sexta-feira, 24 de junho de 2016

Prólogo

Morgarath, senhor das Montanhas da Chuva e da Noite, ex-barão de Gorlan, no Reino de Araluen, observou, talvez pela milésima vez, o seu domínio amaldiçoado, árido e varrido pela chuva.
Aquilo era tudo o que lhe restava no momento: uma mistura de penhascos irregulares de granito e montanhas geladas com desfiladeiros e gargantas íngremes e estreitas de cascalho e pedras, sem nenhuma planta para quebrar a monotonia.
Embora já tivessem se passado quinze anos desde que fora trazido de volta a esse reino proibido que se tornou sua prisão, ele ainda se lembrava das clareiras verdes e agradáveis, das colinas cobertas de bosques de seu antigo feudo, dos córregos cheios de peixes e dos campos com plantações e caça abundante. Gorlan tinha sido um lugar maravilhoso e animado. As Montanhas da Chuva e da Noite agora estavam mortas e desertas. Um pelotão de Wargals treinava no pátio do castelo abaixo dele. Morgarath os observou por alguns segundos e escutou a cantilena gutural e ritmada que acompanhava todos os movimentos. Eles eram seres entroncados e deformados, com feições meio humanas, mas com focinhos de bicho e dentes parecidos com os de um urso ou um cachorro grande.
Longe do contato humano, os Wargals viveram e se reproduziram naquelas montanhas remotas desde tempos antigos. Ninguém se lembrava de ter visto um deles, mas boatos e lendas falavam de uma tribo selvagem de bestas semi-inteligentes nas montanhas. Morgarath, ao planejar uma revolta contra o Reino de Araluen, deixou o feudo de Gorlan para procurá-los. Se tais criaturas existissem, lhe dariam uma vantagem na guerra que se aproximava.
Passaram-se meses, mas ele os encontrou. Além da cantilena, os Wargals não usavam palavras para se comunicar e eram seres de pouco cérebro. Como resultado, foram facilmente dominados pela inteligência e força de vontade superiores de Morgarath, que os transformou no exército ideal: mais feios do que um pesadelo, extremamente impiedosos e totalmente escravizados por suas ordens mentais.
Agora, olhando para eles, lembrou-se dos cavaleiros bem vestidos com armaduras brilhantes que costumavam competir em torneios no Castelo de Gorlan, enquanto as damas os estimulavam e aplaudiam suas habilidades usando luvas de seda. Ao compará-los mentalmente com essas criaturas deformadas e cobertas por pelos escuros, praguejou novamente.
Os Wargals, sintonizados com o pensamento dele, perceberam a sua perturbação, mexeram-se inquietos e pararam o que estavam fazendo. Zangado, Morgarath os fez voltar ao treinamento, e a cantilena recomeçou.
Morgarath se afastou da janela sem vidros e se aproximou do fogo, que parecia totalmente incapaz de acabar com a umidade e o frio do castelo sombrio. Quinze anos tinham se passado desde que se rebelara contra o recém-coroado rei Duncan, um jovem de 20 e poucos anos. Confiando na indecisão e na confusão que dividiriam os outros barões logo após a morte do velho rei, Morgarath, para não perder a oportunidade de se apoderar do trono, tinha planejado tudo com muito cuidado, enquanto a doença do soberano avançava.
Secretamente, treinou o exército de Wargals e os reuniu nas montanhas, prontos para atacar no momento certo. Nos dias de confusão e sofrimento que se seguiram à morte do rei, quando os barões viajaram até o Castelo de Araluen para a cerimônia do funeral e deixaram os seus exércitos sem líder, ele tinha atacado e invadido a parte sudeste do reino, derrotando as forças despreparadas que tentaram resistir.
Duncan, jovem e inexperiente, nunca poderia enfrentá-lo. O reino estava lá para ser tomado. O trono era seu.
Mas lorde Northolt, chefe do exército do velho rei, reuniu alguns dos barões mais jovens numa aliança leal que apoiou Duncan e aumentou a vacilante coragem dos demais. Os exércitos se encontraram em Hackham Heath, perto do Rio Slipsunder, e a batalha ficou equilibrada durante 5 horas, com ataques, contra-ataques e muitas mortes. O Slipsunder era um rio raso, mas seus trechos traiçoeiros de areia movediça e lama macia formavam uma barreira intransponível que protegia o flanco direito de Morgarath.
Então um daqueles agitadores vestidos com capas camufladas, conhecidos como Arqueiros, conduziu um grupo de cavalaria pesada através de uma passagem secreta, dez quilômetros rio acima. Os cavaleiros, protegidos por armaduras, surgiram num momento crucial da batalha e atacaram a retaguarda do exército de Morgarath.
Os Wargals, treinados no terreno cheio de rochas das montanhas, tinham um ponto fraco. Tinham medo de cavalos e nunca conseguiriam enfrentar a surpresa de um ataque como aquele. Eles se dividiram, recuaram para a passagem estreita dos Três Passos e voltaram para as Montanhas da Chuva e da Noite. Morgarath, diante da rebelião derrotada, foi com eles. E ali ficou exilado durante esses quinze anos. Esperando, conspirando, detestando os homens que tinham sido responsáveis por seu destino.
O momento certo tinha chegado. Mais uma vez, ele lideraria os Wargals num ataque, mas agora teria aliados. E, desta vez, primeiro semearia o chão com incerteza e confusão. Nenhum dos que tinham conspirado contra ele seria deixado vivo para ajudar o rei Duncan. Porque os Wargals não eram as únicas criaturas antigas e aterradoras que tinha encontrado naquelas montanhas sombrias. Ele tinha dois outros aliados ainda mais assustadores: as temíveis bestas conhecidas como Kalkaras.
Chegara o momento de soltá-las.

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