sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 13 - Sem qualquer outro pensamento

Emma estava na frente do espelho do banheiro, tirando a blusa devagar.
Vinte minutos com uma embalagem de alvejante removeram o sangue do interior do Toyota. Isso foi fácil. Ela estava acostumada a manchas de sangue.
Mas havia algo mais visceral nisso, no sangue de Julian seco em sua pele, manchas vermelho-amarronzadas sobre as costelas e no ombro. Ao abrir o zíper da calça jeans e se livrar dela, pôde ver respingos de sangue seco na barra, as gotas de evidência subindo e descendo pela borda.
Ela enrolou a calça e a regata, e jogou as duas no lixo.
No banho, com água escaldante, ela esfregou o sangue, a sujeira e o suor. Observou a água correr rosada pelo ralo. Emma não sabia dizer quantas vezes isso já tinha acontecido antes, a frequência com que sangrara em batalhas e treinamentos. Tinha cicatrizes pelo tronco e pelos ombros, nos braços, nas partes de trás dos joelhos.
Mas o sangue de Julian era diferente.
Quando ela o viu, pensou nele, atingido e encolhido, na maneira como o sangue correu feito água através de seus dedos. Foi a primeira vez em anos que ela, de fato, achou que ele pudesse morrer, que ela podia perdê-lo. Ela sabia o que as pessoas diziam sobre parabatai, sabia que se tratava de uma dor tão profunda quanto a morte de um cônjuge ou irmão. Emma tinha perdido os pais; achava que sabia o que era a perda, e se considerava preparada para isso.
Mas nada a preparou para a sensação que a ideia de perder Jules lhe causou: que seu céu se tornaria escuro para sempre, que não haveria mais solo firme.
Mais estranha ainda foi a sensação que a assolou quando ela se deu conta de que ele ficaria bem. Emma se tornou consciente da sua presença física de um jeito que quase doeu. Ela queria abraçá-lo, agarrá-lo enterrando os dedos como se pudesse apertar o suficiente para costurar a pele dos dois, entrelaçar os ossos. Sabia que não fazia sentido, mas não sabia explicar de outro jeito.
Sabia que era intenso, doloroso e uma coisa que nunca tinha sentido por Julian antes. E isso a assustava.
A água havia esfriado. Ela desligou o chuveiro com um giro selvagem de pulso, saiu do boxe e secou o cabelo com a toalha. Encontrou uma camisola e um short no cesto de roupa limpa, se vestiu e saiu do banheiro.
Cristina estava sentada na cama dela.
— Ah — disse Emma. — Não sabia que você estava aqui! Eu poderia ter saído do banheiro nua ou coisa do tipo.
— Duvido que você tenha alguma coisa que eu não tenho. — Cristina parecia distraída; os cabelos escuros penteados em tranças, e ela mexia os dedos como fazia quando estava preocupada.
— Está tudo bem? — perguntou Emma, sentando na beira da cama. — Você parece... incomodada.
— Você acha que Mark tinha amigos na Caçada Selvagem? — perguntou Cristina subitamente.
— Não. — Emma pareceu surpresa. — Pelo menos, ele nunca mencionou. E, se existisse alguém de quem ele sentia falta, ele falaria. — Ela franziu o rosto. — Por quê?
Cristina hesitou.
— Bem, ele pegou aquela moto emprestada de alguém hoje. Só espero que ele não tenha se encrencado por isso.
— Mark é esperto — disse Emma. — Duvido que tenha vendido a alma pelo uso temporário de uma moto ou de qualquer outra coisa.
— Tenho certeza de que você tem razão — murmurou Cristina, e olhou para o armário de Emma. — Posso pegar um vestido emprestado?
— Agora? — perguntou Emma. — Você tem algum encontro à meia-noite?
— Não, para amanhã à noite. — Cristina se levantou e foi olhar o armário. Vários vestidos mal dobrados caíram de dentro. — É para ser formal. Eu não trouxe nenhum vestido formal de casa.
— Nada meu vai caber em você — disse Emma, quando Cristina pegou um vestido com um desenho de foguetes na frente e franziu o rosto para ele. — Temos formas diferentes. Você é bem mais... boom-chica-boom.
— Isso sequer é a sua língua? — Cristina fez uma careta, guardando o vestido de foguete em uma prateleira e fechando a porta do armário. — Acho que não.
Emma sorriu para ela.
— Amanhã vamos fazer compras — falou ela. — Combinado?
— Isso parece tão normal. — Cristina alisou as próprias tranças. — Depois de hoje à noite...
— Cameron me ligou — disse Emma.
— Eu sei — respondeu Cristina. — Eu estava na cozinha. Por que está me contando isso? Vocês voltaram?
Emma balançou para trás na cama.
— Não! Ele estava me alertando. Disse que tinham pessoas que não queriam que eu investigasse esses assassinatos.
— Emma. — Cristina suspirou. — E você não nos contou nada?
— Ele falou de mim — retrucou Emma. — Achei que qualquer perigo fosse ser diretamente para mim.
— Mas Julian se machucou — disse Cristina, sabendo o que Emma ia dizer antes mesmo que ela dissesse. — Então você está com medo de ter sido culpada.
Emma ficou mexendo na borda do cobertor.
— E não sou? Quero dizer, Cameron me alertou, ele disse que ouviu no Mercado das Sombras, então, eu não sei se foram mundanos falando, fadas, feiticeiros ou sei lá o quê, mas o fato é que ele me alertou e eu ignorei.
— Não foi sua culpa. Já sabemos que tem alguém, provavelmente um necromante, matando e sacrificando mundanos e membros do Submundo, Já sabemos que ele tem um exército de demônios Mantis ao seu dispor. Não é como se Julian não estivesse esperando, ou preparado, para o perigo.
— Ele quase morreu — disse Emma. — Tinha tanto sangue.
— E você ajeitou. Ele está bem. Você salvou a vida dele. — Cristina acenou com uma das mãos; tinha unhas perfeitas, ovais e brilhantes, ao passo que as de Emma eram quebradas por lutas e treinos. — Por que você está se questionando, Emma? É porque Julian se machucou e isso a assustou? Porque desde que a conheço, você assume riscos. É parte de você. E Julian sabe disso. Ele não só sabe, como gosta.
— Gosta? Ele vive me dizendo para não me arriscar...
— Ele tem que dizer — falou Cristina. — Vocês são as metades de um inteiro. Vocês precisam ser diferentes, como luz e sombra; ele traz cautela para a sua imprudência, e você traz imprudência para a cautela dele. Sem o outro, vocês não funcionariam tão bem. É isso que significa ser parabatai. — Ela puxou levemente as pontas do cabelo molhado de Emma. — Não acho que Cameron é que a esteja incomodando. Isso é só uma desculpa para se repreender. Acho que foi o fato de que Julian se machucou.
— Talvez — disse Emma com a voz rouca.
— Tem certeza de que você está bem? — Os olhos castanho-escuros de Cristina brilhavam preocupados.
— Estou. — Emma se reclinou nos travesseiros. Ela colecionava almofadas do estado da Califórnia: algumas pareciam cartões-postais, outras tinham o formato do estado ou diziam EU AMO CALI.
— Você não parece bem — disse Cristina. — Parece... Minha mãe dizia que existia um olhar quando uma pessoa se dava conta de alguma coisa. Você está com cara de que se deu conta de alguma coisa.
Emma queria fechar os olhos, esconder seus pensamentos de Cristina. Pensamentos traiçoeiros, perigosos e errados.
— Apenas choque — respondeu ela. — Estive muito perto de perder Julian e... isso mexeu comigo. Estarei bem amanhã. — Ela forçou um sorriso.
— Se está dizendo, manita. — Cristina suspirou. — Se está dizendo.


Depois que Julian se limpou, lavou o sangue e mandou os restos do material do casaco queimado por veneno para Malcolm, cruzou o corredor até o quarto de Emma.
E parou no meio do caminho. Ele queria se deitar na cama ao lado dela, queria conversar sobre os eventos da noite e fechar os olhos junto dela, ouvindo sua respiração como os ruídos do mar, medindo os passos até o sono.
Mas, quando ele pensou naquela noite no banco de trás do carro, em Emma por cima dele, com pânico no rosto e sangue nas mãos, ele não sentiu o que sabia que deveria sentir: medo, a lembrança da dor, o alívio por ter se curado.
Em vez disso sentiu um aperto no corpo que enviou uma onda de dor até o meio dos ossos. Quando ele fechou os olhos, viu Emma iluminada pela luz enfeitiçada, os cabelos se soltando da presilha, a luz dos postes da rua iluminando suas mechas e as transformando em um tom de gelo de verão.
O cabelo de Emma. Talvez por ela raramente soltá-lo, talvez por Emma de cabelos soltos ter sido uma das primeiras coisas que ele quis pintar na vida, mas os cabelos ondulados e longos sempre foram como cordas ligadas diretamente aos nervos.
A cabeça dele doeu, e o corpo pulsava além do razoável, querendo estar novamente no carro com ela. Não fazia o menor sentido, então ele forçou os passos para longe da porta de Emma, pelo corredor, até a biblioteca. Estava escuro e tinha cheiro de papel velho. Mesmo assim, Julian não precisava de luz; ele sabia exatamente para que parte da biblioteca estava indo.
Lei.
Julian retirava um livro de capa vermelha de uma prateleira alta quando um grito ecoou pelo corredor. Ele pegou o volume e em um instante já estava fora da biblioteca, se apressando pelo corredor. Dobrou uma esquina e viu a porta de Drusilla aberta. Ela estava inclinada para fora, com a luz enfeitiçada na mão, e o rosto arredondado iluminado. O pijama era coberto por uma estampa de máscaras assustadoras.
— Tavvy está chorando — disse ela. — Tinha parado um pouco, mas depois começou outra vez.
— Obrigado por avisar. — Ele abaixou para dar um beijo na testa dela. — Volte para a cama, cuido disso.
Drusilla recuou, e Julian entrou no quarto de Tavvy, fechando a porta.
Tavvy era uma bola encolhida sob as cobertas. Ele estava dormindo, o corpo curvado sobre um dos travesseiros, a boca aberta em um engasgo. Lágrimas corriam pelo rosto.
Julian se sentou na cama e colocou uma das mãos no ombro do irmão.
— Octavius — chamou. — Acorde, você está tendo um pesadelo, acorde.
Tavvy se levantou, os cabelos castanhos desalinhados. Quando viu Julian, soluçou e pulou para cima do irmão mais velho, agarrando-o pelo pescoço.
Jules segurou Tavvy e esfregou as costas dele, afagando gentilmente os nodos da espinha. Muito pequeno, muito magro, sua mente dizia. Era uma luta fazer Tavvy comer e dormir, desde a Guerra Maligna.
Ele se lembrava de correr pelas ruas de Alicante com Tavvy no colo, tropeçando no asfalto rachado, tentando manter o rosto do irmão enterrado em seu ombro, para que ele não visse todo o sangue e morte que o cercava. Pensando que, se pudesse passar por tudo aquilo sem que Tavvy visse o que estava acontecendo, tudo ficaria bem. Ele não se lembraria. Ele não saberia.
E, mesmo assim, Tavvy acordava com pesadelos toda semana, tremendo, suando e chorando. E sempre que acontecia, a constatação de que não tinha conseguido salvar o irmãozinho perfurava Julian como espinhos.
A respiração de Tavvy se uniformizou lentamente enquanto Julian estava ali, abraçando-o. Queria deitar, queria aconchegar o irmão e dormir. Ele precisava muito descansar, e o cansaço parecia arrastá-lo como uma onda, puxando-o para baixo.
Mas ele não conseguia dormir. O corpo estava aceso, incomodado. A flecha que o penetrou foi uma agonia enorme; retirá-la foi pior ainda. Ele sentiu a pele rasgar e um momento de puro pânico animalesco, a certeza de que ia morrer, e aí o que aconteceria com eles, livvyetyedrusillaetavvyemark?
E então veio a voz de Emma ao seu ouvido, e as mãos dela nele, e ele soube que ia viver. Ele se olhou agora, e a marca nas costelas tinha desaparecido totalmente – bem, tinha alguma coisa ali, uma linha branca fraca em contraste com a pele morena, mas isso não era nada. Caçadores de Sombras viviam através de cicatrizes. Às vezes, ele achava, viviam por elas.
Espontaneamente, lhe veio à mente a imagem que ele estava tentando apagar desde que voltou para o Instituto: Emma, em seu colo, com as mãos nos ombros dele. Seus cabelos como correntes de ouro claro em volta do rosto.
Ele se lembrou de ter pensado que, se morresse, pelo menos morreria com ela o mais perto possível. Dentro do permitido por Lei.
Enquanto Tavvy dormia, Julian alcançou o livro que pegou na biblioteca. Era um livro que já tinha estudado tantas vezes que agora sempre caía na mesma página bem gasta. Sobre Parabatai, dizia.

É decretado que aqueles que passaram pela cerimônia parabatai são eternamente ligados pelos termos dos juramentos de Saulo e Davidde Ruth e Naomi, não devem se casar, não devem ter filhos juntos e não devem se amar pela forma de Erosmas como Philia ou Ágape.
A punição para a contravenção desta lei será decidida pela Clave: separação dos parabatai em questão, exílio das famílias e, se o comportamento criminoso se mantiver, as Marcas serão retiradas e eles serão expulsos dos Nephilim. Jamais voltarão a ser Caçadores de Sombras.
Assim é decretado por Raziel.
Sed lex, dura lex. A Lei é duramas é a Lei.

* * *

Quando Emma entrou na cozinha, Julian estava perto da pia, limpando os restos do café da manhã. Mark se apoiava na bancada, usando jeans preto e uma camisa preta. Com seus novos cabelos curtos, à luz do dia, ele parecia muito diferente do menino feral e maltrapilho que tirou o capuz no Santuário.
Ela tinha saído para uma corrida deliberadamente longa na praia naquela manhã e perdeu a refeição em família de propósito, tentando clarear as ideias.
Ela pegou uma garrafa de vitamina da geladeira para substituir o café. Quando virou, Mark estava sorrindo.
— Pelo que entendi, o que estou usando não é sofisticado o suficiente para a loteria de hoje à noite? — perguntou ele.
Emma olhou de Mark para Julian.
— Então o Senhor Regras cedeu e decidiu que você poderá ir?
Julian deu de ombros.
— Sou um homem razoável.
— Ty e Livvy prometeram me ajudar a encontrar alguma coisa para vestir — disse Mark, indo para a porta da cozinha.
— Não confie neles. — Julian sugeriu atrás dele. — Não... — Ele balançou a cabeça enquanto a porta se fechava. — Acho que ele terá que aprender essa lição sozinho.
— Isso me lembra... — disse Emma, se apoiando na bancada. — Temos uma situação de emergência.
— Uma emergência? — Com um olhar preocupado, ele fechou a torneira e virou o olhar para ela.
Emma pousou a bebida. Espumas de sabão estavam grudadas nos antebraços de Julian, e a camiseta, molhada com a água quente. Ela não conseguiu conter uma lembrança: Jules no banco de trás, olhando para ela com os dentes cerrados. A pele dele, sob suas mãos, o sangue escorregadio.
— É Diana? — perguntou ele, alcançando o papel-toalha.
— Quê? — Isso a despertou do devaneio. — Está tudo bem com Diana?
— Suponho que sim — respondeu ele. — Ela deixou um bilhete dizendo que passaria o dia fora hoje. Ia para Ojai ver o amigo feiticeiro.
— Ela não sabe sobre essa noite. — Emma se apoiou na bancada. — Sabe?
Jules balançou a cabeça. Um cacho molhado o tocou na bochecha.
— Não tive chance de contar.
— Poderia mandar uma mensagem — observou Emma. — Ou ligar.
— Poderia — respondeu ele de forma neutra. — Mas aí eu sentiria a necessidade de contar sobre ter me ferido ontem.
— Talvez devesse.
— Estou bem — disse ele. — Quero dizer, bem de verdade. Como se nada tivesse acontecido. — Ele balançou a cabeça. — Não quero que ela insista em me deixar de fora hoje. O teatro pode não ser nada, mas, se for alguma coisa, quero estar lá. — Ele jogou o papel-toalha no lixo. — Se você estiver lá, eu quero estar.
— Gosto quando você mente. — Emma esticou os dedos dos pés, os braços atrás da cabeça, tentando alongar os músculos. O ar frio tocou a pele exposta de sua barriga quando a camiseta levantou. — Mas, se você está totalmente bem, talvez não precise contar para Diana? Só uma sugestão.
Quando Julian não respondeu, ela olhou para ele.
Ele parou no meio do movimento, encarando-a. Cada um de seus cílios era uma perfeita linha escura; ele estava inexpressivo, com o olhar fechado, como se tivesse sido capturado por uma imobilidade peculiar.
Ele era lindo. A coisa mais linda que ela já tinha visto. Emma queria entrar na pele dele, viver onde ele respirava. Ela queria.
Estava apavorada. Nunca tinha querido ele assim antes. Era porque Julian tinha quase morrido, disse a si mesma. Todo o seu corpo era programado para monitorar a sobrevivência dele. Ela precisava que ele vivesse. Ele quase morreu, e tudo dentro dela estava em curto-circuito.
Ele ficaria horrorizado, disse a si mesma. Se soubesse como ela estava se sentindo, ficaria enojado. As coisas voltariam a ser como ficaram assim que ele voltou da Inglaterra, quando ela achou que ele estivesse com raiva dela. Que talvez ele a odiasse.
Ele já sabia naquele momento, disse uma vozinha em sua mente. Ele sabia sobre os seus sentimentos. Ele sabia o que você ainda não sabia.
Ela encostou as mãos contra a bancada, o mármore pressionando suas palmas, a dor limpando sua mente. Cale a boca, ela disse para a voz mental. Cale a boca.
— Uma emergência. — A voz dele estava baixa. — Você disse que tinha uma emergência?
— Uma emergência da moda; Cristina precisa de um vestido para ficar igual a todo mundo hoje à noite, e realmente não tem nada na casa para ela. — Emma olhou para o relógio. — Vamos levar meia hora, no máximo.
Ele relaxou, claramente aliviado.
— Tesouros Escondidos? — perguntou. Era um bom palpite: a loja preferida de Emma para roupas vintage era conhecida da família. Toda vez que ela a visitava, comprava coisas para eles: uma gravata-borboleta para Tavvy, uma faixa de cabelo florida para Livvy, um antigo pôster de filme terror para Dru.
— Sim. Quer alguma coisa?
— Eu sempre meio que quis um relógio de Batman que diz ACORDE, MENINO PRODÍGIO quando toca o alarme — disse ele. — Alegraria o meu quarto.
— Conseguimos! — gritou Livvy, entrando na cozinha. — Bem, uma parte, pelo menos. Mas é estranho.
Emma virou aliviada para ela.
— Conseguiram o quê?
— Na nossa língua, Livvy — disse Julian. — O que é estranho?
— Traduzimos algumas linhas da caverna — disse Ty, entrando atrás de Livvy. Ele estava com um casaco de capuz cinza, grande demais, que engolia suas mãos. Os cabelos escuros entornavam sobre a beira do capuz. — Mas elas não fazem o menor sentido.
— São um recado? — perguntou Emma.
Livvy balançou a cabeça.
— Versos de um poema — falou, desdobrando o papel que tinha nas mãos.

Mas nosso amor era muito mais forte do que o amor
Daqueles que eram mais velhos do que nós...
De muitos mais sábios do que nós...
E nem os anjos no Céu acima
Nem os demônios sob o mar
Podem separar a minha alma da alma
Da bela Annabel Lee...

— Annabel Lee — disse Julian. — Edgar Allan Poe.
— Conheço o poema — disse Livvy, franzindo as sobrancelhas. — Só não sei por que estava escrito na parede da caverna.
— Pensei que talvez fosse a cifra de um livro — disse Ty. — Mas isso significaria que há uma segunda metade. Algo em outro lugar, talvez. Pode valer a pena checar com Malcolm.
— Vou acrescentar à lista — disse Julian.
Cristina colocou a cabeça pela entrada da cozinha.
— Emma? — chamou a garota. — Está pronta para ir?
— Você parece preocupada — disse Livvy. — Emma vai levá-la a algum lugar para matá-la?
— Pior — disse Emma, indo para a porta se juntar a Cristina. — Compras.
— Para hoje? Em primeiro lugar, estou morrendo de inveja, e, em segundo lugar, não deixe ela levá-la àquele lugar em Topanga Cany on...
— Basta! — Emma tapou os ouvidos de Cristina com as mãos. — Não dê ouvidos a ela. Ela enlouqueceu desvendando códigos.
— Compre abotoaduras para mim — pediu Jules. — E volte o mais rápido possível. — O barulho da água correndo na pia foi abafado por Livvy, que já tinha começado a recitar mais do poema.

Foi há muitos anos,
Em um reino perto do mar...


— É aqui que quer comprar roupas? — perguntou Cristina, com as sobrancelhas erguidas, enquanto Emma parava o Toyota em um estacionamento cercado por árvores.
— É o lugar mais perto — explicou Emma, desligando o carro. Na frente delas havia uma única construção solitária com uma placa de letras imensas em purpurina, que soletrava as palavras TESOUROS ESCONDIDOS. Uma enorme máquina de pipoca, vermelha e branca, se encontrava perto da loja, junto a uma caravana pintada, com uma cortina, anunciando os serviços de Gargantua, o Grande. — Além disso, é demais.
— Não parece um lugar onde se compram vestidos glamourosos — argumentou Cristina, franzindo o nariz. — Este me parece um lugar onde a pessoa é sequestrada e vendida para o circo.
Emma a pegou pelo pulso.
— Você não confia em mim? — perguntou ela.
— Claro que não — respondeu Cristina. — Você é louca.
Mas ela permitiu que Emma a arrastasse para a loja, que era cheia de tesouros bregas: bandejas de festa, velhas bonecas de porcelana e, perto do caixa, prateleiras de joias e relógios vintage. Uma segunda sala se abria a partir da primeira. Era cheia de roupas, roupas incríveis. Calças Levi’s vintage de segunda mão, saias lápis de tweed e bombazina, dos anos 1950, blusas de seda, renda e veludo molhado.
E, em uma segunda sala menor, que saía da primeira, os vestidos. Pareciam borboletas penduradas: camadas de organza vermelha, cetim charmeuse com cores de aquarela, a bainha de um vestido Balmain, uma anágua de tule, como espuma na água.
— Julian não disse que precisava de abotoaduras? — perguntou Cristina freando Emma perto do caixa. A vendedora, que usava um óculos de olho de gato e um crachá que dizia SARAH, as ignorou propositalmente.
Emma passou os olhos pela vitrine de abotoaduras masculinas – a maioria tinha formas engraçadas, dados, armas, ou gatos, mas havia uma par com algumas mais bonitas: Paul Smith, Burberry e Lanvin.
Ao passar os olhos por elas, subitamente Emma se sentiu tímida. Escolher abotoaduras parecia algo que uma namorada faria. Não que ela já tivesse feito isso por Cameron, ou por qualquer outra pessoa com quem tivesse saído por um tempo, mas ela nunca se importou o suficiente para querer. Quando Julian tivesse uma namorada, Emma sabia, ela seria o tipo de garota que compraria abotoaduras para ele. Que se lembraria do aniversário dele e ligaria todos os dias.
Ela teria adoração por ele. Como poderia não ter?
Emma pegou um par de abotoaduras douradas com pedras pretas, quase sem ver o que fazia. Pensar em Julian com uma namorada lhe causou uma dor que ela não podia compreender.
Pousando as abotoaduras na bancada, ela foi para a pequena sala cheia de vestidos. Cristina a seguiu, parecendo preocupada.
Eu vinha aqui com minha mãe, Emma pensou, passando a mão pela arara de cetins, sedas e tecidos sintéticos. Ela adorava coisas vintage malucasvelhos casacos Chanel, vestidos com miçangas. Mas em voz alta tudo o que disse foi:
— Temos que nos apressar, não podemos passar muito tempo fora do Instituto com uma investigação em curso.
Cristina pegou um vestido brilhante em brocado rosa e pequenas flores douradas.
— Vou experimentar este.
Ela desapareceu dentro de uma cabine fechada por um lençol de Guerra nas Estrelas. Emma pegou outro vestido da arara: seda clara com cordões de contas prateadas. Olhar para ele fez com que ela se sentisse como quando olhava para um belo pôr do sol, para uma das pinturas de Julian ou para as mãos dele movendo pincéis e potes de tinta.
Ela foi para a cabine do provador se trocar. Quando saiu, Cristina estava no meio da sala, franzindo o rosto para o vestido rosa. Estava grudado como papel filme em todas as suas curvas.
— Acho que está muito apertado — comentou.
— Acho que é para ser apertado assim mesmo — respondeu Emma. — Seus peitos estão ótimos.
— Emma! — Cristina levantou os olhos, escandalizada; em seguida, engasgou. — Ah, você está linda!
Emma tocou o tecido marfim e prateado do vestido com um movimento incerto.
Branco representava morte e luto para os Caçadores de Sombras; eles raramente usavam essa cor casualmente, apesar de que por ser marfim, ela poderia se safar.
— Você acha?
Cristina sorria para ela.
— Sabe, você é exatamente como eu pensei que seria, e, às vezes, você é muito diferente.
Emma foi para o espelho se olhar.
— Como assim, como você pensou que eu seria?
Cristina pegou um globo de neve e fez uma careta para ele.
— Sabe, não ouvi apenas sobre Mark antes de vir para cá. Eu ouvi falar de você. Todos diziam que você ia ser o próximo Jace Herondale. A próxima grande guerreira Caçadora de Sombras.
— Não vou ser — disse Emma. A voz dela soou calma, baixa e distante aos seus ouvidos. Ela não podia acreditar que estava falando aquilo. As palavras pareciam sair sem terem sido formadas mentalmente antes, como se estivessem criando a própria realidade ao serem faladas. — Não sou especial, Cristina. Não tenho sangue de Anjo extra nem poderes especiais. Sou uma Caçadora de Sombras comum.
— Você não é comum.
— Sou. Não tenho poderes mágicos, não sou amaldiçoada nem abençoada. Posso fazer exatamente a mesma coisa que todos os outros podem. Só sou boa porque treino.
A vendedora, Sarah, esticou a cabeça em volta da porta, com os olhos arregalados. Emma tinha se esquecido que ela estava ali.
— Precisam de alguma ajuda?
— Preciso de tanta ajuda que você nem imagina — disse Emma.
Alarmada, Sarah voltou para o caixa.
— Isso é constrangedor — disse Cristina em um sussurro. — Ela provavelmente acha que somos duas lunáticas. É melhor irmos.
Emma suspirou.
— Desculpe, Tina — falou. — Vou pagar as coisas.
— Mas eu nem sei se quero esse vestido! — retrucou Cristina quando Emma sumiu de volta para o provador.
Emma se virou e apontou para ela.
— Quer sim. Eu falei sério quanto aos seus peitos. Eles estão incríveis. Acho que nunca vi tanto deles antes. Se eu tivesse esses peitos, pode acreditar que ia exibi-los o tempo todo.
— Por favor, pare de dizer “peitos” — reclamou Cristina. — É uma péssima palavra. Soa ridícula.
— Talvez — disse Emma, fechando o provador. — Mas eles estão ótimos.
Dez minutos depois, vestidos nas sacolas, estavam voltando pela estrada do cânion em direção ao mar. Cristina, no assento ao lado de Emma, estava sentada com as pernas cruzadas nos calcanhares e sem se apoiar no painel, como Emma estaria.
Em torno delas o cenário familiar do cânion se elevou: pedra cinzenta, vegetação verde e espinhosa. Carvalhos e cicuta dos prados. Uma vez, Emma subiu uma dessas montanhas com Jules, e eles encontraram um ninho de águia, com alguns ossos de ratos e morcegos acumulados.
— Você está enganada quanto ao motivo pelo qual é boa no que faz — disse Cristina. — Não é só o treinamento. Todo mundo treina, Emma.
— Sim, mas eu me mato treinando — respondeu Emma. — É tudo que faço. Acordo e treino, corro, corto as mãos no saco de pancada e passo horas treinando noite adentro, e preciso, porque não tem mais nada de especial em mim, e nada mais importa. Só me importa treinar e descobrir quem matou meus pais. Porque eles me achavam especial, e quem quer que os tenha tirado de mim...
— Outras pessoas a acham especial, Emma — cortou Cristina, parecendo, mais do que nunca, uma irmã mais velha.
— O que tenho é empenho — rebateu Emma, com a voz amarga. Ela estava pensando nos pequenos ossos no ninho, em como eram frágeis e como seriam facilmente quebráveis com dois dedos. — Eu posso me empenhar mais do que qualquer pessoa no mundo. Posso fazer da vingança a única coisa que tenho na vida, porque preciso. Mas isso significa que é tudo que eu tenho.
— Não é tudo que você tem — disse Cristina. — O que você não teve é o seu momento. Sua chance de ser incrível. Jace Herondale e Clary Fairchild não foram heróis em um vácuo; houve uma guerra. Foram forçados a fazer escolhas. Esses momentos aparecem para todos nós. Vão aparecer para você também. — Ela entrelaçou os dedos. — O Anjo tem planos para você. Prometo. Você é mais preparada do que pensa. Você se manteve forte não só durante o treinamento, mas pelas pessoas ao seu redor, amando e sendo amada. Julian e os outros, eles não permitiram que você se isolasse, sozinha com sua vingança e seus pensamentos amargos. O mar desgasta penhascos, Emma, e os transforma em areia; do mesmo jeito, o amor nos desgasta e ataca nossas defesas. Você só não sabe o quanto significa ter pessoas que lutem por você quando as coisas dão errado...
A voz dela falhou, e ela olhou para a janela. Tinham chegado à rodovia; Emma quase bateu no trânsito, alarmada.
— Cristina? O que foi? O que aconteceu?
Cristina balançou a cabeça.
— Sei que aconteceu alguma coisa com você no México — disse Emma. — Sei que alguém a machucou. Por favor, me diga o que foi e o que fizeram. Prometo que não vou tentar caçá-los e alimentar meus peixes imaginários com eles. Eu só... — Ela suspirou. — Quero ajudar.
— Não pode. — Cristina fitou os próprios dedos entrelaçados. — Algumas traições não podem ser perdoadas.
— Foi o Diego Perfeito?
— Deixe para lá, Emma — disse Cristina, e Emma respeitou.
No restante do caminho até o Instituto, elas conversaram sobre os vestidos e sobre a melhor maneira de esconder armas em vestimentas que não foram feitas para guardar armas. Mas Emma tinha notado o jeito como Cristina se encolheu quando ela mencionou o nome de Diego. Talvez não então, talvez não naquele dia, ela pensou, mas ela ia descobrir o que tinha acontecido.


Julian correu para baixo ao ouvir as batidas altas e repetitivas na porta da frente do Instituto. Ele continuava descalço; ainda não tivera a chance de se calçar.
Depois que terminou de arrumar as coisas após o café da manhã, passou uma hora tentando convencer o tio Arthur de que ninguém tinha roubado o busto de Hermes (estava embaixo da mesa dele), achou Drusilla trancada na casa de brinquedo de Tavvy, chateada por não ter sido chamada para o restaurante na noite anterior. Tavvy descobriu que Ty vinha escondendo um gambá em seu quarto e começou a gritar. Livvy estava ocupada tentando convencer Ty a libertar o gambá; Ty achou que o fato de que ele e Livvy tinham traduzido os versos de Poe significava que ele havia conquistado o direito de manter o gambá.
Mark, o único irmão que não tinha trazido problemas para Julian, estava escondido em algum lugar.
Julian abriu a porta. Malcolm Fade estava do outro lado, de calça jeans e com o tipo de casaco que dava para saber que era caro, porque parecia sujo e rasgado, mas de um jeito artístico. Alguém tinha gastado tempo e dinheiro rasgando aquele casaco.
— Sabe, não é uma boa ideia bater na porta desse jeito — disse Julian. — Temos muitas armas aqui, caso alguém invada.
— Hã — disse Malcolm. — Não sei ao certo se a primeira parte da declaração tem a ver com a segunda.
— Não? Achei que fosse uma relação óbvia.
Os olhos de Malcolm estavam roxos e brilhantes, o que normalmente significava que ele estava em um estado de humor peculiar.
— Não vai me deixar entrar?
— Não — respondeu Julian. A mente estava girando com pensamentos sobre Mark, no andar de cima; e Malcolm não podia ver Mark. Sua volta era um segredo muito grande para Malcolm guardar, e era um indício muito forte do motivo da investigação.
Julian forçou suas feições a aparentarem um agradável desinteresse, mas não saiu do lugar, impedindo a entrada de Malcolm.
— Ty trouxe um gambá para dentro — falou Jules. — Acredite, você não quer entrar.
Malcolm pareceu alarmado.
— Um gambá?
— Um gambá — confirmou Julian. Ele acreditava que as melhores mentiras se baseavam na verdade. — Você traduziu alguma das marcações?
— Ainda não — respondeu Malcolm. Ele mexeu a mão, não muito, um pequeno gesto, mas as cópias das marcas parcialmente traduzidas que deram a ele apareceram, gentilmente seguras entre seus dedos. Às vezes, Julian pensou, era fácil se esquecer de que Malcolm era um poderoso usuário de magia.
— Mas descobri as origens.
— Sério? — Julian tentou parecer impressionado. Eles já sabiam que era uma língua antiga do Reino das Fadas, apesar de não terem podido contar isso a Malcolm.
Por outro lado, essa era uma chance de ver se as fadas estavam falando a verdade. Julian olhou para Malcolm com um interesse renovado.
— Espere, talvez essas não sejam as marcas. — Malcolm olhou os papéis. — Parece uma receita de bolo de laranja.
Julian cruzou os braços.
— Não, não é.
Malcolm franziu o rosto.
— Eu definitivamente me lembro de ter olhado uma receita de bolo de laranja recentemente.
Julian revirou os olhos em silêncio. Às vezes, com Malcolm você só precisava ser paciente.
— Deixa para lá — disse Malcolm. — Isso foi na revista O, Isso... — Ele cutucou o papel. — Uma antiga língua do Reino das Fadas... você tinha razão; é mais antiga do que os Caçadores de Sombras. Enfim, essa é a origem da língua. Provavelmente conseguirei mais nos próximos dias. Mas não foi por isso que vim aqui.
Julian se alegrou.
— Examinei um pouco o veneno no tecido que você me mandou ontem à noite. Verifiquei e comparei com diferentes toxinas. Era uma cataplasma, um concentrado de um raro tipo da planta beladona com venenos demoníacos. Devia tê-lo matado.
— Mas Emma me curou — disse Julian. — Com um iratze. Então você está dizendo que devemos procurar por...
— Não estava dizendo nada sobre procurar — interrompeu Malcolm. — Só estou dizendo. Nenhuma iratze poderia curá-lo. Mesmo considerando a força dos símbolos parabatai, você não deveria ter sobrevivido de jeito nenhum. — Seus estranhos olhos violeta fixos em Julian. — Não sei se foi alguma coisa que você fez ou que Emma fez, mas o que quer que tenha sido, era impossível. Você não deveria estar respirando agora.


Julian subiu as escadas lentamente. Estava ouvindo gritos de cima, mas não do tipo que pareciam indicar que alguém estivesse correndo algum perigo real. Saber a diferença entre gritos de perigo e gritos de brincadeira era uma necessidade absoluta quando você era encarregado de quatro crianças.
Sua mente continuava no que Malcolm havia dito, sobre o cataplasma. Era enervante ouvir que você deveria estar morto. Sempre havia a possibilidade de que Malcolm estivesse enganado, mas, por alguma razão, Julian duvidava de que fosse esse o caso. Emma não tinha dito algo sobre ter encontrado plantas beladona perto da convergência?
Pensamentos sobre venenos e convergências desapareceram de sua mente quando ele virou o corredor saindo da escada. A sala onde mantinham o computador de Tiberius estava preenchida por luz e barulho. Julian foi até a entrada e ficou olhando.
Havia um jogo rodando e piscando na tela do computador. Mark estava na frente dele, apertando botões desesperadamente em um controle enquanto um caminhão acelerava na direção dele na tela. Esmagou o personagem com um ruído, e ele jogou o controle de lado.
— Essa caixa serve ao Senhor das Mentiras! — anunciou ele, indignado.
Ty riu, e Julian sentiu uma pontada no coração. O som dá risada do irmão era um dos barulhos favoritos de Julian; em parte porque a risada de Ty era tão sincera, sem qualquer tentativa de disfarçá-la ou qualquer senso de que deveria escondê-la.
Trocadilhos e ironias não costumavam ter graça para Ty, mas pessoas agindo como tolas tinham, e ele realmente se divertia com o comportamento de animais – Church caindo de uma mesa e tentando recuperar a dignidade – e aquilo era lindo para Julian.
No meio da noite, deitado na cama e olhando para seu mural de espinhos, Julian às vezes desejava que pudesse abandonar o papel que o obrigava a dizer para Ty que ele não podia ter gambás no quarto, ou que ele tinha que estudar ou apagar as luzes do quarto dele quando estava lendo, em vez de dormir. E se, como um irmão normal, ele pudesse assistir a filmes do Sherlock Holmes com Ty e ajudá-lo a criar lagartos sem se preocupar com a possibilidade de eles escaparem e fugirem pelo Instituto? E se?
A mãe de Julian sempre destacou a diferença entre fazer alguma coisa por alguém e oferecer as ferramentas para que ela as fizesse sozinha. Foi como ela ensinou Julian a pintar. Julian também sempre tentava fazer o mesmo por Ty, apesar de frequentemente parecer que ele estava andando no escuro: fazendo livros, brinquedos, aulas que pareciam adequadas ao jeito especial como Ty pensava – era a coisa certa a se fazer? Ele achava que ajudava. Torcia para isso. Às vezes, a esperança era tudo que se podia ter.
Esperança e olhar para Ty. Havia um prazer em ver Ty se tomar mais ele mesmo e precisar cada vez menos de instruções e ajuda. No entanto, havia também tristeza, pelo dia em que seu irmão não precisaria mais dele. Às vezes, nas profundezas do coração, Julian ficava imaginando se Ty quereria ficar com ele, quando esse dia chegasse, com o irmão que vivia mandando que ele fizesse coisas nada divertidas.
— Não é uma caixa — disse Ty. — É um controle.
— Bem, ele mente — argumentou Mark, se virando na cadeira. Ele viu Julian, apoiado na porta, e acenou com a cabeça. — Bom vê-lo, Jules.
Julian sabia que essa era uma saudação das fadas e lutou intimamente para não mencionar que eles já tinham se visto naquela manhã, na cozinha, sem falar nas milhares de vezes antes disso. Ele venceu seus instintos, por pouco.
— Oi, Mark.
— Tudo bem?
Julian fez que sim com a cabeça.
— Posso falar com Ty um minuto?
Tiberius se levantou. Os cabelos negros estavam bagunçados, crescendo demais. Julian lembrou a si mesmo que precisava marcar um corte de cabelo para os gêmeos. Mais uma coisa para acrescentar à agenda.
Ty saiu para o corredor, fechando a porta da sala do computador atrás de si.
Exibia uma expressão tensa.
— É sobre o gambá? Porque Livvy já o levou de volta para fora.
Julian balançou a cabeça.
— Não é sobre o gambá.
Ty levantou a cabeça. Ele sempre teve feições delicadas, mais élficas do que as de Helen e Mark. Seu pai dizia que ele era parecido com antigas gerações de Blackthorn, e ele não era muito diferente de alguns dos retratos de família na sala de jantar que raramente usavam; homens vitorianos esguios com roupas feitas sob medida, rostos de porcelana e cabelos negros e ondulados.
— O que é, então?
Julian hesitou. A casa estava toda parada. Dava para ouvir os estalos do computador do outro lado da porta.
Ele tinha pensado em pedir para Ty pesquisar sobre o veneno que o atingiu. Mas isso exigiria que dissesse para ele eu estava morrendoEu deveria estar morto. As palavras não saíam. Eram como uma represa, e atrás delas vinham tantas outras: não tenho certeza de nada. Detesto ser o responsável. Detesto tomar decisões. Morro de medo que todos vocês aprendam a me odiar. Morro de medo de perdê-losMorro de medo de perder Mark. Morro de medo de perder Emma. Quero que alguém assuma o comando. Não sou tão forte quanto pensamAs coisas que quero são erradas de se querer.
Ele sabia que não podia falar nada disso. A fachada que apresentava, para suas crianças, tinha que ser perfeita: uma rachadura nele seria como uma rachadura no mundo para eles.
— Você sabe que te amo. — Foi o que acabou dizendo, e Ty olhou para ele, espantado, encontrando o seu olhar por um breve instante.
Ao longo dos anos, Julian tinha aprendido a entender por que Ty não gostava de olhar nos olhos das pessoas. Havia muito movimento, cor, expressão, era como olhar para uma televisão. Ele conseguia, sabia que era algo de que as pessoas gostavam, e isso importava para elas, mas ele não parecia entender por que tanto drama.
Ty estava investigando então, procurando no rosto do irmão mais velho a resposta para sua estranha hesitação.
— Eu sei — respondeu Ty, afinal.
Julian não conseguiu conter o esboço de um sorriso. Era o que se quer ouvir, não é mesmo, dos seus filhos? Que eles sabiam que eram amados? Ele lembrou de quando carregou Tavvy para cima, uma vez, quando tinha 13 anos; ele tropeçou e caiu, e girou para cair de costas e de cabeça, sem se importar se ia se machucar, contanto que Tavvy ficasse bem. Ele machucou feio a cabeça, mas se sentou rapidamente, com a mente acelerada: Tavvy, meu bebê, ele está bem?
Foi a primeira vez que ele pensou “meu bebê", e não “o bebê".
— Mas não entendi por que queria conversar comigo — disse Ty, cerrando as sobrancelhas em confusão. — Tinha algum motivo?
Julian balançou a cabeça. Ao longe, ouviu a porta da frente se abrir, o ruído fraco de Emma e Cristina rindo, ecoando. Elas estavam de volta.
— Nenhum motivo — falou Julian.

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