terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 33

Uma pequena mancha de sol se arrastou para dentro do único aposento da cabana. Evanlyn, cochilando na cadeira, sentiu o calor do sol no rosto e sorriu sem perceber. Do lado de fora, a neve ainda formava uma camada alta no chão, mas o céu do meio da tarde era de um azul brilhante e sem nuvens.
Meio adormecida, ela aproveitou o calor enquanto a luz passava em seu corpo lentamente. Por trás das pálpebras fechadas, ela sentiu o vermelho vivo e ofuscante do sol.
Então, abruptamente, a luz foi bloqueada e ela abriu os olhos.
Will estava parado à sua frente na posição que tinha se tornado conhecida para ela na semana passada. As mãos dele estavam juntas e seus olhos castanhos escuros, antes tão vivos, cheios de diversão e alegria, não mostravam nada além de um pedido suplicante. Ele ficou ali, paciente, esperando que ela reagisse, e ela sorriu para ele com certa tristeza.
— Tudo bem — ela disse com delicadeza.
Um sorriso muito tênue tocou os lábios dele, parecendo por um momento se refletir naqueles olhos escuros, e ela sentiu uma renovada onda de esperança que vinha crescendo dentro de si nos últimos dias. Aos poucos, mas perceptivelmente, Will estava mudando. Primeiro, quando lhe negava a droga, ele se retorcia naqueles terríveis ataques e tremores, recuperando-se apenas quando ela lhe dava uma pequena porção da erva. Mas, como os intervalos entre as doses tinham ficado maiores e as doses menores, ela tinha começado a ter esperanças de que ele acabaria se recuperando. Os ataques eram coisa do passado. Agora, em vez de ser dominado pelo corpo quando ansiava pela droga, Will estava mentalmente aceitando um suprimento menor. Ainda havia uma pequena necessidade, mas ela se refletia no comportamento suplicante, quase infantil, que ela estava vendo naquele momento.
Depois de três dias sem usar a droga, ele se aproximava e simplesmente ficava parado na frente dela com a mensagem clara no olhar. E, em resposta, ela media uma porção do estoque da droga, cada vez menor, que continuava na bolsinha impermeável de algodão. Evanlyn sabia que era uma corrida para ver se a dependência dele seria maior que o suprimento. Se esse fosse o caso, ela podia ver momentos difíceis para os dois no futuro. Não tinha ideia de qual seria a reação de Will quando lhe recusasse a droga, mas imaginava que mais privação iria resultar em outro acesso de tremores e gritos.
Pensou que talvez esse fosse o próximo passo necessário na recuperação dele. Mas, certo ou errado, ela simplesmente não podia se obrigar a testemunhar aquela necessidade incontrolável outra vez. “Haverá tempo suficiente para isso quando a erva finalmente acabar”, ela concluiu.
— Fique aqui — ela pediu, levantando-se da cadeira de madeira e indo para a porta.
Mais uma vez, Evanlyn imaginou ver um leve brilho de prazer nos olhos dele que desapareceu numa fração de segundo, mas ela disse a si mesma que ele tinha estado lá, que ela não estava apenas vendo o que esperava ver. Ela guardava o suprimento de erva no estábulo, atrás de uma tábua solta junto de uma das paredes laterais.
No início, pensou em esconder a bolsa de tecido impermeável na pilha de lenha, mas lembrou que iria pedir a Will que apanhasse lenha para o fogo e a possibilidade de ele encontrar a droga era terrível demais para considerar.
Evanlyn não tinha uma ideia clara do que iria acontecer a Will se ele ingerisse uma dose muito grande. Imaginou que, no mínimo, a dependência voltaria a aumentar outra vez. E também havia a possibilidade de ocorrerem mais efeitos colaterais permanentes até mesmo fatais. O que ela sabia era que, se Will encontrasse a erva e a usasse de uma vez, ela enfrentaria semanas de convulsões e acessos de tremores iguais aos que ele tivera quando tinha sido privado da droga antes.
Evanlyn se perguntou se a mente entorpecida de Will poderia processar o fato de que ela sempre deixava a cabana e voltava com a erva; se ele era capaz de juntar a sequência de causa e efeito e raciocinar que a erva devia estar guardada em algum lugar fora da cabana. Ela não tinha certeza, mas, em todo caso, não corria riscos e verificava com cuidado se ele não a tinha seguido quando tirava a bolsinha do pequeno esconderijo na parede de madeira.
Evanlyn olhou sobre o ombro quando entrou no estábulo. O pônei olhou para ela e relinchou, cumprimentando-a. Mas não havia sinal de que Will estava interessado em seus movimentos. Aparentemente, estava satisfeito em esperar na cabana, sabendo que ela voltaria logo com a droga pela qual ansiava. Como isso acontecia ou onde ela a encontrava pareciam não ser perguntas que o preocupavam. Aquelas eram abstrações e naqueles dias ele lidava apenas com fatos.
A menina mediu uma quantidade minúscula da erva seca na palma da mão, embrulhou o restante e o recolocou atrás da tábua solta. Novamente, durante em meio a esse procedimento, ela se virou de repente para checar se estava sendo vigiada. Mas não havia sinal do companheiro; apenas o pônei a observava com seus olhos brilhantes e inteligentes.
— Não diga uma palavra — pediu ao cavalo em voz baixa.
Surpreendentemente, ele escolheu esse exato momento para balançar a cabeça como os pôneis fazem de tempos em tempos. Evanlyn deu de ombros depois de reagir com espanto por um segundo. Era como se o animal a tivesse ouvido e compreendido. Recolocou a bolsa no buraco e o fechou com um pedaço de tábua para escondê-la. Ela se abaixou no chão do estábulo, pegou um punhado de terra e o espalhou sobre a linha recortada que marcava a junção da madeira. Então, convencida de que o esconderijo estava oculto da melhor forma possível, voltou para a cabana.
Will sorriu quando Evanlyn entrou e, por um momento, ela pensou que ele a tinha reconhecido, como nos velhos tempos. “Os velhos tempos”, ela pensou com tristeza. Apenas poucos meses tinham se passado, mas agora pensava neles como se tivessem ocorrido há muito tempo.
Então percebeu que o olhar dele disparou para sua mão direita fechada. O sorriso era para a droga, não para ela.
Mesmo assim, era um começo.
Evanlyn estendeu a mão fechada, e ele se aproximou ansioso, juntando as duas mãos debaixo da dela para que nenhum grão caísse. Evanlyn deixou que a erva verde-acinzentada escorregasse para as mãos dele, observando o rosto dele enquanto os olhos seguiam o fino fio da droga.
Inconscientemente, a língua disparou para os lábios, na expectativa. Depois de dar tudo a ele e deixar que limpasse com cuidado os poucos e minúsculos grãos que tinham ficado presos na palma de sua mão, ele olhou para ela e sorriu outra vez.
Desta vez, teve certeza de que ele tinha sorrido para ela.
— Bom — ele disse rapidamente e então seu olhar caiu sobre o pequeno monte de erva seca que tinha na mão.
Ele se afastou dela, curvando-se sobre a mão quando a levou para a boca.
Evanlyn sentiu aquele repentino clarão de esperança queimar com força dentro dela novamente. Era a primeira vez que Will tinha realmente falado com ela desde que tinham escapado de Hallasholm.
Não era muito. Apenas uma palavra. Mas era um começo. Sorriu para Will quando ele se agachou num canto da cabana. Como um animal, ele instintivamente se encolhia enquanto usava a droga, aparentemente nervoso com a possibilidade de que ela a tirasse dele.
— Seja bem-vindo, Will — ela disse baixinho.
Mas ele não respondeu. A erva do calor o tinha dominado mais uma vez.

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