domingo, 24 de julho de 2016

Capítulo 13

Na manhã seguinte, Will iniciou sua transformação de arqueiro para bardo. Sua capa de matizes marrom, cinza e verde foi substituída por uma mais adequada à sua nova identidade na área do entretenimento. Ele estava feliz por Halt e Crowley não terem optado por algo de cores mais chamativas, mas escolheram ao invés, uma capa preto e branco para ele. Ele colocou a capa sobre seus ombros.
Havia algo estranhamente familiar nela, pensava Will. Até que veio o estalo. A matiz irregular preto e branco que compunha a capa tinha o mesmo propósito da matiz em sua antiga capa de arqueiro. Ela quebrava a forma de quem a usasse, fazendo com que seu contorno ficasse indistinto e indistinguível a quem estivesse observando o ambiente. Halt observou seu interesse na capa e assentiu.
— Sim, é uma capa de camuflagem, certamente não é a mesma que os arqueiros usam, mas se levarmos em conta o lugar para onde você está indo, essas cores serão muito mais úteis — Halt disse.
E Will compreendeu. O feudo de Norgate no inverno era coberto por uma densa camada de neve, e as cores certamente estariam mais apagadas na paisagem. Uma inspeção mais atenta mostrou a ele que o preto da capa, na verdade, não era um preto de verdade, e sim variante que iam do preto até diversas tonalidades de cinza. Seria necessário, portanto, pouco esforço para uma pessoa treinada na arte de se mover sem ser visto, se misturar em campo aberto no inverno. Em ambientes fechado, é claro, a capa aparentaria ser nada mais que uma capa com cores aberrantes e seria a apresentação teatral necessária para seu papel como bardo.
— Muito esperto — ele disse, sorrindo abertamente para Halt e Crowley.
Os dois arqueiros mais experientes assentiram em resposta. Em seguida, Crowley deu a ele uma algibeira feita de um couro fino e cinza.
— Você não pode usar a bainha dupla — ele disse, olhando diretamente para o recipiente que Will usava para guardar suas duas facas — é muito chamativo, uma vez que é um instrumento que apenas os arqueiros utilizam.
— Oh — disse Will, um pouco inseguro.
Ele não se sentia confortável com o pensamento de que estaria sem a sua grande faca de caça e sua faca de atirar, um pouco menor.
— Você pode carregar a faca maior — Crowley disse tentando tranquilizá-lo — várias pessoas carregam facas parecidas com ela. E esta capa tem um compartimento do tamanho certo para a faca de atirar.
Ele indicou um compartimento oculto dentro da capa, logo abaixo do colarinho da bolsa. Will sacou sua pequena faca de atirar e colocou-a dentro do compartimento secreto. Servia perfeitamente. Entretanto as próximas palavras de Halt o deprimiram mais uma vez.
— Temo, entretanto, que o arco longo deverá ficar para trás. Um bardo simplesmente não o carregaria — ele disse.
Ele tirou o pesado arco do lado de Will. E em seu lugar colocou um pequeno arco de caça, com uma aljava cheia de flechas. Will estudou o pequeno e fraco instrumento. Ele duvidava que seu peso chegasse a vinte ou trinta quilogramas.
— Acho que prefiro não ter isso — ele disse — dificilmente conseguiria atirar uma flecha que ultrapassasse um metro com isso, além disso, essas flechas são muito pesadas para este tipo de arco.
Ele estava definitivamente desconfortável com a reviravolta dos eventos. O arco tinha sido sua principal arma desde muitos anos atrás, quando ainda era um aprendiz de Halt. Ele se sentiria nu e vulnerável sem um arco ao seu lado.
Halt e Crowley sorriram.
— O arco não é para atirar, é simplesmente uma desculpa plausível para que você possa carregar flechas. Venha comigo — Crowley disse, fazendo um gesto para que Will o seguisse.
Na clareira onde os cavalos pastavam, ele indicou a albarda para Will.
— Sua nova sela — ele disse, com um tom de expectativa na voz.
— Não há nada de errado com a minha — disse Will, inseguro com o andar da carruagem.
Ele estudou a sela. Parecia perfeitamente normal, apesar do arranjo pouco usual dos compartimentos. Onde, na antiga sela de Will, havia duas peças de madeira em forma de “V”, que poderia ser usado como ponto de apoio para amarrar objetos na sela, nessa havia duas peças de metal recurvo, que serviam para basicamente o mesmo objetivo. Elas se curvavam para dentro, e depois se separavam. Era uma outra forma, ele pensava, porém não mais prática que um simples V de madeira.
— Estamos muito orgulhosos por isso — Crowley disse.
E então pegou uma das peças horizontais e puxou para fora da sela. Will percebeu que ela estava sendo mantida no lugar por um pequeno e apertado compartimento que fazia parte da sela. A peça de metal, agora ele via mais claramente, era um pedaço de mais ou menos meio metro em forma de S, com a curva debaixo duas vezes maior que a curva superior. No final da curva, havia um pequeno talho no metal.
E como ocorreu com a capa, Will sentiu que havia algo vagamente familiar. Crowley sinalizou para ele, e foi até a alça existente na parte traseira da sela. Ele a torceu e ela também se destacou da sela. Aparentava ser plano, apenas uma tira de couro, mas havia dois ganchos de metal no final de cada extremidade.
Will assistiu fascinado quando Crowley deslizou a extremidade entalhada da arma de metal na fenda estreita da peça de couro e rapidamente engatou no gancho de metal, Will passou a ver a parte superior de um arco recurvo.
— Meu Deus — disse Will, agora ele compreendia.
Percebeu porque a peça em forma de S era familiar a ele. Quando ele se juntou no começo a Halt, como aprendiz, era muito pequeno para segurar um arco longo, então o arqueiro mais velho entregara a ele um pequeno e recurvo arco, onde cada extremidade estava alocada naquela forma de S. As curvas duplas acrescentavam força e velocidade a flecha, compensando o pouco peso da arma. E quando Crowley engatava o segundo gancho de metal à outra extremidade, Will percebeu que estava olhando agora para um arco recurvo – um que poderia ser desmontado em três partes separadas.
— Os armeiros que fizeram para nós — Halt disse. — Temos trabalhado no projeto já a algum tempo, as partes de metal são incríveis, você terá que pôr grande tensão no arco, não é tanto quanto um arco longo, mas ainda assim é uma quantia considerável.
Crowley jogou a arma para Will. Ele a avaliou, sentindo o peso e o balanço em suas mãos. Os ferreiros que fizeram as armas dos arqueiros eram excelentes artesãos – muitas espadas foram quebradas e lascadas em embates contra as lâminas dos arqueiros, sem que estas sofressem um só arranhão. E era óbvio que eles se superaram ao criar este arco de metal. Crowley pediu que Will colocasse a corda no local e armasse o arco.
Ele deslizou a corda na parte inferior do arco para encaixar no entalhe. Colocou o pé direito dentro do arco e o puxou, dobrando o arco sob o joelho da outra perna, e recurvando-o para que pudesse engatar a corda no entalhe. Ele grunhiu em resposta ao esforço que fora necessário. Ele recurvou o arco para testá-lo e assentiu contente a Halt.
— É quase parecido — ele disse, Halt pegou uma das flechas de dentro da aljava e deu para ele.
— Experimente — ele disse, e indicou uma árvore em uma clareira a quarenta metros de distância. Will engatou a fecha na corda, e testou-a num movimento de vai e vem, e com os olhos fixos no alvo, ergueu o arco, armou e atirou, em um movimento suave.
A flecha atingiu o tronco da árvore, há quase dez centímetros abaixo de onde tinha mirado. Para um arqueiro habilidoso como ele, foi um tiro desapontante.
— Não fique surpreso. Esse arco atira com menos potência que seu arco longo, a flecha irá perder a força e a altura rapidamente após quarenta ou cinquenta metros. Por isso você tem que atirar mais alto.
Will assentiu pensativamente. A flecha havia atingido o tronco com uma respeitável força.
— Bom para uns cem metros? — Perguntou a seu antigo mestre, e ele concordou.
— Talvez um pouco mais. Não é seu arco longo, mas pelo menos você não estará totalmente sem armas. E você ainda tem seus golpeadores, é claro.
Os golpeadores eram outra das armas dos arqueiros. Pequenos cilindros de bronze, cabiam na palma de um punho fechado, deixando uma pequena protrusão na ponta. Um golpe na mandíbula ou no crânio com um golpeador era o suficiente para incapacitar o mais forte dos oponentes. Além do mais, eles eram balanceados e aptos para serem lançados. E nas mãos de um atirador de facas experiente – em outras palavras, qualquer arqueiro – um golpeador poderia desorientar um homem que estivesse a até seis metros de distância.
— Muito bom — Crowley disse, esfregando uma mão na outra, como se fosse um homem de negócio. — Isso é tudo que temos para você no momento. E mais uma coisa: quando você estiver no Castelo de Macindaw, nós lhe enviaremos um agente para contato, no caso de você querer nos enviar alguma mensagem.
Will escutou essa novidade.
— E quem poderia ser esse agente? — perguntou.
Crowley respondeu:
— Nós não decidimos ainda, mas com certeza será alguém que você reconheceria como agente.
Halt colocou as mãos sobre os ombros de seu antigo aprendiz.
— Se você precisar de alguma ajuda enquanto estiver lá, sempre poderá contar com Meralon, claro. Embora não seja o ideal que vocês dois sejam vistos juntos. É necessário que você mantenha sua real identidade em segredo. E na verdade, ele será instruído a dar espaço para você trabalhar. Se ele for visto com frequência no distrito, as pessoas poderão se fechar completamente, e não falar.
Será uma tarefa extremamente solitária, Will pensou.

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