terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 3

O céu estava pesado, com nuvens de chuva sombrias. Em algum lugar, o sol devia estar nascendo, mas ali não havia sinal dele, apenas uma luz cinzenta e sem brilho que atravessava as nuvens e, aos poucos, hesitante, enchia o céu.
Quando o pequeno grupo subiu a última colina, deixando o contorno maciço do Castelo Redmont para trás, o novo dia finalmente cedeu às nuvens e começou a cair uma fria chuva de primavera. Ela era leve, mas persistente, e cobria tudo de névoa. No início, escorria pelas capas de lã dos cavaleiros, mas por fim começou a encharcar o tecido. Depois de cerca de vinte minutos, os três estavam encolhidos nas selas e tentavam aquecer o corpo da melhor forma possível.
Gilan se virou para os dois companheiros enquanto avançavam com dificuldade de olhos baixos e encolhidos sobre os pescoços dos cavalos. Ele sorriu para si mesmo e então se dirigiu a Horace, que estava ficando ligeiramente para trás ao lado do pônei de carga conduzido por Gilan.
— E aí, Horace, estamos proporcionando bastante aventura para você até agora?
Horace enxugou o rosto molhado de chuva que não o deixava enxergar bem e sorriu tristemente.
— Menos do que eu esperava, senhor. Mas ainda é melhor do que os exercícios.
Gilan assentiu e sorriu para ele.
— Imagino que seja mesmo. Você sabe que não precisa andar aí atrás — ele acrescentou com gentileza. — Nós, arqueiros, não somos muito de cerimônia. Venha e fique com a gente.
Ele cutucou Blaze com o joelho, e o cavalo baio se afastou para abrir espaço. Ansioso, Horace fez seu cavalo avançar para cavalgar ao lado dos dois arqueiros.
— Obrigado, senhor — ele disse.
Gilan fez um gesto para Will.
— Educado, não? — ele perguntou divertido. — Pelo jeito, eles sabem como ensinar boas maneiras na Escola de Guerra atualmente. É bom ser chamado de “senhor” o tempo todo.
Will sorriu com a brincadeira. Mas o sorriso desapareceu de seu rosto quando Gilan, pensativo, continuou:
— Não é nada ruim quando mostram um pouco de respeito. Talvez você também deva me chamar de senhor — ele disse e virou o rosto para observar a fileira de árvores do lado da estrada, para que Will não pudesse ver o leve sorriso que insistia em aparecer.
Aborrecido, Will tentou engolir a resposta. Ele não acreditava no que estava ouvindo.
— Senhor? — ele disse finalmente. — Você quer mesmo que eu o chame de senhor, Gilan?
Então, quando Gilan olhou para ele com a testa levemente franzida, ele ajuntou rapidamente muito confuso:
— Quero dizer, senhor! Você quer que o chame de senhor... senhor?
— Não — Gilan respondeu. — Acho que senhor-senhor não é adequado. Nem mesmo “senhor Gilan”. Acho que só “senhor” ficaria muito bem, você não concorda?
Will não conseguia pensar numa forma educada de dizer o que estava pensando e fez um gesto com as mãos, sem saber o que fazer. Gilan continuou.
— Afinal, vai ser bom para que a gente se lembre de quem manda neste grupo, não é mesmo?
Finalmente, Will conseguiu falar.
— Bom, acho que sim, Gil... quer dizer, senhor.
Will balançou a cabeça surpreso com essa súbita exigência de formalidade por parte do amigo. Cavalgou em silêncio por alguns minutos e então ouviu um espirro explosivo ao seu lado quando Horace tentou, sem sucesso, conter o riso. Will olhou para ele e depois, desconfiado, se virou para Gilan.
O jovem arqueiro estava sorrindo abertamente, olhando para o aprendiz e sacudindo a cabeça num falso arrependimento.
— Brincadeira, Will. Brincadeira.
Will percebeu que tinham lhe pregado uma peça novamente e, desta vez, com o total conhecimento de Horace.
— Eu... sa-bia — ele disse constrangido e falando devagar para mostrar indiferença.
Horace riu alto e, desta vez, Gilan o acompanhou.


Eles viajaram o dia todo para o sul e finalmente acamparam ao pé da primeira fileira de montanhas na estrada para Céltica. Perto do meio-dia, a chuva tinha lentamente começado a diminuir, mas o chão ao redor deles ainda estava encharcado.
Os três procuraram lenha seca debaixo das árvores de folhagem mais espessa e aos poucos reuniram o suficiente para uma pequena fogueira. Todos comeram trocando experiências num clima de amizade.
Horace, contudo, ainda mostrava um pouco de temor respeitoso pelo jovem e alto arqueiro. Will acabou por perceber que, quando Gilan o provocava, estava tentando deixar Horace à vontade, certificando-se de que ele não se sentisse deixado de lado. Will se deu conta de que se apegava ainda mais do que antes ao antigo aprendiz de Halt. Pensativo, chegou à conclusão de que ainda tinha muito a aprender sobre como lidar com as pessoas. Will sabia que ainda enfrentaria pelo menos outros quatro anos de treinamento antes de terminar seu aprendizado. Depois, certamente iria cumprir missões secretas, obter informações sobre os inimigos do reino e, talvez, guiar membros do exército. Assim como Halt tinha feito.
O pensamento de que um dia teria de contar com a própria capacidade e inteligência ainda era assustador. Will se sentia seguro na companhia de arqueiros experientes como Halt e Gilan. Uma tranquilizadora aura de conhecimento e capacidade os cercava, e o garoto se perguntou se algum dia seria capaz de assumir seu lugar ao lado deles.
Naquele exato momento, ele duvidava disso.
Will suspirou. Às vezes parecia que a vida fazia questão de ser confusa. Menos de um ano antes, ele era um órfão desconhecido e sem nome protegido do Castelo Redmont. Desde então, começara a aprender as técnicas usadas pelos arqueiros e tinha conquistado a admiração e os elogios de todo o Feudo Redmont quando ajudou o barão, sir Rodney e Halt a derrotar as terríveis bestas conhecidas como Kalkaras.
Ele olhou para Horace, o inimigo de infância que tinha se tornado um amigo, e se perguntou se ele vivia o mesmo conflito desconcertante de emoções. A recordação dos dias que passaram juntos no castelo o fez se lembrar dos outros amigos, George, Jenny e Alyss, agora aprendizes de outros chefes de ofício. Ele gostaria de ter tido tempo de se despedir dos amigos antes de partir para Céltica.
Especialmente de Alyss.
Ele se mexeu inquieto quando pensou nela. Alyss o tinha beijado naquela noite, na pousada, e ele ainda se lembrava do suave toque dos seus lábios.
“Sim”, ele pensou, “especialmente Alyss.”
Do outro lado da fogueira do acampamento, Gilan observou Will com olhos semicerrados. Ele sabia que não era fácil ser aprendiz de Halt. O arqueiro era uma figura quase lendária que colocava uma carga pesada em todos os seus alunos. Havia muitas expectativas a concretizar. Ele decidiu que Will precisava se distrair um pouco.
— Certo! — ele disse e se levantou de um pulo. — Lições!
Will e Horace olharam um para o outro.
— Lições? — Will repetiu num tom de voz suplicante.
Depois de um dia na sela, ele só queria saber de dormir.
— Isso mesmo — Gilan disse satisfeito. — Apesar de estarmos numa missão, cabe a mim ensinar vocês dois.
— Ensinar o quê? — Horace perguntou confuso. — Por que eu deveria aprender técnicas usadas pelos arqueiros?
Gilan pegou a espada e a bainha presas à sela e tirou a lâmina fina e brilhante do estojo de couro. A espada sibilou e pareceu dançar na trêmula luz do fogo.
— Técnicas de arqueiros, não, garoto. Técnicas de combate. Deus sabe que precisamos de espadas bem afiadas o mais depressa possível. Você sabe que uma guerra está para começar.
Com um olhar crítico, ele observou o garoto corpulento sentado à sua frente.
— Agora, vamos ver o que você sabe fazer com esse palito de dente que está usando.
— Ah, está bem! — Horace concordou parecendo um pouco mais satisfeito com o rumo dos acontecimentos.
Ele nunca se importou em praticar um pouco de esgrima e sabia que não era uma técnica aprendida pelos arqueiros. Puxou a espada com confiança e se posicionou na frente de Gilan, com a ponta da arma educadamente virada para o chão. Gilan enfiou a ponta da própria espada na terra macia e estendeu a mão para Horace.
— Posso ver isso, Horace? — ele pediu.
Horace concordou e entregou a arma com o punho voltado para Gilan.
— Está vendo, Will? É isso o que se procura numa espada.
Will olhou desinteressado para o objeto. Para ele, parecia uma espada comum. A lâmina era simples e reta, o punho era de aço revestido de couro e a cruzeta era um pedaço grosso de bronze. Ele deu de ombros.
— Não parece especial — ele disse num tom de desculpas, sem querer ferir os sentimentos de Horace.
— Não é a aparência delas que importa — Gilan retrucou. — É a sensação que passa. Esta aqui, por exemplo. Ela é bem equilibrada, e você pode agitar ela o dia todo sem ficar cansado demais; e a lâmina é leve, mas forte. Já vi lâminas duas vezes mais grossas cortadas ao meio por um bom golpe de porrete. As sofisticadas, com gravações, incrustações e joias, também — ele acrescentou com um sorriso.
— Sir Rodney diz que joias no punho de uma espada são apenas peso desnecessário — Horace respondeu, e Gilan concordou com um gesto de cabeça.
— E mais, elas costumam encorajar as pessoas a atacar você para roubar as joias — contou.
Então, com atitude professoral outra vez, devolveu a espada de Horace e pegou a dele.
— Muito bem, Horace, vimos que a espada é de boa qualidade. Vamos ver o dono.
Horace hesitou sem saber ao certo o que Gilan pretendia.
— Senhor? — ele disse sem jeito.
Gilan fez um gesto na direção de si mesmo com a mão esquerda.
— Me ataque — ele disse alegre. — Dê um golpe, invista contra mim. Arranque minha cabeça.
Sem saber o que fazer, Horace continuou parado. A espada de Gilan não estava em posição de guarda. Ele a segurava negligentemente na mão direita com a ponta voltada para baixo. Horace fez um gesto desamparado.
— Vamos, Horace — Gilan chamou. — Não vamos esperar a noite toda. Mostre o que sabe fazer.
Horace virou a ponta da própria espada para o chão.
— Mas, senhor, eu sou um guerreiro treinado — ele disse.
Gilan pensou nisso e assentiu.
— É verdade. Mas você vem treinando há menos de um ano. Acho que não vai arrancar muitos pedaços de mim.
Horace olhou para Will em busca de apoio. O amigo apenas deu de ombros. Ele supôs que Gilan sabia o que estava fazendo, mas não o conhecia há muito tempo e nunca o tinha visto empunhar a espada, muito menos usá-la. Gilan balançou a cabeça fingindo desespero.
— Vamos lá, Horace! — ele repetiu.
Relutante, Horace deu um golpe desanimado em Gilan. Naturalmente, ele estava preocupado com o fato de não ser suficientemente experiente para controlar o golpe e acabar ferindo o arqueiro, caso conseguisse derrubar a defesa do rapaz. Gilan nem mesmo levantou a espada para se proteger. Em vez disso, oscilou tranquilamente para o lado, e a lâmina de Horace passou longe dele sem feri-lo.
— Vamos! — ele disse. — Ataque com vontade!
Horace respirou fundo e desferiu um golpe vigoroso em Gilan.
Para Will, que via a cena, aquilo foi como poesia.
Era parecido com uma dança ou com o movimento da água correndo sobre pedras lisas. A espada de Gilan, aparentemente impelida só por seus dedos e seu pulso, agitou-se no ar num arco cintilante para interceptar o golpe de Horace. Ouviu-se um som metálico, e Horace parou surpreso. A defesa fez sua mão tremer até o ombro. Gilan olhou para ele com as sobrancelhas levantadas.
— Assim está melhor — ele disse. — Tente outra vez.
E Horace obedeceu. Cortadas, golpes por cima, giros completos com o braço. A cada vez, a espada de Gilan disparava para bloquear o golpe com um estrépito agudo. Horace desferia golpes cada vez mais fortes e rápidos. O suor caía em sua testa, e sua camisa estava encharcada. Agora ele não pensava em tentar não ferir Gilan. Cortava e investia livremente e tentava romper a defesa impenetrável do oponente.
Finalmente, quando a respiração de Horace ficou entrecortada, Gilan mudou os movimentos de bloqueio, que tinham sido tão eficientes contra o ataque vigoroso do rapaz. Sua espada se chocou contra a de Horace e então descreveu um pequeno movimento circular, fazendo que sua lâmina ficasse por cima. Em seguida, com um barulho forte, Gilan deslizou a lâmina ao longo da de Horace, obrigando a ponta da espada do aprendiz a se virar para o chão. Quando a ponta tocou a terra úmida, Gilan rapidamente pôs o pé sobre ela e a prendeu.
— Certo, isso é suficiente — ele disse com calma.
No entanto, seus olhos continuaram fixos nos de Horace, pois o arqueiro queria ter certeza de que o garoto percebera que a sessão de prática tinha terminado. Gilan sabia que, às vezes, no calor do momento, o espadachim perdedor podia tentar dar apenas mais um golpe, enquanto, para o oponente, a luta já chegara ao fim.
E então, na maioria das vezes, chegava mesmo.
Ele viu que Horace estava atento, recuou um pouco e em seguida se afastou depressa para fora do alcance de sua espada.
— Nada mal — Gilan disse em tom aprovador.
Mortificado, Horace deixou a espada cair na terra.
— Nada mal? — ele exclamou. — Foi terrível! Nem consegui chegar perto da... — Horace hesitou.
De alguma forma, não parecia educado admitir que durante os últimos três ou quatro minutos ele tinha tentado arrancar a cabeça de Gilan.
— Não consegui derrubar sua defesa nenhuma vez — ele finalmente confessou.
— Bem — Gilan disse com modéstia — você sabe que já fiz esse tipo de coisa antes.
— Sim — Horace respondeu sem fôlego. — Mas você é um arqueiro, todos sabem que arqueiros não usam espadas.
— Pelo que parece, esse usa — Will disse sorrindo.
Horace, cansado e derrotado, devolveu o sorriso.
— É, acho que você tem razão — ele se virou respeitosamente para Gilan. — Posso perguntar onde você aprendeu a usar a espada, senhor? Nunca vi nada parecido.
— Aí vem você de novo com esse “senhor” — Gilan retrucou zombando. O meu mestre foi um velho homem. Um morador do norte chamado MacNeil.
— MacNeil! — Horace sussurrou admirado. — Você não está falando “daquele” MacNeil, está? MacNeil, de Bannock?
— Esse mesmo — Gilan respondeu. — Então você ouviu falar dele?
— Quem não ouviu falar de MacNeil? — Horace replicou com respeito.
E, nesse momento, Will, cansado de não saber o que estava acontecendo, decidiu falar.
— Bom, eu nunca ouvi — ele contou. — Mas vou fazer um chá se alguém me contar a história dele.

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