ela com um sussurro como encontrariam Mark e Julian novamente.
— No carro — disse Emma. Ela viu o olhar confuso de Cristina, mas não perdeu tempo dizendo que ela sabia qual era o plano do jeito que sempre sabia quais eram os planos de Julian. Ela conhecia os planos porque conhecia Julian.
— Lá está ele. — Cristina apontou com a mão livre. Estavam no lobby.
Emma seguiu sua indicação e viu um flash de solas de sapatos vermelhas. O Sr. Sterling, saindo pela porta. A mulher que chegara com ele havia desaparecido. Elas correram atrás dele, atravessando a multidão. Emma trombou com uma garota de cabelos pintados de arco-íris, que emitiu um “ui!” surpreso.
— Desculpe! — gritou Emma, quando ela e Cristina escaparam pelo pequeno círculo de pessoas reunidas na entrada do teatro.
A placa de Hollywood piscava, brilhante, acima delas. Onde a rua dobrava, Emma viu Sterling desaparecendo em uma esquina. Ela saiu correndo, e Cristina foi atrás.
Era por isso que ela corria todos os dias na praia. Para que conseguisse voar pela calçada sem sentir, de modo a não arfar, e correndo como se estivesse voando. Cristina seguia logo atrás. Seus cabelos escuros tinham se soltado e voavam atrás dela, como uma bandeira.
Elas dobraram a esquina. Estavam em uma rua lateral; bangalôs alinhavam a rua, a maioria das janelas era escura. Sterling estava ao lado de um enorme jipe prateado, que parecia caro, com a mão ainda no controle remoto da chave. Ele ficou olhando, totalmente espantado, quando elas pararam na frente dele.
— O quê...? — disse ele. De perto era mais fácil ver o quanto parecia abalado. Ele estava pálido e suando, o pulso acelerado na garganta. — O que vocês estão fazendo?
Os olhos dele brilhavam em amarelo-esverdeado à luz da rua. Podia ser parte lobisomem, pensou Emma, mas parecia um mundano assustado.
— Podemos ajudar — disse ela.
A garganta pulsando novamente.
— Do que está falando? — perguntou ele, tão selvagem que Emma ouviu um ruído ao seu lado esquerdo e percebeu que Cristina tinha sacado o canivete borboleta. Ela não tinha se mexido, mas a arma brilhou na mão dela, uma ameaça silenciosa, caso Sterling desse um passo em direção a Emma.
— A Loteria — disse Emma. — Você foi escolhido.
— Sim, eu sei. Acha que não sei? — Sterling rosnou. — Vocês nem deveriam estar falando comigo. — Ele passou a mão pelo cabelo discretamente. O chaveiro dele caiu e bateu no chão. Emma deu um passo à frente, alcançando-o. Entregou-o a ele. — Não! — gritou Sterling, rouco, e chegou para trás, como um caranguejo. — Não toque em mim! Não se aproxime!
Emma jogou as chaves aos seus pés e levantou as mãos, com as palmas abertas. Ela sabia onde as próprias armas estavam, as adagas nas botas, sob a bainha do vestido.
Mas sentia falta de Cortana.
— Não queremos machucá-lo — falou ela. — Queremos ajudar, só isso.
Ele se abaixou cautelosamente e pegou as chaves.
— Não podem me ajudar. Ninguém pode.
— Sua falta de confiança é muito ofensiva — disse Emma.
— Você não faz ideia do que está acontecendo aqui. — Ele riu uma risada aguda, artificial. — Não entende? Ninguém pode me ajudar, principalmente, umas crianças tolas... — Ele pausou, olhando para Emma. Para o braço dela, especificamente. Ela olhou para baixo e praguejou para si mesma. A maquiagem que cobria seu símbolo parabatai borrara, provavelmente pelo esbarrão que deu na menina no lobby, e a Marca estava totalmente visível.
Sterling não pareceu nada satisfeito.
— Nephilim. — Ele rosnou. — Jesus, era só o que me faltava.
— Sabemos que Belinda disse para não interferimos — começou Emma apressadamente. — Mas como somos Nephilim...
— Esse não é nem o nome dela. — Ele cuspiu na vala. — Vocês não sabem de nada, sabem? Malditos Caçadores de Sombras, que se acham os reis do Submundo, bagunçando tudo. Belinda jamais deveria ter permitido que entrassem.
— Você poderia ser um pouco mais educado. — Emma sentiu uma irritação surgir em sua própria voz. — Considerando que estamos tentando ajudar. E que você passou a mão em Cristina.
— Eu não — negou ele, olhando de uma para a outra.
— Passou sim — disse Cristina. — Foi nojento.
— Então por que está tentando me ajudar? — perguntou Sterling.
— Porque ninguém merece morrer — disse Emma. — E, para ser sincera, queremos saber algumas coisas. Para que serve a Loteria? Como deixa vocês todos mais fortes?
Ele as encarou, balançando a cabeça.
— Vocês são loucas. — Sterling apertou o controle da chave; os faróis do jipe acenderam quando ele se destrancou. — Fiquem longe de mim. Como Belinda disse. Sem interferência.
Ele abriu a porta e entrou no carro. Um segundo mais tarde o jipe estava cantando pneu pela rua, deixando marcas pretas no asfalto.
Emma exalou.
— É difícil se preocupar com o bem-estar dele, não é?
Cristina olhou para carro.
— É um teste — disse ela. O canivete borboleta tinha desaparecido, guardado de volta na alça. — O Anjo diria que nascemos para salvar não só aqueles que gostamos, mas também os desagradáveis e chatos.
— Você disse que sua mãe o teria esfaqueado.
— Sim, bem — disse Cristina. — Nem sempre concordamos em tudo.
Antes que Emma pudesse responder, o Toyota do Instituto parou na frente delas. Mark se inclinou para fora da janela do banco de trás. Mesmo com tudo que estava acontecendo, Emma sentiu uma faísca de alegria por Jules ter guardado o banco da frente para ela.
— Sua carruagem, damas — disse Mark. — Entrem e seguiremos caminho antes de sermos seguidos.
— Essa é a nossa língua? — perguntou Cristina, entrando ao lado dele.
Emma correu para o carro e sentou no banco da frente.
Julian olhou para ela.
— Pareceu uma conversa um tanto traumática. — O carro seguiu, para longe daquela rua estranha e daquele teatro peculiar. Passaram sobre as marcas de pneu que o jipe deixou na estrada.
— Ele não quis a nossa ajuda — disse Emma.
— Mas vai recebê-la assim mesmo — garantiu Julian. — Não vai?
— Se conseguirmos encontrá-lo — falou Emma. — Poderiam estar todos usando nomes falsos. — Ela apoiou os pés no painel. — Pode valer a pena perguntar a Johnny Rook. Já que estavam anunciando no Mercado das Sombras e ele sabe de tudo que acontece lá.
— Diana não disse para você ficar longe de Johnny Rook? — perguntou Julian.
— Diana não está um pouco longe agora? — rebateu Emma docemente.
Julian pareceu resignado, mas, ao mesmo tempo, entretido.
— Tudo bem. Eu confio em você. Se acha que há motivo para isso, perguntaremos ao Rook.
Estavam virando em La Cienega. As luzes e o clamor do trânsito de Los Angeles explodiram ao redor deles. Emma bateu as mãos.
— E é por isso que eu te amo.
As palavras escorregaram sem que ela pudesse pensar. Nem Cristina, nem Mark pareceram notar – estavam discutindo se a linguagem de Mark era correta – mas as bochechas de Julian ficaram completamente vermelhas e suas mãos apertaram o volante.


Quando chegaram ao Instituto, uma tempestade se formava sobre o mar – um turbilhão de nuvens negras e azuis soltava raios. As luzes estavam acesas no interior do prédio. Cristina começou a subir os degraus, exausta. Tinha se acostumado a noites longas de caça, mas alguma coisa na experiência no teatro exauriu sua alma.
— Cristina.
Era Mark, no degrau abaixo dela. Uma das primeiras coisas que ela notou no Instituto foi que, dependendo da direção do vento, ele tinha cheiro de mar ou de deserto. De sal marinho ou sálvia. Aquela noite era sálvia. O vento soprava o cabelo de Mark: cachos Blackthorn sem cor, prateados como a lua na água.
— Você deixou isso cair do lado de fora do teatro — disse ele, e estendeu a mão.
Ela olhou para baixo e através dele por um instante, para onde Julian e Emma estavam ao pé da escada. Julian tinha parado o carro e retirava Cortana da mala, que captou a luz e brilhou como o cabelo de Emma. Ela a alcançou, olhando para baixo para passar a mão na lâmina, e Cristina viu Julian olhar involuntariamente para a curva do pescoço da garota. Como se não conseguisse se conter.
Um medo frio pesou no estômago de Cristina; ela sentiu como se estivesse olhando uma colisão de trens, incapaz de frear qualquer um deles.
— Cristina? — repetiu Mark, uma pergunta crescendo em sua voz. Algo brilhava na mão dele. Duas coisas. Os brincos de ouro que tinham caído enquanto ela corria, e que achou que estivessem perdidos pelas ruas de Los Angeles.
— Ah! — Ela os pegou, guardando no bolso do casaco. Mark ficou olhando para ela, os olhos descombinados curiosos. — Eu ganhei de presente — falou a garota. — De uma pessoa... um velho amigo.
Ela se lembrou de Diego colocando os brincos em sua mão; os olhos escuros brilhavam nervosos, exibindo a preocupação com a opinião dela. Mas ela gostou, porque foram presente dele.
— São bonitos — disse Mark. — Principalmente contra os seus cabelos. Parece seda preta.
Cristina suspirou. Emma estava olhando para Julian, sorrindo. Havia incerteza em seu rosto, incerteza que cortou o coração de Cristina. Emma lembrava ela mesma, pensou, logo antes de ela dobrar aquela esquina onde ouviu Jaime e Diego conversando. Antes de tudo ruir.
— Você não devia me dizer essas coisas. — Ela censurou Mark.
O vento soprou o cabelo dele sobre o rosto; ele o puxou para trás.
— Achei que mulheres mortais gostassem de elogios. — Mark pareceu verdadeiramente confuso.
— As mulheres fadas gostam?
— Não conheço muitas — disse ele. — A Rainha Seelie gosta de elogios. Mas não existem mulheres na Caçada.
— Mas há Kieran — retrucou ela. — E o que ele diria se soubesse que você está me chamando de bonita? Porque o jeito como ele olha para você...
Uma expressão de choque passou pelo rosto de Mark. Ele olhou rapidamente para Julian, mas o irmão parecia absorvido por Emma.
— Como você...?
— Eu vi — disse ela. — No estacionamento. E quando você sumiu hoje no teatro, suponho que tenha sido por causa dele também?
— Por favor, não conte a ninguém, Cristina. — O olhar de medo no rosto de Mark partiu o coração dela. — Ele seria punido e eu também. Ele está proibido de me ver agora que não estou na Caçada.
— Não contarei a ninguém — prometeu Cristina. — Não falei nada, nem para Emma, nem para ninguém.
— Você é tão gentil quanto adorável — emendou Mark, mas as palavras pareceram ensaiadas.
— Sei que não pode confiar em mortais. Mas não vou traí-lo.
Não havia nada ensaiado no olhar que ele lançou para ela então.
— Fui sincero quando disse que você é linda. Eu a quero, e Kieran não se importaria...
— Você me quer?
— Quero — respondeu Mark com simplicidade, e Cristina desviou o olhar, de repente, muito ciente da proximidade entre os corpos deles. Da forma dos ombros de Mark sob o paletó. Ele era adorável como as fadas o eram, coisa meio de outro mundo, prateado como a lua na água. Ele não parecia tangível, mas ela o tinha visto beijar Kieran e sabia que era. — Você não quer ser desejada?
Em outros tempos, anteriormente, Cristina teria ruborizado.
— Não é o tipo de elogio que mulheres mortais apreciam.
— Mas por que não? — perguntou Mark.
— Porque faz parecer que eu sou uma coisa que você quer usar. E quando você diz que Kieran não se importaria, faz com que pareça que ele não se importaria porque eu não tenho importância.
— Isso é muito humano — comentou ele. — Ter ciúme de um corpo, mas não de um coração.
Cristina tinha estudado fadas de perto. Era verdade que fadas solteiras, não importa a orientação sexual, enxergavam muito pouco valor na fidelidade física, mas um valor muito maior do que os humanos na lealdade emocional.
Havia poucos, se é que havia algum voto que tinha qualquer relação com sexo, mas muitos que envolviam amor verdadeiro.
— Veja bem, não quero um corpo sem um coração — retrucou ela.
Ele não respondeu, mas ela interpretou o olhar em seu rosto. Bastava falar, e teria Mark Blackthorn, pelo valor de tê-lo. Era estranho saber disso, mesmo que ela não quisesse o que ele oferecia. Mas, se ele estivesse oferecendo mais – bem, houve um tempo em que ela acreditou que jamais voltaria a querer alguém.
Era bom saber que isso não era verdade.
— O motivo é Kieran? — perguntou ela. — Pelo qual você voltaria ao Reino das Fadas, mesmo que o assassino seja capturado?
— Kieran salvou a minha vida — disse Mark. — Eu era um nada na Caçada Selvagem.
— Você não é um nada. Você é o filho de Lady Nerissa.
— E Kieran é o filho do Rei da Corte Unseelie — retrucou Mark secamente. — Ele fez tudo por mim na Caçada Selvagem. Me protegeu e me manteve vivo. E ele só tem a mim. Julian e o restante, eles têm uns aos outros. Não precisam de mim.
Mas ele não pareceu convencido. Falou como se as palavras fossem folhas mortas, soprando por um espaço oco e doloroso dentro dele. E, naquele momento, Cristina se sentiu mais atraída por ele do que nunca, pois conhecia essa sensação, se sentir tão vazia pela perda que é como se o vento pudesse soprar através de você.
— Isso não é amor — argumentou Cristina. — É dívida.
Mark travou a mandíbula. Ele nunca pareceu tanto um Blackthorn.
— Se tem uma coisa que aprendi na vida, e assumo que não aprendi muito, é isso: nem o Povo das Fadas, nem os mortais sabem o que é ou não o amor. Ninguém sabe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário