quarta-feira, 29 de junho de 2016

Capítulo 32

O som era abafado. “A arrebentação numa praia longínqua ou talvez o ribombar de trovões distantes”, Will pensou. Exceto pelo falo de que trovões nunca tinham esse som. Aquele ruído parecia nunca começar, nem nunca terminar. Ele apenas continuava, sem fim, repetindo-se constantemente.
E, aos poucos, aumentava.
Era o som de milhares de cavalos trotando lentamente na direção deles.
Will esticou a corda de seu arco várias vezes a fim de testar a sensação e a tensão. Seus olhos estavam presos no ponto onde todos sabiam que o exército Temujai iria aparecer: a um quilômetro dali, onde a estreita faixa do litoral entre as colinas e o mar se projetava para fora e formava o promontório, temporariamente bloqueando a visão do exército que se aproximava. Ele se deu conta de que sua boca estava seca ao tentar engolir sem sucesso.
Will estendeu a mão para o cantil que estava pendurado na aljava e não viu quando os primeiros cavaleiros Temujai viraram a curva.
Os homens à sua volta soltaram um grito involuntário. Os cavaleiros galopavam lado a lado formando uma longa linha contínua, cada cavalo trotando com facilidade, acompanhando o ritmo do animal ao lado.
— Deve haver milhares deles! — um dos arqueiros disse, e Will sentiu o medo em sua voz.
O mesmo murmúrio ecoou em vários outros pontos ao longo da linha. Das fileiras de guerreiros escandinavos atrás deles, não veio nenhum som.
Agora, além do retumbar abalado dos cascos, eles ouviram também o retinir dos arreios, um leve contraponto para o rugir dos cascos batendo no chão. Os cavaleiros continuavam a cavalgar e se aproximavam das fileiras dos silenciosos escandinavos à espera. E então, a um único toque da corneta, eles puxaram as rédeas e pararam.
O silêncio, depois do retumbante ruído de sua aproximação, era quase palpável.
Nesse momento, um rugido forte surgiu das gargantas dos guerreiros escandinavos parados junto de suas defesas. Um rugido de desafio e provocação acompanhado pelo ensurdecedor choque dos machados e espadas nos escudos. Aos poucos, o som desapareceu. Os Temujai ficaram sentados em seus cavalos encarando os inimigos.
— Fiquem quietos! — Will gritou para seus arqueiros.
Agora que ele tinha visto a linha de frente dos Temujai, seu grupo parecia ridiculamente pequeno. Devia haver 600 ou 700 guerreiros cavalgando lado a lado na fileira da frente. E, atrás deles, havia 5 ou 6 vezes esse número. No centro do exército, onde o comandante montava seu animal, uma sequência de bandeiras coloridas de sinalização oscilava. Outras respondiam de posições na linha de cavaleiros. Ouviu-se outro toque de corneta, uma nota diferente desta vez, e a linha de frente começou a fazer os cavalos avançarem. O tinir dos arreios ficou evidente mais uma vez e então um som metálico e forte encheu o ar, e o sol fraco brilhou em centenas de lâminas de sabre quando foram empunhadas.
— Eles vão partir para a luta direta — Horace disse devagar ao seu lado.
— Você se lembra do que Halt nos disse? — Will retrucou concordando. — A primeira manobra vai ser um estratagema: um ataque e depois uma falsa retirada para atrair os escandinavos para trás de suas defesas. Eles só vão partir para o verdadeiro ataque depois que os escandinavos tiverem iniciado a perseguição.
Os 1.800 escandinavos estavam distribuídos em três fileiras numa estreita faixa de terra plana entre o mar e as colinas fortemente arborizadas. Eles esperavam atrás de defesas cuidadosamente construídas. As proteções em declive voltadas para os Temujai estavam fortemente rodeadas por estacas afiadas, de comprimentos variados, desenhadas para cravarem nos cavalos do inimigo.
Halt linha instalado sua principal posição de defesa na parte onde a faixa de terra era mais estreita e os flancos eram protegidos à esquerda por montanhas íngremes e cobertas por bosques, e à direita pelo mar. Hallasholm ficava uns 200 metros atrás de sua linha. O grupo de arqueiros de Will estava numa trincheira à direita, alguns metros atrás da principal linha de defesa. Naquele momento, proteções de vime cobertas de terra mantinham os arqueiros escondidos enquanto ficavam agachados atrás delas.
Halt, Erak e Ragnak estavam na posição de comando, mais ou menos no centro da linha escandinava, num pequeno outeiro.
Agora se viam mais bandeiras de sinalização, e a cavalaria que avançava irrompeu num trote e começou a girar ligeiramente na direção do flanco esquerdo escandinavo.
Houve um movimento entre os arqueiros agachados atrás das defesas. Vários colocaram a mão nas caixas de flechas à sua frente, instintivamente sentindo a necessidade de se armar.
— Fiquem abaixados! — Will ordenou desejando, mais que nunca, que sua voz não tremesse.
Halt não iria querer que ele revelasse a presença dos arqueiros até os escandinavos terem realizado alguns de seus ataques de sondagem habituais.
— Espere até eles se envolverem num ataque total, e então nós vamos fazer uma surpresa para eles — ele tinha dito ao aprendiz.
A linha de arqueiros se virou para olhar o jovem comandante. Will se obrigou a sorrir e então, fingindo uma indiferença que certamente não sentia, apoiou seu arco à sua frente, mostrando que os arqueiros não precisariam agir ainda por algum tempo.
Alguns dos outros homens o imitaram.
— Ótimo trabalho — Horace disse baixinho ao lado dele. — Como você pode ficar tão calmo?
— Isso ajuda quando se está apavorado — Will respondeu pelo canto da boca.
Ele estava surpreso com a pergunta do aprendiz de guerreiro. Horace parecia ser a típica imagem da tranquilidade, totalmente despreocupado e aparentemente indiferente, mas sua próxima declaração apagou essa impressão.
— Sei o que você quer dizer — ele disse. — Eu quase deixei a espada cair quando eles apareceram naquela curva.
A investida dos Temujai estava ganhando velocidade, passando para um trote rápido e logo para um galope. À medida que se aproximavam da linha escandinava, uma parte significativa virou para o lado, aparentemente detida pelas fortificações e as estacas afiadas. Eles viraram os cavalos para que corressem paralelamente a linha dos escandinavos por alguns segundos e então começaram a descrever uma curva de volta para o próprio exército. Os escandinavos gritaram para eles, ofendendo-os e zombando deles. Uma chuva de lanças, pedras e outros mísseis surgiram da linha escandinava. A maioria caiu longe dos cavaleiros a galope.
Um grupo menor, talvez com menos de cem pessoas, continuou a se aproximar da ala esquerda da linha escandinava. Inclinados sobre os estribos, proferindo gritos de guerra, eles obrigavam as montarias desgrenhadas a investir contra as proteções cobertas de terra, ignorando os gritos dos cavalos que eram feridos pelas estacas. Cerca de dois terços conseguiram chegar à linha escandinava e desceram das selas, desferindo golpes à direita e à esquerda com os sabres longos e curvos.
Os defensores escandinavos se juntaram ansiosamente à batalha. Enormes machados se levantaram e caíram, e mais cavalos foram derrubados com gritos de agonia. Will tentou fechar os ouvidos diante do som de sofrimento dos animais. As pequenas montarias desgrenhadas Temujai eram muito parecidas com Puxão e Abelard, e era fácil demais imaginar seu cavalo sangrando aterrorizado, assim como acontecia com os cavalos do inimigo. Obviamente, os Temujai encaravam seus cavalos como um meio para atingir um fim e tinham pouco afeto por eles.
A violenta batalha ocupava um lado da linha escandinava. Por alguns minutos, parecia não haver uma imagem clara do que estava ocorrendo. Então, aos poucos, com gritos de pânico, os Temujai começaram a recuar e a descer das trincheiras íngremes, virando os cavalos e se afastando, deixando que os escandinavos os perseguissem com crescente ansiedade.
No entanto, para observadores mais distantes, era óbvio que o inimigo em retirada não se movia tão rápido quanto poderia. Mesmo aqueles ainda montados não se esforçavam realmente para galopar... Em vez disso, eles se afastavam aos poucos, mantendo contato com os primeiros perseguidores, atraindo-os para longe das posições defensivas que ocupavam e para terreno aberto.
— Olhem! — Horace avisou de repente, apontando com a espada.
Em resposta a mais sinais das bandeiras que não foram vistos pelos defensores no flanco esquerdo, várias centenas de cavaleiros do primeiro grupo Temujai tinham agora feito um círculo completo e estavam voltando para ajudar os companheiros.
— Exatamente como Halt disse que fariam — Horace murmurou e Will assentiu sem falar.
No comando do posto perto do centro da linha escandinava, Erak estava dizendo praticamente a mesma coisa.
— Ali vêm eles, Halt, como você disse — ele murmurou. Ragnak, parado ao lado do arqueiro, espiou ansiosamente os seus homens expostos por sobre as trincheiras. Cerca de cem escandinavos tinham se espalhado para fora das defesas e estavam em luta com os Temujai.
— Você estava certo, arqueiro — ele concordou.
De sua posição remota, ele via a armadilha que estava para ser lançada. Se tivesse assumido seu lugar habitual no meio da luta, não teria conseguido perceber a tática.
— Podemos confiar que Kormak mantenha a calma lá fora e não deixe seus homens perderem o controle? — Hall perguntou ao oberjarl.
Ragnak franziu o cenho diante da pergunta.
— Vou matar ele se ele não fizer isso — disse simplesmente.
O arqueiro ergueu uma sobrancelha.
— Você não vai precisar — ele retrucou.
Então, virou-se e fez um gesto na direção de um dos sinalizadores que se encontrava perto com uma enorme corneta de chifre de carneiro na mão.
— Prepare-se — ele disse, e o homem levou o chifre â boca, apertou os lábios para atingir a forma correta a fim de criar a nota triste, mas penetrante.
Era um jogo de gato e rato. O grupo menor de Temujai fingia recuar no mesmo tempo em que continuava a lutar com os lideres escandinavos que os perseguiam. Eles, por sua vez, simulavam uma perseguição impetuosa e indisciplinada, afastando-se cada vez mais das próprias linhas. E, de repente, a primeira força Temujai se virou para investir contra os escandinavos desprotegidos.
Havia apenas mais um elemento no jogo que era desconhecido para os líderes Temujai. Antes do amanhecer, Halt linha feito uma centena de guerreiros escandinavos armados de machados tomar posição na margem da colina coberta de bosques que cercava o vale. Escondidos em trincheiras rasas cavadas às pressas e atrás de troncos caídos, eles esperavam o sinal que lhes diria para realizar um ataque-surpresa aos Temujai que planejavam surpreender seus companheiros.
— Sinal Um — Halt disse com tranquilidade, e a corneta de chifre de carneiro emitiu uma nota longa que ecoou pelo vale.
No mesmo instante, os escandinavos que os perseguiam, dispostos numa longa fila atrás dos Temujai que recuavam, romperam o contato com o inimigo e correram para criar um circulo defensivo formando uma parede impenetrável com os escudos redondos. O movimento ocorreu no momento certo, pois uma segunda onda de cavaleiros Temujai estava praticamente em cima deles. Quando os cavaleiros do lado leste se aproximaram, ficaram surpresos ao ver que o inimigo já estava numa formação defensiva e obviamente os aguardava. O ataque se desfez contra a muralha de escudos, e outra escaramuça agitada e difícil se formou onde cem escandinavos se defendiam desesperadamente de um inimigo pelo menos cinco vezes mais numeroso.


Haz’kam, comandante geral da força invasora Temujai, franziu o cenho em sua posição de comando ao ver o movimento bem ensaiado e coordenado dos escandinavos quando eles formaram a muralha de escudos.
— Não gosto do que estou vendo — ele murmurou para o segundo no comando. — Não é assim que esses selvagens deveriam reagir.
E então a corneta de chifre de carneiro tocou novamente, desta vez emitindo três notas curtas e em staccato que pareceram socar o ar. O comandante percebeu que era alguma espécie de sinal. Mas para quê? E para quem?
A resposta não demorou a chegar. Houve um ruído forte vindo das principais fileiras de escandinavos quando um grupo de soldados a pé surgiu do abrigo fornecido pelas árvores e correu para atacar pelas costas os cavaleiros que rodeavam seus companheiros. As achas escandinavas tiveram um pesado impacto nos surpresos Temujai, que se viram repentinamente presos entre o martelo de uma nova força atacante e a bigorna da muralha de escudos. Surpresos e confusos e com o fôlego do ataque gasto há muito, os cavaleiros eram alvos fáceis para os selvagens guerreiros do norte. Em questão de segundos, Haz’kam calculou que tinha perdido pelo menos um quarto de sua força de ataque. Era tempo de reduzir o prejuízo, e ele se virou para seu corneteiro.
— Recuar — ele disse depressa. — Separar e recuar.
As notas nítidas da corneta se espalharam pelo campo de batalha e atingiram a mente da altamente disciplinada cavalaria Temujai. Desta vez, enquanto se retiravam, eles não fingiram manter contato com os escandinavos. A maneira rápida como se separaram mostrou como tinha sido falsa a aparente retirada anterior. Em questão de minutos, os cavaleiros voltavam para as próprias linhas.


Por um momento, parecia que a disciplina e a razão tinham abandonado os escandinavos. Ragnak se deu conta de que, no calor do momento, eles estiveram a um passo de perseguir os Temujai em retirada até suas linhas. E para a morte certa. Rapidamente, ele saltou sobre as defesas e gritou o mais alto que podia com a voz retumbante:
— Kormak! Volte para cá! Agora!
Não havia necessidade de que a corneta de chifre de carneiro reforçasse a ordem. A voz do oberjarl chegou com clareza aos escandinavos e, como se fossem um só, eles correram para o abrigo das fortificações. Percebendo tarde demais o que estava acontecendo, alguns dos Temujai embainharam os sabres e se viraram para enviar uma saraivada de flechas na direção dos escandinavos.
Mas não foi o suficiente e era tarde demais. Além de alguns pequenos raspões na pele, não houve feridos.
Will e Horace trocaram olhares. Até aquele momento, as coisas tinham saído muito bem como Halt tinha previsto. Mas eles não achavam que os Temujai iriam tentar o mesmo truque outra vez.
— Logo vai ser a nossa vez — Will disse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário