quarta-feira, 29 de junho de 2016

Capítulo 36

— Aí vem eles outra vez! — Horace disse, Will e Evanlyn se viraram para olhar as forças Temujai.
Os cavaleiros estavam trotando para a frente novamente e, desta vez, pareceu ser um ataque decisivo.
Haz’kam tinha reunido cerca de 2 mil homens para um ataque frontal às linhas escandinavas. Eles avançavam em cavalos, os cascos ecoando no vale, numa formação em “v” que mirava o centro escandinavo e o posto de comando de onde Halt, Erak e Ragnak dirigiam sua defesa.
Will e Evanlyn tinham aproveitado os momentos de calma na batalha para comer alguma coisa rapidamente e tomar um bem-vindo gole de água. A garganta de Will estava seca, tanto da tensão quanto das contínuas ordens gritadas aos seus homens. Ele imaginou que Evanlyn sentia o mesmo. Horace, que já tinha comido, ficou vigiando. Quando ele chamou, Evanlyn escorregou para sua posição protegida, e os arqueiros, que estavam confortavelmente recostados nas trincheiras, levantaram-se com os arcos nas mãos. Os escudeiros, que também estavam relaxando, tomaram suas posições ao lado deles.
Eles esperaram em silêncio. Durante a pausa, as caixas na frente de cada arqueiro tinham sido reabastecidas com novas flechas. Até mesmo naquele momento, as mulheres de Hallasholm estavam reunidas na Grande Mansão, fazendo novas flechas para a batalha.
Will analisou o grupo de cavaleiros. Ele ainda tinha 75 arqueiros parados na linha, vários ligeiramente feridos. Eles tinham perdido 11 homens, mortos pelas flechas Temujai, e outros 14 tinham sido gravemente feridos e não podiam continuar a lutar. Quando a força Temujai avançou, Will calculou que conseguiria lançar quatro saraivadas antes que ela atingisse a linha escandinava, talvez cinco. Isso representaria 300 flechas caindo sobre a massa fortemente comprimida de cavaleiros e, naquela formação, a incidência de acertos seria alta. Se Will mirasse o centro do grupo, até mesmo flechas que caíssem acima ou abaixo do alvo seriam eficientes.
— Frente esquerda, posição três! — ele gritou e a máquina entrou em ação novamente.
— Pronto! — Evanlyn avisou.
— Preparar... atirar! — Will ordenou e sinalizou para Horace não dar ordens aos escudeiros.
Naquele momento, eles ainda não estavam sob ataque. Quanto mais tempo tivesse para causar danos ao grupo de cavaleiros Temujai, melhores chances dariam a Halt e Erak para repelir a principal investida do inimigo.
— Recarregar! — ele gritou e esperou o aviso de Evanlyn mais uma vez. Quando o escutou, enviou outra saraivada na direção dos Temujai.
Quando essas flechas iniciaram sua trajetória para o alto, as primeiras estavam descendo e ele viu cavaleiros caindo novamente.
— Esquerda, meia esquerda! — ele pediu, girando o alvo para coincidir com o avanço dos cavaleiros enquanto se moviam da direita para a esquerda ao longo de sua frente.
Ele pediu que erguessem os arcos novamente, reduzindo o tempo, e então outras 75 setas dispararam para longe com o tão conhecido som sibilante de flechas raspando nos arcos. Os cavaleiros já estavam galopando e ele ajustou o ângulo mais uma vez.
— Esquerda, esquerda! Posição dois — ele gritou.
O chamado de Evanlyn lhe disse que os homens tinham recarregado.
— Preparar... atirar!
E então ele ouviu os primeiros sons do combate próximo quando as primeiras fileiras de cavaleiros fizeram contato com as linhas escandinavas. Seria arriscado demais tentar atirar nos primeiros Temujai naquele momento, mas ele ainda podia interditar as fileiras que vinham atrás.
— Esquerda, meia esquerda! — ele repetiu, e os arqueiros fizeram pontaria para a direita a 20 graus.
Então, de repente, o ar em volta pareceu ficar vivo com o som sibilante de flechas e em toda a linha seus arqueiros começaram a cair, alguns gritando de dor e medo, outros, mais assustadoramente, em silêncio.
— Escudos! Escudos!
Horace gritou e os escudeiros ficaram em posição, mas não antes que mais arqueiros fossem derrubados. Desesperadamente, Will se virou e viu, pela primeira vez, o grupo menor que tinha se adiantado para atacar sua posição enquanto ele estava ocupado com a força principal. Ele calculou que havia cerca de 50 arqueiros, todos montados e disparando flechas em sua posição de modo certeiro e uniforme. Atrás deles, cavalgava outro grupo maior armado de lanças e sabres.
— Alvo na frente! — ele gritou e em seguida murmurou de lado para Horace: — Seja rápido com esses escudos quando precisarmos deles.
O aprendiz de guerreiro concordou enquanto observava ansiosamente o contínuo ataque dos 50 cavaleiros. As flechas estavam batendo em seu escudo e na proteção de terra na frente deles.
— Posição um! — Will ordenou.
Esse ataque era direto e muito próximo.
— Preparar!
— Pronto! — ele ouviu Evanlyn avisar.
Então Horace gritou para os escudos se abrirem e Will, quase em cima dele, mandou os homens atirarem.
Quando a saraivada se pôs a caminho, Horace já estava pedindo que os escudos voltassem à sua posição. Mas, mesmo nesse curto período de tempo, outra meia dúzia de arqueiros foi atingida pelas flechas Temujai.
Nesse momento, Will notou a insígnia nos ombros dos guerreiros inimigos e percebeu por que a precisão e a velocidade de disparos tinham melhorado.
— São todos kaijin — ele disse para Horace.
Enquanto falava, ergueu o próprio arco e, atirando rapidamente, lançou três setas antes que Horace o arrastasse para trás da proteção de seu escudo. Meia dúzia de setas bateu nele no mesmo instante.
— Você ficou louco? — Horace berrou, mas os olhos de Will estavam inquietos e cheios de dor quando encarou o amigo.
— Eles estão matando os meus homens! — ele retrucou e saiu para o espaço aberto novamente obcecado pela ideia de impedir os especialistas Temujai de derrubar seus homens, um a um. A mão imensa de Horace o fez parar.
— Não vai adiantar se eles matarem você! — ele gritou e, devagar, o bom senso tomou conta da mente de Will.
— Pronto! — Evanlyn gritou.
Ele percebeu que era a terceira vez que ela dava o aviso. Ela estava lembrando-o que era hora de agir. Ainda protegido pelo escudo de Horace, ele avaliou a posição.
Os lanceiros e espadachins, livres do fogo hostil dos arqueiros, já estavam se aproximando dos escandinavos na frente de sua posição. Uma luta corpo a corpo se desenrolava ao longo da linha. Mais para a esquerda, o principal grupo Temujai estava envolvido numa batalha selvagem com o centro da linha escandinava. A posição era confusa demais para ver quem estava ganhando, se é que havia mesmo um vencedor.
Enquanto isso, a sua frente, os peritos atiradores Temujai, reunidos por Haz’kam numa unidade especial, trotavam paralelamente à linha defensiva escandinava, amplamente espalhada a fim de não oferecer um alvo em massa para as saraivadas, e acertavam seus arqueiros com precisão quando ficavam expostos. Ele sabia que, se tentasse dirigir outra saraivada aos Temujai, iria perder metade de seus homens. Havia apenas uma solução no momento. Ele se inclinou sobre o parapeito e gritou para a linha de arqueiros abaixo dele, uma linha que agora estava severamente esvaziada.
— Tiros individuais! — e apontou para as linhas de kaijin Temujai que passavam a meio-galope. — Atirem sempre que estiverem prontos e mirem nos arqueiros deles!
Era o melhor que podia fazer. Desse jeito, os Temujai não teriam uma linha desprovida de escudos quando seus homens atirassem. Eles teriam que reagir a disparos individuais e irregulares. Isso daria aos seus homens uma melhor chance de sobrevivência, embora também diminuísse o efeito dos tiros. Sem uma orientação central, sua precisão iria se reduzir.
Havia, porém, uma outra coisa que poderia fazer. Ele verificou se a caixa de flechas diante dele estava cheia e rapidamente tirou quatro setas. Ajustou uma delas ao arco e segurou as outras com firmeza entre os dedos.
— Mantenha esse escudo para cima e preparado — ele pediu para o Horace e deu um passo na direção do parapeito, ainda escondido pelo grande escudo do amigo.
Will respirou fundo, afastou-se e soltou as quatro setas em rápida sucessão, voltando depressa para a proteção do escudo quando as primeiras flechas Temujai assobiaram em volta de seus ouvidos em resposta. Horace, que observava a cena, viu dois dos atiradores sendo derrubados pelas flechas de Will. Um terceiro foi atingido na barriga da perna e a quarta flecha errou o alvo. Ele assobiou impressionado. Foi uma pontaria admirável. Ele ia dizer alguma coisa sobre isso quando notou o olhar de total concentração no rosto do amigo e decidiu se calar. Novamente, Will respirou fundo, preparou outra flecha, deixou a proteção do escudo, atirou e voltou a se esconder.
Horace começou realmente a apreciar a extrema precisão que o amigo tinha adquirido nas florestas e campos ao redor do Castelo Redmont, quando Will se virou, saiu de trás do escudo e atirou mais flechas: às vezes uma, às vezes duas ou três, atingindo um alvo depois do outro. Os outros arqueiros da força escandinava também faziam suas contribuições, mas nenhum possuía a velocidade e a precisão do aprendiz de arqueiro. E, à medida que iam sendo atingidos pelo contra-ataque dos kaijin, os sobreviventes ficavam cada vez mais nervosos e inseguros com as flechas, tendendo a atirar sem fazer pontaria para logo depois mergulhar atrás dos escudos.
— Mude de lado — Will ordenou rapidamente, fazendo um gesto para que Horace, que estava parado a sua esquerda, fosse para a direita.
Horace mudou o escudo para o braço direito, Will se agachou na altura da defesa e foi para o lado esquerdo de Horace. Ele vinha variando o padrão de tiro, algumas vezes disparando apenas uma flecha e em outras soltando uma rápida saraivada para fazer os Temujai imaginarem o que estaria acontecendo. Ele concluiu que eles estavam acostumados a vê-lo aparecer à direita do grande escudo. Selecionou mais quatro flechas, foi para a esquerda e atirou quando saiu de trás do escudo. Outras duas selas foram esvaziadas e ele correu de volta para o abrigo. A mudança de lado tinha funcionado. Nem uma única flecha foi atirada perto dele em resposta.
Ele foi novamente para a esquerda, disparou outra seta e então, sem saber que instinto o fez agir assim, caiu imediatamente sobre as mãos e os joelhos atrás da trincheira. Um sibilar selvagem cortou o ar diretamente acima dele quando se abaixou, e ele sentiu a boca seca de medo. Horace, ao vê-lo cair, pensou que tinha sido atingido e se ajoelhou ao seu lado.
— Você está bem? — ele perguntou ansioso.
Will tentou sorrir, mas não foi muito bem-sucedido.
— Estou ótimo — ele conseguiu balbuciar com voz rouca apesar da boca seca. — Só morto de medo.
Eles se levantaram, protegendo-se atrás do escudo e sentindo o tamborilar das flechas Temujai batendo nele. Will se deu conta de que o padrão tinha mudado outra vez e que a maioria dos arqueiros inimigos estava se concentrando em sua posição. Aquela era a chance para seus homens dispararem outra saraivada em massa, mas, se os Temujai vissem ou escutassem suas ordens, o elemento-surpresa iria se perder.
— Evanlyn! — ele chamou a garota abrigada na posição abaixo dele. Ela olhou para ele com uma pergunta no olhar.
— Passe minhas instruções adiante! Vamos mandar outra saraivada!
Ela acenou mostrando que tinha entendido.
Sem perceber, enquanto os Temujai estavam concentrados na posição do garoto e tentavam atingir a figura esquiva que disparava para dentro e para fora do abrigo e os cobria com uma chuva mortal de flechas, tinham começado a se agrupar. Tinha havido poucos ataques por parte dos outros arqueiros durante algum tempo, e os kaijin tinham se aproximado da posição de comando para atingir Will.
— Frente, direita! — ele disse em voz baixa e ouviu Evanlyn retransmitir a ordem.
Nada aconteceu por alguns momentos e então ele a escutou repreender os homens, obrigando-os a obedecer. Aos poucos, um após o outro, eles se viraram na direção que ela lhes tinha dado.
— Pronto — ela avisou, e Will lhe deu o grau de elevação: posição um. Os arcos subiram na horizontal e então pararam.
— Preparar — ele disse e ouviu a ordem ser transmitida mais uma vez. Então, respirando fundo, gritou: — Baixar escudos! Atirar!
E, uma fração de segundo depois, quando a saraivada ainda estava a caminho, ele ouviu Horace ordenar:
— Levantar escudos!
Percebendo que a atenção estaria concentrada na linha de arqueiros por alguns momentos, Will avançou para fora do abrigo e disparou uma flecha depois da outra na direção das fileiras Temujai. A saraivada de seus homens atingiu o objetivo: ele tinha menos de 50 arqueiros disparando naquele momento, mas mesmo assim uma grande quantidade de setas chegou aos cavaleiros inimigos fazendo uma dúzia cair espalhada na poeira. Em seguida, mais cinco foram derrubados pela chuva de flechas que Will tinha soltado antes que Horace, mergulhando sobre ele, o arrastasse para baixo da proteção antes que as setas Temujai o encontrassem.
Uma tempestade de flechas bateu contra as defesas atrás deles. Horace soltou o amigo e limpou o pó dos joelhos e cotovelos.
— Você está com vontade de morrer? — ele perguntou.
— Só estou confiando no seu julgamento — o rapaz respondeu sorrindo para o amigo. — Não posso cuidar de tudo sozinho.
Eles estavam atrás do escudo outra vez e viram que os kaijin, ou o que restou deles, estavam se afastando. Eles ainda atiravam nas fileiras escandinavas, mas com menos eficiência que antes. Will franziu o cenho ao avaliar ângulos e posições e então apontou para o centro da linha escandinava, onde a batalha principal ainda estava se desenrolando com violência.
— Podemos começar a mandar saraivadas novamente — ele disse para Horace. — Se os escudeiros passarem os escudos para o braço direito, e nossos arqueiros ficarem à esquerda, eles vão estar protegidos do contra-ataque.
Horace examinou a posição e um largo sorriso surgiu em seu rosto. Os kaijin restantes estavam diretamente na sua frente e a linha de arqueiros poderia atirar em diagonal, na direção do fundo do principal exército escandinavo, sem ter que sair de trás da proteção dos escudos.
Apressadamente, eles contaram a ideia a Evanlyn, que retransmitiu as instruções para os homens. A esvaziada linha de arqueiros olhou para a jovem comandante e assentiu mostrando que tinha compreendido.
— Evanlyn! — Will gritou de repente, quando um pensamento lhe ocorreu.
A garota olhou para ele com um olhar curioso.
— Quando a gente começar, você dá a ordem para disparar. Mantenha-os na posição três e faça com que atirem sem parar. E eu vou pôr esses malditos kaijin em seu lugar.
Ela sorriu para ele e acenou com a mão. Não haveria necessidade de mudar o ângulo ou a elevação depois de começar. A saraivada de flechas seria dirigida para o fundo das fileiras Temujai. Isso deveria dar a Halt, Erak e Ragnak a folga de que precisavam.
— Face meia esquerda! — Will gritou. — Posição três!
Os quase 40 homens restantes levaram os arcos à elevação máxima.
— Preparar... atirar!
Desta vez, ele esperou para avaliar o efeito da saraivada, certificando-se de que o ângulo e a elevação estavam corretos. Ele viu flechas atingindo as fileiras de apoio dos Temujai, viu o pânico causado pela tempestade de flechas repentinamente renovada.
— Faça eles continuarem a atirar! — ele pediu para Evanlyn.
Will se virou e atirou na fina linha de arqueiros Temujai, atraindo uma vigorosa chuva de flechas como resposta. Atrás dele, Will ouviu o barulho monótono de outra saraivada formando um arco na direção da batalha principal. Ele atirou novamente, escolhendo um alvo e vendo-o cair. Então sentiu uma onda de entusiasmo no peito quando o pequeno grupo de cavaleiros começou a se movimentar.
— Horace! Eles estão recuando! — ele gritou agitado.
Will apontou nervosamente para a linha de arqueiros. Restavam menos de 20 homens que, aos poucos, estavam deixando sua posição sem proteção. Gradativamente no início, mas, à medida que se afastavam, apressavam o ritmo, pois nenhum queria ser o último exposto aos tiros precisos vindos da linha escandinava.
Ele agarrou o braço do grande amigo e o sacudiu entusiasmado.
— Eles estão indo embora! — ele gritou.
Horace assentiu sério apontando a linha de defesa escandinava abaixo deles com o polegar.
— Estão mesmo — ele concordou. — Mas estes não.
Abaixo deles, os espadachins Temujai, agora desmontados, estavam entrando por uma brecha que tinham forçado na linha escandinava.

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