quarta-feira, 29 de junho de 2016

Capítulo 34

Foram necessários vários minutos para o comandante Temujai perceber que, pela segunda vez, algo tinha saído realmente muito errado. Havia uma brecha em sua linha quando os cavaleiros voltaram. Então, quando deixou o olhar correr pelo campo de batalha, ele viu os corpos de homens e cavalos emaranhados e franziu o cenho. Ele tinha acompanhado a ação como um todo e não tinha visto as quatro rápidas saraivadas que tinham destruído os ulans.
— O que aconteceu ali? — ele perguntou aos auxiliares, apontando para os homens com a lança.
Mas nenhum deles tinha visto a destruição no momento em que aconteceu. Sua pergunta foi recebida com olhares vazios. Um cavaleiro estava se aproximando a galope chamando seu nome.
— General Haz’kam! General!
O homem oscilava na sela e a frente de seu colete de couro estava encharcada de sangue de vários ferimentos. O sangue também manchava o lombo do cavalo, e a equipe de comando ficou espantada ao constatar que o cavalo tinha sido atingido pelo menos por três flechas.
Cavalo e cavaleiro pararam derrapando na frente da posição de comando. Tinha sido um esforço final para o cavalo. Enfraquecido pela perda de sangue, ele caiu de joelhos e rolou para o lado, permitindo ao cavaleiro ferido apenas escapar de ficar preso no último momento. Haz’kam franziu o cenho ao espiar o homem ferido e reconheceu Bin’zak, seu antigo chefe da inteligência. Mantendo a palavra, o coronel tinha tomado sua posição na linha de frente de um dos ulans. Ele tinha tido a incrível má sorte de ter escolhido o que foi destruído pelos arqueiros de Will.
— General — o homem agonizante murmurou com voz rouca —, eles têm arqueiros...
Ele cambaleou alguns passos para a frente, e os Temujai puderam finalmente ver as pontas das flechas quebradas em dois ferimentos. No chão ao seu lado, o cavalo soltou um imenso e trêmulo suspiro e morreu.
— Arqueiros... — ele repetiu com a voz quase inaudível e caiu de joelhos.
Haz’kam desviou o olhar do coronel caído e verificou as fileiras inimigas. Não havia sinal de arqueiros ali. Os escandinavos estavam espalhados em três fileiras ao longo da parte mais estreita do vale, atrás de suas trincheiras. No lado do mar e um pouco atrás da força principal, havia outro grupo – também atrás de trincheiras e portando grandes escudos retangulares. Mas ele não conseguia ver sinal de arqueiros.
Existe somente uma forma de descobrir os arqueiros”, ele pensou. Ele pensou e fez um gesto para os próximos dez ulans.
— Ataque — ele disse brevemente, e o corneteiro tocou a ordem.
Mais uma vez, o vale se encheu com o tinido dos arreios e o retumbar dos cascos quando cavalgaram para diante.
Diante dele, o coronel tombou para a frente com o rosto na grama encharcada. Haz’kam fez o gesto Temujai de saudação, levantando a mão esquerda até os lábios e depois a estendendo para o lado num movimento contínuo e elaborado. Sua equipe fez o mesmo. Bin’zak tinha se redimido. No final, ele tinha trazido uma informação vital para seu general, mesmo que tenha lhe custado a própria vida.


Will observou a aproximação da cavalaria quando, mais uma vez, ela recomeçou a coreografia de girar e circular. Horace se mexeu ao seu lado, mas o bom senso avisou ao jovem arqueiro para não expor seus homens ainda.
— Espere — ele disse em voz baixa.
De certa forma, ele tinha esperado que um ataque orquestrado fosse lançado contra sua posição numa tentativa de derrotar os escandinavos. Mas esse ataque, lançado ao longo de toda a frente, era como o anterior. Isso só podia significar uma coisa: os líderes Temujai não tinham descoberto a posição dos arqueiros.
Flechas começaram a cair sobre as linhas escandinavas e, mais uma vez, as três fileiras foram protegidas com escudos. Como antes, uma tropa Temujai parou as manobras e desembainhou os sabres para lançar um ataque-relâmpago aos escandinavos que não podiam vê-los. Desta vez, porém, Will estava olhando para além deles a fim de identificar o grupo de apoio que avançaria contra os escandinavos quando seus camaradas recuassem. E ele viu: um ulan que tinha parado a uns 50 metros da primeira fileira de escandinavos.
— Carregar! — Will gritou para sua linha. Então, de lado para Horace: — Mantenha os escudos erguidos.
Ele tinha sentido que o jovem mais robusto tinha respirado fundo para emitir a próxima ordem, mas Will queria manter seus homens escondidos o máximo possível.
— Pronto! — Evanlyn avisou quando a última flecha foi ajustada à corda.
— Virar à esquerda, meia esquerda novamente! — ele gritou e os arqueiros, felizmente, entenderam o que quis dizer.
Como se fossem um só, todos se viraram na direção que ele tinha escolhido. Ele havia mudado o exercício anunciando a direção em primeiro lugar, mas os arqueiros compreenderam o que ele queria.
— Posição três! — ele ordenou, e os braços se levantaram ao máximo, os cem homens se movendo ao mesmo tempo. — Baixar escudos — ele murmurou para Horace e ouviu o amigo repetir a ordem. — Preparar!
“Conte até três quando cada braço puxar totalmente a flecha para trás”, ele disse para si mesmo.
— Atirar! — ele gritou em seguida e instantaneamente berrou: — Escudos! Levantar escudos!
Quando Horace repetiu a ordem, os escudos voltaram às posições para proteger os arqueiros do revide e, se tivessem sorte, dos olhos que os observavam.
Novamente a espera e então a saraivada de flechas caiu sobre a ulan Temujai, exatamente quando estava a ponto de atirar na brecha aberta pelos camaradas na muralha de escudos. Mais uma vez, homens e cavalos caíram sobre montes emaranhados e agonizantes. Juntos como estavam e sem se mover, o ulan era um alvo perfeito para as flechas atiradas em massa.
Pelo menos 20 homens foram derrubados, incluindo o comandante. Agora, sargentos gritavam para os sobreviventes para saírem daquele terreno de morte.
Haz’kam não chegou a ver a saraivada que atingiu seus homens. Mas ele viu, com a visão periférica, o movimento orquestrado dos cem escudos quando subiram e desceram como se fossem portões se abrindo e fechando. Alguns segundos depois, ele viu um de seus principais ulans cair e se desintegrar.
Nesse momento, os escudos se moveram novamente e ele viu os arqueiros. Pelo menos uns cem, ele calculou, trabalhando com tranquilidade e harmonia ao lançarem outra saraivada na direção dos ulans em retirada. Os escudos subiram para proteger os arqueiros quando outros Temujai se aproximaram. Novamente os escudos desceram ao mesmo tempo e, desta vez, ele viu o sólido voo das flechas, escuras de encontro ao céu, quando elas prescreveram um arco para cima e atingiram outro ulan. O comandante se virou e viu seu terceiro filho, capitão de uma tropa. Ele apontou com a lança para a linha de escudos na pequena colina atrás das fileiras escandinavas.
— Lá estão os arqueiros deles! — ele avisou. — Pegue um ulan e investigue. Quero informações.
O capitão assentiu, fez uma saudação e bateu as esporas no corpo arredondado do cavalo. Ele gritava ordens para o líder do grupo de 60 homens mais próximo enquanto galopava ao longo da linha de frente do exército Temujai.


Em sua posição elevada atrás das linhas escandinavas, Will e Horace estavam trabalhando calmamente em conjunto, disparando uma saraivada depois da outra na direção dos cavaleiros em movimento. Agora, inevitavelmente, estavam começando a contar algumas vítimas porque alguns Temujai que os viram contra-atacaram. Mas o exercício com os escudos funcionou sem dificuldades, e o método improvisado de expor os homens ao contra-ataque por apenas alguns segundos por vez estava apresentando resultados.
E o mais importante era que os escandinavos estavam começando a ver o efeito do ataque concentrado e disciplinado sobre os inimigos. A cada saraivada dos arqueiros, quando as flechas atingiam suas marcas e as selas dos Temujai ficavam vazias, os guerreiros escandinavos soltavam gritos de aprovação.
Pela primeira vez, Will viu os kaijin, atiradores de primeira classe, acompanhando cada ulan quando tentaram atirar nele e em Horace. Ele tinha acabado de duelar com dois deles e observou, satisfeito, quando o segundo caiu para o lado na sela. Horace cutucou o braço do amigo e apontou.
— Olhe!
Will, seguindo a direção indicada, viu um ulan galopando das linhas Temujai diretamente para eles. Esses cavaleiros não viravam e não mudavam de direção. Eles cavalgavam direto numa corrida mortal. E era óbvio para onde estavam indo.
— Fomos vistos — ele disse.
Então, gritou para seus homens:
— Virados para a frente, meia direita. Carregar!
As mãos procuraram as flechas e as ajustaram com firmeza nas cordas.
— Pronto!
Era Evanlyn, mais uma vez. Ele sorriu ao lembrar quando Halt tinha questionado a necessidade de usar a garota ali. De repente, ficou satisfeito com o fato de o arqueiro ter perdido a discussão. Ele afastou o pensamento e calculou a velocidade dos cavaleiros que se aproximavam. Eles já estavam atirando e as flechas estavam batendo nos escudos ao longo da linha. Mas a vantagem estava do lado de Will e seus homens. Atirando de uma posição estável, imóvel e elevada, de trás de proteção, eles estavam no controle.
— Posição dois! — ele ordenou. — Preparar!
— Baixar escudos! — Horace gritou dando o intervalo necessário a Will.
— Atirar! — Will berrou.
— Levantar escudos! — Horace rugiu dando proteção ao amigo.
Os arqueiros ficavam expostos ao contra-ataque por apenas alguns segundos. Mesmo assim, debaixo do disparo constante das flechas dos Temujai, eles tiveram algumas baixas. Então sua saraivada atingiu o ulan em disparada e limpou a fileira dianteira de 12 homens, jogando cavaleiros e cavalos para o chão mais uma vez. Os cavaleiros das fileiras seguintes tentaram evitar os companheiros caídos, mas foi em vão. Mais cavalos foram para o chão, mais cavaleiros despencaram das selas. Alguns conseguiram fazer os animais saltar sobre a confusão de corpos e correr para longe, outros cavaleiros tentavam se reorganizar quando outra saraivada, dez segundos depois da anterior, caiu sobre eles.
O filho de Haz’kam, com uma flecha atravessada na coxa direita e outra na carne macia entre o pescoço e o ombro, estava deitado atravessado sobre o corpo do cavalo. Ele observou os escudos descerem e subirem e as flechas sendo disparadas num fluxo constante e disciplinado. Viu as duas cabeças se movimentando na posição fortificada no final da fileira de arqueiros. Era aquilo que o pai precisava saber. Ele viu outras duas saraivadas sibilarem no céu. Felizmente, elas tinham sido dirigidas para outro ulan que passou a galope. Ele pôde até ouvir as ordens gritadas pelos dois homens na posição de comando. Uma das vozes parecia absurdamente jovem.
“Está escurecendo cedo”, ele refletiu e imediatamente se deu conta de que não podia ser mais do que o meio da manhã. Então se virou com dificuldade para olhar o céu. Mas ele estava muito azul e, com um repentino estremecimento de medo, percebeu que estava morrendo. Estava morrendo com informações urgentes que devia passar para o pai. Gemendo de dor, ele se levantou com muita dificuldade e começou a voltar p ara as linhas Temujai aos tropeços, abrindo caminho entre o emaranhado de corpos caídos.
Um cavalo sem cavaleiro passou trotando e ele tentou pegá-lo, mas, fraco demais, não conseguiu. Então ouviu um retumbar de cascos atrás dele e uma mão forte agarrou as costas de seu casaco de pele de carneiro e o puxou para a sela, onde ele abafou um grito e gemeu por causa da dor na coxa e no pescoço.
Ele se virou para enxergar seu salvador. Era um sargento de um dos outros ulans.
— Me leve... para o general Haz’kam... mensagem urgente — ele conseguiu murmurar com voz rouca, e o sargento, reconhecendo a insígnia de capitão, assentiu e virou o cavalo na direção do posto de comando.
Três minutos depois, o capitão mortalmente ferido contou ao pai tudo o que tinha visto.
Quatro minutos depois, ele estava morto.

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