terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 9

O navio estava em péssimas condições. Ele navegava desajeitadamente de lado, na direção da praia coberta de pedregulhos, onde a tripulação do navio de Erak saía das cabanas para olhar a chegada. Estava fortemente inclinado e muito mais dentro da água do que devia. A balaustrada estava a apenas dez centímetros da água.
— É o navio de Slagor! — um dos escandinavos gritou da praia, reconhecendo a cabeça de lobo na ponta da proa.
— O que ele está fazendo aqui? — outro marinheiro perguntou. — Ele estava em segurança na Escandinávia, quando saímos de Araluen.
Will veio correndo das pedras onde estava jogando pedaços de madeira na água. Ele viu Evanlyn saindo da varanda e se juntou a ela. O aborrecimento de antes desapareceu com esses novos acontecimentos.
— De onde veio esse navio? — ela perguntou, e Will deu de ombros.
— Não tenho ideia. Eu estava nas pedras, olhei para o mar e lá estava ele.
O navio já estava bem perto. Will notou que a tripulação parecia abatida e exausta. Naquele momento, ele podia ver falhas em várias tábuas que formavam o casco, e o toco onde o mastro tinha se quebrado e caído no mar. Os escandinavos que estavam parados ao redor deles viram esses fatos e comentavam sobre eles.
— Slagor! — Erak chamou por cima da água tranquila. — De que raio de lugar você surgiu?
O homem corpulento que estava na popa controlando o leme cumprimentou-o com um aceno de mão. Ele estava visivelmente exausto e satisfeito por poder ancorar.
Um dos tripulantes estava parado na proa do navio e jogou uma corda pesada para os homens de Erak que esperavam na praia. Em alguns segundos, uma dúzia deles apanhou a corda e começou a puxar a embarcação pelos últimos metros. Agradecidos, os remadores, sem energia para guardar os remos, se recostaram nos bancos. Os pesados remos esculpidos em carvalho pendiam na água e batiam nas laterais do navio com um som surdo quando giravam nos seus orifícios.
A quilha raspou nos pedregulhos, e o navio parou. Como estava mais baixo na água do que o Wolfwind, não era possível fazê-lo subir a mesma distância na praia, pois a proa logo ficou presa na areia.
Os homens a bordo começaram a desembarcar, saltando sobre a amurada e caindo na praia. Cambaleando, os remadores foram para a terra seca e se estenderam no chão com gemidos de cansaço, largando o corpo na areia e nas pedras ásperas, ficando ali deitados como mortos. Um dos últimos a ir para a terra firme foi Slagor, o capitão.
Ele se deixou cair na praia. Sua barba e seu cabelo estavam manchados e salpicados de branco do sal. Seus olhos estavam vermelhos e tinham uma expressão assustada. Ele e Erak se encararam. Estranhamente, eles não se cumprimentaram com o gesto normal de braços entrelaçados. Will supôs que os dois homens não se gostassem muito.
— O que você está fazendo aqui nesta época do ano? — Erak perguntou ao outro marinheiro.
Desgostoso, Slagor balançou a cabeça.
— Temos muita sorte de estar aqui. Dois dias depois de sairmos de Hallasholm, a tempestade nos atingiu. As ondas eram grandes como castelos, e o vento vinha direto do polo. O mastro se quebrou na primeira hora e não conseguimos soltá-lo. Perdemos dois homens tentando arrancá-lo. Então a ponta ficou batendo na linha de água e, antes que nós percebêssemos, ela tinha feito um buraco nas tábuas. Um dos compartimentos ficou inundado antes que soubéssemos o que estava acontecendo e tivemos vazamentos em outros três.
Os navios, embora se parecessem com botes abertos, na verdade eram muito resistentes para viagens no mar. Em grande parte, isso se devia ao fato de que o projeto dividia os cascos em quatro compartimentos separados à prova de água debaixo do convés principal e entre as duas galerias inferiores onde se sentavam os remadores.
Era o poder de flutuação desses compartimentos que mantinha os navios à tona mesmo quando eram atingidos pelas ondas enormes que se agitavam no violento mar Stormwhite.
Will olhou para Erak. Ele viu que o robusto jarl estava ouvindo as palavras de Slagor de cenho franzido.
— O que você estava fazendo no mar, para começar? — Erak perguntou. — Agora não é o momento de tentar cruzar o Stormwhite.
Slagor aceitou um copo de madeira com conhaque oferecido por um dos homens de Erak. Em volta do pequeno porto, a tripulação do navio de Erak trazia bebidas para os conterrâneos exaustos e, em alguns casos, cuidava de ferimentos evidentemente surgidos quando navio tinha sido sacudido e agitado pela tempestade. Slagor não fez nenhum gesto de agradecimento, e Erak fez cara feia.
Novamente Will sentiu a animosidade existente entre os dois capitães. A atitude de Slagor foi agressiva até mesmo quando descreveu seu infortúnio, como se, de alguma forma, a situação o deixasse na defensiva. Ele tomou o conhaque num só gole e enxugou a boca com as costas da mão antes de responder.
— O tempo estava claro em Hallasholm — ele contou resumidamente. — Achei que teríamos uma pausa longa o suficiente para cruzar a área de tempestades.
Erak arregalou os olhos sem acreditar no que ouvia.
— Nesta época do ano? Você ficou louco?
— Pensei que íamos conseguir — Slagor repeliu teimoso, e Will notou a expressão zangada de Erak.
O jarl robusto baixou a voz para que os membros da tripulação não ouvissem. Somente Will e Evanlyn o escutaram.
— Maldito seja, Slagor — ele disse amargo. — Você estava tentando tomar a dianteira na estação de saques?
— E se estivesse? — Slagor retrucou, olhando o outro capitão com raiva. — Como capitão, eu, e mais ninguém, tenho o direito de tomar essa decisão, Erak.
— E sua decisão custou a vida de dois homens — Erak ressaltou. — Dois homens que juraram obedecê-las, por mais tolas que fossem. Qualquer homem com mais de cinco minutos de experiência saberia que é cedo demais para fazer essa travessia!
— Houve uma calmaria! — o outro homem disparou, e Erak grunhiu aborrecido.
— Uma calmaria! Sempre há uma calmaria! Elas duram um ou dois dias. Mas isso não é suficiente para fazer a travessia, e você sabe disso. Maldito seja por sua ganância, Slagor!
— Você não tem o direito de me julgar, Erak — Slagor respondeu, levantando-se. — Você sabe que o capitão é dono do seu navio. Como você, sou livre para escolher quando e para onde vou.
Ele falava mais alto do que Erak, e Will percebeu que ele estava perdendo a paciência.
— E estou lembrando que você decidiu não se juntar a nós na guerra que acabamos de lutar — Erak replicou num tom de zombaria. — Você se satisfez em ficar sentado em casa e então sair sorrateiramente e auferir lucros fáceis antes que outros capitães estivessem prontos para partir.
— A opção foi minha — Slagor repetiu. A voz dele se transformou num sorriso cheio de desprezo. — Percebo que você não teve exatamente um tremendo sucesso em sua invasão, teve, jarl Erak?
Com os olhos brilhantes de raiva, Erak se aproximou do outro homem.
— Veja como fala, seu ladrão trapaceiro. Perdi bons amigos ali.
— E mais do que amigos, ouvi falar — Slagor respondeu encorajado. — Você vai receber muitos agradecimentos de Ragnak por deixar o filho dele para trás também.
— Gronel foi capturado na batalha? — Erak indagou surpreso, dando um passo para trás.
— Capturado, não. Ouvi dizer que ele foi morto na batalha de Thorntree. Alguns dos navios conseguiram voltar para a Escandinávia antes que a tempestade começasse — Slagor contou, balançando a cabeça e sorrindo ao ver o oponente perder a calma.
Will olhou para cima depressa. Wolfwind, o navio de Erak, tinha sido o último a deixar a costa de Araluen. A tripulação ainda estava esperando a volta de Erak, quando os sobreviventes da expedição fracassada de Horth conseguiram retornar aos navios levando notícias sobre a derrota e partindo. Mais tarde, Will ouviria a tripulação do Wolfwind falar sobre a batalha de Thorntree. Dois arqueiros, um baixo e grisalho, outro jovem e alto, tinham conduzido as forças do rei que dizimaram o exército escandinavo quando marchou para se aproximar da força principal de Duncan pela retaguarda. De algum modo, Will sabia, no fundo do coração, que estavam falando de Halt e Gilan.
— Gronel era um bom homem — Erak balançou a cabeça com tristeza. — Sentiremos muito a falta dele.
— O pai dele também. Ele jurou aplicar um vallasvow contra Duncan.
— Isso não pode ser verdade — Erak disse sem acreditar. — Um vallasvow só é aplicado em caso de traição ou assassinato.
— Ele é o oberjarl — Slagor disse dando de ombros. — Pode fazer o que bem entender. Agora, por piedade, você tem comida nessa ilha abandonada por Deus? Nossas provisões foram estragadas pela água do mar.
Erak, ainda distraído pelas notícias que tinha acabado de ouvir, se deu conta da presença de Will e Evanlyn. Ele fez um sinal com a cabeça na direção das cabanas.
— Acendam o fogo — ordenou. — Esses homens precisam de comida quente.
Estava zangado por Slagor ter lhe lembrado de seu dever. Ele podia não gostar do outro homem, mas sua tripulação merecia ajuda e atenção depois de tudo o que tinha passado. Ele empurrou Will com grosseria na direção da cabana. O garoto cambaleou e começou a correr acompanhado de perto por Evanlyn.
Will estava com uma sensação desagradável na boca do estômago. Ele não tinha ideia do que um vallasvow poderia ser, mas sabia de uma coisa: de repente, manter a identidade de Evanlyn em segredo tinha se tornado uma questão de vida ou morte.

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