terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 34

Horace se ergueu nos estribos quando Kicker começou a galopar com velocidade. Ele segurava uma longa vara de freixo à direita, num ângulo reto com o corpo e com seu alvo. À sua frente, parado imóvel no meio do campo situado diante do castelo, Halt puxou a corda do arco para trás até que a ponta enfeitada com penas da flecha tocasse o canto de sua boca.
Horace impeliu o cavalo de batalha a aumentar ainda mais o ritmo até chegar à velocidade máxima. Ele olhou para a direita para verificar se o capacete que tinha prendido no fim da lança de freixo ainda estava na posição correta voltada para Halt.
Ao olhar para o pequeno vulto na grama diante dele, viu a primeira flecha ser posicionada e cuspida do arco com uma força incrível e disparar na direção do alvo em movimento. Em seguida, num movimento confuso e quase incompreensível, as mãos de Halt se mexeram e outra flecha estava a caminho.
Quase ao mesmo tempo, Horace sentiu um choque transmitido ao longo da vara de madeira que segurava quando as duas setas atingiram o capacete com um intervalo de meio segundo.
Ele deixou Kicker diminuir o passo para um meio-galope e levou o cavalo a fazer um círculo largo até parar na frente do arqueiro. Halt estava parado com o arco apoiado no chão e esperava pacientemente para ver o resultado do treino. Horace deixou a vara e o capacete caírem no chão na sua frente. Incrivelmente, as duas flechas atravessaram a abertura do visor e se instalaram no acolchoamento macio que Halt tinha posto no interior para proteger as pontas afiadas.
Quando Halt pegou o velho capacete nas mãos, Horace jogou a perna sobre o arção e escorregou para o chão ao lado dele. O arqueiro grisalho fez um gesto com a cabeça enquanto inspecionava o resultado de sua prática de tiro.
— Nada mal — ele disse. — Nada mal, mesmo.
Horace soltou as rédeas e deixou Kicker se afastar e pastar na grama curta e grossa que crescia no campo de torneios. Ele estava espantado e mais do que um pouco preocupado com as ações de Halt.
Depois que o desafio fora apresentado e aceito, Deparnieux tinha concordado em devolver as armas dos dois. Halt alegou que não atirava uma flecha havia semanas e precisaria treinar suas habilidades para o combate.
Deparnieux, que praticava diariamente suas técnicas de combate, não viu nada de incomum no pedido. Assim, as armas tinham sido devolvidas, embora os dois araluenses estivessem sendo vigiados de perto por pelo menos uma dúzia de homens armados de bestas sempre que iam treinar.
Nos últimos três dias, Halt tinha instruído Horace a galopar pelo campo com o capacete estendido na ponta de uma vara enquanto ele atirava setas no visor. A cada vez, pelo menos uma das duas flechas encontrava o alvo. Em geral, Halt conseguia pôr as duas flechas nos pequenos espaços que tinha em vista.
No entanto, aquilo não era mais do que Horace esperava do arqueiro. A habilidade de Halt com o arco era lendária. Não havia necessidade para ele praticar, especialmente quando, ao fazer isso, estava revelando suas táticas para o comandante galês.
— Ele está olhando? — Halt perguntou em voz baixa, parecendo ler os pensamentos de Horace.
O arqueiro estava de costas para os muros do castelo e não via o que acontecia lá. Mas Horace, movendo apenas os olhos, e não a cabeça, conseguia ver a silhueta negra, num dos muitos terraços do castelo, curvada na balaustrada observando-os, como fazia sempre que iam para o campo.
— Sim, Halt — respondeu. — Ele está olhando. Mas é sensato a gente fazer isso onde ele possa ver?
O leve sinal de um sorriso pareceu tocar os lábios do arqueiro.
— Possivelmente não — ele respondeu — mas ele iria garantir que poderia nos observar, não importa onde praticássemos, não é mesmo?
— Sim — Horace admitiu relutante — mas você não precisa treinar, precisa?
— Você falou como um verdadeiro aprendiz — Halt resmungou tristemente. — Treinamento nunca é demais para ninguém, jovem Horace. Tenha isso em mente para quando voltarmos ao Castelo Redmont.
Horace olhou para Halt desanimado, enquanto ele soltava as duas flechas do estofo de palha e couro que enchia a cavidade do capacete.
— Há outra coisa — ele começou, mas Halt levantou a mão para que parasse.
— Eu sei, eu sei — ele disse. — As suas preciosas regras de cavalaria estão perturbando você outra vez, certo?
Horace foi obrigado a concordar com relutância. Aquele assunto era motivo de discussão entre os dois desde que Halt tinha desafiado Deparnieux para um duelo. Primeiro, o cavaleiro tinha ficado enraivecido e depois, sarcasticamente divertido com o fato de que um homem do povo tivesse a audácia de desafiá-lo.
— Sou um cavaleiro consagrado — Deparnieux disparou para Halt. — Um nobre! Não posso ser desafiado para combater por qualquer rufião da floresta!
A expressão do arqueiro ficou sombria ao ouvir essas palavras. Sua voz, quando falou, estava baixa e perigosa. Inadvertidamente, tanto Deparnieux quanto Horace tinham se inclinado para a frente para ouvi-lo com mais atenção.
— Veja como fala, seu patife malnascido! — Halt tinha retrucado. — Você está falando com o membro da casa real de Hibernia, sexto na linha do trono e com uma linhagem que era nobre quando você e os seus estavam procurando por restos de comida nos canis!
E, enquanto falava, um inconfundível sotaque hiberniano se fez, sentir em suas palavras. Horace olhou para ele surpreso. Ele não tinha a menor ideia de que Halt descendia de uma linhagem real. Deparnieux ficou igualmente espantado com a notícia. Ele estava certo, e claro. Nenhum cavaleiro era obrigado a honrar um desafio vindo de um inferior. Mas a alegação do arqueiro grisalho sobre seu sangue real punha o assunto numa outra perspectiva. Seu desafio devia ser tratado com seriedade e respeito. Deparnieux não poderia ignorá-lo, especialmente por ter sido feito na presença de vários de seus homens.
Recusar o desafio abalaria seriamente sua posição. Assim, ele aceitou o combate que foi marcado para dali a duas semanas.
Mais tarde, em seus aposentos, Horace mostrou surpresa quando à origem de Halt.
— Eu não sabia que você descendia da realeza hiberniana — ele disse.
Halt sorriu com indiferença.
— Não descendo — ele respondeu. — Mas o nosso amigo não sabe e não tem como provar que estou mentindo. Portanto, teve que aceitar meu desafio.
E foi essa desconsideração pelas rígidas convenções da cavalaria que deixou Horace tão preocupado, tanto quanto o fato de que Halt parecia permitir que o inimigo soubesse exatamente que táticas usaria no combate para o qual faltava apenas um dia. O treinamento na Escola de Guerra dava muita importância às convenções e obrigações da classe dos cavaleiros. Horace tinha aprendido nos últimos dezoito meses que elas eram firmes e inflexíveis. Elas depositavam obrigações naqueles que seriam cavaleiros e, embora lhes dessem grandes privilégios, esses privilégios tinham que ser conquistados. Um cavaleiro tinha que obedecer as regras, viver de acordo com elas e, se necessário, morrer por elas.
Entre as convenções mais severas e inflexíveis estava a oportunidade do combate. Para falar a verdade, mesmo Horace, como um guerreiro ainda não promovido a cavaleiro, não estava autorizado a desafiar Deparnieux. Mas Halt certamente estava, e a atitude de cavaleiro do arqueiro diante de um sistema que Horace tinha na mais alta estima havia chocado o garoto e ainda o perturbava.
— Escute — Halt disse com certa delicadeza, pondo um braço em volta dos ombros fortes de Horace — eu admito que as regras da cavalaria são ótimas, mas apenas para os que vivem para obedecer todas as regras.
— Mas... — Horace começou, porém Halt o interrompeu apertando-lhe o ombro.
— Deparnieux usou essas regras para matar, para roubar e assassinar Deus sabe quantos anos. Ele aceita as regras que lhe convém e descarta as que atrapalham. Você já viu isso.
— Eu sei, Halt — Horace concordou infeliz. — É que me ensinaram a...
— Você aprendeu com homens nobres — o arqueiro o interrompeu outra vez com gentileza. — Com homens que seguem e vivem de acordo com todas as regras da cavalaria. Vou lhe dizer uma coisa: no que se refere a essa questão, não conheço homens melhores do que sir Rodney ou o barão Arald. Homens como eles são a personificação de tudo o que é correto sobre a cavalaria e seus procedimentos.
Ele parou, olhando para o rosto perturbado do garoto com atenção. Horace assentiu com um gesto. Halt tinha escolhido Rodney e o barão por serem modelos para o rapaz. Vendo que ele tinha sido compreendido, Halt continuou.
— Contudo um porco assassino e covarde como Deparnieux não pode alegar seguir os mesmos padrões que esses homens seguem. Não tenho o menor remorso em mentir para ele, contanto que isso me ajude a atrai-lo para uma luta. E derrotar, se tiver sorte.
E, nesse momento, Horace se virou para ele com a expressão ainda preocupada, mas talvez um pouco mais tranquilo.
— Mas como pode pensar em derrotar ele quando ele sabe exatamente o que pretende fazer? — ele perguntou desanimado.
— Talvez eu tenha sorte — Halt respondeu dando de ombros, sem o menor sinal de um sorriso.

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