quarta-feira, 29 de junho de 2016

Capítulo 6

Halt recostou-se e examinou sua obra com um suspiro satisfeito.
— Não — ele disse. — Isso deve funcionar.
Horace olhou para ele com dúvidas, seus olhos se deslocaram da expressão satisfeita de Halt à aparência do documento oficial que ele havia acabado de forjar.
 De quem é esse selo? — Perguntou ele finalmente, indicando a impressão de um touro desenfreado que foi definido em um grande monte de cera no canto inferior direito do pergaminho. Halt tocou delicadamente a cera para verificar se tinha endurecido completamente.
— Bom. Acho que se é de alguém, é meu — admitiu. — Mas estou esperando que os nossos amigos escandinavos pensem que pertence ao rei Henri de Gálica.
 É com isso que o selo real se parece? — Horace perguntou, e Halt estudou o símbolo imprimido na cera com um olhar um pouco mais crítico.
 Quase — respondeu ele — acho que o real pode ser um pouco mais magro no corpo, mas o falsificado, eu comprei por ter uma impressão muito indistinta para trabalhar.
 Mas... — Horace começou infeliz, depois parou.
Halt olhou para ele, uma sobrancelha levantada rapidamente.
— Mas? — Repetiu, tornando a palavra em uma pergunta.
Horace apenas balançou a cabeça. Ele sabia que Halt provavelmente iria rir da sua objeção se ele expressasse isso.
— Oh, esqueça — disse por fim. Em seguida, percebendo que o ex-arqueiro ainda estava esperando por ele para falar, ele mudou de assunto. — Eu pensei que você disse que não havia um poder forte em Gálica — disse ele.
Halt balançou a cabeça.
 Não há nenhum poder efetivo — disse ao jovem. — Rei Henri é o rei hereditário de Gálica, mas ele não tem poder real. Ele defende uma corte na parte sul do país e permite que os senhores da guerra locais façam o que quiserem.
 Sim, notei — disse Horace significativamente, pensando sobre o encontro com Deparnieux que tinha atrasado o seu progresso através da Gálica.
 Então, o velho rei Henri é algo de um rei de papel — Halt continuou. — Mas ele é conhecido por enviar emissários para outros países ao longo do tempo. Assim, o presente. — Ele apontou para a folha de pergaminho que estava agitando suavemente no ar para que a tinta pudesse secar e o selo de cera pudesse endurecer. A visão do selo trouxe de volta todos os receios de Horace.
— Só não parece certo! — Ele deixou escapar, antes que pudesse parar.
Halt sorriu pacientemente para ele, soprando suavemente em algumas manchas de umidade da tinta.
 É tão certo quanto o meu jeito de obtê-lo — disse ele suavemente. — E duvido que o guarda de fronteira média na Escandinávia vá ver a diferença, especialmente se você estiver vestido com a armadura galesa que tomou de Deparnieux.
Mas Horace balançou a cabeça obstinadamente. Agora que sua preocupação fora exposta, ele estava determinado.
 Isso não foi o que eu quis dizer — disse ele, em seguida acrescentou: — e você sabe disso.
Halt sorriu com a expressão preocupada do jovem.
 Às vezes seu senso de moralidade me espanta — falou gentilmente. — Você não entende que temos que passar por guardas de fronteira se quisermos ter alguma chance de achar Will e a princesa?
 Evanlyn — Horace corrigiu-o automaticamente.
Halt acenou o comentário de lado.
 Tanto faz — ele sabia que Horace tendia a referir-se a princesa Cassandra, a filha do rei Araluen, pelo nome que tinha assumido quando Will e Horace a viram pela primeira vez. Ele continuou. — Você percebe, não é?
Horace soltou um suspiro profundo.
— Sim, suponho que sim, é só que parece... Desonesto, de alguma forma.
As sobrancelhas de Halt subiram em um arco perfeito.
— Desonesto?
Horace prosseguiu, sem jeito.
— Bem, eu sempre fui ensinado que os selos das pessoas e crenças eram uma espécie de... eu não sei, sacrossanto. Quero dizer... — ele apontou para a figura do touro impressa em cera vermelha. — Isso é a assinatura de um rei.
Halt mordeu os lábios, pensativo.
— Ele não é exatamente um rei — respondeu.
 Esse não é o ponto. É um princípio, não pode ver? É como... — o rapaz fez uma pausa, tentando pensar em um argumento razoável. — É como interferir nas correspondências.
Em Araluen, o correio era um serviço controlado pela coroa e havia sanções para quem tentasse interferir com ele. Não que tais sanções nunca tenham parado Halt no passado, quando ele precisava fazer um pouco de manipulação nesse sentido. Ele decidiu que não seria prudente mencionar a Horace agora. Obviamente, o código moral ensinado na Escola de Guerra Redmont era algo mais rígido do que o comportamento adotado pelo Corpo de Arqueiros.
Naturalmente, os cavaleiros do reino foram encarregados da proteção dos feudos, por isso era lógico que eles devessem ter uma atitude tão entranha na primeira parte de seu treinamento.
 Então, como você sugeriria que lidássemos com o problema? — perguntou. — Como você nos levaria além da fronteira?
Horace preferido soluções simples.
— Nós poderíamos lutar em nosso caminho — sugeriu com um encolher de ombros.
Halt ergueu os olhos para o céu com o pensamento.
 Então, é imoral passar com um documento oficial — ele começou.
 Um documento falso Horace — corrigiu. — Com um selo falsificado no final.
Halt admitiu o ponto.
 Tudo bem então, um documento falsificado, se quiser. Isso é condenável. Mas seria perfeitamente bem para nós ir até o posto fronteiriço e matar todos à vista? É essa a maneira como você vê isso?
Agora que Halt colocava dessa maneira, Horace tinha de admitir que havia uma anomalia em seu pensamento.
— Eu não disse que devemos matar todos à vista — ele se opôs. — Nós poderíamos apenas lutar no caminho, é tudo. É mais honesto e eu pensei que é o que os cavaleiros deviam ser.
 Cavaleiros podem ser, mas os Arqueiros não são — Halt murmurou. Mas ele disse abaixo de sua respiração de forma que Horace não pôde ouvi-lo.
Ele lembrou-se de que Horace era muito jovem e idealista. Cavaleiros vivem por um rigoroso código de honra e ética e os fatores foram enfatizados nos primeiros anos de treinamento de um cavaleiro aprendiz. Apenas mais tarde na vida que eles aprenderam a temperar seus ideais com um pouco de oportunismo.
— Olha — disse ele, num tom conciliador. — Pense nisso desta forma: se nós simplesmente lutássemos com todos no caminho até Hallasholm, os guardas da fronteira iriam enviar um aviso logo depois que saíssemos. O elemento surpresa seria totalmente perdido e nós poderíamos nos encontrar em grandes apuros. Se decidirmos a nossa forma de luta, a única maneira de fazer isso é não deixando ninguém vivo para espalhar a palavra. Entendeu?
Horace assentiu com a cabeça, infelizmente. Ele podia ver a lógica no que Halt estava dizendo. O arqueiro continuou com a linha de raciocínio.
— Dessa forma, ninguém se machuca. Você se coloca como um emissário do tribunal galês, em uma expedição do rei Henri. Você veste armadura negra de Deparnieux, obviamente no estilo de Gálica e mantém seu nariz empinado no ar e deixa a palavra para mim, seu servo. Esse é o tipo de comportamento que se esperaria de um importante nobre galês. Não há nenhuma razão para qualquer palavra ser enviada informando a Ragnak que dois forasteiros tenham atravessado a fronteira, afinal, estamos supostamente indo vê-lo de qualquer maneira.
 E pra que serve essa expedição? — Horace perguntou.
Halt não pôde resistir a um sorriso.
— Desculpe, mas isso é confidencial. Você não espera que eu vá violar o segredo do sistema de correio, não é?
Horace deu-lhe um olhar dolorido e o arqueiro cedeu.
— Tudo bem. É uma questão de negócio simples, na verdade. Rei Henri está em negociação para a locação de três navios da Escandinavos, isso é tudo.
Horace olhou surpreso.
— Isso não é um pouco incomum? — perguntou, e Halt sacudiu a cabeça.
 Nem um pouco. Escandinavos são mercenários. Eles estão sempre se movendo para um lado ou outro. Estamos apenas fingindo que Henri pretende subcontratar alguns navios e tripulações para uma expedição contra a invasão Arridi.
 Arridi? — Horace, franziu com incerteza.
Halt balançou a cabeça em desespero.
— Você sabe, talvez fosse mais útil se Rodney passasse menos tempo ensinando as pessoas a ética e um pouco mais de tempo a geografia. Os Arridi são os povos do deserto ao sul. — Ele parou e viu que esta informação não fez nenhuma impressão sobre o jovem. Horace continuou a olhar para ele com uma expressão vazia. — Do outro lado do Mar Constante? — Acrescentou, e então Horace mostrou sinais de reconhecimento.
 Ah, eles — disse com desdém.
— Sim, eles — respondeu Halt, imitando o tom. — Mas eu não espero que você pense muito sobre eles. Há apenas milhões deles.
 Mas eles nunca nos incomodam, certo? — disse Horace confortavelmente.
Halt deu uma risada curta.
 Não tão longe — ele concordou. — É só rezar para eles não decidirem mudar de ideia.
Horace podia sentir que Halt estava à beira de se entregar uma palestra sobre a estratégia internacional e diplomacia.
Esse tipo de coisa geralmente dói o lado esquerdo da cabeça de Horace após os primeiros minutos, quando ele tenta manter o contato com quem foi alinhado com quem e quem estava conspirando contra seus vizinhos e o que eles esperavam ganhar com isso. Ele preferia o tipo de palestra de Sir Rodney: certo, errado, preto, branco, espadas, cortar e bater. A melhor maneira de fazer isso, ele tinha aprendido com a experiência passada, foi a de concordar com Halt.
 Bem, suponho que você está certo sobre a falsificação — admitiu. — Afinal de contas, é apenas o selo de Gálica que estamos forjando, não é? Não é como se você estivesse forjando um documento do rei Duncan. Você não iria tão longe, iria?
— Claro que não — Halt respondeu suavemente.
Ele começou a arrumar as canetas, a tinta e as ferramentas de falsificador. Estava feliz que ele tivesse posto as mãos sobre o selo falsificado galês em sua embalagem tão facilmente.
— Agora, sugiro que você vá vestir a armadura galesa para os guardas da fronteira Escandinava. 
Horace bufou indignado e se afastou. Mas outro pensamento ocorreu a Halt, algo que estava em sua mente há algum tempo.
 Horace... — ele começou, e Horace voltou. A voz do Arqueiro perdeu o seu tom e ele sentiu que Halt estava prestes a dizer algo importante.
— Sim, Halt?
 Quando encontramos Will, não conte a ele sobre os problemas... Entre mim e o rei, tudo bem?
Meses atrás, o rei tinha negado a permissão para Halt deixar Araluen em busca de Will, então Halt concebeu um plano desesperado. Ele tinha insultado publicamente o rei e, como resultado, foi banido por um período de um ano. O subterfúgio de Halt causou uma grande angústia mental no mês passado. Como uma pessoa banida, ele era automaticamente expulso do Corpo de Arqueiros. A perda de sua folha de carvalho prata foi, possivelmente, o pior castigo de todos, ainda que ele suportasse voluntariamente para procurar seu aprendiz.
 Tudo o que quiser, Halt — Horace concordou.
Mas Halt parecia pensar que, desta vez, a explicação era necessária.
 É justo que eu prefira encontrar a minha própria maneira de dizer a ele e na hora certa. Tudo bem?
Horace encolheu os ombros.
— Tudo o que você quiser — ele repetiu. — Agora vamos falar com estes escandinavos.


Mas não havia nada a se falar. Os dois cavaleiros, seguidos por sua pequena sequência de cavalos, montaram através da passagem que em ziguezague entre as altas montanhas até o posto de fronteira ficou finalmente à vista. Halt deveria ser saudado da paliçada de madeira da torre em qualquer momento, como os guardas exigiriam que desmontasse e fossem a pé. Isso teria sido o procedimento normal. Mas não havia nenhum sinal de vida no pequeno posto avançado fortificado à medida que se aproximava.
 Porta aberta — Halt murmurou enquanto se aproximava e que pôde dar mais detalhe.
 Quantos homens guardam geralmente um lugar como este? — Horace perguntou.
O arqueiro encolheu os ombros.
— Meia dúzia. Uma dúzia talvez.
 Não parece que tem qualquer um deles por aí — observou Horace, e Halt olhou para os lados.
 Eu tinha percebido essa parte — respondeu ele, em seguida, acrescentou: — O que é isso?
Havia um vulto aparente agora nas sombras apenas dentro da porta aberta. Agindo sobre o mesmo instinto, ambos incitaram seus cavalos num galope e fechou a distância entre eles e o forte. Halt já tinha certeza de que forma era.
Era um escandinavo morto, deitado em uma poça de sangue que havia embebido na neve. Dentro havia outros dez, todos mortos da mesma maneira, com múltiplas feridas em seus troncos e membros. Os dois viajantes cuidadosamente desmontaram e se moveram entre os corpos, a estudar a cena horrível.
 Quem poderia ter feito isso? — disse Horace com uma voz horrorizada. — Eles foram esfaqueados repetidas vezes.
 Não foram esfaqueados — Halt disse. — Estas são feridas flechas. E, em seguida, os assassinos recolheram suas flechas dos corpos. Exceto por um presente.
Ele segurou uma flecha quebrada que permaneceu escondida debaixo de um dos corpos. O escandinavo provavelmente tinha quebrado na tentativa de removê-lo da ferida. A outra metade ainda estava enterrada profundamente em sua coxa. Halt estudou o estilo da flecha e a identificação, marcas pintadas no final da flecha.
Arqueiros normalmente identificam seus próprios trabalhos de tal forma.
 Pode dizer que fez isso? — Horace pediu.
O arqueiro permaneceu em silêncio. Horace olhou para cima e para encontrar o seu olhar, e viu uma expressão de profunda preocupação nos olhos do arqueiro.
Esse fato sozinho, mais do que a carnificina ao redor deles, enviou uma onda de mal-estar por meio dele. Ele sabia que era algo ruim para preocupar Halt.
 Eu acho que sim — disse o arqueiro. — E não gosto. Parece que os Temujai estão em ação novamente.

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