domingo, 12 de junho de 2016

Capítulo II - Cirion e Eorl e a amizade entre Gondor e Rohan

(i) Os Homens do Norte e os Carroceiros

A Crônica de Cirion e Eorl só se inicia com o primeiro encontro entre Cirion, Regente de Gondor, e Eorl, Senhor dos Éothéod, depois de encerrada a Batalha do Campo de Celebrant com a destruição dos invasores de Gondor. Mas houve baladas e lendas da grande cavalgada dos rohirrim do norte, tanto em Rohan quanto em Gondor, de onde foram tirados relatos que aparecem em Crônicas posteriores, junto com muitos outros textos a respeito dos Éothéod. Aqui eles são reunidos brevemente em forma de crônica.
Os Éothéod primeiro se tornaram conhecidos com esse nome nos dias do Rei Calimehtar de Gondor (que morreu no ano de 1936 da Terceira Era), época em que eram um pequeno povo que vivia nos Vales do Anduin entre o Carrock e os Campos de Lis, na sua maioria do lado oeste do rio. Eram um remanescente dos Homens do Norte, que outrora haviam sido uma numerosa e potente confederação de povos que viviam nas amplas planícies entre a Floresta das Trevas e o Rio Corrente, grandes criadores de cavalos e cavaleiros renomados por sua habilidade e resistência, apesar de seus lares estabelecidos ficarem nas beiras da Floresta, e especialmente na Angra Leste, que fora produzida em sua maior parte pela derrubada de árvores.
Esses Homens do Norte eram descendentes da mesma raça de homens dos que na Primeira Era chegaram ao oeste da Terra Média e se tornaram os aliados dos eldar em suas guerras contra Morgoth. Portanto, eram parentes distantes dos dúnedain ou númenorianos, e havia grande amizade entre eles e o povo de Gondor. Eram na verdade um baluarte de Gondor, protegendo de invasões suas fronteiras norte e leste, embora isso só viesse a ser plenamente percebido pelos Reis quando o baluarte enfraqueceu e foi por fim destruído. O declínio dos Homens do Norte de Rhovanion começou com a Grande Peste, que surgiu ali no inverno do ano de 1635 e logo se estendeu até Gondor. Em Gondor a mortalidade foi grande, em especial entre os que moravam em cidades. Foi maior em Rhovanion, pois, apesar de o povo viver mais ao ar livre e não ter grandes  cidades, a Peste veio com um inverno frio, que forçou os cavalos e os homens a se abrigarem, e eles apinharam suas casas e seus estábulos baixos, de madeira. Ademais tinham poucas habilidades nas artes da cura e da medicina, muitas das quais ainda eram conhecidas em Gondor, preservadas da sabedoria de Númenor. Quando a Peste passou, diz-se que havia perecido mais da metade das pessoas de Rhovanion, e também dos seus cavalos. A recuperação foi lenta, mas sua fraqueza não foi posta à prova por muito tempo.
Sem dúvida os povos mais a leste tinham sido igualmente atingidos, de modo que os inimigos de Gondor vinham principalmente do sul ou pelo mar. Mas, quando as invasões dos Carroceiros começaram e envolveram Gondor em guerras que duraram quase cem anos, os Homens do Norte suportaram o pior impacto dos primeiros ataques. O Rei Narmacil II levou um grande exército para o norte, às planícies ao sul da Floresta das Trevas, e reuniu todos os remanescentes dispersos dos Homens do Norte que conseguiu.
Foi derrotado, porém, e ele mesmo tombou na batalha. O resto de seu exército recuou atravessando a Dagorlad até Ithilien, e Gondor abandonou todas as terras a leste do Anduin, salvo Ithilien.
Quanto aos Homens do Norte, diz-se que alguns fugiram atravessando o Celduin (Rio Corrente) e se misturaram ao povo de Valle aos pés do Erebor (com quem eram aparentados), alguns se refugiaram em Gondor e outros foram reunidos por Marhwini, filho de Marhari (que tombou na ação de retaguarda após a Batalha das Planícies).
Passando ao norte entre a Floresta das Trevas e o Anduin, estabeleceram-se nos Vales do Anduin, onde se reuniram a eles muitos fugitivos que vieram através da Floresta. Esse foi o começo dos Éothéod, embora nada se soubesse a seu respeito em Gondor por muitos anos. A maioria dos Homens do Norte caiu na servidão, e todas as suas antigas terras foram ocupadas pelos Carroceiros.
Mas por fim o Rei Calimehtar, filho de Narmacil II, vendo-se livre de outros perigos, dispôs-se a vingar a derrota na Batalha das Planícies. Chegaram a ele mensageiros de Marhwini, com o aviso de que os Carroceiros planejavam atacar Calenardhon passando pelos Meandros; mas disseram também que estava em preparação uma revolta dos Homens do Norte que haviam sido escravizados, e que esta irromperia caso os Carroceiros se envolvessem em alguma guerra. Portanto Calimehtar, assim que pôde, saiu de Ithilien com um exército, cuidando para que sua aproximação fosse bem conhecida do inimigo. Os Carroceiros abateram-se sobre eles com todas as forças que puderam reunir, e Calimehtar recuou, atraindo-os para longe de suas casas. Finalmente a batalha foi travada na Dagorlad, e o resultado por muito tempo permaneceu duvidoso.
Mas, no auge da batalha, os cavaleiros que Calimehtar havia mandado atravessar os Meandros (que o inimigo deixara desguarnecidos), unidos a um grande éored liderado por Marhwini, atacaram os Carroceiros pelo flanco e pela retaguarda. A vitória de Gondor foi avassaladora — porém acabou não sendo decisiva. Quando o inimigo se dispersou e logo fugiu desordenadamente para o norte, em direção de suas casas, Calimehtar sabiamente não os perseguiu. Haviam deixado mortos cerca de um terço de sua hoste, para apodrecer na Dagorlad entre os ossos de outras, mais nobres, batalhas do passado. Mas os cavaleiros de Marhwini assolaram os fugitivos e lhes infligiram grandes perdas em sua longa debandada pelas planícies, até chegarem a avistar ao longe a Floresta das Trevas. Lá os abandonaram, com provocações: — Fujam para o leste, não para o norte, povo de Sauron! Vejam, os lares que vocês roubaram estão em chamas! — Pois subia uma grande fumaça.
A revolta planejada e auxiliada por Marhwini de fato havia irrompido; proscritos desesperados, vindos da Floresta, haviam sublevado os escravos, e juntos haviam conseguido incendiar muitas das habitações dos Carroceiros, seus depósitos e seus acampamentos fortificados de carroças. Porém a maioria deles havia perecido na tentativa, pois estavam mal armados, e o inimigo não deixara seus lares indefesos: seus jovens e velhos eram ajudados pelas mulheres mais moças, que naquele povo também eram treinadas em armas e lutavam ferozmente em defesa de seus lares e filhos. Assim, ao final Marhwini foi obrigado a se retirar novamente à sua terra à margem do Anduin, e os Homens do Norte de sua raça nunca mais retornaram aos seus antigos lares. Calimehtar recolheu-se em Gondor, que por algum tempo (de 1899 a 1944) gozou de uma trégua antes do grande ataque no qual a linhagem de seus reis quase terminou. Ainda assim, a aliança de Calimehtar e Marhwini não fora em vão. Se não tivesse sido rompido o poderio dos Carroceiros de Rhovanion, esse ataque teria vindo mais cedo e com maior força, e o reino de Gondor poderia ter sido destruído. Porém o maior efeito da aliança estava longe, em um futuro que ninguém poderia prever então: as duas grandes cavalgadas dos rohirrim para a salvação de Gondor, a chegada de Eorl ao Campo de Celebrant, e as trompas do Rei Théoden no Pelennor, sem as quais o retorno do Rei teria sido em vão.
Entretanto, os Carroceiros lambiam suas feridas e tramavam vingança. Além do alcance das armas de Gondor, em terras a leste do Mar de Rhûn de onde nenhuma notícia chegava a seus Reis, sua gente se espalhava e se multiplicava, ávida de conquistas e presas, e cheia de ódio por Gondor, que se interpunha diante deles. Passou muito tempo, porém, antes que se movessem. Por um lado temiam o poderio de Gondor e, nada sabendo do que acontecia a oeste do Anduin, criam que seu reino era maior e mais populoso do que realmente era naquela época. Por outro lado. os Carroceiros orientais haviam-se espalhado para o sul, além de Mordor, e estavam em conflito com os povos de Khand e seus vizinhos mais ao sul. Uma paz e aliança acabou surgindo entre esses inimigos de Gondor, e preparou-se um ataque que deveria ocorrer ao mesmo tempo pelo norte e pelo sul.
Evidentemente, pouco ou nada se sabia em Gondor desses planos e movimentos. O que se diz aqui foi deduzido a partir dos eventos muito tempo depois, pelos historiadores, para quem também ficou claro que o ódio a Gondor e a aliança de seus inimigos em ação concertada (para a qual eles próprios não tinham nem a vontade, nem a sabedoria) eram devidos às maquinações de Sauron. Forthwini, filho de Marhwini, com efeito alertou o Rei Ondoher (que sucedeu a seu pai Calimehtar no ano de 1936) para o fato de que os Carroceiros de Rhovanion estavam se recuperando de sua fraqueza e seu temor, e de que ele suspeitava de que recebiam novas forças do leste, pois muito o perturbavam incursões no sul de sua terra, que vinham rio acima e também através dos Estreitos da Floresta. Mas Gondor nessa época nada mais podia fazer senão reunir e treinar o maior exército que pudesse encontrar ou que tivesse condições de manter. Assim, quando o ataque por fim sobreveio, não encontrou Gondor despreparada, apesar de sua força ser inferior à que seria necessária.
Ondoher dava-se conta de que seus inimigos ao sul se preparavam para a guerra, e teve a sabedoria de dividir suas forças em um exército do norte e um do sul. Este último era o menor, pois o perigo daquele lado era considerado menos grave. Estava sob o comando de Earnil, um membro da Casa Real que era descendente do Rei Telumehtar, pai de Narmacil II. Sua base ficava em Pelargir. O exército do norte era comandado pelo próprio Rei Ondoher. Este sempre fora o costume de Gondor, de que o Rei, se quisesse, comandasse seu exército em uma batalha importante, contanto que fosse deixado para trás um herdeiro com direito indisputado ao trono. Ondoher descendia de uma linhagem aguerrida, era amado e estimado pelo seu exército e tinha dois filhos, ambos em idade de portar armas: Artamir, o mais velho, e Faramir, cerca de três anos mais jovem.
As notícias da aproximação do inimigo chegaram a Pelargir no nono dia de Cermie do ano de 1944. Earnil já fizera seus arranjos: atravessara o Anduin com metade de suas forças e, deixando os Vaus do Poros propositadamente indefesos, montara acampamento umas quarenta milhas ao norte, em Ithilien do Sul. O Rei Ondoher pretendia conduzir sua hoste para o norte, através de Ithilien, e dispô-la na Dagorlad, um campo de mau agouro para os inimigos de Gondor. (Naquela época os fortes na linha do Anduin ao norte de Sarn Gebir, que haviam sido construídos por Narmacil I, ainda estavam em boas condições e guarnecidos por suficientes soldados de Calenardhon para evitar qualquer tentativa por parte de algum inimigo de atravessar o rio nos Meandros.) Mas as notícias do ataque ao norte somente chegaram a Ondoher na manhã do décimo segundo dia de Cermie, e a essa altura o inimigo já se aproximava, ao passo que o exército de Gondor estivera se movimentando mais devagar do que faria caso Ondoher tivesse sido avisado com maior antecedência, e sua vanguarda ainda não alcançara os Portões de Mordor. O grupo principal ia à frente com o Rei e seus Guardas, seguido pelos soldados da Ala Direita e da Ala Esquerda, que tomariam seus lugares quando saíssem de Ithilien e se aproximassem da Dagorlad. Lá esperavam que o ataque viesse do norte ou do nordeste, como acontecera antes na Batalha das Planícies e na vitória de Calimehtar na Dagorlad.
Mas não foi assim. Os Carroceiros haviam alistado uma grande hoste perto das margens meridionais do Mar interior de Rhûn, reforçada por homens dos seus parentes em Rhovanion e dos seus novos aliados em Khand. Quando tudo estava pronto, partiram para Gondor vindos do leste, movendo-se a toda a velocidade possível ao longo da linha de Ered Lithui, onde sua aproximação só foi observada quando já era tarde demais. Assim ocorreu que a cabeça do exército de Gondor acabava apenas de alinhar-se com os Portões de Mordor (o Morannon) quando uma grande poeira, trazida por um vento do leste, anunciou a chegada da vanguarda inimiga. Esta compunha-se não só dos carros de guerra dos Carroceiros, mas também de uma cavalaria muito maior que qualquer força que tivessem esperado. Ondoher só teve tempo de se virar e enfrentar o ataque com seu flanco direito próximo ao Morannon, e de mandar ordens a Minohtar, Capitão da Ala Direita, atrás dele, para cobrir seu flanco esquerdo o mais depressa possível, quando os carros e os cavaleiros investiram contra sua linha desordenada. Da confusão do desastre que se seguiu, poucos relatos claros chegaram a ser levados a Gondor.
Ondoher estava totalmente despreparado para enfrentar uma carga de cavaleiros e carros em grande número. Com sua Guarda e seu estandarte, havia ocupado às pressas uma posição numa colina baixa, mas isso de nada lhe adiantou. O ataque principal foi lançado contra seu estandarte, e este foi capturado. Sua Guarda foi quase aniquilada, e ele próprio foi morto, bem como seu filho Artamir a seu lado. Seus corpos jamais foram recuperados. O assalto do inimigo passou sobre eles e em volta de ambos os lados da colina, penetrando fundo nas desordenadas fileiras de Gondor, arremessando-as de volta em confusão sobre os que vinham atrás, e dispersando e perseguindo muitos outros para o oeste, para dentro dos Pântanos Mortos.
Minohtar assumiu o comando. Era um homem ao mesmo tempo valente e experimentado na guerra. A primeira fúria da investida consumira-se, com muito menos perdas e maior sucesso que o inimigo esperara. A cavalaria e os carros retiraram-se então, pois a hoste principal dos Carroceiros se aproximava. No tempo que lhe restava, Minohtar, erguendo seu próprio estandarte, reagrupou os homens restantes do Centro e aqueles do seu próprio comando que estavam por perto. Imediatamente enviou mensageiros a Adrahil de Dol Amroth, o Capitão da Ala Esquerda, ordenando-lhe que retirasse com toda a pressa possível tanto seus próprios comandados como aqueles, na retaguarda da Ala Direita, que ainda não haviam travado combate. Com essas forças, devia assumir uma posição defensiva entre Cair Andros (que estava guarnecida) e as montanhas de Ephel Dúath, onde o terreno era mais estreito em virtude da grande curva do Anduin para o leste, para cobrir pelo máximo tempo possível os acessos a Minas Tirith. O próprio Minohtar, para dar tempo a essa retirada, formaria uma retaguarda e tentaria deter o avanço da principal hoste dos Carroceiros. Adrahil devia imediatamente enviar mensageiros para encontrarem Earnil, caso conseguissem, e informá-lo do desastre do Morannon e da posição do exército do norte, em retirada.
Quando a hoste principal dos Carroceiros avançou para o ataque, passavam duas horas do meio-dia, e Minohtar havia recuado sua linha até a extremidade da grande Estrada do Norte de Ithilien, meia milha além do ponto onde ela se voltava para o leste, em direção das Torres de Vigia do Morannon. O primeiro triunfo dos Carroceiros era agora o começo de sua derrocada. Ignorando os números e a disposição do exército defensor, haviam lançado sua primeira investida cedo demais, antes que a maior parte do exército inimigo tivesse saído da região estreita de Ithilien, e a carga de seus carros e sua cavalaria tivera um sucesso muito mais rápido e avassalador do que esperavam. Sua investida principal foi então demasiado retardada, e eles não puderam mais se valer plenamente de sua superioridade numérica, de acordo com a tática que pretendiam, pois estavam acostumados à guerra em terrenos abertos. Bem pode-se supor que, entusiasmados com a queda do Rei e a debandada de grande parte do Centro oponente, imaginassem já ter derrotado o exército defensor, e que seu próprio exército principal pouco mais tinha a fazer além de avançar para a invasão e ocupação de Gondor. Se era assim, estavam enganados.
Os Carroceiros avançaram de modo pouco ordenado, ainda exultantes e entoando canções de vitória, não vendo ainda sinais de nenhum defensor que se opusesse a eles, até descobrirem que a estrada que conduzia a Gondor se virava para o sul, entrando em uma estreita terra de árvores à sombra escura de Ephel Dúath, onde um exército podia marchar ou cavalgar em boa ordem apenas acompanhando uma grande estrada. Esta estendia-se diante deles através de um profundo corte [...]
Aqui o texto se interrompe abruptamente, e as notas e rascunhos para sua continuação são ilegíveis em sua maior parte. É possível, no entanto, deduzir que os homens dos Éothéod lutaram ao lado de Ondoher; e também que Faramir, o segundo filho de Ondoher, recebeu ordens para permanecer em Minas Tirith como regente, pois a lei não permitia que ambos os seus filhos fossem combater ao mesmo tempo (uma observação semelhante é feita anteriormente na narrativa). Mas Faramir não fez isso: foi à guerra disfarçado e foi morto. Aqui é quase impossível decifrar a escrita, mas parece que Faramir juntou-se aos Éothéod e foi capturado com um grupo deles ao recuarem em direção dos Pântanos Mortos. O líder dos Éothéod (cujo nome é indecifrável depois do primeiro elemento Marh-) veio em socorro deles, mas Faramir morreu nos seus braços, e foi somente ao revistar o corpo que encontrou sinais de que era o Príncipe. O líder dos Éothéod foi então reunir-se na extremidade da Estrada do Norte em Ithilien com Minohtar, que naquele mesmo momento ordenava que uma mensagem fosse levada ao Príncipe em Minas Tirith, que agora havia se tornado Rei. Foi então que o líder dos Éothéod lhe deu a notícia de que o Príncipe fora à batalha disfarçado, e que fora morto.
A presença dos Éothéod e o papel desempenhado por seu líder pode explicar a inclusão da elaborada história da batalha entre o exército de Gondor e os Carroceiros nessa narrativa, com a intenção ostensiva de ser um relato dos primórdios da amizade entre Gondor e os rohirrim.
O trecho final do texto plenamente redigido dá a impressão de que a hoste dos Carroceiros estava prestes a ter frustradas sua exaltação e sua ufania, ao descer pela estrada que entrava no corte profundo; mas as notas no fim mostram que não foram detidos por muito tempo pela defesa de retaguarda de Minohtar. “Os Carroceiros abateram-se implacavelmente sobre Ithilien”, e “ao final do décimo terceiro dia de Cermie esmagaram Minohtar”, que foi morto por uma flecha. Aqui diz-se que ele era o filho da irmã do Rei Ondoher. “Seus homens carregaram-no para fora do embate, e todos os que restavam da retaguarda fugiram para o sul em busca de Adrahil”. O comandante principal dos Carroceiros mandou então interromper o avanço, e deu um banquete. Nada mais pode ser deduzido; mas o breve relato no Apêndice A do Senhor dos Anéis conta como Earnil veio do sul para derrotá-los:
Em 1944, o rei Ondoher e seus dois filhos, Artamir e Faramir, caíram em batalha ao norte do Morannon, e o inimigo invadiu Ithilien. Mas Earnil, Capitão do Exército do Sul, obteve uma grande vitória em Ithilien do Sul e destruiu o exército de Harad que tinha cruzado o rio Poros. Avançando rapidamente para o norte, ele arrebanhou todo o restante do Exército do Norte, que batia em retirada, e atacou o principal acampamento dos Carroceiros, enquanto estes se divertiam num banquete, na crença de que Gondor fora derrotada e de que nada restava a não ser saquear. Earnil tomou de assalto o acampamento e ateou fogo às carroças, expulsando o inimigo de Ithilien em meio a um grande tumulto. Boa parte daqueles que fugiram de sua perseguição pereceu nos Pântanos Mortos.
No Conto dos Anos a vitória de Earnil é chamada de Batalha do Acampamento. Depois das mortes de Ondoher e seus dois filhos no Morannon, Arvedui, o último rei do reino do norte, reivindicou a coroa de Gondor; mas sua reivindicação foi rejeitada, e, no ano seguinte à Batalha do Acampamento, Earnil tornou-se Rei. Seu filho foi Earnur, que morreu em Minas Morgul depois de aceitar o desafio do Senhor dos Nazgûl, e foi o último Rei do reino do sul.


(ii) A cavalgada de Eorl

Enquanto os Éothéod ainda habitavam em seu antigo lar, eram bem conhecidos em Gondor como um povo confiável, de quem recebiam notícias de tudo o que se passava naquela região. Eram um remanescente dos Homens do Norte, que se consideravam aparentados, em eras passadas, com os dúnedain, e que nos dias dos grandes Reis haviam sido seus aliados e contribuído com muito do seu sangue para o povo de Gondor. Assim, foi para Gondor motivo de grande preocupação quando os Éothéod se mudaram para o extremo norte, nos dias de Earnil II, penúltimo dos Reis do reino do sul.
A nova terra dos Éothéod ficava ao norte da Floresta das Trevas, entre as Montanhas da Névoa a oeste e o Rio da Floresta a leste. Para o sul, estendia-se até a confluência dos dois rios curtos que chamavam de Cinzalin e Fontelonga. O Cinzalin descia de Ered Mithrin, as Montanhas Cinzentas, mas o Fontelonga vinha das Montanhas da Névoa, e levava este nome porque era o nascedouro do Anduin, que desde sua junção com o Cinzalin chamavam de Fluxolongo.
Ainda transitavam mensageiros entre Gondor e os Éothéod depois da partida destes; mas havia cerca de quatrocentas e cinquenta das nossas milhas entre a confluência do Cinzalin e do Fontelonga (onde ficava seu único burg fortificado) e o ponto onde o Limclaro entrava no Anduin, em linha reta como voaria um pássaro, e muitas mais para aqueles que viajavam por terra; e do mesmo modo cerca de oitocentas milhas até Minas Tirith.
A Crônica de Cirion e Eorl não relata nenhum evento antes da Batalha do Campo de Celebrant; mas a partir de outras fontes pode-se deduzir que tenham sido desta maneira. As amplas terras ao sul da Floresta das Trevas, desde as Terras Castanhas até o Mar de Rhûn, que não ofereciam obstáculo aos invasores do leste até que chegassem ao Anduin, eram a principal fonte de preocupações e inquietação dos governantes de Gondor. Mas, durante a Paz Vigilante, as fortalezas ao longo do Anduin, especialmente na margem oeste dos Meandros, haviam ficado desertas e abandonadas. Depois dessa época, Gondor era assaltada tanto por orcs vindos de Mordor (que por muito tempo ficara descuidada) quanto pelos Corsários de Umbar, e não tinha homens nem oportunidade para guarnecer a linha do Anduin ao norte das Emyn Muil.
Cirion tornou-se Regente de Gondor no ano de 2489. Tinha sempre em mente a ameaça do norte, e muito pensava em criar maneiras que pudessem evitar o risco de invasão daquele lado, à medida que minguava o poderio de Gondor. Colocou alguns homens nos velhos fortes, para vigiar os Meandros, e enviou batedores e espiões às terras entre a Floresta das Trevas e Dagorlad. Assim logo deu-se conta de que novos e perigosos inimigos, vindos do leste, de além do Mar de Rhûn, chegavam em fluxo contínuo. Matavam ou expulsavam para o norte, pelo Rio Corrente acima e pela Floresta adentro, o remanescente dos Homens do Norte, amigos de Gondor que ainda viviam a leste da Floresta das Trevas. Mas nada podia fazer para ajudá-los, e tornou-se cada vez mais perigoso obter notícias. Um número excessivo de seus batedores jamais retornava. Assim, foi só quando terminou o inverno do ano de 2509 que Cirion se deu conta da preparação de um grande movimento contra Gondor: hostes de homens estavam se concentrando em toda a margem meridional da Floresta das Trevas. Estavam apenas toscamente armados e não tinham grande número de cavalos de montaria, empregando estes principalmente para tiro, visto que tinham muitas grandes carroças, à semelhança dos Carroceiros (com quem sem dúvida eram aparentados) que haviam atacado Gondor nos últimos dias dos Reis. Mas o que lhes faltava em equipamentos bélicos era compensado pelo número de homens, conforme se podia estimar.
Diante desse risco, o pensamento de Cirion voltou-se por fim, desesperado, para os Éothéod, e ele resolveu mandar-lhes mensageiros. Mas esses teriam de atravessar Calenardhon e passar pelos Meandros, para depois seguir por terras que já eram vigiadas e patrulhadas pelos Balchoth, antes que pudessem atingir os Vales do Anduin. Isso significaria uma viagem de cerca de quatrocentas e cinquenta milhas até os Meandros, e mais de quinhentas de lá até os Éothéod. E, a partir dos Meandros, seriam forçados a viajar com cautela e principalmente à noite até passarem da sombra de Dol Guldur. Ciriontinha poucas esperanças de que algum deles conseguisse atravessar. Pediu voluntários e, escolhendo seis cavaleiros de grande coragem e resistência, enviou-os aos pares com um dia de intervalo entre eles. Cada um levava uma mensagem decorada e também uma pequena pedra gravada com o selo dos Regentes, para ser entregue ao Senhor dos Éothéod em pessoa, caso conseguisse alcançar aquela terra. A mensagem era dirigida a Eorl, filho de Léod, pois Cirion sabia que ele sucedera ao pai alguns anos antes, quando era apenas um jovem de dezesseis anos de idade, e agora, apesar de não ter mais de 25, era louvado em todas as notícias que chegavam a Gondor como homem de grande coragem e sabedoria para sua idade. No entanto, Cirion tinha apenas uma tênue esperança de que a mensagem fosse respondida, mesmo que a recebessem. Não tinha nenhuma autoridade sobre os Éothéod, além de sua antiga amizade com Gondor, para trazê-los de tão longe com alguma força que fosse de serventia. A notícia de que os Balchoth estavam destruindo o restante de sua gente no sul. caso já não a soubessem, poderia dar peso ao apelo de Cirion, mesmo que os próprios Éothéod não fossem ameaçados por nenhum ataque. Cirion nada mais disse, e reuniu as forças que tinha para enfrentar a tempestade.  Convocou todos os homens possíveis e, assumindo ele mesmo o comando, aprestou-se o mais depressa que pôde para levá-los ao norte, até Calenardhon. Deixou seu filho Hallas no comando em Minas Tirith.
O primeiro par de mensageiros partiu no décimo dia de Súlime; e acabou sendo um deles, o único dentre os seis, que chegou até os Éothéod. Era Borondir, um grande cavaleiro de uma família que afirmava descender de um capitão dos Homens do Norte a serviço dos Reis de outrora. Dos outros jamais se ouviram notícias, exceto do companheiro de Borondir. Foi morto a flechadas numa emboscada, quando passavam perto de Dol Guldur, da qual Borondir escapou por sorte e graças à velocidade de seu cavalo. Foi perseguido em direção ao norte, até os Campos de Lis, e muitas vezes atocaiado por homens que saíam da Floresta e o forçavam a se afastar muito do caminho direto. Por fim alcançou os Éothéod após quinze dias, os dois últimos sem comida; e estava tão exausto que mal conseguiu dizer sua mensagem a Eorl.
Era então o vigésimo quinto dia de Súlime. Eorl aconselhou-se consigo mesmo em silêncio; mas não por muito tempo. Logo ergueu-se e disse:
— Eu irei. Se o Mundburg cair, aonde haveremos de fugir da Escuridão? — Então tomou a mão de Borondir como sinal de sua promessa.
Eorl imediatamente convocou seu conselho dos Anciãos e começou a fazer preparativos para a grande cavalgada. Mas isso levou muitos dias, pois a hoste tinha de ser reunida e recrutada, e era necessário pensar no ordenamento do povo e na defesa da terra. Naquela época, os Éothéod estavam em paz e não temiam a guerra. Poderia ocorrer o contrário, porém, quando se tornasse conhecido que seu senhor partira a cavalo para uma batalha no sul longínquo. Não obstante, Eorl percebeu claramente que de nada valeria levar menos que o total de suas forças, e que teria de arriscar tudo ou recuar e quebrar sua promessa.
Finalmente toda a hoste estava reunida; e só foram deixadas para trás algumas centenas de homens para apoiar aqueles que a juventude ou a idade avançada tornava inadequados para uma aventura tão desesperada. Era então o sexto dia do mês de Víresse. Naquele dia o grande éohere partiu em silêncio, deixando medo atrás de si, e levando consigo pouca esperança; pois não sabiam o que os aguardava nem na estrada nem no fim desta. Diz-se que Eorl levou consigo cerca de sete mil cavaleiros completamente armados, e algumas centenas de arqueiros montados. À sua direita cavalgava Borondir, para servir de guia na medida do possível, visto que recentemente passara pela região. Mas essa grande hoste não foi ameaçada nem assaltada durante sua longa viagem pelos Vales do Anduin abaixo. As gentes de natureza boa ou má que a viam chegar fugiam de seu trajeto por temor a seu poderio e esplendor. Quando foram se aproximando do sul e passaram pela Floresta das Trevas meridional (abaixo da grande Angra Leste), que estava agora infestada de Balchoth, ainda não havia sinal de homens, em exército ou grupos de batedores, que lhes barrassem a estrada ou espionassem sua chegada. Isso em parte decorria de eventos que eles desconheciam, e que haviam ocorrido depois que Borondir partira; mas também havia outros poderes em atividade. Pois, quando a hoste finalmente se aproximou de Dol Guldur, Eorl voltou-se para o oeste por medo da sombra escura e da nuvem que de lá fluíam, e então seguiu cavalgando à vista do Anduin. Muitos cavaleiros voltaram os olhares para lá, meio temerosos e meio esperançosos de avistar de longe o brilho de Dwimordene, a perigosa terra que as lendas do seu povo diziam reluzir como ouro na primavera. Mas ela parecia agora envolta em uma névoa cintilante; e para sua consternação a névoa atravessou o rio e se espalhou pela terra à sua frente Eorl não parou.
— Continuem cavalgando! — ordenou. — Não há outro caminho a tomar. Depois de uma estrada tão longa, haveremos de ser afastados da batalha por uma névoa de rio?
Quando se aproximaram, viram que a névoa branca fazia recuar as trevas de Dol Guldur, e logo penetraram nela, inicialmente cavalgando devagar e com cautela. Mas sob aquele teto tudo estava iluminado com uma luz límpida e sem sombras, enquanto pela esquerda e pela direita estavam como que protegidos por paredes brancas de sigilo.
— A Senhora do Bosque Dourado está do nosso lado, parece — disse Borondir.
— Talvez — disse Eorl. — Mas pelo menos confiarei na sabedoria de Felaróf. Ele não fareja nenhum mal. Seu coração está contente, e sua exaustão está curada: ele está forçando para que eu o deixe correr. Assim seja! Pois nunca precisei tanto de sigilo e pressa.
Então Felaróf lançou-se em disparada, e toda a hoste seguiu atrás como um grande vento, mas em estranho silêncio, como se seus cascos não tocassem o chão. Assim seguiram, confiantes e animados como na manhã da partida, por todo aquele dia e o dia seguinte; mas, ao amanhecer do terceiro dia, quando se levantaram do repouso, subitamente a névoa desapareceu, e viram que muito haviam avançado nas terras abertas. O Anduin corria perto à sua direita, mas haviam quase passado pela sua grande curva para o leste, e os Meandros estavam à vista. Era a manhã do décimo quinto dia de Víresse, e haviam chegado até ali a uma velocidade inesperada.

Aqui o texto termina, com uma nota dizendo que se seguiria uma descrição da Batalha do Campo de Celebrant. No Apêndice A (II) do Senhor dos Anéis há um relato sumário da guerra:
Um grande exército de bárbaros do nordeste se espalhou em Rhovanion e, descendo das Terras Castanhas, atravessou o Anduin em jangadas. Ao mesmo tempo, por acaso ou por estratégia, os orcs (que naquela época, antes de sua guerra contra os anões, formavam um poderoso exército) desceram das Montanhas. Os invasores assolaram Calenardhon, e Cirion, regente de Gondor, pediu a ajuda do norte [...]
Quando Eorl e seus Cavaleiros chegaram ao Campo de Celebrant o exército do norte de Gondor corria perigo. Derrotados no Descampado e isolados do sul, seus homens tinham sido forçados a atravessar o Limclaro, e foram subitamente atacados pelo exército dos orcs que os empurrava na direção do Anduin. Não havia mais esperanças quando, inesperadamente, os Cavaleiros surgiram do norte e investiram contra a retaguarda do inimigo. Então as chances da batalha se inverteram, e o inimigo foi expulso através do Limclaro com muitas baixas. Eorl conduziu seus homens numa perseguição, e tão grande era o medo que precedia os cavaleiros do norte que os invasores do Descampado também ficaram em pânico, e foram perseguidos pelos homens de Eorl através das planícies de Calenardhon.
Um relato semelhante, mais curto, é dado em outro lugar do Apêndice A (I, iv). Talvez nenhum deles deixe perfeitamente claro o decurso da batalha, mas parece certo que os Cavaleiros, depois de passarem pelos Meandros, atravessaram então o Limclaro e se abateram sobre a retaguarda do inimigo no Campo de Celebrant; e que “o inimigo foi expulso através do Limclaro com muitas baixas” significa que os Balchoth foram rechaçados rumo ao sul, para o Descampado.


(iii) Cirion e Eorl

A história é precedida por uma nota sobre o Halifirien, o mais ocidental dos faróis de Gondor ao longo da linha de Ered Nimrais.
O Halifirien era o mais alto dos faróis e, como Eilenach, o segundo em altura, parecia erguer-se solitário de dentro de uma grande floresta; pois atrás dele havia uma profunda fenda, o escuro Vale Firien, no longo esporão de Ered Nimrais que se estendia para o norte, do qual formava o ponto mais alto. Subia da fenda como uma muralha íngreme, mas suas encostas exteriores, especialmente ao norte, eram extensas e sem aclives acentuados, e nelas cresciam árvores quase até o topo. À medida que desciam, as árvores ficavam cada vez mais densas, em especial ao longo do Ribeirão Mering (que nascia na fenda) e rumo ao norte, saindo pela planície que o Ribeirão atravessava a caminho do Entágua. A grande estrada do Oeste passava através de um longo corte na floresta para evitar o terreno alagadiço além da sua borda norte. No entanto, essa estrada fora feita nos dias antigos; e, após a partida de Isildur, nenhuma árvore jamais foi derrubada na Floresta Firien, exceto apenas pelos Guardiães dos Faróis, cuja tarefa era manter aberta a grande estrada e a trilha até o topo da colina. Essa trilha saía da Estrada perto do ponto onde esta entrava na Floresta, e subia serpenteando até o fim das árvores, além do qual havia uma antiga escadaria de pedra que conduzia ao lugar do farol, um amplo círculo nivelado por aqueles que haviam feito a escadaria. Os Guardiães dos Faróis eram os únicos habitantes da Floresta, além dos animais selvagens. Moravam em cabanas nas árvores perto do topo, mas não ficavam por muito tempo, a não ser que o tempo ruim os retivesse, e iam e vinham em turnos de serviço. Em sua maioria ficavam contentes de voltar para casa. Não por causa do perigo dos animais selvagens, nem persistia na Floresta alguma sombra maligna dos dias escuros; mas, por trás dos sons dos ventos, dos gritos das aves e dos animais ou às vezes do barulho de cavaleiros correndo pela Estrada, pairava um silêncio, e um homem se flagrava falando aos sussurros com os companheiros, como se esperasse ouvir o eco de uma grande voz que chamasse de muito longe e muito tempo atrás.
O nome Halifirien significava, na língua dos rohirrim, “montanha sagrada”. Antes de sua chegada era conhecida em sindarin como Amon Anwar, “Colina da Admiração”; por qual razão em Gondor ninguém sabia, exceto apenas (como mais tarde ficou evidente) o Rei ou Regente governante. Para os poucos que se aventuravam a deixar a Estrada e vagar sob as árvores, a própria Floresta parecia razão suficiente: na Língua Geral era chamada de “a Floresta Sussurrante”. Nos grandes dias de Gondor, não foi construído farol sobre a Colina enquanto os palantíri ainda mantinham a comunicação entre Osgiliath e as três torres do reino, sem necessidade de mensagens ou sinais. Posteriormente, pouca ajuda podia ser esperada do norte, à medida que declinavam os povos de Calenardhon, nem era mandada força armada para lá, visto que Minas Tirith tinha cada vez mais dificuldade para manter a linha do Anduin e proteger sua costa meridional. Em Anórien ainda vivia muita gente, que tinha a tarefa de guardar os acessos pela noite, fosse por Calenardhon, fosse através do Anduin em Cair Andros. Para a comunicação com eles os três faróis mais antigos (Amon Dîn, Eilenach e Min-Rimmon) foram construídos e mantidos; mas, apesar de ser fortificada a linha do Ribeirão Mering (entre os pântanos intransitáveis de sua confluência com o Entágua e a ponte onde a Estrada saía da Floresta Firien rumo ao oeste), não era permitido que nenhum forte ou farol fosse construído sobre Amon Anwar. Nos dias do regente Cirion, houve um grande ataque dos Balchoth, que, aliados aos orcs, atravessaram o Anduin Descampado adentro e começaram a conquista de Calenardhon. Desse perigo mortal, que teria trazido a ruína sobre Gondor, o reino foi salvo pela chegada de Eorl, o Jovem, e dos rohirrim.
Quando a guerra terminou todos se perguntaram de que maneira o regente honraria Eorl e o recompensaria, e esperavam que se fizesse um grande banquete em Minas Tirith durante o qual isso seria revelado. Mas Cirion era homem de guardar suas ideias. Quando o exército reduzido de Gondor seguiu para o sul, ele foi acompanhado por Eorl e um éored dos Cavaleiros do Norte. Ao chegar ao Ribeirão Mering, Cirion voltou-se para Eorl e disse, para espanto de todos:
— Agora adeus, Eorl, filho de Léod. Voltarei a meu lar, onde muito precisa ser posto em ordem. Por enquanto, confio Calenardhon aos seus cuidados, se não estiver com pressa de retornar a seu próprio reino. Daqui a três meses vou reencontrá-lo aqui, e então trocaremos ideias.
— Virei — respondeu Eorl; e assim se separaram.
Assim que Cirion chegou a Minas Tirith, convocou alguns de seus servidores mais confiáveis.
— Vão agora á Floresta Sussurrante — disse ele. — Lá deverão reabrir a antiga trilha para Amon Anwar. Há muito ela está coberta pela vegetação; mas a entrada ainda está marcada por uma pedra fincada ao lado da Estrada, no ponto onde a região norte da Floresta se fecha sobre ela. A trilha faz curvas para lá e para cá, mas há uma pedra indicada em cada volta. Seguindo-as, vocês acabarão chegando ao fim das árvores e encontrarão uma escadaria de pedra que conduz para o alto. Encarrego-os de não ir mais adiante. Façam este trabalho o mais depressa possível e depois voltem a mim. Não derrubem nenhuma árvore; apenas limpem um caminho pelo qual alguns homens a pé possam subir com facilidade. Deixem ainda encoberto o acesso perto da Estrada, para que ninguém que use a Estrada seja tentado a usar a trilha antes que eu mesmo lá chegue. Não contem a ninguém aonde vão ou o que fizeram. Se alguém perguntar, digam apenas que o Senhor Regente deseja que se prepare um local para seu encontro com o Senhor dos Cavaleiros.
No devido tempo Cirion partiu com seu filho Hallas e o Senhor de Dol Amroth, além de dois outros de seu Conselho; e encontrou Eorl na travessia do Ribeirão Mering. Estavam com Eorl três dos seus principais capitães.
— Vamos agora ao local que preparei — disse Cirion. Então deixaram uma guarda de Cavaleiros na ponte, e voltaram pela Estrada sombreada de árvores até chegar à pedra fincada. Lá deixaram seus cavalos e outra forte guarda de soldados de Gondor; e Cirion, de pé ao lado da pedra, encarou seus companheiros e disse: — Vou agora à Colina da Admiração. Sigam-me se quiserem. Há de vir comigo um escudeiro, e outro com Eorl, para levarem nossas armas; todos os demais hão de ir desarmados, como testemunhas de nossas palavras e nossos atos no local elevado. A trilha foi preparada, apesar de ninguém a ter usado desde que aqui vim com meu pai.
Então Cirion conduziu Eorl por entre as árvores, e os demais os seguiram em ordem. Depois que passaram pela primeira das pedras interiores, suas vozes se calaram, e caminharam com cautela como se relutassem em produzir qualquer som. Assim, chegaram finalmente às encostas superiores da Colina, atravessaram um cinturão de bétulas brancas e viram a escadaria cie pedra que subia para o topo. Após a sombra da Floresta, o sol parecia quente e brilhante, pois era o mês de Úrime; no entanto, o cume da Colina estava verde como se o ano ainda estivesse em Lótesse.
Ao pé da escadaria, havia uma pequena plataforma ou recesso feito na encosta com montes baixos de relva. Ali a companhia sentou-se por alguns instantes, até que Cirion se ergueu e tomou do seu escudeiro o bastão branco de seu cargo e o manto branco dos Regentes de Gondor. Então, de pé no primeiro degrau da escadaria, rompeu o silêncio, dizendo em voz baixa, mas nítida:
— Agora declararei o que resolvi, com a autoridade dos Regentes dos Reis, oferecer a Eorl, filho de Léod, Senhor dos Éothéod, em reconhecimento pelo valor de seu povo e pelo auxílio superior a qualquer esperança que ele trouxe a Gondor em tempos de terrível necessidade. A Eorl darei, como dádiva espontânea, toda a grande terra de Calenardhon do Anduin até o Isen. Ali, se quiser, há de ser rei, e seus herdeiros depois dele, e seu povo há de habitar em liberdade enquanto durar a autoridade dos Regentes, até que retorne o Grande Rei. Nenhuma obrigação há de lhes ser imposta, a não ser suas próprias leis e sua vontade, à única exceção do seguinte: hão de viver em amizade perpétua com Gondor, e os inimigos dela hão de ser seus inimigos enquanto ambos os reinos perdurarem. Mas a mesma obrigação há de ser imposta também ao povo de Gondor.
Então Eorl ergueu-se, mas permaneceu em silêncio por algum tempo. Pois estava perplexo com a grande generosidade da dádiva e os nobres termos com os quais fora ofertada; e viu a sabedoria de Cirion tanto em seu próprio interesse, como governante de Gondor, buscando proteger o que restava do seu reino, quanto como amigo dos Éothéod, de cujas necessidades tinha consciência. Pois agora haviam se multiplicado, tornando-se um povo demasiado numeroso para sua terra no norte, e ansiavam por voltar ao sul, a seu antigo lar, mas eram reprimidos pelo temor a Dol Guldur. Mas em Calenardhon teriam mais espaço do que esperavam, e ainda assim estariam longe das sombras da Floresta das Trevas.
Porém, além da sabedoria e da política, tanto Cirion quanto Eorl eram movidos naquela época pela grande amizade que unia seus povos, e pelo amor que havia entre eles como verdadeiros homens. Por parte de Cirion, o amor era o de um pai sábio, envelhecido nos cuidados do mundo, por um filho na força e esperança de sua juventude; enquanto, em Cirion, Eorl via o mais elevado e nobre homem do mundo que conhecia, e o mais sábio, em quem se assentava a majestade dos Reis dos Homens de outrora.
Por fim, quando Eorl havia rapidamente repassado tudo isso em pensamento, ele falou, dizendo:
— Senhor Regente do Grande Rei, por mim e por meu povo aceito a dádiva que oferece. Ela excede em muito qualquer recompensa que nossos feitos possam merecer, não tivessem sido eles próprios uma livre dádiva de amizade. Mas agora selarei essa amizade com um juramento que não há de ser esquecido.
— Então vamos agora ao local elevado — disse Cirion — e façamos diante destas testemunhas os juramentos que considerarmos adequados.
Então Cirion subiu a escadaria com Eorl, e os demais os seguiram; e, quando chegaram ao topo, viram ali uma ampla área oval de relva plana, sem cerca, mas tendo na extremidade leste um montículo baixo no qual cresciam as flores brancas de alfirin, e o sol poente as retocava de ouro. Então o Senhor de Dol Amroth, o mais importante da companhia de Cirion, aproximou-se do montículo e viu, deitada na relva em frente, e, no entanto sem dano de planta ou intempérie, uma pedra negra; e na pedra estavam gravadas três letras. Disse então a Cirion:
— Então isto é um túmulo? Mas qual grande homem de outrora jaz aqui?
— Não leu as letras? — perguntou Cirion.
— Li-as — disse o Príncipe — e por isso me espanto; pois as letras são lambe, ando, lambe, mas não há túmulo para Elendil, nem homem algum desde os dias dele atreveu-se a usar esse nome.
— Entretanto este é seu túmulo — disse Cirion —, e dele vem a admiração que reside nesta colina e na floresta abaixo. Desde Isildur que o ergueu até Meneldil que lhe sucedeu, e por toda a linhagem dos Reis, bem como pela linhagem dos Regentes até chegar a mim, este túmulo foi mantido em segredo por ordem de Isildur. Pois ele disse: “Aqui fica o ponto central do Reino do Sul, e aqui há de permanecer o memorial de Elendil, o Fiel, aos cuidados dos Valar, enquanto durar o Reino. Esta colina há de ser um local sagrado, e que ninguém perturbe sua paz e seu silêncio, a não ser que seja herdeiro de Elendil”. Eu os trouxe aqui para que os juramentos que aqui fizermos possam assumir a mais profunda solenidade para nós mesmos e para nossos herdeiros de ambos os lados.
Então todos os presentes ficaram em silêncio por alguns instantes, de cabeça baixa, até que Cirion disse a Eorl:
— Se estiver pronto, faça agora seu juramento da forma que lhe parecer adequada, de acordo com os costumes de seu povo.
Eorl adiantou-se então, e, tomando sua lança do escudeiro, fincou-a ereta no solo. Então puxou da espada e a lançou para cima, rebrilhando ao sol, e ao retomá-la deu um passo para frente e deitou a lâmina sobre o montículo, mas ainda com a mão na empunhadura. Então proferiu em alta voz o Juramento de Eorl. Este foi feito no idioma dos Éothéod, que se interpreta na Língua Geral:

Ouçam agora todos os povos que não se inclinam diante da Sombra no Leste; por dádiva do Senhor do Mundburg viremos habitar na terra que ele chama de Calenardhon e, portanto, prometo em meu próprio nome e em nome dos Éothéod do Norte que entre nós e o Grande Povo do Oeste há de existir amizade para sempre: seus inimigos hão de ser nossos inimigos, sua necessidade há de ser nossa necessidade, e não importa que mal, ameaça ou ataque possa acometê-los, havemos de auxiliá-los até o derradeiro extremo de nossas forças. Este juramento há de passar a meus herdeiros, todos os que possam me suceder em nossa nova terra, e que eles o mantenham com fé ininterrupta, para que a Sombra não recaia sobre eles e não se tornem malditos. Eorl então embainhou a espada, fez uma reverência e voltou a seus capitães.

Cirion em seguida replicou. Erguendo-se à sua plena estatura, pôs a mão sobre o túmulo, e na direita levantou o bastão branco dos Regentes, pronunciando palavras que encheram de admiração todos os que as ouviram. Pois, enquanto estava de pé, o sol desceu em chamas no oeste, e sua túnica branca pareceu inflamar-se; e, depois de jurar que Gondor haveria de se obrigar a uma semelhante ligação de amizade e auxílio em todas as necessidades, ergueu a voz e disse em quenya: Vanda sina termaruva Elenna nóreo alcar enyalien ar Elendil Vorondo voronwe. Nai tiruvantes i hárar mahalmassen mi Númen ar i Eru i or ilye mahalmar ea tennoio.
E disse de novo, na Língua Geral:
Este juramento há de permanecer em memória da glória da Terra da Estrela, e da fé de Elendil, o Fiel, aos cuidados daqueles que se assentam sobre os tronos do Oeste e do Um que está acima de todos os tronos para sempre. Um juramento semelhante não se ouvira na Terra Média desde que o próprio Elendil havia jurado aliança com Gil-galad, Rei dos Eldar.
Quando tudo estava terminado e caíam as sombras da tarde, Cirion e Eorl, com suas companhias, voltaram a descer em silêncio através da Floresta sombria e retornaram ao acampamento à margem do Ribeirão Mering onde haviam sido preparadas tendas para eles. Depois de comerem, Cirion e Eorl, com o Príncipe de Dol Amroth e Éomund, principal capitão da hoste dos Éothéod, sentaram-se juntos e definiram as fronteiras da autoridade do Rei dos Éothéod e do Regente de Gondor.
Os limites do reino de Eorl seriam os seguintes: a oeste o rio Angren desde sua confluência com o Adorn, de lá rumo ao norte até as muralhas exteriores de Angrenost e de lá rumo ao oeste e ao norte, seguindo as bordas da Floresta de Fangorn até o rio Limclaro; e esse rio era sua fronteira setentrional, pois a terra da outra margem nunca fora reivindicada por Gondor. Ao leste seus limites eram o Anduin e o penhasco ocidental das Emyn Muil, descendo até os pântanos das Fozes do Onodló, e além desse rio o curso do Glanhír que corria através da Floresta de Anwar para unir-se ao Onodló; e ao sul seus limites eram Ered Nimrais até o fim de seu braço setentrional, mas todos os vales e aberturas que davam para o norte deveriam pertencer aos Éothéod, assim como a terra ao sul das Hithaeglir que ficava entre os rios Angren e Adorn.
Em todas essas regiões, Gondor retinha ainda, sob seu próprio comando, somente a fortaleza de Angrenost, em cujo interior ficava a terceira Torre de Gondor, a inexpugnável Orthanc onde se mantinha o quarto dos palantíri do reino do sul. Nos dias de Cirion, Angrenost ainda era guarnecida por uma guarda de gondorianos, mas eles haviam se transformado em uma gente pouco numerosa e assentada, governada por um Capitão hereditário, e as chaves de Orthanc estavam aos cuidados do Regente de Gondor.
As “muralhas exteriores” nomeadas na descrição dos limites do reino de Eorl eram um muro e um dique que corriam cerca de duas milhas ao sul dos portões de Angrenost, entre as colinas onde terminavam as Montanhas da Névoa; para além delas ficavam as terras cultivadas do povo da fortaleza.
Combinou-se também que a Grande Estrada que outrora passara por Anórien e Calenardhon a caminho de Athrad Angren (os Vaus do Isen), e dali rumo ao norte, em direção a Arnor, deveria ficar aberta a viajantes de ambos os povos sem impedimento em tempos de paz, e que sua manutenção desde o Ribeirão Mering até os Vaus do Isen estava a cargo dos Éothéod. Por esse pacto, apenas uma pequena parte da Floresta de Anwar, a oeste do
Ribeirão Mering, foi incluída no reino de Eorl; mas Cirion declarou que a Colina de Anwar era agora um local sagrado de ambos os povos, e os eorlings e os Regentes deveriam daí em diante compartilhar sua guarda e manutenção. No entanto, em dias posteriores, quando os rohirrim cresceram em poder e população enquanto Gondor declinava e era sempre ameaçada pelo leste e pelo mar, os guardiões de Anwar vinham inteiramente do povo do Folde Oriental, e a Floresta tornou-se por costume parte do domínio real dos Reis da Terra dos cavaleiros. Chamaram a Colina de Halifirien, e a Floresta de Firienholt.
Em épocas posteriores, o dia do Juramento foi considerado o primeiro dia do novo reino, quando Eorl assumiu o título de Rei da Terra dos Cavaleiros. Mas acabou levando algum tempo até que os rohirrim tomassem posse da terra, e durante sua vida Eorl foi conhecido como Senhor dos Éothéod e Rei de Calenardhon. O termo Mark significava uma região fronteiriça, em especial uma que servia de defesa às terras interiores de um reino. Os nomes sindarin Rohan, para a terra dos Cavaleiros, e rohirrim, para o povo, foram criados primeiramente por Hallas, filho e sucessor de Cirion, mas costumavam se usados tanto em Gondor quanto pelos próprios Éothéod.
No dia seguinte ao Juramento, Cirion e Eorl se abraçaram e se despediram a contragosto. Pois Eorl disse:
— Senhor Regente, tenho muito para fazer às pressas. Esta terra está agora livre de inimigos; mas eles não estão destruídos na raiz, e além do Andina e sob as beiradas da Floresta das Trevas ainda não sabemos que perigo espreita. Ontem à tardinha enviei três mensageiros para o norte, cavaleiros bravos e habilidosos, na esperança de que um pelo menos alcance meu lar antes de mim. Pois agora eu mesmo preciso voltar, e com alguma força. Minha terra foi deixada com poucos homens, os jovens demais e os velhos demais; e, se tiverem de empreender tão grande viagem, nossas mulheres e crianças, com os bens de que não podemos abrir mão, têm de ser protegidas, e só seguirão o próprio Senhor dos Éothéod. Deixarei atrás de mim todas as forças de que posso abrir mão, quase metade da hoste que está agora em Calenardhon. Haverá algumas companhias de arqueiros montados, para irem aonde a necessidade chamar, caso algum bando de inimigos ainda espreite na terra. Mas a força principal há de ficar no nordeste, para guardar principalmente o lugar onde os Balchoth fizeram uma travessia do Anduin, vindo das Terras Castanhas; pois ali está ainda o maior perigo, e ali está também minha principal esperança, caso eu retorne, de conduzir meu povo à sua nova terra com o mínimo possível de pesar e perda. Caso eu retorne, digo, mas tenha a certeza de que hei de retornar, para cumprir meu juramento, a não ser que a desgraça nos acometa e eu pereça com minha gente na longa estrada. Pois essa tem de ser do lado leste do Anduin, sempre sob a ameaça da Floresta das Trevas, e terá de passar afinal pelo vale que é assombrado pela sombra da colina que vocês chamam de Dol Guldur. Do lado oeste, não há estrada para cavaleiros, nem para uma grande hoste de gente e carroças, mesmo que as Montanhas não estivessem infestadas de orcs; e ninguém pode passar, nem poucos nem muitos, através de Dwimordene onde a Senhora Branca habita e tece teias que nenhum mortal consegue atravessar*. Pela estrada do leste virei, como vim a Celebrant; e que aqueles que invocamos como testemunhas de nossos juramentos zelem por nós. Separemo-nos agora com esperança! Tenho sua permissão?
— Tem minha permissão de fato — disse Cirion —. pois agora vejo qu não pode ser de outra maneira. Percebo que, no risco que corríamos, atentei de menos para os perigos que vocês enfrentaram e a maravilha de sua chegada, depois de percorrer longas léguas desde o norte, quando não nos restava mais esperança. A recompensa que ofereci, na alegria e plenitude do coração por nossa salvação, agora parece pequena. Mas creio que as palavras de meu juramento, que não planejei antes de serem pronunciadas, não foram postas na minha boca em vão. Separar-nos-emos, então, com esperança.
Ao modo das Crônicas, sem dúvida muito do que aqui se atribui a Eorl e Cirion ao se separarem foi dito e considerado no debate da noite anterior; mas é certo que Cirion disse na partida suas palavras acerca da inspiração de seu juramento, pois era homem de pouco orgulho e grande coragem e generosidade do coração, o mais nobre dos regentes de Gondor.


(iv) - A tradição de Isildur

Diz-se que, quando Isildur voltou da Guerra da Última Aliança, permaneceu por algum tempo em Gondor, ordenando o reino e instruindo seu sobrinho Meneldil, antes de partir ele mesmo para assumir o reino de Arnor. Com Meneldil e uma companhia de amigos confiáveis, viajou pelos limites de todas as terras que Gondor reivindicava; e, quando voltavam da fronteira norte para Anórien, chegaram à alta colina que então se chamava Eilenaer, mas chamou-se depois Amon Anwar, “Colina da Admiração”. Ficava próxima ao centro das terras de Gondor. Abriram uma trilha através da densa floresta de suas encostas setentrionais, e assim alcançaram o topo, que era verde e sem árvores. Lá fizeram uma área plana, e na sua extremidade leste ergueram um monculo; no interior deste Isildur depositou uma urna que trazia consigo. Disse então:
— Este é um túmulo e memorial de Elendil, o Fiel. Aqui há de permanecer, no ponto central do Reino do Sul, aos cuidados dos Valar, enquanto durar o Reino; e este lugar há de ser sagrado e ninguém o há de profanar. Que nenhum homem perturbe seu silêncio e sua paz, a não ser que seja herdeiro de Elendil.
Construíram uma escadaria de pedra desde a borda da floresta até o topo da colina; e Isildur disse:
— Que nenhum homem suba por esta escadaria, exceto o Rei. e aqueles que trouxer consigo, se lhes ordenar que o sigam. — Então todos os presentes juraram segredo; mas Isildur deu a Meneldil o conselho de que o Rei deveria visitar o local sagrado de tempos em tempos, e especialmente quando sentisse necessidade de sabedoria e m dias de perigo ou distúrbio; e que também levasse até lá seu herdeiro, quando este tivesse atingido a plena maioridade, e lhe relatasse a feitura do local sagrado, além de lhe revelar os segredos do reino e outros assuntos que tivesse de saber.
Meneldil seguiu o conselho de Isildur, assim como todos os Reis que se sucederam a ele até Rómendacil (o quinto após Meneldil). No tempo deste, Gondor foi primeiro atacada pelos Orientais; e, para que a tradição não fosse interrompida em virtude de guerra, morte súbita ou outro infortúnio, ele ordenou que a “Tradição de Isildur” fosse registrada em um rolo lacrado, junto com outras informações que um novo Rei deveria saber-, e esse rolo era entregue pelo Regente ao Rei. antes que este fosse coroado. Daí em diante essa entrega sempre se realizou, embora o costume de visitar o local sagrado de Amon Anwar com seu herdeiro fosse mantido por quase todos os Reis de Gondor.
Quando os dias dos Reis chegaram ao fim, e Gondor foi governada pelos Regentes descendentes de Húrin, regente do Rei Minardil, considerou-se que eles assumiriam todos os direitos e deveres dos Reis “até que o Grande Rei retornasse”. Mas quanto à “Tradição de Isildur” somente eles eram os juizes, visto que apenas eles a conheciam. Julgavam que as palavras de Isildur “herdeiro de Elendil” significavam alguém da linhagem real que descendesse de Elendil e tivesse herdado o trono: mas que ele não previra o governo dos regentes. Se Mardil, portanto, tinha exercido a autoridade do Rei em sua ausência, os herdeiros de Mardil que haviam herdado a Regência tinham o mesmo direito e dever até que retomasse um Rei; portanto cada Regente tinha o direito de visitar o local sagrado quando quisesse, e lá admitir os que o acompanhavam, conforme achasse conveniente.
Quanto às palavras “enquanto durar o Reino”, diziam que Gondor era ainda um “reino”, governado por um vice-monarca, e que portanto as palavras deviam ser interpretadas com o significado de “enquanto durar o estado de Gondor”.
Não obstante, os regentes, em parte por respeito e em parte pelas preocupações do reino, muito raramente iam ao local sagrado na Colina de Anwar, exceto quando levavam seu herdeiro ao topo, de acordo com o costume dos reis. Às vezes ele permanecia sem ser visitado durante vários anos e, conforme Isildur pedira, estava aos cuidados dos Valar.
Pois, apesar de a floresta crescer emaranhada e ser evitada pelos homens por causa do silêncio, de modo que a trilha ascendente se perdeu, ainda assim, quando foi reaberto o caminho, encontrou-se o local sagrado intocado pelas intempéries e sem profanação, sempre verde e em paz sob o firmamento, até que se transformasse o Reino de Gondor. Pois aconteceu que Cirion, o décimo segundo Regente Governante, enfrentou um novo grande perigo: invasores ameaçavam conquistar todas as terras de Gondor ao norte das Montanhas Brancas, e se isso ocorresse, a queda e a destruição de todo o reino logo se seguiria. Conforme se sabe pelas histórias, esse perigo só foi evitado graças ao auxílio dos rohirrim; e a eles Cirion, com grande sabedoria, concedeu todas as terras do norte, exceto Anórien, para as tomarem sob seu próprio governo e rei, porém em aliança perpétua com Gondor. Não havia mais gente bastante no reino para povoar a região setentrional, nem mesmo para manter guarnecida a linha de fortes ao longo do Anduin que havia guardado sua fronteira do leste. Cirion muito pensou sobre este assunto antes de conceder Calenardhon aos cavaleiros do Norte; e julgou que sua cessão deveria alterar totalmente a “Tradição de Isildur” com respeito ao local sagrado de Amon Anwar. Àquele lugar ele levou o Senhor dos Rohirrim, e lá, ao lado do túmulo de Elendil, este fez com a maior solenidade o Juramento de Eorl, e foi respondido pelo Juramento de Cirion. Confirmando para sempre a aliança dos Reinos dos Rohirrim e de Gondor.
No entanto, depois dos juramentos e quando Eorl retornara ao norte para trazer todo o seu povo de volta à sua nova morada, Cirion removeu o túmulo de Elendil. Pois julgava que a “Tradição de Isildur” estava agora anulada. O local sagrado não ficava mais “no ponto central do Reino do Sul”, e sim na fronteira de outro reino; e ademais as palavras “enquanto durar o Reino” referiam-se ao Reino tal como era quando Isildur falara, após inspecionar seus limites e defini-los. Era verdade que outras partes do Reino haviam sido perdidas desde aqueles dias: Minas Ithil estava nas mãos dos Nazgûl, e Ithilien estava desolada; mas Gondor não abdicara a seu direito sobre elas. A Calenardhon renunciara para sempre sob juramento. Portanto, a urna que Isildur depositara no montículo foi removida por Cirion para os Fanos de Minas Tirith; mas o montículo verde permaneceu como memorial de um memorial. Não obstante, mesmo quando se tornara o lugar de um grande farol, a Colina de Anwar ainda era lugar de reverência para Gondor e os rohirrim, que na sua própria língua a chamavam de Halifirien, o Monte Sagrado.

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