quarta-feira, 29 de junho de 2016

Capítulo 40

O Wolfwind seguiu o Rio Semath desde o Mar Estreito até o Castelo Araluen.
Foi uma visão espantosa para os moradores locais ver o navio deslizando, tranquilo e calmo, passando pelos campos e vilas até o interior. Os muitos fortes e fortalezas do rio, que normalmente impediriam tal avanço ao navio escandinavo, agora se submetiam ao fato de que o estandarte da princesa Cassandra, um falcão vermelho inclinado, se agitava no alto do mastro. Foi enviada uma mensagem sobre o progresso do navio para garantir que os comandantes locais reconhecessem o estandarte e soubessem que os viajantes subiam o rio em paz.
O fato também era novidade para Erak e sua tripulação.
Finalmente, eles percorreram a última curva do rio e ali, diante deles, estavam as elevadas pontas e torres do castelo Araluen. Erak respirou fundo maravilhado diante da visão. Ao observá-lo, Halt teve certeza de que, além da admiração que o castelo inspirava, o velho instinto de pirata do capitão entrou em ação calculando quantos tesouros o castelo poderia conter. Ele se aproximou do oberjarl e disse em voz baixa:
— Você não passaria nem da vala.
Surpreso, Erak se assustou e se virou para encarar o arqueiro. E sorriu um tanto arrependido.
— Era tão óbvio que eu estava pensando nisso? — ele perguntou, e Halt balançou a cabeça confirmando.
— Você não seria um escandinavo se não estivesse — o arqueiro ajuntou.
Cercado com bandeiras, em cima dele, um ancoradouro se projetava para o rio. Uma multidão esperava a chegada dos quatro araluenses. Ao verem o navio, as pessoas começaram a tocar cornetas e a dar vivas.
— Isso é inédito — Erak disse suavemente, fazendo Halt sorrir.
— E aquilo também — ele disse, apontando discretamente para um vulto alto e barbado parado um pouco atrás no ancoradouro e cercado por um séquito de damas e cavaleiros luxuosamente vestidos. — Aquele é o rei que veio lhe dar as boas-vindas, Erak.
— É mais provável que ele esteja aqui por causa da filha — o escandinavo respondeu.
Mas Halt notou que ele tinha ficado satisfeito com o fato.
Evanlyn já tinha visto o homem alto e estava parada na proa acenando entusiasmada. Os vivas vindos da margem redobraram quando o povo a viu e agora Duncan estava abrindo caminho para o ancoradouro a passos largos, quase correndo, não satisfeito em ficar atrás e preservar sua dignidade real.
— Remos! — Erak gritou, e os remadores levantaram os remos pingando água enquanto o navio deslizava suavemente ao longo do ancoradouro.
A tripulação escandinava passou as amarras para os que estavam na margem enquanto os dois grupos se examinavam mutuamente com profundo interesse. Era a primeira vez na história que araluenses e escandinavos ficavam frente a frente sem armas nas mãos. Will, com o rosto iluminado pela alegria do momento, saltou sobre a murada do navio enquanto Evanlyn corria para a entrada no meio do navio. Ela e o pai, com os corações cheios demais para falar, simplesmente sorriram um para o outro enquanto os marinheiros puxavam o navio para o ancoradouro. Então, as proteções de vime bateram e gemeram, e o navio ficou imobilizado. Svengal, com um largo sorriso no rosto, abriu a portinhola da balaustrada do navio e Evanlyn pulou nos braços do pai e enterrou o rosto em seu peito.
— Papai! — ela gritou uma só vez, a voz abafada pela camisa dele e pelos soluços que brotavam em sua garganta.
— Cassie! — ele murmurou o apelido carinhoso da filha desde que ela era um bebê, e os vivas aumentaram.
Duncan era um rei popular e o povo sabia quanta dor a perda da filha tinha causado a ele. Até os escandinavos estavam sorrindo diante da cena. Piratas rudes como eram, eles tinham um lado sentimental e valorizavam os laços de família.
Em meio a toda essa alegria e comemoração, apenas Halt ficou de fora. Seu rosto era uma máscara de dor e sofrimento e ele permaneceu discretamente junto do leme na popa do navio enquanto os demais corriam para a saída.
Duncan e Evanlyn, ou Cassandra, como o pai a conhecia, indiferentes aos que os cercavam, estavam abraçados. Will, observando a multidão, viu um vulto robusto nas fileiras atrás do rei: um homem de meia-idade que estava acenando animadamente para ele e gritava seu nome.
— Will! Seja bem-vindo em casa, garoto! Seja bem-vindo!
Por um momento, Will ficou surpreso, mas logo reconheceu o barão Arald: o homem que durante anos tinha sido uma figura com o rosto sério da autoridade. Agora lá estava ele, acenando e gritando como um estudante num feriado. Will desceu com facilidade pela prancha do ancoradouro e abriu caminho entre a multidão de simpatizantes do barão. Ele começou a fazer uma reverência formal quando o barão agarrou sua mão e a sacudiu com entusiasmo.
— Esqueça isso! Bem vindo a casa, rapaz! E parabéns! Muito bom! Meu Deus, pensei que nunca ia vê-lo outra vez! Não é mesmo, Rodney?
Ele falou isso para o cavaleiro que estava ao seu lado vestido com malha de ferro, e Will reconheceu sir Rodney, chefe da Escola de Guerra do Castelo Redmont. Ele percebeu que o cavaleiro estava ansiosamente procurando alguém entre os rostos no convés do navio.
— Sim, sim, meu senhor — ele concordou distraído.
Então agarrou o outro braço de Will e disse ansioso:
— Will, pensei que Horace estava com você. Não me diga que aconteceu alguma coisa a ele...
Atordoado, Will olhou para onde Horace estava apertando a mão da tripulação escandinava, despedindo-se dos amigos antes de descer a terra.
— Lá está ele — Will mostrou Horace para sir Rodney e teve a satisfação de ver o cavaleiro abrir a boca de surpresa.
— Meu Deus! Ele se transformou num gigante! — ele exclamou.
Então Horace reconheceu seu mentor e marchou rapidamente pela multidão, ficou em posição de sentido e fez continência com o punho no lado direito do peito.
— Aprendiz Horace se apresentando, chefe de guerra. Permissão para voltar ao serviço, senhor? — ele disse com energia.
Batendo continência, Rodney retribuiu o cumprimento.
— Permissão concedida, aprendiz.
Então, concluídas as formalidades, ele envolveu o musculoso aprendiz num abraço de urso e dançou com ele alguns passos constrangedores enquanto gritava:
— Que diabos, garoto, você nos deixou muito orgulhosos! E como foi que ficou tão alto assim?
Mais uma vez, a multidão aplaudiu deliciada. Então, de repente, todos ficaram em silencio e Will se virou para descobrir o motivo. Erak Starfollower, oberjarl dos escandinavos, estava desembarcando.
Instintivamente, os que estavam mais perto recuaram um pouco. Era difícil esquecer velhos hábitos. Will, não desejando que seu amigo fosse insultado, se moveu impulsivamente, mas outra pessoa na multidão foi mais rápida do que ele. Duncan, rei de Araluen, se aproximou para cumprimentar seu colega escandinavo com a mão estendida num gesto de amizade.
— Bem vindo a Araluen, oberjarl — ele disse. — E obrigado por trazer minha filha para casa em segurança.
E, ao dizer isso, os dois líderes trocaram um aperto de mão.
Em seguida, os vivas recomeçaram, desta vez para Erak e sua tripulação, fazendo-os olhar ao redor satisfeitos. Will pensou que isso iria dificultar um pouco a tarefa de saquear a região no futuro. Duncan deixou os aplausos continuarem por mais algum tempo e então ergueu a mão pedindo silêncio. Ele observou os rostos no cais e, ao não ver o que estava procurando, olhou para o navio.
— Halt — ele disse devagar, finalmente vendo o arqueiro envolto, como sempre, em sua capa de arqueiro, parado sozinho perto do grande leme.
O rei estendeu a mão e fez um gesto na direção das docas.
— Venha para terra, Halt. Você está em casa.
Mas Halt ficou parado, constrangido e incapaz de esconder a tristeza que sentia. Sua voz tremeu quando começou a falar, mas ele se recuperou e recomeçou.
— Majestade... ainda faltam três semanas para terminar o ano de expulsão — ele disse finalmente.
A multidão murmurou. Will, incapaz de se conter, reagiu totalmente surpreso.
— Expulsão? Você foi expulso? — ele disse sem acreditar.
Ele olhou para o rei. Era impensável que Halt, com sua inabalável lealdade para com Araluen e seu povo, tivesse sido expulso.
— Por quê? — ele quis saber.
A palavra ficou no ar. Duncan balançou a cabeça encerrando a questão.
— Algumas palavras descuidadas, isso foi tudo. Ele estava embriagado, e nós já esquecemos o que ele disse, e eu o perdoo. Por isso, pelo amor de Deus, homem, venha para a terra.
Mas Halt ficou onde estava.
— Majestade, nada me deixaria mais feliz. Mas o senhor deve cumprir a lei — ele disse em voz baixa.
Então outra pessoa concordou: lorde Anthony, o tesoureiro do rei.
— Halt está certo, majestade — ele afirmou.
Anthony era um homem de boas intenções, mas costumava ser um pouco exagerado quando se tratava de interpretar a lei.
— Afinal, ele disse que o senhor era o resultado de um encontro de seu pai com uma dançarina.
A multidão soltou murmúrios abafados.
— Obrigado por nos lembrar, Anthony — Duncan retrucou com um sorriso frio entre dentes semicerrados.
Mas uma gargalhada incontida estourou e a princesa Cassandra dobrou o corpo, gritando de uma forma nada real. Todos olharam para ela e, lentamente, a garota se recuperou o suficiente para falar.
— Peço desculpas a todos, mas, se vocês tivessem conhecido a minha avó, entenderiam por que meu avô pode ter ficado tentado! A vovó parecia um cachorro raivoso, e o temperamento dela combinava com a cara!
— Cassie! — o pai disse em tom desaprovador, mas ela estava segurando os lados do corpo e rindo outra vez, e ele não conseguiu evitar que um sorriso se formasse em seus lábios.
Então ele sentiu o olhar de crítica de lorde Anthony sobre ele, recobrou-se e cutucou Cassandra até que o riso se transformou numa serie de fungadelas e resfôlegos abafados. Contudo, o riso tinha sido contagioso e foi preciso algum tempo para que a multidão ali reunida voltasse à ordem. Durante todo esse tempo, Halt permaneceu parado no convés do navio.
— Certamente, Anthony, meus poderes me permitem perdoar Halt pelas últimas três semanas de sua sentença, não? — o rei perguntou ao tesoureiro num tom extremamente conciliador.
— Seria muito irregular, majestade — ele disse rígido e de cenho franzido. — Esse fato iria criar precedentes desastrosos na lei.
— Rei Duncan! — Erak trovejou e recebeu a atenção de todos no mesmo instante.
Ele percebeu que tinha falado com um pouco mais de veemência do que pretendia, ainda estava se acostumando a essas ocasiões formais. E continuou num tom mais moderado.
— Será que eu poderia pedir que o senhor concedesse o perdão a Halt como um gesto de boa vontade para selar o tratado entre nossos dois países?
— Ótima ideia! — Duncan resmungou.
Ele se virou rapidamente para lorde Anthony.
— E então? — ele perguntou.
O tesoureiro apertou os lábios pensativo. Ele nunca quis deixar de satisfazer os desejos do rei. Simplesmente tentava cumprir seu dever e obedecer a lei. Agora viu uma brecha e a agarrou agradecido.
— Esse pedido não criaria nenhum precedente, majestade — ele afirmou. — E, afinal, essa é uma ocasião muito especial.
— Pois então, que seja! — Duncan disse rapidamente e se virou para encarar a figura no navio — tudo bem, Halt, você está perdoado. Então, pelo amor de Deus, desembarque e vamos tomar alguma coisa para comemorar!
Halt, com lágrimas nos olhos, colocou os pés em solo araluense mais uma vez, depois de onze meses e cinco dias de expulsão. Quando ele desembarcou e ouviu os novos vivas da multidão, os que estavam perto dele viram outro homem vestido com uma capa cinza-esverdeada. Ele veio à frente e colocou uma coisa na mão de Halt.
— Acho que você vai precisar disto outra vez — disse Crowley, comandante do Corpo de Arqueiros.
E, quando Will olhou para a mão, viu uma corrente fina com a insígnia da Folha de Carvalho de prata.
Então ele soube que estava realmente em casa.

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