domingo, 12 de junho de 2016

Capítulo I - Uma descrição da ilha de Númenor


O relato seguinte sobre a ilha de Númenor deriva de descrições e mapas simples que por muito tempo foram conservados nos arquivos dos Reis de Gondor. Representam na verdade apenas uma pequena parcela de tudo que foi escrito outrora, pois muitas histórias naturais e geografias foram compostas por homens eruditos em Númenor; mas estas, como quase tudo, o mais das artes e ciências de Númenor em seu apogeu, desapareceram na Queda.
Mesmo documentos como os que se conservaram em Gondor, ou em Imladris (onde foram depositados aos cuidados de Elrond os tesouros remanescentes dos reis númenorianos setentrionais), sofreram perdas e destruição por negligência. Pois, apesar de os sobreviventes na Terra Média “ansiarem”, como diziam, por Akallabêth, a Caída, e nunca deixarem de se considerar até certo ponto exilados, nem mesmo depois de longas eras, quando ficou claro que a Terra da Dádiva havia sido removida e que Númenor desaparecera para sempre, ainda assim todos, exceto uns poucos, consideravam o estudo do que restara de sua história como algo vão, que apenas gerava uma lamentação inútil. A história de Ar-Pharazôn e sua ímpia armada foi tudo o que permaneceu no conhecimento geral das eras seguintes.

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A terra de Númenor assemelhava-se, em seu contorno, a uma estrela de cinco pontas, ou pentagrama, com uma porção central de cerca de 250 milhas de diâmetro, de norte a sul e de leste a oeste, da qual se estendiam cinco grandes promontórios peninsulares. Esses promontórios eram considerados regiões distintas e se chamavam Forostar (Terras Setentrionais), Andustar (Terras Ocidentais), Hyarnustar (Terras de Sudoeste), Hyarrostar (Terras de Sudeste) e Orrostar (Terras Orientais). A porção central era chamada Mittalmar (Terras Interiores), e não tinha costa, exceto a região em torno de Rómenna e a cabeceira de seu braço de mar. Uma pequena parcela do Mittalmar era, no entanto, separada do restante, e se chamava Arandor, a Terra do Rei. Em Arandor ficavam o porto de Rómenna, a Meneltarma e Armenelos, a Cidade dos Reis; e essa foi em todos os tempos a região mais populosa de Númenor.
O Mittalmar erguia-se acima dos promontórios (sem considerar a altura das montanhas e colinas destes); era uma região de prados e planaltos, com poucas árvores. Próximo ao centro do Mittalmar, erguia-se o grande monte chamado Meneltarma, Coluna dos Céus, consagrado à adoração de Eru Ilúvatar. Apesar de as encostas inferiores do monte serem suaves e cobertas de relva, ele se tornava cada vez mais íngreme, e próximo ao pico não podia ser escalado. Foi construída nele, porém, uma estrada em espiral, começando no sopé ao sul e terminando abaixo da borda do pico ao norte. Pois o pico era um tanto achatado e rebaixado, sendo capaz de conter uma grande multidão; mas permaneceu intocado durante toda a história de Númenor. Nenhuma edificação, nenhum altar, nem mesmo uma pilha de pedras brutas jamais se ergueu ali; e os númenorianos nunca tiveram nada que se assemelhasse a um templo, em todos os dias de sua graça, até a chegada de Sauron. Lá jamais se usara ferramenta ou arma; e lá ninguém podia dizer palavra, salvo o Rei. Apenas três vezes a cada ano o Rei falava, oferecendo uma prece pelo ano vindouro no Erukyerme nos primeiros dias da primavera, louvor a Eru Ilúvatar no Erulaitale no meio do verão e agradecimento a ele no Eruhantale no final do outono.
Nessas ocasiões, o Rei subia o monte a pé, seguido de grande afluência do povo, trajando branco e usando guirlandas, mas em silêncio. Em outras épocas, as pessoas tinham a liberdade de subir ao pico sozinhas ou acompanhadas; mas diz-se que o silêncio era tão grande que até mesmo um estranho que ignorasse Númenor e toda a sua história, se para lá fosse transportado, não teria ousado falar em voz alta. Nenhuma ave jamais lá chegava, à exceção das águias. Se alguém se aproximasse do pico, imediatamente três águias surgiam e pousavam em três rochedos próximos à borda ocidental; mas nas épocas das
Três Preces não desciam, permanecendo no céu e pairando sobre o povo. Eram chamadas Testemunhas de Manwe, e acreditava-se que eram enviadas por ele, de Aman, para vigiar o Monte Sagrado e toda a terra.
A base da Meneltarma inclinava-se suavemente para a planície ao redor, mas estendia ao longe, como se fossem raízes, cinco cristas longas e baixas na direção dos cinco promontórios da terra; e essas chamavam-se Tarmasundar, Raízes da Coluna. Ao longo do topo da crista de sudoeste, a estrada ascendente aproximava-se do monte; e entre essa crista e a de sudeste o terreno descia formando um vale raso. Este chamava-se Noirinan, Vale dos Túmulos; pois em sua extremidade foram talhadas câmaras na rocha da base do monte, onde ficavam os túmulos dos Reis e Rainhas de Númenor.
Mas em sua maior parte o Mittalmar era uma região de pastagens. A sudoeste havia pradarias ondulantes; e lá, em Emerie, ficava a principal região dos Pastores de Ovelhas.
O Forostar era a parte menos fértil; pedregosa, com poucas árvores, a não ser pelos bosques de abetos e lariços que existiam nas encostas ocidentais das charnecas elevadas, cobertas de urzes. Em direção ao Cabo Norte o terreno erguia-se em elevações rochosas, e lá o grande Sorontil erguia-se escarpado do mar em tremendos penhascos. Lá era a morada de muitas águias; e, nessa região, Tar-Meneldur Elentirmo construiu uma alta torre, de onde podia observar os movimentos das estrelas.
O Andustar era também rochoso nas suas regiões setentrionais, com altas florestas de abetos dando para o mar. Tinha três pequenas baías voltadas para o oeste, encravadas nos planaltos; mas ali em muitos lugares os penhascos não ficavam à beira-mar, e havia a seus pés um terreno inclinado. A mais setentrional delas era chamada Baía de Andúnie, pois lá ficava o grande porto de Andúnie (Ocaso), com sua cidade à beira-mar e muitas outras habitações que subiam pelas encostas íngremes para o interior. Mas grande parte da região meridional do Andustar era fértil, e lá também havia grandes florestas, de bétulas e faias no terreno mais alto, e de carvalhos e olmos nos vales inferiores. Entre os promontórios do Andustar e do Hyarnustar ficava a grande Baía que se chamava Eldanna, pois estava voltada para Eressea. E eram quentes as terras a seu redor, protegidas pelo norte e abertas para os mares a oeste, e era lá que mais chovia. No centro da Baía de Eldanna ficava o mais belo de todos os portos de Númenor, Eldalonde, o Verde; e a ele chegavam com maior frequência, nos dias tempos de outrora, os velozes navios brancos dos eldar de Eressea.
Em toda a volta desse lugar, subindo pelas encostas marinhas e penetrando longe pelo país, cresciam as árvores perenes e fragrantes que eles trouxeram do Oeste, e tão bem se desenvolveram que os eldar diziam ser lá quase tão belo quanto em um porto de Eressea. Eram elas o maior encanto de Númenor, e eram lembradas em incontáveis canções muito tempo após terem perecido para sempre, pois poucas chegaram a florir a leste da Terra da Dádiva: oiolaire e lairelosse, nessamelda, vardarianna, taniquelasse, e yavannamíre com seus redondos frutos escarlates. Flor, folha e casca dessas árvores exalavam doces perfumes, e toda aquela região estava plena de fragrância mesclada; era portanto chamada Nísimaldar, Árvores Fragrantes. Muitas foram plantadas e cresciam, se bem que em muito menor abundância, em outras regiões de Númenor; mas somente ali crescia a vigorosa árvore dourada malinorne, que após cinco séculos atingia uma altura pouco menor do que a alcançada na própria Eressea. Sua casca era prateada e lisa, e seus ramos um tanto ascendentes à maneira da faia; mas sempre crescia apenas com um único tronco. Suas folhas, semelhantes às da faia, porém maiores, eram de um verde-pálido na face superior e prateadas por baixo, cintilando ao sol; no outono não caíam, mas  adquiriam um pálido tom dourado.
Na primavera, a árvore dava flores douradas, em cachos como cerejas, que continuavam florindo durante o verão. E, assim que as flores se abriam, caíam as folhas, de forma que por toda a primavera e todo o verão um bosque de malinorni era atapetado e telhado de ouro, mas suas colunas eram de prata cinzenta. Seu fruto era uma noz com casca de prata; e alguns foram dados de presente por Tar-Aldarion, sexto Rei de Númenor, ao Rei Gil-galad de Lindon. Não se enraizaram naquela terra; mas Gil-galad deu alguns à sua parenta Galadriel; e, sob seu poder, cresceram e vicejaram na terra protegida de Lothlórien à margem do Rio Anduin, até que por fim os Altos-Elfos deixaram a Terra Média; mas não alcançaram a altura ou circunferência dos grandes bosques de Númenor.
O rio Nunduine corria para o mar em Eldalonde e em seu curso formava o pequeno lago de Nísinen, que assim se chamava pela abundância de arbustos e flores de doce fragrância que cresciam em suas margens. O Hyarnustar era em sua parte ocidental uma região montanhosa, com grandes penhascos nas costas do oeste e do sul; mas a leste havia grandes vinhedos numa terra quente e fértil. Os promontórios do Hyarnustar e do Hyarrostar afastavam-se em ângulo muito aberto, e nessas longas praias o mar e a terra se uniam suavemente como em nenhum outro lugar de Númenor. Ali corria o Siril, o principal rio da terra (pois todos os demais, exceto o Nunduine a oeste, eram torrentes curtas e velozes que se precipitavam para o mar), que nascia em fontes ao pé da Meneltarma no vale de Noirinan e, correndo através do Mittalmar para o sul, passava a fluir lento e sinuoso em seu curso inferior. Por fim desembocava no mar, entre largos alagados e brejos juncosos, e suas muitas pequenas fozes traçavam caminhos cambiantes através de grandes bancos de areia; por muitas milhas de ambos os lados havia largas praias brancas e cinzentos trechos pedregosos, e ali morava a maioria dos pescadores, em aldeias na terra firme entre os alagados e lagoas, sendo Nindamos a principal delas.
No Hyarrostar crescia uma profusão de árvores de muitas espécies, entre elas o laurinque, que as pessoas admiravam por suas flores, pois não tinha outra serventia. Davam-lhe esse nome por causa de seus longos cachos pendentes de flores amarelas; e alguns, que dos eldar haviam ouvido falar de Laurelin, a Árvore Dourada de Valinor, acreditavam que ele provinha daquela grande Árvore, tendo sido trazido até ali pelos eldar em forma de semente; mas não era assim. Desde os tempos de Tar-Aldarion havia grandes plantações no Hyarrostar que forneciam madeira para a construção de navios.
O Orrostar era uma terra mais fria, porém protegida dos gélidos ventos de nordeste por planaltos que subiam na direção da ponta do promontório; e nas regiões do interior do Orrostar cultivava-se muito cereal, em especial nas áreas próximas às divisas de Arandor. Toda a terra de Númenor estava disposta como se tivesse emergido do mar, mas inclinada para o sul e um pouco para o leste; e, exceto no sul, em quase todos os lugares a terra descia para o mar em penhascos íngremes. Em Númenor, as aves que moram perto do mar, e nele nadam ou mergulham, habitavam em multidões além da conta. Os marinheiros diziam que, mesmo que fossem cegos, ainda assim saberiam que seu navio se aproximava de Númenor pelo grande clamor das aves costeiras; e quando qualquer navio chegava à terra erguiam-se aves marinhas em grandes revoadas, voando sobre ele com boas-vindas e alegria, pois jamais eram mortas ou molestadas propositalmente. Algumas acompanhavam os navios em suas viagens, até mesmo os que iam à Terra Média. Da mesma forma, no interior eram incontáveis as aves de Númenor, desde os kirinki, que não eram maiores que carriças, porém escarlates e com vozes que piavam no limite da audição humana, até as grandes águias que eram consideradas sagradas a Manwe, e nunca molestadas até que começassem os dias do mal e do ódio aos Valar. Por dois mil anos, dos tempos de Elros Tar-Minyatur até a época de Tar-Ancalimon, filho de Tar-Atanamir, houve um ninho no alto da torre do palácio do Rei em Armenelos; e ali um casal sempre morou e viveu da liberalidade do Rei.
Em Númenor todos viajavam a cavalo de um lugar a outro. Pois compraziam-se na equitação os númenorianos, tanto homens quanto mulheres, e todo o povo da terra apreciava os cavalos, tratando-os com honra e abrigando-os com nobreza. Eram treinados para ouvir e responder a chamados de muito longe, e contavam as histórias antigas que, nos casos em que havia grande amor entre homens e mulheres e suas montarias favoritas, estas podiam ser chamadas pelo simples pensamento, caso necessário. Por isso as estradas de Númenor eram sem pavimentação em sua maior parte, feitas e mantidas para a equitação, pois os coches e as carruagens eram pouco usados nos primeiros séculos, enquanto as cargas pesadas eram transportadas por mar. A estrada principal e mais antiga, adequada às rodas, ia desde o maior porto, Rómenna no leste, até a cidade real de
Armenelos, prosseguindo daí ao Vale dos Túmulos e à Menel-tarma; e essa estrada foi cedo estendida até Ondosto, dentro dos limites do Forostar, e de lá até Andúnie no oeste. Por ela passavam carroças levando pedras das Terras Setentrionais, que eram mais apreciadas na construção, e a madeira que abundava nas Terras Ocidentais. Os edain trouxeram consigo a Númenor o conhecimento de muitos ofícios bem como muitos artesãos que haviam aprendido com os eldar, e também preservam seu próprio saber e tradições. Mas puderam trazer poucos materiais, à exceção das ferramentas de seus ofícios; e por muito tempo todos os metais de Númenor foram metais preciosos. Trouxeram consigo muitos tesouros de ouro e prata, e pedras preciosas também, mas não encontraram em Númenor esses materiais. Eram amados por sua beleza, e foi esse amor que primeiro despertou neles a cobiça, nos dias em épocas posteriores quando foram dominados pela Sombra e se tornaram altivos e injustos em seus contatos com a gente menor da Terra Média. Dos elfos de Eressea, nos dias de sua amizade, algumas vezes obtiveram presentes de ouro, prata e pedras preciosas; mas tais objetos eram raros e apreciados em todos os primeiros séculos, até que o poderio dos Reis se tivesse espalhado às costas do Leste.
Encontraram em Númenor alguns metais; e, com o veloz aperfeiçoamento de sua habilidade na mineração, na fundição e na forja, os objetos de ferro e cobre tornaram-se comuns. Entre os artesãos dos edain havia armeiros e, com os ensinamentos dos Noldor, eles haviam adquirido grande perícia no forjar de espadas, lâminas de machados, pontas de lança e facas. As espadas ainda eram feitas pela Corporação dos Armeiros, para preservar o ofício, embora a maior parte de seu trabalho fosse dedicada à feitura de ferramentas para usos pacíficos. O Rei e a maior parte dos grandes líderes possuíam espadas como heranças de seus pais, e às vezes ainda davam espadas de presente a seus herdeiros. Fazia-se uma espada nova para o Herdeiro do Rei, que lhe era dada no dia em que se conferia esse título. Mas ninguém portava espada em Númenor, e por muitos anos foram poucas de fato as armas de intenção belicosa que se fizeram naquela terra. Tinham machados, lanças e arcos; e atirar com arco, a pé e a cavalo, era um importante esporte e passatempo dos númenorianos. Em dias posteriores, nas guerras contra a Terra Média, eram os arcos dos númenorianos que mais eram temidos. “Os Homens do Mar”, dizia-se, “enviam diante de si uma grande nuvem, como chuva tornada em serpentes, ou granizo negro com pontas de aço”; e nesses dias as grandes cortes dos Arqueiros do Rei usavam arcos feitos de aço oco, com flechas de penas negras com uma vara de comprimento desde a ponta até a fenda.
Mas durante muito tempo as tripulações dos grandes navios númenorianos desembarcaram desarmadas entre os homens da Terra Média. E embora tivessem a bordo machados e arcos para cortar madeira e caçar seu alimento em praias selvagens que a ninguém pertenciam, não os portavam quando procuravam os homens das terras. Foi de fato motivo para ressentimento, quando a Sombra se esgueirou ao longo das costas e os homens de quem se haviam tornado amigos ficaram temerosos ou hostis, que o ferro fosse usado contra eles por aqueles a quem o tinham revelado.
Mais que em todas as outras atividades os fortes homens de Númenor se deleitavam no Mar, nadando, mergulhando, ou em pequenas embarcações para competições de velocidade a remo ou a vela. Os mais intrépidos entre o povo eram os pescadores. Havia peixe em abundância em todas as costas, e o pescado foi em todas as épocas uma importante fonte de alimento em Númenor. Todos os povoados que congregavam muita gente eram situados no litoral. Era dos pescadores que provinham em sua maioria os Marinheiros, que com o passar dos anos conquistaram enorme importância e estima. Diz-se que, quando os edain primeiro zarparam por sobre o Grande Mar, seguindo a Estrela até Númenor, cada navio élfico que os levava era guiado e comandado por um dos eldar designados por Círdan; e após terem partido os timoneiros élficos, levando consigo a maioria de seus navios, muito tempo passou antes que os próprios númenorianos se aventurassem em alto-mar. Mas existiam armadores entre eles que haviam sido formados pelos eldar. E por seu próprio estudo e expedientes aperfeiçoaram sua arte até ousarem navegar cada vez mais longe nas águas profundas. Quando haviam passado seiscentos anos desde o início da Segunda Era, Veantur, Capitão dos Navios do Rei no reinado de Tar-Elendil, realizou a primeira viagem à Terra Média. Levou seu navio Entulesse (que significa “'Retorno”) a Mithlond com os ventos de primavera que sopravam do oeste; e voltou no outono do ano seguinte. Depois disso a navegação tornouse o principal empreendimento de audácia e intrepidez entre os homens de Númenor; e Aldarion, filho de Meneldur, cuja esposa era filha de Veantur, formou a Corporação dos Aventureiros, em que se uniram todos os marinheiros experientes de Númenor; como se conta na história seguinte.

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