terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 37

Evanlyn estava se concentrando muito. A ponta de sua língua se espichava entre os dentes e ela franzia um pouco a testa quando começou a cortar o pedaço de couro macio na forma correta.
Ela não podia cometer erros. Tinha encontrado o pedaço de couro no estábulo e havia apenas o suficiente para o propósito que tinha em mente. Ele era macio, flexível e fino. Havia outros objetos entre os arreios, mas eles estavam secos e duros. Aquele era o pedaço de que precisava.
Evanlyn estava fazendo um estilingue.
Finalmente tinha desistido de tentar a aprender a manejar o arco. Quando conseguisse atingir alguma coisa, ela e Will já estariam mortos de fome há muito tempo. Ser criada como princesa tinha grandes desvantagens. Ela sabia fazer trabalhos de costura e bordado delicados, apreciar um bom vinho e ser anfitriã de um jantar para 12 nobres e suas esposas. Ela sabia organizar o trabalho dos empregados e ficar sentada, por horas, de costas eretas e aparentemente atenta durante as cerimônias oficiais mais aborrecidas.
Todas habilidades valiosas no lugar certo, mas nenhuma delas era muito útil na atual situação. Desejou ter passado algumas horas aprendendo os rudimentos do manejo do equipamento dos arqueiros. Ela admitiu aborrecida que o arco estava além de sua capacidade.
Mas um estilingue! Aquela era uma questão diferente. Quando criança, ela e dois primos tinham feito estilingues e passeavam pelos bosques fora do Castelo Araluen atirando pedras em alvos aleatórios.
Ela também se lembrava de que tinha boa pontaria. No seu décimo aniversário, para seu grande desapontamento, o pai tinha decidido que era tempo de a filha parar de ser um moleque e começar a aprender a se comportar como uma dama. Os passeios e os tiros de estilingue pararam. Os bordados e o treinamento como anfitriã começaram.
Ainda assim, pensou que, com um pouco de prática, provavelmente se lembraria de algumas técnicas que lhe serviriam naquele momento.
Evanlyn sorriu um pouco, lembrando daqueles dias privilegiados no Castelo Araluen. Eles estavam a séculos de distância de tudo aquilo. Ela pensou com ironia que atualmente tinha aprendido novas habilidades. Ela conseguia arrastar um pônei na neve que chegava aos quadris, dormir no chão duro, tomar muito menos banhos do que uma sociedade educada iria achar adequado e, com alguma sorte, até matar, limpar e cozinhar a própria comida.
Isso, é claro, se conseguisse montar o bendito estilingue. Ela moldou o pedaço de couro macio em volta de uma grande pedra redonda, embrulhando a pedra nele e puxando o couro macio de forma a criar uma bolsa. Repetiu o procedimento várias vezes, forçando o couro a tomar a forma da pedra. Suas mãos estavam começando a doer com o esforço e ela pareceu se lembrar de que, quando criança, os criados tinham feito essa parte para ela.
— Não sou muito útil, sou? — perguntou para si mesma.
Na verdade, ela estava subestimando as habilidades que possuía. Suas reservas de coragem, determinação e lealdade eram enormes, assim como sua criatividade. Ao contrário de alguém criado naquelas condições, ela nem sempre encontrava a melhor forma de resolver seus problemas. Mas, de alguma forma, encontrava uma saída. Ela nunca desistia. E era essa firmeza de propósitos e capacidade de adaptação que fariam dela uma grande governante, caso algum dia voltasse a Araluen.
Ela ouviu um barulho atrás de si e se virou. Seu coração ficou apertado no peito quando viu Will parado ao seu lado. O olhar dele estava vazio, a expressão perdida. Por um terrível momento, pensou que ele estava querendo outra dose de erva e sentiu uma forte onda de medo. Fazia duas semanas que tinha usado a droga pela última vez e quando lhe tinha dado aquela porção, a bolsa ficara praticamente vazia. Não tinha ideia do que iria acontecer na próxima vez que a necessidade surgisse.
Assim, misturado com uma esperança desesperada e crescente de que talvez ele estivesse curado do vício, Evanlyn vivia o tempo todo com o constante medo de que ele fosse pedir mais. Desde o dia em que ele tinha desamarrado o arco, ela tinha procurado outros sinais de consciência ou memória nele. Mas tinha sido em vão.
Will apontou para a jarra de água no banco e ela suspirou aliviada. Evanlyn lhe serviu uma caneca de água e ele se afastou, arrastando os pés, com a mente ainda presa naquele lugar longínquo que apenas os viciados conhecem. Ele não estava curado, mas o momento que ela temia tinha sido adiado um pouco mais.
As lágrimas fizeram os olhos de Evanlyn se turvarem. Ela as secou e voltou ao trabalho. Um pouco antes, ela tinha cortado duas tiras compridas da mochila e as prendeu em cada um dos lados da bolsa. Ela colocou a pedra na bolsa e balançou o estilingue. Fazia muito tempo, mas a sensação era vagamente familiar. O peso da pedra era confortável e ela se aninhava com segurança na bolsa.
Ela olhou para Will. Ele estava de olhos fechados encolhido contra a parede da cabana, perdido para o mundo. Podia ficar assim durante horas.
— Não faz sentido perder mais tempo — disse a si mesma. — Vou caçar, Will. Vou demorar um pouco — ela avisou o companheiro.
Evanlyn reuniu um suprimento de pedras e saiu. Suas tentativas anteriores com o arco lhe ensinaram que os animais selvagens locais, agora que a cabana estava habitada, costumavam ficar bem afastados. Ela pensou que eram experiências desagradáveis do passado, e que certamente nada tinham a ver com suas tentativas de caça. Enquanto andava, aproveitou a oportunidade para treinar sua técnica e colocou uma pedia no estilingue, puxando-o para trás até ouvir um zunido, e então o soltou para atingir uma das árvores próximas.
Primeiro, os resultados não foram nada encorajadores. A velocidade era boa, mas a pontaria estava péssima. Mas, porque continuou a praticar, a velha habilidade começou a voltar. As pedras que atirava bateram nos alvos várias vezes.
Ela teve resultados ainda melhores quando carregou duas pedras no estilingue, dobrando suas chances de acerto. Por fim, sentindo que estava preparada, continuou a andar na direção da clareira perto do riacho, onde tinha visto coelhos se alimentando e tomando sol nas rochas aquecidas.
Evanlyn estava com sorte. Um grande coelho de olhos fechados estava sentado nas rochas, agitando as orelhas e o focinho enquanto se esquentava deitado no calor da pedra aquecida pelo sol.
Ela sentiu um arrepio de satisfação ao carregar duas das pedras maiores no estilingue e começou a ajeitá-lo acima da cabeça. O som surdo e sussurrante aumentou à medida que as pedras ganharam velocidade e o coelho abriu os olhos ao ouvi-lo. Mas ele não percebeu nenhum perigo e permaneceu onde estava. Evanlyn viu os olhos dele se abrirem e resistiu à tentação de atirar no mesmo instante. Ela deixou o estilingue girar mais duas ou três vezes e então soltou a ponta, acompanhando o movimento com o braço, direto para o alvo.
Talvez tenha sido sorte de iniciante, mas as duas pedras atingiram o coelho com toda a força. A maior delas quebrou a pata traseira e, quando ele tentou escapar, mancou desajeitadamente na neve. Evanlyn, impelida pela força da vitória, atravessou a clareira, agarrou o animal que lutava pela vida e torceu o pescoço dele para acabar com o sofrimento.
A carne fresca seria um complemento bem-vindo à sua pobre dieta. Entusiasmada pelo sucesso, decidiu que poderia tentar outro local de caça e verificar se a sorte iria continuar. Dois coelhos certamente seriam melhores do que um.
Ela se moveu com cuidado e a neve macia debaixo de seus pés a ajudou a avançar sem ser ouvida. À medida que se aproximava da outra clareira, começou a andar com mais cuidado, pisando com atenção e garantindo que, depois de empurrar três galhos para passar, eles voltassem à posição inicial sem barulho.
É quase certo que seu cuidado exagerado salvou sua vida.
Ela estava para sair das árvores quando o sexto sentido a fez hesitar. Alguma coisa estava errada. Ela tinha ouvido ou sentido algo que estava fora do lugar ali. Recuou, ficou nas sombras atrás das árvores e esperou para ver se conseguia identificar a causa de sua inquietação. Então ouviu o barulho de novo e desta vez o reconheceu. Era a batida macia dos cascos de um cavalo na neve espessa que ainda cobria o chão.
Com a boca seca e o coração acelerando de repente, Evanlyn ficou paralisada. Ela se lembrou das instruções de Will em Skorghijl.
Ainda estava escondida de todos e de tudo na clareira. Os pinheiros cresciam juntos uns dos outros e o sol do meio-dia jogava sombras escuras entre as árvores. Os cabelos de sua nuca ficaram arrepiados enquanto ela ficou ali parada, imóvel. Seus olhos dispararam de um lado para outro, esforçando-se para ver entre as manchas alternadas de neve brilhante iluminada pelo sol e as sombras profundas. Em seguida, ouviu o leve resfolegar de um cavalo e soube que não tinha se enganado. Do outro lado da clareira, uma nuvem de vapor estava suspensa no ar e, enquanto a observava, viu o cavalo e o cavaleiro surgirem das sombras escuras.
Durante um breve momento, sentiu uma onda de alegria ao pensar que se tratava de Puxão, o cavalo de arqueiro de Will. Pequeno, robusto e com pelo desgrenhado, era pouco maior que um pônei. Quando o viu, quase deu um passo à frente para a luz do sol, mas então, no momento exato, parou ao ver o cavaleiro.
Ele usava peles de animal, um chapéu também de pele achatado e um arco pequeno no ombro. Ela viu o rosto com bastante clareza: pele morena e maltratada pelo frio e maxilares altos e salientes que faziam os olhos acima deles parecerem um pouco mais que frestas. Ele era pequeno e atarracado como o cavalo, e algo nele transmitia uma sensação de perigo. Ele virou a cabeça e olhou para as árvores à direita e Evanlyn aproveitou a oportunidade para recuar ainda mais no esconderijo oferecido pela floresta. Satisfeito por não haver ninguém observando, o cavaleiro fez o cavalo dar alguns passos para o centro da clareira.
Ele parou ali e seus olhos pareceram atravessar as sombras até onde estava a garota: escondida atrás do tronco áspero de um enorme pinheiro. Durante alguns segundos assustadores, ela pensou que tinha sido vista. Mas então o cavaleiro tocou o flanco do cavalo com o calcanhar de uma das botas enfeitadas com pele de animal e saiu trotando rapidamente da clareira para dentro do bosque.
Ele desapareceu num instante, o único sinal de sua presença eram as nuvens de vapor que pendiam no ar congelante deixadas pela respiração quente do animal.
Durante vários minutos, Evanlyn ficou encolhida de encontro ao pinheiro, temendo que o cavaleiro voltasse de repente. Então, muito tempo depois que o ruído surdo provocado pelos cascos do cavalo na neve tinha desaparecido, ela se virou e correu de volta para a cabana.


Will tinha dormido.
Ele despertou devagar, a consciência tomando conta dele aos poucos enquanto percebia que estava sentado no chão duro de madeira. Ele abriu os olhos e franziu a testa diante do ambiente desconhecido. Estava numa pequena cabana em que a luz brilhante do sol do Final de inverno passava por uma janela sem vidros e formava um quadrilátero alongado no chão, mais largo na base do que no topo.
Atordoado, ainda meio adormecido, ele se levantou, sentindo que por algum motivo tinha dormido sentado no chão e recostado numa das paredes. Ele se perguntou por que teria escolhido esse lugar, quando podia ver que a cabana tinha uma cama rústica e duas cadeiras. Ao se levantar lentamente, alguma coisa caiu com ruído de seu colo para o chão. Ele olhou para baixo e viu um pequeno arco de caça. Curioso, o apanhou e examinou.
Era uma arma pouco potente não recurvada e com os braços compridos e pesados de um arco longo, útil para caçar animais pequenos e coisas semelhantes. Ele se perguntou onde estaria o arco dele. Ele não se recordava de ser dono daquele brinquedo.
Então se lembrou. O arco não estava mais com ele, pois tinha sido tomado pelos escandinavos na ponte. E, à medida que a memória voltava, outras imagens apareciam: a fuga pelos pântanos e brejos quando prisioneiro dos escandinavos; a viagem pelo mar de Stormwhite no navio de Erak; o porto em Skorghijl, onde tinham se protegido da pior tempestade da estação, e a viagem para Hallasholm.
E então... então, nada.
Ele puxou pela memória, tentando se lembrar de alguma coisa que tinha acontecido depois de terem chegado à capital escandinava. Mas não havia nada ali. Nada além de uma parede vazia que desafiava todos os seus esforços para penetrá-la.
De repente, foi tomado pelo medo. Evanlyn! O que tinha acontecido tom ela? Ele lembrou, como que em meio a um nevoeiro, que havia um grande perigo envolvendo a amiga. Sua identidade nunca deveria ser revelada aos captores. Eles tinham realmente chegado a Hallasholm? Se tivessem chegado, Will tinha certeza de que se lembraria. Mas onde estava a garota loira de olhos verdes que tinha passado a significar tanto para ele? Será que ele a tinha traído por descuido? Teria ela sido morta pelos escandinavos?
Um vallasvow! Agora ele lembrava. Ragnak, oberjarl dos escandinavos, tinha jurado vingança a todos os membros da família real de Araluen. E Evanlyn era, na verdade, Cassandra, princesa do reino. Numa agonia de incerteza e perda de memória, Will bateu com os punhos na testa, tentando lembrar, tentando se tranquilizar e se convencer de que Evanlyn não tinha sofrido por causa de alguma falha dele.
E então, no momento em que pensava nela, a porta da cabana se abriu nas dobradiças de couro e ela estava lá, emoldurada pela luz forte do sol que se refletia da neve, incrivelmente linda como sempre lembraria que ela era, não importava quanto tempo vivesse ou com que idade estivesse.
Will andou na direção dela com um sorriso de completo alívio iluminando seu rosto, estendeu as mãos para ela, que ficou parada, sem palavras, olhando para ele como se fosse um fantasma.
— Evanlyn! — ele disse. — Graças a Deus você está bem!
E, ao dizer isso, ele se perguntou por que os olhos dela tinham ficado úmidos e por que seus ombros se sacudiam enquanto as lágrimas escorriam incontroláveis pelo seu rosto.
Afinal, para ele não havia motivo para chorar.

Epílogo
Halt e Horace desceram com cuidado o caminho sinuoso que saía do Château Montsombre. Nenhum dos dois falava, mas ambos sentiam a mesma e intensa satisfação. Estavam na estrada novamente. O pior do inverno já tinha passado e, quando chegassem à fronteira, as passagens para a Escandinávia estariam abertas.
Horace olhou para trás uma vez para ver o prédio sombrio onde ficaram presos por tantas semanas e protegeu os olhos com a mão para enxergar melhor.
— Halt — ele chamou — olhe aquilo.
Halt fez Abelard parar e se virou. Havia uma fina coluna de fumaça cinzenta se levantando da fortaleza do castelo e, enquanto observavam, ela ficou mais espessa e negra. Vagamente, ouviram os gritos dos homens de Philemon enquanto corriam para combater o fogo.
— Parece que alguma pessoa descuidada deixou uma tocha ardendo numa pilha de trapos embebidos em óleo na despensa do porão — Halt murmurou com cuidado.
— Você sabe disso só de olhar, não é mesmo? — Horace retrucou sorrindo.
Halt concordou, mantendo uma expressão indiferente.
— Nós, arqueiros, somos dotados de poderes de percepção misteriosos — ele explicou. — E acho que Gálica vai ficar bem melhor sem esse castelo, não concorda?
Apenas o comandante tinha realmente morado na fortaleza. Os soldados e os empregados viviam em outras partes do edifício e teriam tempo suficiente para impedir que o fogo se espalhasse até lá. Mas a fortaleza e a torre central onde estavam os aposentos de Deparnieux estavam destruídas. E era assim que deveria ser. Montsombre tinha sido palco de muita crueldade e horror durante muitos anos, e Halt não tinha intenção de deixá-lo intacto para que Philemon continuasse a agir como o antigo mestre.
— É claro que as paredes de pedra não vão queimar — Horace ajuntou com uma ponta de desapontamento.
— Não — Halt concordou. — Mas os pisos de madeira e as vigas de sustentação vão. E todos os tetos e escadas vão queimar e cair. E o calor também vai danificar as paredes. Não ficaria surpreso se algumas delas simplesmente cedessem.
— Ótimo — Horace afirmou, e havia um mundo de satisfação naquela única palavra.
Juntos, eles viraram as costas à lembrança de Deparnieux e fizeram os cavalos continuarem a andar. O pequeno grupo se afastou seguido de perto por Puxão.
— Vamos embora, vamos encontrar Will — Halt disse.

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