domingo, 12 de junho de 2016

Capitulo III - A busca de Erebor

Para sua plena compreensão, esta história depende da narrativa dada no Apêndice A (III, O Povo de Durin) do Senhor dos Anéis, da qual este é um resumo: Os anões Thrór e seu filho Thráin (juntamente com Thorin. filho de Thráin, mais tarde chamado de Escudo de Carvalho) escaparam da Montanha Solitária (Erebor) por uma porta secreta quando o dragão Smaug desceu sobre ela. Thrór retornou a Moria depois de dar a Thráin o último dos Sete Anéis dos Anões, e ali foi morto pelo orc Azog, que marcou seu nome a fogo na fronte de Thrór. Foi isso que levou à Guerra dos Anões e dos Orcs, que terminou na grande Batalha de Azanulbizar (Nanduhirion) diante do Portão Leste de Moria no ano de 2799. Mais tarde Thráin e Thorin Escudo de Carvalho moraram em Ered Luin, mas no ano de 2841 Thráin partiu de lá para voltar à Montanha Solitária.
Enquanto vagava nas terras a leste do Anduin, ele foi capturado e aprisionado em Dol Guldur, onde o anel lhe foi tomado. Em 2850 Gandalf penetrou em Dol Guldur e descobriu que seu senhor era de fato Sauron; e lá topou com Thráin antes que este morresse. Há mais de uma versão de “A busca de Erebor”, como está explicado em um Apêndice que se segue ao texto, onde são também apresentados extratos substanciais de uma versão anterior.
Não encontrei nenhum escrito que preceda as palavras iniciais do texto presente (“Naquele dia ele nada mais quis dizer)”. O “ele” da frase inicial é Gandalf; “nós” são Frodo, Peregrin, Meriadoc e Gimli; e “eu” é Frodo, que registra a conversa; o cenário é uma casa em Minas Tirith, depois da coroação do Rei Elessar.

Naquele dia ele nada mais quis dizer. Porém mais tarde voltamos ao assunto, e ele nos contou toda a estranha história; como chegou a arranjar a viagem a Erebor, por que pensou em Bilbo, e como persuadiu o altivo Thorin Escudo de Carvalho a admiti-lo em sua companhia. Agora não consigo me lembrar de toda a história, mas deduzimos que no começo Gandalf estava pensando apenas na defesa do Oeste contra a Sombra.
— Eu estava muito perturbado naquela época — disse —, pois Saruman estava impedindo todos os meus planos. Eu sabia que Sauron se erguera de novo e logo iria declarar-se, e sabia que ele se preparava para uma grande guerra. Como começaria? Tentaria primeiro reocupar Mordor, ou primeiro atacaria as principais fortalezas de seus inimigos? Pensei na época, e agora tenho certeza disso, que atacar Lórien e Valfenda, assim que estivesse forte o bastante, era seu plano original. Teria sido um plano muito melhor para ele, e muito pior para nós.
“Vocês podem pensar que Valfenda estava fora de seu alcance, mas eu não pensava assim. O estado de coisas no norte estava muito ruim. O Reino sob a Montanha e os fortes homens de Valle não existiam mais. Para resistir a qualquer tropa que Sauron pudesse enviar para recuperar as passagens do norte nas montanhas e as antigas terras de Angmar, havia apenas os anões das Colinas de Ferro, e atrás deles estendia-se uma desolação e um Dragão. O Dragão poderia ser usado por Sauron com efeito terrível. Muitas vezes disse para mim mesmo; 'Preciso encontrar algum meio de lidar com Smaug. Mas um golpe direto contra Dol Guldur é ainda mais necessário. Temos de perturbar os planos de Sauron. Tenho de fazer o Conselho enxergar isso.”
“Estes eram meus pensamentos sombrios enquanto eu seguia pela estrada. Estava cansado, e ia ao Condado para um breve descanso, depois de ter passado mais de vinte anos longe de lá. Pensava que, se eu as tirasse da cabeça por algum tempo, eu talvez pudesse achar algum modo de lidar com essas preocupações. E de fato foi o que fiz, porém não me foi permitido tirá-las da cabeça.”
“Pois exatamente quando eu me aproximava de Bri fui alcançado por Thorin Escudo de Carvalho, que então vivia no exílio além da fronteira noroeste do Condado. Para minha surpresa ele falou comigo; e foi nesse momento que a maré começou a virar.”
“Ele também estava preocupado, tanto que chegou a pedir meu conselho. Assim, fui com ele até seus salões nas Montanhas Azuis e escutei sua longa história. Logo compreendi que seu coração estava agitado de tanto remoer injustiças sofridas e a perda do tesouro de seus ancestrais, além de estar também sobrecarregado com o dever da vingança contra Smaug, que ele herdara. Os anões levam tais deveres muito a sério”.
“Prometi ajudá-lo caso pudesse. Eu estava tão ansioso quanto ele por ver o fim de Smaug, mas Thorin estava entusiasmado com planos de batalha e guerra, como se realmente fosse o Rei Thorin Segundo, e nisso eu não conseguia ver esperança. Assim deixei-o, fui ao Condado e apanhei o fio da meada das notícias. Era um negócio estranho. Nada mais fiz que seguir a deixa da 'sorte', e cometi muitos erros pelo caminho”.
“De algum modo eu havia sido atraído por Bilbo há muito tempo, quando ele era criança, e um jovem hobbit: ele não tinha ainda alcançado a maioridade quando eu. o vira pela última vez. Ficara em meus pensamentos desde então, com sua avidez e seus olhos brilhantes, seu amor por histórias e suas perguntas sobre o grande mundo fora do Condado. Assim que entrei no Condado ouvi novas dele. Ele estava na boca de todos, ao que parecia. Seus dois pais haviam morrido cedo para gente do Condado, com oitenta anos mais ou menos; e ele nunca se casara. Já estava se tornando um tanto esquisito, diziam, e saía sozinho durante dias. Podia ser visto falando com estranhos, até mesmo com anões”.
“'Até mesmo com anões!” De repente estas três coisas se juntaram em minha mente: o grande Dragão com sua concupiscência, e sua audição e faro aguçados; os robustos anões de botas pesadas com seu velho rancor ardente; e o hobbit rápido, de passos leves, com o coração aflito (eu achava) por uma visão do grande mundo. Ri para mim mesmo; mas parti imediatamente para dar uma olhada em Bilbo, para ver o que vinte anos haviam feito dele, e se ele era tão promissor quanto os mexericos pareciam sugerir.
Mas ele não estava em casa. Balançaram as cabeças na Vila dos Hobbits quando perguntei por ele. 'Foi-se de novo' disse um hobbit. Era Holman, o jardineiro, creio eu. 'Foi-se de novo. Um dia desses irá para valer, se não tomar cuidado. Ora, eu lhe perguntei aonde ia, e quando ia voltar, e ele disse não sei; e então olhou para mim de um jeito esquisito. Depende de eu encontrar algum, Holman, disse ele. Amanhã é o Ano Novo dos Elfos! É pena, e ele é um sujeito tão bondoso. Não se pode achar melhor das Colinas até o Rio.'”
“'Cada vez melhor!', pensei eu. 'Acho que vou arriscar.' O tempo estava passando. Eu tinha de me reunir com o Conselho Branco em agosto, o mais tardar, ou Saruman teria sua vontade satisfeita e nada seria feito. E, bem à parte dos assuntos mais importantes, isso poderia demonstrar ser fatal para a busca: o poder em Dol Guldur não deixaria de obstruir nenhuma tentativa contra Erebor, a não ser que tivesse algo diferente com que lidar.”
“Assim, cavalguei apressado de volta a Thorin, para enfrentar a difícil tarefa de persuadi-lo a pôr de lado seus elevados desígnios e partir em segredo — levando Bilbo consigo. Sem ver Bilbo antes. Foi um erro, e ele quase provou ser desastroso. Pois Bilbo mudara, naturalmente. Pelo menos, estava ficando bastante avarento e gordo, e seus antigos desejos haviam se reduzido a uma espécie de sonho particular. Nada poderia ser mais consternador do que descobrir que ele corria o risco de se realizar de verdade! Ele ficou totalmente desorientado e se comportou de maneira ridícula. Thorin teria partido raivoso, não fosse por outra estranha coincidência que mencionarei num momento”.
“Mas vocês sabem como as coisas aconteceram, ao menos como Bilbo as viu. A história soaria bem diferente se eu a tivesse escrito. Por um lado. ele não percebia em absoluto até que ponto os anões o consideraram néscio, nem como ficaram furiosos comigo. De fato Thorin ficou muito mais indignado e desdenhoso do que ele mesmo percebia. Na verdade, estava desdenhoso desde o começo, e então pensou que eu havia planejado todo o caso simplesmente para fazê-lo de tolo. Foram só o mapa e a chave que salvaram a situação”.
“Mas eu não pensara neles durante anos. Foi só quando cheguei ao Condado e tive tempo de refletir sobre a história de Thorin que de repente me lembrei da estranha coincidência que os pusera em minhas mãos; e agora aquilo começava a parecer menos uma coincidência. Recordei uma perigosa viagem que fizera, noventa e um anos antes, quando penetrei disfarçado em Dol Guldur e lá encontrei um infeliz anão morrendo nos poços. Eu não tinha ideia de quem ele era. Ele possuía um mapa que pertencera ao povo de Durin em Moria e uma chave que parecia acompanhá-lo, mas estava demasiado fraco para explicar. E disse que tinha possuído um grande Anel”.
“Quase todos os seus delírios eram sobre isso. O último dos Sete, ele dizia e repetia. Mas todos aqueles objetos podiam ter chegado a ele de muitas maneiras. Poderia ter sido um mensageiro capturado ao fugir, ou mesmo um ladrão apanhado por um ladrão maior. Mas deu-me o mapa e a chave. 'Para meu filho', disse; e então morreu, e logo depois eu mesmo escapei. Escondi os objetos e, graças a algum aviso do coração, sempre os mantive comigo, a salvo mas logo quase esquecidos. Eu tinha outros negócios em Dol Guldur, mais importantes e perigosos que todos os tesouros de Erebor”.
'Agora eu relembrava tudo, e parecia claro que tinha ouvido as últimas palavras de Thráin Segundo, apesar de ele não ter dado seu nome, nem o do filho; e Thorin naturalmente não sabia o que fora feito do seu pai, nem jamais mencionou 'o último dos Sete Anéis'. Eu tinha o plano e a chave da entrada secreta de Erebor, pela qual Thrór e Thráin haviam escapado, de acordo com a história de Thorin. E eu os tinha guardado, se bem que sem qualquer desígnio meu. até o momento em que se revelariam mais úteis.
“Felizmente, não cometi nenhum erro ao usá-los. Mantive-os na manga, como vocês dizem no Condado, até que parecesse não haver mais esperança. Assim que Thorin os viu, ele realmente se decidiu a seguir meu plano, pelo menos no que dizia respeito à expedição secreta. Não obstante o que pensasse de Bilbo, ele mesmo teria partido. A existência de uma porta secreta que só os anões poderiam encontrar fazia com que parecesse ao menos possível descobrir algo sobre os atos do Dragão, talvez até recuperar algum ouro. ou algum objeto herdado para aplacar a saudade em seu coração”.
“Mas isso não me bastava. Eu sabia no fundo do coração que Bilbo tinha de ir com ele, pois do contrário toda a busca seria um fracasso — ou. como eu diria agora, os acontecimentos muito mais importantes durante o caminho não iriam ocorrer. Assim eu ainda precisava persuadir Thorin a levá-lo. Houve muitas dificuldades no percurso depois disso, mas para mim essa foi a parte mais difícil de todo o caso. Apesar de eu discutir com ele até de madrugada depois que Bilbo foi dormir, a questão somente foi decidida de fato ao amanhecer do dia seguinte”.
“Thorin estava cheio de menosprezo e suspeita. 'Ele é mole', bufou. 'Mole como a lama do seu Condado, e tolo. Sua mãe morreu cedo demais. Você está armando alguma das suas, Mestre Gandalf. Tenho certeza de que você tem outros propósitos além de me ajudar'”.
“'Você tem toda a razão', disse eu. 'Se eu não tivesse outros propósitos, nem o estaria ajudando. Por muito que seus negócios lhe possam parecer importantes, eles são apenas um pequeno fio na grande teia. Eu me ocupo de muitos fios. Mas isso deveria dar mais peso a meu conselho, não menos.' Por fim falei irado. 'Escute-me. Thorin Escudo de Carvalho!', disse eu. 'Se esse hobbit for com você. você terá êxito. Se não for, você fracassará. Tenho esse presságio, e o estou prevenindo”.
“'Conheço sua fama', respondeu Thorin. 'Espero que seja merecida. Mas toda essa bobagem com seu hobbit faz com que eu me pergunte se é mesmo um presságio o que você tem e se você não está maluco em vez de presciente. Tantas preocupações podem ter desordenado seu juízo”.
“'Com certeza tive suficientes para isso acontecer', disse eu. 'E, entre elas, a que acho mais irritante é um anão orgulhoso que me pede um conselho (sem nenhum direito sobre mim, que eu saiba) e depois me retribui com insolência. Trilhe seu próprio caminho se quiser, Thorin Escudo de Carvalho. Mas, se menosprezar meu conselho, caminhará para um desastre. E não vai mais receber conselhos nem ajuda minha até que a Sombra se abata sobre você. E controle seu orgulho e sua ganância, ou vai tombar ao fim de qualquer caminho que tomar, por muito que tenha as mãos cheias de ouro'”.
“A estas palavras ele empalideceu um pouco; mas seus olhos estavam em brasa. 'Não me ameace!', disse. 'Usarei meu próprio discernimento neste caso, como faço em tudo que me diz respeito'”.
“'Então faça isso!', disse eu. 'Nada mais posso dizer a não ser o seguinte: não dou meu amor nem minha confiança à toa, Thorin; mas gosto desse hobbit e quero o bem dele. Trate-o bem e você há de ter minha amizade até o fim de seus dias'”.
“Disse isso sem esperança de persuadi-lo; mas não poderia ter dito nada melhor. Os anões compreendem a devoção aos amigos e a gratidão aos que os ajudam. 'Muito bem', disse Thorin finalmente, depois de um período em silêncio. 'Ele há de partir com minha companhia, se tiver coragem para isso (do que duvido). Mas, se você insistir em me sobrecarregar com ele, você também terá de vir para cuidar do seu favorito'”.
“'Bom!', respondi. 'Irei e permanecerei com vocês o quanto puder: pelo menos até você descobrir o quanto ele vale.' Acabou sendo bom, mas naquele momento fiquei preocupado, pois tinha nas mãos o assunto urgente do Conselho Branco”.
“Foi assim que partiu a Busca de Erebor. Imagino que, quando começou, Thorin não tivesse esperança real de destruir Smaug. Não havia esperança. No entanto aconteceu. Mas ai! Thorin não viveu para desfrutar seu triunfo nem seu tesouro. O orgulho e a ganância o venceram a despeito de meu aviso”.
— Mas certamente — disse eu — ele não poderia ter tombado em batalha de um modo ou de outro? Teria ocorrido um ataque de orcs por mais generoso que Thorin tivesse sido com seu tesouro.
— Isso é verdade — disse Gandalf. — Pobre Thorin! Foi um grande anão de uma grande Casa, não importam seus defeitos; e, apesar de ele ter caído ao fim da viagem, foi principalmente graças a ele que o Reino sob a Montanha foi restaurado, como eu desejava. Mas Dáin Pé-de-Ferro foi um sucessor à altura. E agora ouvimos que ele tombou em outra guerra diante de Erebor, ao mesmo tempo em que lutávamos aqui. Eu diria que foi uma grande perda, se não tivesse sido espantoso que ele, em na sua idade avançada, ainda conseguisse brandir o machado com tanta força quanto disseram, de pé sobre o corpo do Rei Brand diante do Portão de Erebor, até cair a noite.
“'De fato tudo poderia ter acabado de modo muito diferente. O ataque principal foi desviado para o sul, é verdade; mas ainda assim, com sua mão direita bem estendida, Sauron poderia ter causado danos terríveis no norte enquanto nós defendíamos Gondor, se o Rei Brand e o Rei Dáin não se tivessem interposto em seu caminho. Quando pensarem na grande Batalha de Pelennor, não se esqueçam da Batalha de Valle. Imaginem como poderia ter sido. Fogo de dragão e espadas selvagens em Eriador! Poderia não haver Rainha em Gondor. Agora somente poderíamos esperar voltar da vitória daqui para minas e cinzas. Mas isso foi evitado — porque me encontrei com Thorin Escudo de Carvalho certo dia ao anoitecer, à beira da primavera, não longe de Bri. Um encontro casual, como dizemos na Terra Média”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário