sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 14 - Olhos brilhantes

Na entrada de mármore, Julian arriscou uma última olhada no espelho.
Ele tinha feito Livvy pesquisar “semiformal” para ele e teve suas suspeitas sombrias confirmadas: significava um terno escuro. O único que ele tinha era um Sy Devore vintage preto que Emma encontrou em uma cesta na TESOUROS ESCONDIDOS. Era forrado de seda e da cor de carvão, e tinha botões de madrepérola no colete. Quando ele o vestiu, ela bateu palmas e falou que ele parecia um astro de cinema, então, claro que Julian comprou.
— Você está muito bonito, Andrew.
Julian se virou. Era o tio Arthur. O roupão cinza manchado estava mal amarrado sobre velhos jeans e uma camiseta rasgada. Uma barbicha cinza crescia no queixo.
Julian não perdeu tempo corrigindo o tio. Ele sabia o quanto se parecia com o pai quando ele era mais novo. Talvez fosse um conforto para Arthur imaginar que o irmão ainda estava vivo. Talvez ver Julian arrumado tenha feito Arthur se lembrar de anos antes, quando ele e o irmão eram jovens e iam para festas e bailes. Antes de tudo desmoronar.
Julian sabia que Arthur sofria pela morte do irmão, mas do jeito dele: estava escondido sob as camadas de encantamento das fadas e do trauma que despedaçara sua mente. Se Arthur não fosse tão recluso e estudioso, Julian imaginava que o estado do tio teria sido descoberto antes, quando ele vivia no Instituto de Londres. Ele também achava que o tio tinha piorado desde a Guerra Maligna. Ainda assim, às vezes, quando Arthur tomava o remédio que Malcolm arrumava, Julian conseguia ter um vislumbre do Caçador de Sombra que ele fora há muito tempo: valente, perspicaz e com um senso de honra de Aquiles ou Enéias.
— Oi, Arthur — disse ele.
Arthur acenou com a cabeça decididamente. Colocou a mão aberta no peito de Julian.
— Tenho uma reunião com Alselm Nightshade — disse ele com voz profunda.
— Bom saber — disse Julian.
Era bom saber. Arthur e Anselm eram amigos, compartilhavam o amor pelos clássicos. Qualquer coisa que mantivesse Arthur ocupado era uma bênção. Arthur se virou com uma precisão quase militar e marchou pela entrada, cruzando as portas do Santuário, que se fecharam atrás dele.
Risos flutuaram pela entrada. Julian deu as costas para o espelho a tempo de ver Cristina descendo as escadas. Sua pele morena brilhava contra o brocado rosa do vestido. Brincos dourados balançavam em suas orelhas.
Atrás dela veio Emma. Ele assimilou o vestido, mas por pouco – notou que a cor era marfim, flutuava em torno dela como asas de anjo. A bainha a tocava nos calcanhares, e ele viu as pontas de botas brancas por baixo; sabia que havia facas enfiadas no cano das botas, com as alças pressionadas contra as panturrilhas.
O cabelo estava solto e escorria por suas costas em escuras ondas douradas. Havia um movimento, uma suavidade que ele sabia que jamais poderia capturar em uma pintura. Folha dourada, talvez, se ele pintasse como Klimt, mas mesmo isso seria uma comparação fraca com a realidade.
Ela chegou ao fim da escada, e ele percebeu que o material do vestido era fino o bastante para que fosse capaz de ver a forma e a sugestão de um corpo embaixo. Seu pulso bateu forte contra os punhos. O terno pareceu apertado, a pele, quente e irritada.
Ela sorriu para ele. Os próprios olhos castanhos eram contornados com ouro; captavam as manchas mais fracas nas íris, aqueles círculos de cobre que ele tinha passado a infância contando e memorizando.
— Eu trouxe — disse ela, e por um instante ele se esqueceu do que ela estava falando. Então se lembrou e estendeu os pulsos.
Emma abriu as mãos. Abotoaduras douradas com pedras pretas brilhavam em sua mão. O toque dela foi suave ao pegar as mãos dele nas suas, virar e cuidadosamente colocar as abotoaduras na camisa. Ela foi rápida, eficiente, mas ele sentiu cada movimento das pontas dos dedos contra a parte interna do pulso, como o toque de fios quentes.
Ela abaixou as mãos, deu um passo para trás, e fingiu examiná-lo com atenção.
— Acho que você serve — falou Emma.
Cristina resfolegou. Ela estava olhando para cima, para o alto das escadas; Julian seguiu o olhar dela.
Mark vinha descendo. Julian piscou, sem acreditar nos próprios olhos. O irmão mais velho parecia vestir um longo casaco de pele falso – e nada mais.
Não que desse para ver tudo. Mas dava para ver o suficiente, e o suficiente era excessivo.
— Mark — falou Julian —, o que você está vestindo?
Mark parou no meio da escada. As pernas estavam nuas. Os pés descalços. Julian tinha 99 por cento de certeza de que ele estava totalmente nu, exceto pelo casaco, que era relativamente solto. Era mais de Mark do que Julian já tinha visto desde que dividiram um quarto quando Julian tinha 2 anos.
Mark pareceu confuso.
— Ty e Livvy me disseram que isso era semiformal.
Foi então que Julian reparou nos risos que vinham de cima. Ty e Livvy estavam sentados no corrimão, rindo.
— E eu disse para não confiar neles!
Os lábios de Emma tremiam.
— Mark, só... — Ela estendeu a mão. Cristina estava parada, olhando para Mark com as duas bochechas totalmente ruborizadas e as mãos na boca. — Volte para cima, tudo bem? — Ela se virou para Jules e diminuiu a voz: — Você precisa achar alguma coisa para ele vestir!
— Você acha?
Emma o encarou.
— Jules, vá para o meu quarto, está bem? O baú no pé da cama tem algumas roupas velhas dos meus pais. Meu pai usou um smoking para casar. Tinha símbolos nos punhos, mas podemos tirar.
— Mas o smoking do seu pai...
Ela olhou para ele, de lado.
— Não se preocupe com isso.
Uma dúzia de manchas douradas no olho esquerdo, só sete no direito. Cada uma delas, uma pequena explosão estrelar.
— Volto já — disse Julian, e correu pelas escadas para o irmão. Mark estava lá em cima, parecendo confuso, os braços esticados como se estivesse examinando as mangas do casaco de pele e concluindo que elas, de fato, eram o problema.
Dru, segurando a mão de Tavvy, tinha se juntado aos gêmeos. Estavam todos rindo. O brilho no rosto de Ty quando ele olhou para Mark deixou Julian aquecido e resfriado ao mesmo tempo.
E se Mark resolvesse não ficar? E se não encontrassem o assassino e ele fosse levado de volta para a Caçada Selvagem? E se?
— Você diria que estou bem-vestido ou malvestido demais? — perguntou Mark, erguendo as sobrancelhas.
Emma soltou uma gargalhada e desabou no último degrau da escada. Um instante mais tarde Cristina se juntou a ela. Elas se apoiaram uma na outra, incapazes de conter as risadas.
Julian também queria rir. Gostaria de poder. Gostaria de poder se esquecer da escuridão que espreitava as bordas de sua visão. Gostaria de poder fechar os olhos e cair, se esquecendo por um instante de que não havia uma rede esticada para segurá-lo.


— Já está pronto? — perguntou Julian para a porta fechada do banheiro. Ele tinha pegado o terno de John Carstairs do baú de Emma e arrastado Mark para o próprio quarto para se trocar. A ideia do irmão nu no quarto de Emma não o agradava, mesmo que ela não estivesse presente.
A porta do banheiro se abriu, e Mark saiu. O smoking era preto, simples. Era impossível enxergar onde o tecido Marcado tinha sido cortado. As linhas elegantes da roupa pareciam subir, fazendo Mark parecer mais alto, mais polido.
Pela primeira vez desde o seu retorno, todos os pedaços da criança fada selvagem nele pareciam ter desaparecido como teias de aranha. Ele parecia humano. Alguém que sempre foi humano.
— Por que você rói as unhas? — perguntou ele.
Julian, que nem tinha se tocado de que estava mordendo a unha do polegar – a satisfatória dor da pele entre os dedoso metal do sangue na boca – abaixou a mão para o colo.
— É um mau hábito.
— Algo que as pessoas fazem quando estão estressadas — disse Mark. — Até eu sei disso. — Os dedos percorreram inutilmente a gravata. Ele franziu o rosto para ela.
Julian se levantou e foi até o irmão, pegando os laços da gravata nas mãos. Ele não se lembrava de quem tinha lhe ensinado a dar nó em gravata. Malcolm, pensou. Tinha quase certeza de que tinha sido Malcolm.
— Mas o que pode haver para estressá-lo, irmãozinho? — perguntou Mark. — Você não foi levado pelas fadas. Passou a vida aqui. Não que a vida de Caçador de Sombras não seja estressante, mas por que é você que tem as mãos sujas de sangue?
Os dedos de Julian pararam por um instante.
— Você não sabe tudo sobre mim, Mark. Exatamente como estou disposto a acreditar que eu não sei tudo sobre você.
Os olhos azul e dourado de Mark estavam arregalados e sinceros.
— Pergunte.
— Prefiro aprender sozinho. — Julian deu um puxão final na gravata e chegou para trás examinando o trabalho. Mark parecia ter saído de um catálogo de propaganda de smokings, se modelos de catálogos tivessem orelhas pontudas.
— Eu não — disse Mark. — Diga-me alguma coisa que não sei a seu respeito, que o faz morder os dedos.
Julian se virou para a porta, em seguida, parou, com a mão na maçaneta.
— Nosso pai — falou Julian. — Você sabe o que aconteceu com ele?
— Ele foi Transformado em um dos Crepusculares por Sebastian Morgenstern — respondeu Mark. — Como eu poderia me esquecer?
— E depois?
— E depois? — Mark pareceu confuso. — E depois ele morreu durante a Guerra Maligna.
— Sim, morreu — respondeu Julian. — Porque eu o matei.
Mark respirou fundo. Havia choque naquela arfada, além de pena. Julian ficou tenso. Não suportava que sentissem pena dele.
— Ele estava indo para cima de Ty — disse Julian. — Eu fiz o que tinha que fazer.
— Não era ele — falou Mark rapidamente.
— É isso que todos dizem. — Julian continuava olhando para a porta.
Ele sentiu um leve toque no ombro e se virou para ver que Mark o encarava.
— Mas ninguém viu acontecer, Julian, nosso pai sendo Transformado. Eu vi — falou Mark, e, de repente, em sua voz apareceu o som do irmão mais velho que era, o que sabia mais, que viveu mais. — A luz dos olhos dele se apagou como uma vela morrendo no escuro. Ele já estava morto por dentro. Você só enterrou o corpo.
Havia tristeza nos olhos de Mark, e sabedoria, o conhecimento de coisas escuras. Mark também tinha sangue nas mãos, Julian pensou, e por um instante a ideia foi um alívio tão grande que ele sentiu diminuir o peso de seus ombros.
— Obrigado pela ajuda — disse Mark formalmente. — Com as roupas. Não confiarei mais nos gêmeos em assuntos importantes sobre tradições humanas.
Julian sentiu o lábio se curvar para cima no canto.
— É, eu não confiaria.
Mark olhou para si mesmo.
— Estou apresentável?
— Está parecendo James Bond.
Mark sorriu, e Julian sentiu uma satisfação absurda por dentro, por seu irmão ter entendido a referência, e por ter se sentido satisfeito.
Voltaram em silêncio para a entrada, um silêncio interrompido quando eles chegaram à escada pelo som de alguém gritando. Juntos, eles pararam no alto da escada.
— Sua visão equivale à minha, irmão? — perguntou Mark.
— Se está perguntando se estou vendo o que você vê... — disse Julian. — Então sim, se está se referindo ao fato de que a entrada está cheia de chihuahuas.
— Não são só os chihuahuas — disse Ty, que estava no degrau superior, curtindo o espetáculo. — São vários cachorros pequenos de diversas raças.
Julian riu. A entrada estava, de fato, cheia de pequenos cachorrinhos. Eles pulavam, latiam e corriam.
— Não se preocupe com os cachorros — tranquilizou Julian. — Nightshade gosta de deixá-los aqui na entrada quando encontra o tio Arthur.
— Nightshade? — Mark ergueu as sobrancelhas. — Anselm Nightshade? O líder do clã de vampiros de Los Angeles?
— É — respondeu Julian. — Ele vem, às vezes. Ele e Arthur se dão surpreendentemente bem.
— E os cachorros...?
— Ele gosta de cachorros — disse Ty.
Um dos chihuahuas tinha dormido na porta da frente, com as quatro patas para o ar.
— Aquele cachorro parece morto.
— Não está morto. Está relaxando. — Ty parecia entretido; Julian afagou o cabelo do irmão. Ty se inclinou para o carinho, como um gato.
— Onde estão Emma e Cristina?
— Foram buscar o carro — respondeu Ty. — E Livvy voltou para o quarto. Por que não posso ir junto?
— Se forem muitos de nós, vai levantar suspeitas — explicou Julian. — Você vai ter que ficar aqui e tomar conta do Instituto.
Ty não pareceu convencido. Ele franziu a testa enquanto Mark e Julian saíam pela porta da frente. O carro estava encostado na frente do Instituto, com o motor ligado.
Emma abriu a porta do banco do passageiro e assobiou.
— Mark. Você está lindo.
Mark olhou para si mesmo, surpreso. Uma onda de calor correu pelos pulsos de Julian. Cristina estava no banco de trás e também olhava para Mark. Julian não conseguiu interpretar a expressão dela.
Emma afagou o assento ao seu lado. No escuro do carro, ela era uma sombra: vestido branco, cabelos dourados, como uma ilustração desbotada em um livro infantil.
— Entre aqui, Jules. Você é meu... meu navegador.
Você é meu. Ele sentou no banco ao lado dela.


— Tem que virar à direita aqui — disse Julian, se inclinando sobre Emma para apontar.
— Seria de se pensar que o Instituto tem condições de instalar um GPS confiável nesse carro — murmurou Emma, virando o volante. Ela havia tentado programá-lo quando entraram no Toyota, mas ele se recusou a ligar. Uma vez, o GPS passou semanas falando com um sotaque alemão pesado. Julian concluiu que estava possuído.
Cristina chiou e parou. Emma conseguia vê-la pelo retrovisor. Ela estava se inclinando sutilmente para longe de Mark; nada que alguém que não a conhecesse bem pudesse ter visto. Mark não pareceu notar. Ele olhava pela janela aberta, com os cabelos louros emaranhados, cantarolando qualquer coisa.
— Devagar, Speed Racer — disse Julian, quando alguém buzinou atrás de Emma.
— Estamos atrasados — falou ela. — Começa em dez minutos. Se certas pessoas não tivessem decidido que semiformal significava seminu...
— Por que está me chamando de “certas pessoas”? — indagou Mark. — Sou uma pessoa só.
— Isso é estranho — observou Julian, virando para olhar para a frente. — Não tem ninguém nessa rua.
— Tem casas — disse Cristina.
— Estão todas apagadas. — O olhar de Julian examinou a rua. — Um pouco cedo, não acham, para todos estarem dormindo? — notou. — Ali está o teatro.
Ele estava certo. Emma viu luzes, néon quente e eletricidade, à frente, a forma de seta de uma placa: TEATRO DA MEIA-NOITE. As colinas de Hollywood Hills brilhavam ao longe, como se tivessem sido temperadas com pó de estrela.
Todo o restante estava escuro, até as luzes da rua.
Ao se aproximarem do teatro, as laterais da rua se tomaram mais cheias de carros estacionados. Modelos caros – BMWs, Porsches, carros esportivos italianos cujos nomes Emma não conseguia lembrar. Ela parou em uma vaga em frente ao teatro e desligou o motor.
— Estamos prontos? — Ela se virou para olhar para o banco de trás. Cristina deu uma piscadela para ela. Mark acenou com a cabeça. — Então vamos.
Julian já tinha saltado e estava abrindo a mala. Ele remexeu nas armas e estelas, entregando a Cristina um par de facas de arremesso.
— Isso é necessário?
Cristina puxou a alça do vestido para o lado. Preso ao sutiã estava um de seus canivetes, a rosa talhada brilhando no cabo.
— Vim preparada.
— Eu não. — Mark se esticou para pegar duas facas embainhadas, e abriu o casaco para guardá-las no cinto. Ele levou a mão até a garganta, tocando a ponta de flecha que trazia no pescoço.
Parado, Julian olhou para ele. Seus olhos azul-esverdeados estavam escuros, incertos. Emma conseguia ler o olhar em seu rosto: Julian não sabia se o irmão estava pronto para enfrentar o perigo em potencial. Não gostava disso. Mas não via outra saída.
— Muito bem — disse Julian. — Armas escondidas, quaisquer símbolos que queiram aplicar agora, coloquem em lugares onde ninguém veja. Marcas permanentes, certifiquem-se de que estejam cobertas. Não podemos correr o risco de sermos reconhecidos por alguém que tenha a Visão.
Emma fez que sim com a cabeça. Eles já tinham coberto com base as Marcas de Vidência e parabatai dela, no Instituto. Ela fez o possível para cobrir as pequenas cicatrizes que mostravam onde símbolos tinham sido aplicados e depois sumido.
Algumas Marcas eram permanentes, e outras, temporárias. Vidência, que parecia um olho aberto e ajudava a enxergar através de feitiços, era permanente. As de casamento e parabatai também. Símbolos temporários sumiam lentamente à medida que eram utilizados – iratzes de cura, por exemplo, desapareciam com diferentes velocidades, dependendo da gravidade do ferimento. Um símbolo de Equilíbrio podia ter a duração de uma escalada de montanha. Para obter os melhores resultados, ao ingressar numa batalha, as Marcas devem ser as mais recentes possíveis.
Jules levantou a manga e estendeu o braço para Emma.
— As honras? — pediu o garoto.
Ela pegou a estela da mala e passou pelo braço dele. Golpe-Certeiro, Velocidade e Coragem. Quando terminou, levantou o cabelo e se virou, oferecendo a pele exposta a Julian.
— Se você puser símbolos entre as minhas omoplatas, meu cabelo vai esconder — sugeriu ela.
Julian não disse nada. Ela o sentiu hesitar, e, em seguida, o mais leve toque da mão dele em suas costas, ajeitando-a. Julian respirava rapidamente.
Nervoso, ela pensou. Era uma situação estranha na qual estavam entrando, e ele parecia preocupado com Mark.
Ele começou o segundo símbolo, e Emma sentiu uma leve picada quando a estela se moveu. Ela franziu o rosto. Normalmente, apesar de símbolos poderem arder ou queimar quando aplicados, símbolos feitos por um parabatai não doíam. Inclusive, eram quase prazerosos – era como estar envolvido pela proteção da amizade, a sensação de que alguém tinha registrado a própria dedicação a você em sua pele.
Era estranho que doesse.
Julian terminou, recuando, e Emma deixou o cabelo cair. Ela se virou e desenhou uma rápida Marca de Agilidade no ombro de Cristina, sob a alça do vestido. Em seguida olhou para Mark.
Ele balançou a cabeça, exatamente como havia feito toda vez que lhe ofereceram um símbolo.
— Sem Marcas — disse secamente.
— Tudo bem — falou Julian antes que qualquer outra pessoa pudesse falar. — Ele não tem Marcas, exceto a da Vidência, e essa está coberta por maquiagem. Ele parece normal.
— Relativamente — refutou Emma. — As orelhas e os olhos...
Cristina deu um passo e bagunçou o cabelo de Mark, derrubando os cachos sobre as orelhas pontudas, cobrindo-as.
— Não podemos fazer nada quanto aos olhos, mas...
— Mundanos também têm heterocromia — disse Jules. — O principal é, Mark, tente agir normalmente.
Mark pareceu afrontado.
— E alguma vez não ajo?
Ninguém respondeu, nem mesmo Cristina. Após guardar um par de adagas embaixo da camisa, Julian fechou o baú, e eles atravessaram a rua.
As portas do teatro estavam abertas. Luz transbordava pelo chão escuro. Emma ouviu risos e música, sentiu o cheiro de uma mistura de perfume, vinho e fumaça.
Na porta, uma jovem com vestido vermelho recebia entradas e carimbava mãos. O cabelo estava arrumado em cachos estilo anos 1940, e os lábios vermelhos eram como sangue. Ela usava luvas de cetim claras que iam até os cotovelos.
Emma a reconheceu imediatamente. Já a tinha visto no Mercado das Sombras, piscando para Johnny Rook.
— Já a vi antes — sussurrou ela para Jules. — Mercado das Sombras. — Ele balançou a cabeça e pegou a mão de Emma. Ela se espantou de leve, tanto pelo calor súbito em sua palma quanto pela surpresa.
Ela olhou para Julian, viu o olhar em seu rosto quando ele sorriu para a menina familiar dos ingressos. Um pouco entediado, um pouco arrogante, muito convencido. Alguém que não estava preocupado em entrar. Ele estava desempenhando um papel, e pegar a mão dela fazia parte do jogo, isso era tudo.
Ele entregou o ingresso.
— Sr. Smith e três convidados — anunciou Julian.
Houve uma ligeira comoção atrás deles quando Mark abriu a boca, sem dúvida para perguntar quem era o Sr. Smith, e Cristina pisou no pé dele.
A menina do ingresso sorriu, os lábios vermelhos se curvando em um laço, e lentamente rasgou o ingresso ao meio. Se reconheceu Emma, não demonstrou.
— Sr. Smith — disse ela. — Estenda a mão.
Julian ofereceu a mão livre, e a menina do ingresso a carimbou com tinta vermelha e preta. O carimbo era um símbolo estranho, linhas de água sob uma chama.
— O sorteio está um pouco atrasado hoje. Verão que a fileira e os assentos estão no ingresso. Por favor, não sentem na cadeira de outros convidados. — O olhar dela se voltou para Mark, um olhar afiado, firme e analítico. — E sejam bem-vindos — falou. — Acho que verão que os Seguidores são... um grupo solidário.
Mark pareceu espantado.
Mãos carimbadas e ingresso rasgado, os quatro entraram no teatro. Assim que atravessaram a entrada, a música se elevou a um grau ensurdecedor, e Emma reconheceu como o tipo de grande banda de jazz que seu pai adorava.
Só porque toco violino não significa que não gosto de dançar, ela se lembrava dele dizendo, pegando a mãe para um passo improvisado de foxtrote até a cozinha.
Julian voltou-se para ela.
— O que foi? — perguntou ele gentilmente.
Emma gostaria que ele não soubesse ler os seus humores com tanta perfeição. Ela desviou o olhar para esconder sua expressão. Mark e Cristina estavam atrás deles, olhando em volta. Havia uma bombonière, vendendo bala e pipoca. Uma placa que dizia SALÃO DE DANÇA/TEATRO se pendurava sobre a bombonière, apontando para a esquerda. Pessoas com roupas elegantes se moviam animadas pelo corredor.
— Nada. Temos que ir por ali — disse Emma, e puxou a mão de Julian. — Seguir o fluxo.
— E que fluxo — murmurou ele. Não estava errado. Emma achava que nunca tinha visto gente tão arrumada assim em um mesmo lugar antes. — É como entrar em um filme noir.
Por todos os lados havia pessoas lindas, o tipo de beleza hollywoodiana que Emma estava acostumada a ver em Los Angeles: pessoas com acesso a academias, salões de bronzeamento artificial, cabeleireiros caros e as melhores roupas. Aqui eles pareciam vestidos para serem figurantes em um filme do Rat Pack. Vestidos de seda e meias com costura, chapéus fedora, gravatas skinny e lapelas pontudas. Aparentemente, o terno Sy Devore de Julian tinha sido uma escolha muito inteligente.
O salão era elegante, com teto decorado, janelas arqueadas e portas fechadas, indicando TEATRO ESQUERDA e TEATRO DIREITA. Um tapete havia sido retirado para a dança, e casais giravam ao som de uma banda que tocava em um palco elevado no final do salão. Graças à educação recebida do pai, ela reconheceu trombones e trompetes, bateria e um baixo, e – sem qualquer conhecimento específico necessário para isso – um piano. Havia um tocador de clarinete também, que afastou os lábios do instrumento para sorrir para Emma quando ela entrou no recinto. Ele tinha cachos ruivos e havia algo de estranho em seus olhos.
— Ele é fada — disse Mark, com a voz subitamente rouca. — Pelo menos, parte.
Ah. Emma deu uma segunda olhada em volta da sala, examinando os dançarinos. Ela os tinha descartado como mundanos, mas... ao olhar a multidão, ela viu uma orelha pontuda ali, olhos cor de laranja lá ou garras acolá.
O-Q-U-E-F-O-I?, Julian escreveu nas costas dela, as pontas dos dedos quentes sobre o tecido fino do vestido.
— Todos eles são alguma coisa — disse Emma. Ela se lembrou da placa no Mercado das Sombras PARTE SOBRENATURAL? VOCÊ NÃO É O ÚNICO.
— Ainda bem que cobrimos nossas Marcas. Todos têm a Visão, todos eles têm algum tipo de magia.
— Os músicos são, em parte, da nobreza do Povo das Fadas — disse Mark — o que não é surpresa, pois não há nada que os cintilantes valorizem mais do que música. Mas aqui há outros cujo sangue é misturado ao dos tritões, e alguns que são licantropes.
— Vamos, novatos! — gritou o clarinetista, e uma súbita luz se acendeu sobre os Caçadores de Sombras. — Entrem no suingue!
Quando Emma o olhou confusa, ele moveu as sobrancelhas e ela percebeu o que havia de estranho nos olhos dele. Eram como olhos de bode, com pupilas quadradas e pretas.
— Dancem! — gritou ele, e os outros comemoraram e aplaudiram.
O brilho do holofote móvel deixou o rosto de Julian como um borrão branco quando ele alcançou Cristina e a puxou para a multidão. O coração de Emma bateu lento e pesado.
Ela suprimiu o sentimento, virou para Mark, e estendeu as mãos para ele.
— Vamos dançar?
— Não sei dançar. — Havia algo na expressão dele, parte confusão, parte ansiedade, que acalentou o coração de Emma com solidariedade. Ele pegou as mãos dela sem confiança. — Danças de fada... não são assim.
Emma o puxou para a multidão. Os dedos dele contra os dela eram magros e frios, não eram quentes como os de Jules.
— Tudo bem. Eu conduzo.
Eles foram entre os dançarinos. Emma conduziu, tentando se lembrar do que tinha visto em filmes com danças desse tipo. Apesar da promessa de que conduziria, ela ficou imaginando se não seria melhor deixar Mark no comando. Ele era muito gracioso, ao passo que todos os anos de luta e treinamento de Emma a deixavam mais disposta a atacar e chutar do que a girar e dançar.
Emma olhou para uma garota de cabelos curtos e verdes.
— Você sabe dizer o que cada um é? — perguntou a Mark.
Ele piscou os olhos, seus cílios claros e leves.
— Ela é parte dríade — respondeu Mark. — Fada de bosque. Provavelmente menos do que metade. Sangue de fada pode aparecer muitas gerações depois. A maioria dos humanos que tem a Visão tem sangue de fada distante.
— E os músicos?
Mark girou Emma. Ele tinha começado a conduzir, instintivamente. Havia algo de desamparado na música, pensou Emma, como se estivesse vindo de um local alto e distante.
— O clarinetista é parte sátiro. O baixista de pele azul-clara é alguma espécie de tritão. A mãe de Kieran era nixie, uma fada aquática, e...
Ele parou de falar. Emma viu Jules e Cristina, seu vestido rosa brilhando contra o preto do terno dele. Ele a girou. Emma mordeu a parte interna do lábio.
— Kieran? Aquele príncipe que veio com você até o Instituto?
Mark era como luz leve e sombras sob a iluminação em movimento. O ar cheirava a incenso – do tipo barato e doce que acendiam nas calçadas de Venice Beach.
— Éramos amigos na Caçada Selvagem.
— Bem, ele podia ter sido menos babaca com você, então — murmurou Emma.
— Acho que não podia, na verdade. — Mark sorriu, e Emma viu onde o humano se misturava à fada; fadas, até onde ela sabia, jamais sorriam tão abertamente.
Ela fez uma careta.
— Alguma coisa na Caçada não era terrível? Alguma coisa nela era, sei lá, divertida?
— Partes. — Ele riu e a girou. Lá estava aquele traço de fada outra vez, o aspecto selvagem.
Ela recuou, desacelerando a dança.
— Que partes?
Ele a girou em círculo.
— Não posso falar. É geas.
Emma suspirou.
— Como se você me dissesse, teria que me matar?
— Por que eu a mataria? — Mark pareceu verdadeiramente confuso.
Ela inclinou a cabeça para trás e sorriu para ele. Às vezes, falar com ele era como falar com Ty, ela pensou. Ela se via fazendo piadas que considerava óbvias, e depois percebendo que não eram nada óbvias, a não ser que a pessoa entendesse os códigos sutis de interação social. Ela não sabia como os tinha aprendido, só que tinha, e Ty ainda lutava com eles, e, ao que parecia, Mark também.
Tentar enxergar o mundo através dos olhos de Ty, Julian havia dito uma vez, era como olhar por um caleidoscópio, sacudi-lo e depois olhar de novo. Você via os mesmos cristais brilhantes, só que em outra formação.
— A Caçada Selvagem era liberdade — disse Mark. — E liberdade é necessário.
Nos olhos de Mark, Emma enxergava a vastidão das estrelas e topos de árvores, o brilho feroz das geleiras, todos os detritos brilhantes do teto do mundo. Isso a fazia pensar no passeio de moto sobre o mar. Na liberdade de ser selvagem e indomada. Na dor que sentia na alma e que não era ligada a nada, não tinha resposta, não era amarrada a nada.
— Mark. — começou.
A expressão de Mark mudou; ele, de repente, estava olhando através dela, fechando as mãos nas dela. Emma olhou para onde ele estava olhando, mas só viu o guarda-volumes. Uma menina de aparência entediada se empoleirava na bancada, fumando um cigarro em uma cigarreira de prata.
— Mark? — Emma voltou-se novamente para ele, mas ele já estava se afastando, indo para o guarda-volumes, para satisfação da menina, e desapareceu. Emma estava prestes a segui-lo quando Cristina e Julian entraram em sua linha de visão, bloqueando-a.
— Mark fugiu — anunciou Emma.
— É, ele ainda não tem espírito de equipe — disse Julian. Ele estava desalinhado em função da dança, com as bochechas ruborizadas. Cristina não tinha um fio de cabelo fora do lugar. — Olha, eu vou atrás dele, e vocês duas podem dançar...
— Posso interromper? — Um jovem alto apareceu na frente deles. Ele parecia ter mais ou menos 25 anos, bem-vestido, com um terno claro e um chapéu fedora combinando. Seus cabelos eram louro-platinados, e ele usava sapatos de aparência cara, com solas vermelhas que brilhavam em chamas quando ele andava. Tinha um anel rosa fulgurando no dedo médio. Estava com o olhar fixo em Cristina. — Gostaria de dançar?
— Se não se importa — falou Julian, com a voz calma, educada, esticando o braço para entrelaçá-lo no de Cristina. — Eu e minha namorada, nós...
A expressão amigável do homem mudou – minimamente, mas Emma viu, uma tensão atrás dos olhos que fez as palavras de Julian pararem.
— E se você não se importa — disse ele —, acho que não percebeu que eu sou um Azul. — Ele cutucou o bolso, onde um convite igual ao de Ava estava dobrado; igual, mas tinha um tom de azul-claro. Ele revirou os olhos ao notar as expressões confusas deles. — Novatos — murmurou, e havia algo de desagradável, quase desdenhoso, em seus olhos escuros.
— Claro. — Cristina lançou um rápido olhar a Julian e Emma, e em seguida voltou-se novamente para o estranho com um sorriso. — Sinto muito pela nossa confusão.
O rosto de Julian ficou sombrio quando Cristina foi para a pista de dança com o homem que se chamou de Azul. Emma sentiu por ele. Ela se confortou com a ideia de que se ele tentasse alguma coisa na pista, Cristina o cortaria em pedacinhos com seu canivete borboleta.
— É melhor a gente dançar também — disse Julian. — Parece que é o único jeito de não se destacar.
Já nos destacamos, pensou Emma. Era verdade: apesar de não terem causado qualquer comoção na chegada, várias pessoas na multidão lançavam olhares laterais a eles. Havia diversos seguidores que pareciam totalmente humanos – e, de fato, Emma não sabia exatamente qual era a política em relação a mundanos – mas, na condição de novatos, ela imaginou que ainda seriam objetos dignos de atenção. Certamente o comportamento do clarinetista indicou isso.
Ela pegou a mão de Julian, e eles se afastaram da multidão, indo em direção à extremidade do salão, onde as sombras eram intensas.
— Partes fadas, ifrites, licantropes — murmurou Emma, pegando a outra mão de Julian, de modo ficaram frente a frente. Ele parecia mais desalinhado do que antes, as bochechas coradas. Ela não podia culpá-lo por estar perturbado. Na maioria das multidões, as Marcas deles, se descobertas, não significariam nada.
Emma tinha a impressão de que esse público era diferente.
— Porque estão todos aqui?
— Não é fácil ter a Visão se você não conhecer outros que também a tenham — explicou Julian com a voz baixa. — Você vê coisas que ninguém mais vê. Não pode falar sobre elas porque ninguém vai entender. Tem que guardar segredos, e segredos acabam com você. Ferem. Deixam a pessoa vulnerável.
O baixo timbre da voz dele tremeu pelos ossos de Emma. Alguma coisa nele a apavorou. Alguma coisa que lembrava as geleiras nos olhos de Mark, distante e solitários.
— Jules — chamou ela.
Murmurando algo como “deixa pra lá”, ele a girou para longe, depois, a puxou novamente para si. Anos de prática lutando juntos fazia deles uma par de dança quase perfeito, ela percebeu surpresa. Eles sabiam prever os movimentos um do outro, deslizavam nos corpos um do outros. Ela percebia pelo jeito como Julian seguia a cadência da respiração e o fraco aperto dos seus dedos sobre os dela.
Os cachos escuros de Julian estavam bagunçados, e, quando ele a puxou para perto, ela sentiu o cheiro de cravo da colônia dele, e o fraco cheiro de tinta por baixo.
A música terminou. Emma olhou para a banda; o clarinetista olhava para ela e para Julian. Inesperadamente, ele deu uma piscadela. A banda começou de novo, dessa vez, um número mais lento e mais suave. Os casais dançavam juntos como se fossem magnetizados, braços em torno dos pescoços, mãos apoiadas nos quadris, cabeças apoiadas umas nas outras.
Julian estava congelado. Emma, com as mãos ainda nas dele, ficou parada, em choque, imóvel, sem respirar.
O momento se estendeu, interminável. Os olhos de Julian examinaram os dela; o que quer que ele tenha visto ali o fez decidir. Ele a envolveu nos braço, e a puxou mais para perto. O queixo dela tocou o ombro dele, desconfortavelmente. Foi a primeira coisa desconfortável que já tinham feito juntos.
Emma o sentiu inspirar, respirando em cima dela. As mãos dele se abriram, mornas, sob as omoplatas dela. Ela virou a cabeça. Dava para ouvir o coração dele, rápido e furioso, embaixo da orelha, sentir a rigidez do peito dele. Ela se esticou para colocar os braços no pescoço de Julian. Havia uma diferença de altura suficiente entre eles para que ela puxasse alguns fios do cabelo na nuca dele ao entrelaçar os dedos.
Um tremor passou por ela. Emma já tinha tocado o cabelo de Julian antes, é claro, mas era tão macio ali, havia um espaço vulnerável logo abaixo da queda daqueles cachos soltos. E a pele também era macia. Emma acariciou para baixo com os dedos, reflexivamente, e sentiu ao mesmo tempo o nodo mais alto da coluna dele, e a respiração aguda.
Emma olhou para ele. Seu rosto estava branco, os olhos para baixo, cílios escuros sobre as maçãs do rosto. Ele estava mordendo o lábio inferior, como sempre fazia quando estava nervoso. Ela viu todas as marcas que os dentes fizeram na pele macia.
Se ela o beijasse, será que ele teria gosto de sangue, cravos ou uma mistura dos dois? Doce e apimentado? Amargo e quente?
Ela se forçou a afastar o pensamento. Ele era seu parabatai. Não era para ser beijado. Ele era...
Sua mão esquerda desceu pelas costas dela até a cintura, deslizando levemente para o quadril. O corpo dela balançou. Ela já tinha ouvido falar em pessoas com borboletas no estômago, e sabia o que isso significava: aquele agito, aquela sensação profunda e desconfortável nas suas entranhas. Mas ela agora sentia em todo lugar. Borboletas sob sua pele, batendo as asas, enviando tremores que subiam e desciam em ondas pelo seu corpo. Ela começou a traçar os dedos sobre o pulso dele, querendo escrever nele: J-U-L-I-A-N, O- Q-U-E-V-O-C-Ê-E-S-T-Á-F-A-Z-E-N-D-O?
Mas ele não pareceu notar. Pela primeira vez, ele não estava ouvindo a linguagem secreta deles. Ela parou, olhou para ele; os olhos dele, ao encontrarem os seus, estavam desfocados, sonhadores. A mão direita estava no cabelo dela, entrelaçando-o com os dedos. Emma sentiu como se cada fio de cabelo fosse um fio vivo ligado a uma de suas terminações nervosas.
— Quando você desceu as escadas hoje — disse ele, com a voz baixa e carregada —, eu estava pensando em pintá-la. Pintar o seu cabelo. Eu teria que usar branco-titânio para acertar a cor, o jeito como ele capta a luz e quase brilha. Mas isso não daria certo, daria? Não é todo de uma cor, o seu cabelo, não é só dourado: é âmbar e acastanhado, caramelo, trigo e mel.
A Emma normal teria feito uma piada. Você faz meu cabelo parecer um cereal matinal. A Emma normal e o Julian normal teriam rido. Mas esse não era o Julian normal; era um Julian que ela nunca havia visto, um Julian com a expressão reduzida aos ossos elegantes do seu rosto. Ela sentiu uma onda de desejo desesperado, perdido em seus olhares, como chamas claras, nas curvas das suas maçãs do rosto e da mandíbula, a suavidade inesperada da sua boca.
— Mas você nunca me pinta — sussurrou ela.
Ele não respondeu. Parecia agoniado. Seus batimentos estavam três vezes mais acelerados. Dava para ver na garganta dele. Os braços estavam parados no lugar; ela sentiu que ele queria segurá-la onde ela estava e não permitir que ela chegasse mais perto. O espaço entre os dois era quente, elétrico. Os dedos de Julian se curvavam em torno do seu quadril. Sua outra mão deslizou pelas costas da garota, lentamente, subindo pelo cabelo até ele alcançar a pele nua no decote das costas.
Ele fechou os olhos.
Os dois tinham parado de dançar. Estavam imóveis, Emma não conseguia respirar, as mãos de Julian se moviam sobre ela. Julian já a tinha tocado milhares de vezes: enquanto treinavam, enquanto lutavam ou quando cuidavam dos machucados um do outro.
Ele jamais a havia tocado assim.
Parecia enfeitiçado. Alguém que sabia que estava enfeitiçado, e estava lutando contra os impulsos com todos os nervos e fibras do corpo, a percussão de uma terrível batalha interior pulsando pelas veias. Ela sentiu a pulsação pelas mãos, contra a pele nua das costas.
Ela foi em direção a Julian, sutilmente, menos de um centímetro. Ele engasgou. O peito dele inchou contra o dela, tocando as pontas dos seios de Emma sob o tecido do vestido. A sensação a golpeou como eletricidade. Ela não conseguia pensar.
— Emma — disse ele com a voz engasgada. Suas mãos se contraíram, fortemente, como se ele tivesse sido esfaqueado. Ele a estava puxando. Para si.
O corpo de Emma esmagou o dele. A multidão era um borrão de luz e cor em volta dos dois. Sua cabeça abaixou na direção da dela. Eles respiraram o mesmo ar.
Houve uma batida de pratos: estalada, ensurdecedora. Eles se separaram quando as portas do teatro se abriram, o salão inundado por uma luz brilhante.
A música parou.
Um alto-falante ganhou vida.
— Pedimos que a plateia se dirija ao teatro, por favor — disse uma voz feminina envolvente. — O sorteio da Loteria está prestes a começar.
Cristina já tinha se afastado do homem de terno e seguia em direção a eles, com o rosto ruborizado. O coração de Emma batia acelerado. Ela arriscou uma olhada para Julian. Pelo mais breve instante, ele parecia alguém que vinha cambaleando pelo deserto Mojave, semimorto por causa do sol, e que tinha vislumbrado água à frente apenas para descobrir que se tratava de uma miragem.
— Nada de Mark ainda? — disse Emma apressadamente quando Cristina os alcançou. Não que houvesse real motivo para Cristina saber onde Mark estava; Emma só não a queria olhando para Julian. Não quando ele estava daquele jeito.
Cristina balançou a cabeça.
— É melhor entrarmos, então — disse Julian. A voz dele parecia normal, a expressão, calma. — Mark vai nos alcançar.
Emma não conseguiu deixar de olhar para ele com surpresa. Ela sempre soube que Julian era um bom ator – Caçadores de Sombras precisam mentir e desempenhar papéis o tempo todo – mas foi como se ela tivesse imaginado a expressão que tinha visto no rosto dele há poucos segundos. Como se ela tivesse imaginado os últimos dez minutos.
Como se nada tivesse acontecido.

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