terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 3

Quando o navio deu a volta no cabo e atingiu a proteção da baía, as ondas fortes diminuíram de intensidade. Dentro do pequeno porto natural, o alto promontório rochoso quebrava a força do vento e das ondas e as águas eram calmas, e sua superfície era perturbada somente pelo rastro espumante deixado pelo navio.
— Estamos na Escandinávia? — Evanlyn perguntou.
Will deu de ombros sem saber a resposta. O lugar certamente não se parecia com o que ele esperava. Na praia, havia apenas algumas cabanas pequenas em ruínas, mas nenhum sinal de cidade ou de pessoas.
— Não parece muito grande, não é? — ele retrucou.
Svengal, enrolando um pedaço de corda com cuidado, riu da ignorância do rapaz.
— Isso não é a Escandinávia. Não estamos nem no meio do caminho. Aqui é Skorghijl.
Vendo o espanto no olhar dos garotos, ele continuou a explicação.
— Não podemos ir para a Escandinávia agora. Aquela tempestade no Mar Estreito nos atrasou tanto que os ventos de verão chegaram. Vamos nos abrigar aqui até que eles passem. É para isso que servem aquelas cabanas.
Will olhou com ar de dúvida para as cabanas de madeira estragadas pelo tempo. Elas pareciam frias e desconfortáveis.
— Quanto tempo isso vai levar? — ele perguntou, e Svengal deu de ombros.
— Seis semanas, dois meses. Quem sabe?
Ele se afastou com o rolo de corda no ombro e deixou os dois jovens explorarem a vizinhança.
Skorghijl era um lugar deserto e desagradável, com pedras nuas, penhascos íngremes de granito e uma pequena praia plana onde o sol e as cabanas esbranquiçadas pelo sal se amontoavam. Não havia árvores ou folhas verdes em nenhum lugar visível. As bordas dos penhascos estavam cobertas pelo branco da neve e do gelo. O resto eram pedras e argila, granito negro e cinza desbotado. Era como se os deuses adorados pelos escandinavos tivessem removido todos os vestígios de cor daquele pequeno mundo pedregoso.
Inconscientemente, não precisando mais lutar contra o constante ataque das ondas, os remadores diminuíram o ritmo. O navio deslizou pela baía até a praia. Erak, no leme, manteve a embarcação no canal que corria direto para o mar até que a quilha finalmente raspou na areia e eles ficaram imóveis pela primeira vez em dias.
Will e Evanlyn se levantaram com as pernas vacilantes depois de dias de movimento constante. Ouviu-se o barulho de madeira batendo em madeira quando os remos foram puxados e guardados dentro do navio. Erak enrolou uma tira de couro no leme para evitar que batesse com o movimento da maré e olhou rapidamente para os dois prisioneiros.
— Vão para a praia, se quiserem — ele sugeriu.
Não havia necessidade de amarrá-los ou vigiá-los de alguma maneira. Skorghijl era uma ilha com cerca de dois quilômetros de largura em seu ponto mais largo. Era esse porto natural perfeito que a tornava um refúgio para os escandinavos durante os ventos de verão: a costa da ilha era uma linha ininterrupta de penhascos íngremes que caíam no mar.
Will e Evanlyn foram até a proa do navio passaram pelos escandinavos que estavam descarregando barris de água e cerveja e sacos de comida desidratada dos espaços cobertos debaixo do convés central. Will passou por cima da amurada, ficou pendurado por alguns segundos e então pulou para a areia embaixo. Ali, com a proa inclinada para cima como se tivesse deslizado praia acima, havia uma altura considerável até as pedras. Ele se virou para ajudar Evanlyn, mas ela já estava saltando depois dele.
Os dois ficaram de pé hesitantes.
— Meu Deus — Evanlyn murmurou, sentindo-se balançar quando a terra firme debaixo dela pareceu girar e oscilar.
Ela tropeçou e caiu apoiada num dos joelhos.
Will não estava em melhor condição. Agora que o movimento constante tinha parado, a terra seca debaixo deles parecia ondular e virar, então ele se apoiou nas tábuas do barco para não cair.
— O que foi isso? — perguntou para Evanlyn.
Ele olhou para o chão debaixo dos pés, esperando ver a areia se movendo e formando montes e colinas, mas ela estava lisa e imóvel. Sentiu os primeiros sinais de náusea se juntando na boca do estômago.
— Tomem cuidado! — avisou uma voz acima deles, e um saco de carne seca caiu com estrondo nas pedrinhas do lado de Will.
Ele olhou para cima, balançando sem firmeza, e viu os olhares sorridentes de um membro da tripulação.
— Estranhando o balanço? — o marinheiro perguntou de um jeito simpático. — Em algumas horas vocês vão estar acostumados.
A cabeça de Will girava. Evanlyn tinha conseguido recuperar o equilíbrio. Ela ainda balançava, mas pelo menos não estava enjoada como Will.
— Venha — ela disse, segurando o braço dele. — Estou vendo uns bancos perto daquelas cabanas. A gente vai se sentir melhor quando sentar.
E, cambaleando, eles tropeçaram pela areia molhada até as mesas e os bancos rústicos de madeira colocados do lado de fora das cabanas.
Agradecido, Will se deixou cair num deles, segurou a cabeça nas mãos e apoiou os cotovelos nos joelhos. Gemeu aflito quando outra onda de náusea tomou conta dele. Evanlyn estava se sentindo um pouco melhor.
— O que está causando isso? — ela perguntou preocupada, dando-lhe tapinhas no ombro.
— Isso acontece quando se esteve a bordo de um navio por alguns dias.
Jarl Erak tinha se aproximado deles por trás. Ele tinha um saco de provisões pendurado no ombro e o colocou no chão do lado de fora de uma das cabanas, grunhindo de leve com o esforço.
— Por algum motivo, as pernas parecem pensar que você ainda está no convés do navio. Ninguém sabe por quê. Isso dura só algumas horas e então você vai se sentir muito bem.
— Acho que nunca mais vou me sentir bem — Will gemeu com voz rouca.
— Vai, sim — Erak garantiu. — Acendam uma fogueira — ele disse bruscamente, mostrando com o polegar uma pilha de pedras escurecidas a poucos metros da cabana mais próxima. — Você vai se sentir melhor com uma comida quente.
Will gemeu quando ouviu falar de comida. Mesmo assim, levantou-se vacilante do banco e pegou a pedra de fogo que Erak lhe oferecia. Ele e Evanlyn foram até o local em que deveriam acender a fogueira. Do lado, havia uma pilha de madeira seca pelo sol e pelo sal. Algumas das tábuas estavam quebradiças o bastante para serem partidas com as mãos, e Will começou a formar uma pirâmide com os pedaços em meio ao círculo de pedras.
Evanlyn, por sua vez, reuniu pedaços de musgo seco para ajudar a fazer o fogo pegar. Em 5 minutos, eles tinham acendido uma pequena fogueira cujas chamas lambiam avidamente os pedaços maiores de madeira que agora juntavam ao fogo.
— Como nos velhos tempos — Evanlyn murmurou com um pequeno sorriso.
Will se virou rapidamente para ela, devolvendo o sorriso. Ele viu claramente a ponte de Morgarath surgir acima deles outra vez, e as chamas que eles tinham produzido se alimentando vorazmente das cordas cobertas de piche e tábuas de pinho cheias de resina. Suspirou profundamente. Se pudesse, faria tudo de novo, mas preferia que Evanlyn não estivesse envolvida, que ela não tivesse sido capturada com ele.
Então, mesmo enquanto desejava isso, percebeu que ela era a única fonte de luz em sua vida de amargura naquele momento e que, ao desejar que ela estivesse longe, desejava afastar a única centelha de alegria e normalidade em seus dias.
Ele se sentiu confuso. Num momento de extrema surpresa, ele se deu conta de que, caso Evanlyn não estivesse ali, quase não valeria a pena viver. Ele se virou e tocou a mão dela levemente. Evanlyn olhou para ele outra vez e, dessa vez, Will foi o primeiro a sorrir.
— Você faria isso de novo? — ele perguntou. — Sabe, a ponte e todo o resto?
Ela não devolveu o sorriso, apenas ficou muito pensativa por vários minutos.
— Faria, sim, e você?
Will fez que sim com a cabeça e suspirou outra vez pensando em tudo o que tinha deixado para trás.
Sem que os jovens percebessem, Erak tinha ouvido o diálogo e fez um leve gesto de cabeça. Era bom que os dois tivessem a amizade um do outro. A vida ia ser difícil para eles quando chegassem a Hallasholm e à corte de Ragnak. Eles seriam vendidos como escravos e levariam uma vida de trabalho braçal pesado, sem descanso e sem liberdade. Seria um dia difícil depois do outro, mês após mês, ano após ano. Uma pessoa que vivesse desse jeito precisaria de um amigo.
Seria demais dizer que Erak gostava dos dois jovens, mas eles tinham conquistado o respeito dele. Os escandinavos eram uma raça guerreira que valorizava a coragem e a dedicação à batalha acima de tudo, e tanto Will quanto Evanlyn tinham provado sua coragem quando destruíram a ponte de Morgarath. O garoto era um lutador. Ele tinha derrubado os Wargals como pinos de boliche com seu pequeno arco. Erak raramente tinha visto um atirador mais rápido e certeiro e adivinhou que isso era resultado do treinamento como arqueiro.
E a menina também tinha mostrado muita coragem, primeiro ao garantir que o fogo estivesse bem aceso na ponte e depois, quando Will foi finalmente derrubado por uma pedra jogada por um dos escandinavos, ao tentar ela mesma pegar o arco e continuar atirando.
Era difícil não sentir compaixão por eles. Os dois eram muito jovens e tinham muita coisa para viver no futuro. Ele tentaria facilitar as coisas para eles o máximo possível quando chegassem a Hallasholm. Mas não havia muito o que pudesse fazer. Ele balançou a cabeça zangado, afastando o humor sombrio que tinha tomado conta dele.
— Estou ficando muito sensível! — resmungou para si mesmo.
Erak percebeu que um dos remadores estava tentando tirar um pedaço de carne de porco do saco às escondidas. Em silêncio, aproximou-se do homem por trás e lhe deu um violento chute no traseiro, fazendo que se esparramasse no chão.
— Mantenha suas mãos leves longe disso! — vociferou.
Então, abaixando a cabeça para passar pela porta, entrou na cabana escura que cheirava a fumaça para pegar a melhor cama para ele.

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