quarta-feira, 29 de junho de 2016

Capítulo 37

Nit’zak, comandante de campo da força Temujai que atacava a posição de Will, tinha enviado seus homens para o ataque com um descaso irresponsável. Enquanto os kaijin se ocupavam dos arqueiros, seus lanceiros e espadachins se atiravam contra a linha de guerreiros escandinavos que os protegiam.
Nit’zak tinha percebido que esse ataque era a última cartada de seu comandante. Se eles não conseguissem romper o cerco, sabia que Haz’kam iria ordenar uma retirada geral, pois estava relutante em provocar mais baixas em sua campanha. A ideia de retirada e de fracasso era impensável para Nit’zak. Por isso, ele incitou os homens a seguirem em frente, desejando que atravessassem a linha escandinava e destruíssem a pequena, mas altamente eficiente, força de arqueiros que se abrigava atrás dela.
O chão na frente das defesas escandinavas estava coberto com os corpos de seus homens e cavalos. Contudo, aos poucos, eles estavam empurrando os homens do norte para trás, enquanto diminuíam em número e a linha defensiva ficava mais frágil. Desmontados agora, os Temujai subiam a ladeira como formigas, atacando e cortando com seus sabres de lâminas compridas. Com o semblante carregado, os escandinavos revidavam.
— General! — um dos soldados agarrou seu braço e apontou para o pequeno grupo de cavaleiros se afastando da batalha. — Os kaijin estão batendo em retirada.
Nit’zak praguejou contra eles enquanto se afastavam. “Mimados e privilegiados”, ele pensou. O comandante sabia que eles se consideravam membros de elite da força Temujai. Os atiradores kaijin eram dispensados dos perigos do combate direto para que pudessem ficar à vontade e escolher os comandantes inimigos com relativa segurança. Agora, enfrentando um contra-ataque preciso e mortal pela primeira vez na vida, eles se afastaram e desertaram. Ele jurou que os veria morrer por sua covardia.
Mas isso teria que esperar. Agora, tinha percebido que, os arqueiros escandinavos estavam lançando uma nuvem de setas depois da outra para as últimas fileiras do grupo principal mais uma vez. Eles tinham que parar. O repentino reinício das saraivadas mortais poderia muito bem desequilibrar a batalha.
Haz’kam tinha dito que seu segundo no comando não tinha senso do quadro geral quando se tratava de um conflito armado. Mas Nit’zak tinha uma habilidade que o tornava um excelente comandante tático. Ele sabia perceber qual era o momento crucial em uma batalha, o momento em que tudo estava equilibrado e no qual um determinado esforço de qualquer um dos lados podia representar a diferença entre vitória e derrota. Agora, observando seus homens lutarem com os escandinavos e vendo, pela primeira vez, um elemento de incerteza no inimigo, ele sentia esse momento. Tirou o sabre da bainha e se virou para a sua escolta pessoal, meio ulan de 30 experientes soldados.
— Venham! — ele gritou e os conduziu numa corrida em direção à linha escandinava.
O instinto de Nit’zak estava certo. Os escandinavos, exaustos e sangrando, com suas fileiras esvaziadas, continuavam a lutar com as últimas reservas de força e determinação. A quantidade de soldados Temujai parecia infinita. Para cada um que caía sob as achas escandinavas, parecia surgir outro que vinha substituí-lo, soltando gritos de guerra, cortando e perfurando com seus sabres. Agora que uma nova força tinha penetrado na linha de defesa, desmontando e revolvendo a proteção de terra, o equilíbrio oscilava. Primeiro um e em seguida outro escandinavo cedia. Logo, estavam recuando em grupo, à medida que os Temujai passavam pela brecha que finalmente tinham conseguido abrir a força, derrubando os escandinavos enquanto tentavam escapar.
Nit’zak agitou o sabre na direção da linha de arqueiros que ainda disparava uma saraivada atrás da outra sobre a força de ataque principal.
— Os arqueiros! Matem os arqueiros! — ele ordenou aos seus homens e disparou na direção dos arqueiros.
Na posição de comando, Horace jogou no chão o escudo imenso e difícil de manejar que vinha usando e agarrou o próprio escudo. Sua espada deslizou da bainha com um assobio de expectativa quando ele saltou sobre o parapeito.
— Fique aqui — ele disse para Will e desceu a rampa para ir ao encontro do primeiro grupo de Temujai que subia em sua direção.
Desta vez foi Will que olhou admirado o amigo partir para o ataque. Sua espada se movia de forma atordoante, disparando para a frente e para trás, por cima, à esquerda e à direita, enquanto ele derrubava os inimigos. O primeiro ataque foi repelido e um grupo maior de Temujai se aproximou do alto guerreiro. Novamente se ouviu o choque de aço contra aço, mas agora, quando ameaçaram cercar Horace, ele foi obrigado a recuar. Will olhou para a caixa de flechas. Restavam cinco e ele começou a atirar: disparos firmes e deliberados para atingir os Temujai que tentavam rodear o amigo.
Ele olhou para os arqueiros. Os escudeiros tinham apanhado as suas armas e estavam se aproximando para protege-los. Além disso, alguns escandinavos que tinham se afastado se reagruparam na posição dos arqueiros. Evanlyn ainda estava ordenando as saraivadas.
— Continue assim! — ele gritou, ela olhou para ele, concordou e retomou sua tarefa.
Horace já estava quase de volta à posição elevada de comando, ainda enfrentando os ataques determinados dos Temujai. Mas lutava sozinho e estava vulnerável pelas costas. Will, tendo usado seu estoque de flechas, apanhou as duas facas e foi proteger a retaguarda do amigo.


No centro da linha escandinava, Erak pressentiu um momento de oportunidade semelhante. Os Temujai estavam lutando arduamente, mas a intensidade selvagem tinha desaparecido de seu ataque.
Enfraquecidas e desmoralizadas pelas constantes chuvas de flechas vindas do flanco direito, suas fileiras de apoio estavam recuando e deixando as tropas em luta com as linhas escandinavas sem os reforços regulares de que precisavam para manter o ritmo do ataque.
Ele derrubou um capitão Temujai que tinha passado por cima das trincheiras aos gritos e se virou para procurar Halt. O arqueiro estava posicionado atrás dele, parado sobre um parapeito e tranquilamente atirando nos Temujai à medida que se aproximavam. A tática de Haz’kam de retirar os atiradores de seus ulans estava se voltando contra os Temujai. Para variar, eram eles que estavam perdendo seus comandantes para tiros precisos e certeiros, enquanto os líderes escandinavos continuavam a derrubar todos os que ficavam ao alcance de suas achas.
Livrando-se de um inimigo, Erak saltou para o lado de Halt. Ele fez um gesto para a ala esquerda, até aquele momento ainda não comprometida.
— Acho que, se atacarmos pela lateral, talvez possamos acabar com eles — Erak disse.
Halt analisou a ideia por um momento. Era arriscado, mas Halt sabia que batalhas eram ganhas assumindo riscos. Ou eram perdidas. Ele tomou uma decisão.
— Vá em frente — ele concordou.
Então Erak olhou para trás de Halt e praguejou. O arqueiro se virou imediatamente para olhar na mesma direção e juntos viram os Temujai romperem a linha abaixo da posição de Will. Os dois sabiam que, se a chuva de flechas parasse, as últimas fileiras Temujai poderiam muito bem recuperar a união, e a oportunidade se perderia.
Teriam que agir imediatamente.
— Traga o flanco esquerdo — Halt disse apenas.
Ele apanhou uma aljava de flechas sobressalente e começou a correr na direção do posto de comando de Will. Erak o viu se afastar, sabendo que um homem não faria diferença. Desesperado, ele olhou ao redor, e seu olhar se iluminou ao ver Ragnak parado no meio de um círculo de Temujai caídos. Os olhos do oberjarl estavam perturbados e parados. Ele tinha se livrado do escudo e estava agitando sua imensa acha com as duas mãos. Sangue escorria de meia dúzia de ferimentos em seus braços, pernas e corpo, mas ele parecia não se importar com o fato. Erak sabia que ele estava a ponto de enlouquecer. E sabia também que um homem como aquele fazia toda a diferença no mundo.
Erak abriu caminho para chegar até o oberjarl, conseguindo uma folga quando os Temujai caíram para longe dos dois imensos guerreiros. Ragnak olhou para cima, reconheceu-o e mostrou os dentes num sorriso triunfante e selvagem.
— Nós estamos acabando com eles, Erak! — ele gritou com o olhar ainda tresloucado.
Erak agarrou-o pelo braço e o sacudiu para que prestasse atenção.
— Estou trazendo o flanco esquerdo! — ele gritou e o oberjarl sorriu e deu de ombros.
— Bom! Deixe que eles também se divirtam um pouco! — ele berrou em resposta.
Erak apontou para a batalha que continuava violenta no lado do mar.
— A ala esquerda está com problemas. Eles conseguiram passar. O arqueiro precisa de ajuda.
Parecia estranho dar ordens para o supremo comandante, mas ele percebeu que Ragnak seria incapaz de dirigir o ataque do flanco naquele estado de espírito. Ele era bom numa coisa: um ataque devastador sobre um inimigo que atrapalhava o caminho.
Agora, ao ouvir as palavras de Erak, Ragnak assentiu repetidas vezes.
— O sarcástico pequeno sabe-tudo precisa de ajuda, não é? Então eu sou o homem de que ele precisa!
E, com um rugido e seguido por sua comitiva de 12 guerreiros, ele disparou na direção de Halt.
Erak sussurrou uma rápida oração para os Vallas. Uma dúzia de homens podia não ser muito, mas com Ragnak naquele estado de quase loucura poderia ser suficiente. Então ele afastou os problemas do flanco direito para o fundo da mente e começou a gritar para um mensageiro. O flanco direito teria que cuidar de si mesmo por mais alguns minutos. Naquele exato momento, ele precisava que o flanco esquerdo atacasse o inimigo pela lateral.

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