terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 31

A manhã já ia pela metade quando Evanlyn acordou, embora ela não tivesse como saber disso. Não havia sinal do sol. Ele estava escondido atrás das nuvens baixas cheias de neve. A luz era tão fraca e difusa que parecia estar vindo de todas as direções e de nenhuma ao mesmo tempo. Era dia, e isso era tudo o que sabia.
Ela alongou os músculos doloridos e olhou em volta. Ao seu lado, Will estava sentado ereto e bem acordado. Talvez estivesse assim por horas ou talvez tivesse acordado somente alguns minutos antes dela. Não havia como saber. Ele simplesmente ficou sentado de olhos arregalados, balançando levemente para a frente e para trás e olhando diretamente para a frente.
O coração dela ficava partido ao vê-lo dessa maneira. Quando se mexeu, o pônei percebeu o movimento e começou a se levantar. Evanlyn se afastou do animal para lhe dar espaço, segurou as mãos de Will e o puxou para longe também. O pequeno cavalo ficou de pé e bateu os cascos no chão uma ou duas vezes, sacudiu-se e relinchou violentamente, soprando uma grande nuvem de vapor no ar gelado.
A neve tinha parado de cair durante a noite, mas não antes de ter apagado os sinais da passagem deles até a depressão debaixo da árvore. Evanlyn se deu conta de que seria difícil voltar para a trilha, mas pelo menos agora estava descansada. Ela pensou brevemente em comer havia um pequeno suprimento de comida na mochila, mas logo descartou a ideia, preferindo continuar e aumentar a distância entre eles e Hallasholm. Ela não tinha como saber que os grupos de busca já tinham sido chamados de volta por Borsa.
Concluiu que poderia viver mais algumas horas com a sensação de vazio no estômago, mas não com a forte sede que tinha secado sua boca. Foi até onde a neve estava espessa e nova, pegou um punhado e o colocou na boca, deixando-a derreter. A quantidade de água produzida foi surpreendentemente pequena, e ela teve que repetir o gesto várias vezes. Ela pensou em mostrar a Will como fazer o mesmo, mas de repente ficou impaciente para prosseguir a viagem. “Se ele estiver com sede”, raciocinou, “saberá resolver o problema sozinho”.
Ela voltou a amarrar a sela no lombo do pônei e apertou as tiras o máximo que pôde. O pônei, esperto como todos os de sua espécie, tentou respirar fundo e expandir a barriga para depois expirar e fazer as tiras afrouxarem. Mas Evanlyn tinha ficado atenta a esse truque desde os 11 anos de idade. Ela deu uma joelhada forte no animal, obrigando-o a soltar o ar e então, quando o corpo dele se contraiu, puxou as tiras com força. O pônei olhou para ela com ar de censura, mas aceitou seu destino sabiamente.
Quando começou a sair debaixo da árvore, novamente abrindo caminho na neve na altura da cintura, Will fez um movimento para montar o pônei. Ela o impediu, levantando a mão.
— Não — ela disse com delicadeza.
Eles precisavam do pônei, e Will certamente estava descansado depois de uma noite tranquila na vala relativamente aquecida. Mais tarde, talvez ela o deixasse montar o animal outra vez. Sabia que as reservas de força do amigo não podiam ser muito grandes. Mas, naquele momento, ele podia andar e eles preservariam a força do pequeno cavalo o máximo possível.
Foram necessários 5 minutos de trabalho duro para voltar até onde a trilha podia ser percorrida com relativa facilidade e, respirando com dificuldade e molhada de suor, ela recomeçou a subir a colina com obstinação.
O cavalo andava com dificuldade e paciência atrás dela, e Will caminhava a meio passo à direita. Seus lamentos em voz baixa e sem parar já a estavam deixando nervosa, mas ela fez o que pôde para ignorá-lo, pois sabia que ele nada podia fazer para parar. Pela centésima vez desde que deixaram Hallasholm, ela se viu desejando o dia em que ele finalmente teria eliminado todos os sinais da droga de seu organismo.
Infelizmente, esse dia seria adiado ainda mais. Depois de algumas horas de caminhada firme e difícil na neve recém-caída, Will foi repentinamente tomado por uma onda de tremores incontroláveis. Seus dentes bateram, e seu corpo sacudiu, tremeu e se retorceu quando ele caiu no chão, rolando na neve, sem nada poder fazer, com os joelhos encolhidos junto do peito. Uma das mãos esfregava a neve inutilmente, enquanto a outra apertava a boca com firmeza.
Ela observou horrorizada quando os gemidos se transformaram num grito assustador, cheio de agonia, que saía do fundo de sua alma.
Evanlyn caiu de joelhos ao lado dele, abraçou-o e tentou acalmá-lo com sua voz. Mas ele se afastou dela com um movimento violento, rolando e se debatendo outra vez, e ela se deu conta de que não havia nada que pudesse fazer além de lhe dar um pouco da erva que Erak colocara na mochila. Ela tinha visto a erva quando precisou procurar roupas quentes e cobertores. Havia uma pequena quantidade das folhas secas dentro de uma bolsa impermeável. Jarl Erak tinha avisado que Will não conseguiria parar de usar a droga imediatamente. A erva do calor criava uma dependência física nos usuários que provocava muita dor no caso de sua falta total.
Ele lhe dissera que teria que livrar o garoto do vício gradativamente, dando-lhe quantidades cada vez menores em intervalos cada vez maiores até que ele pudesse passar sem ela.
Evanlyn tinha esperado que Erak estivesse errado. Ela sabia que cada dose da droga ampliava ainda mais o tempo de dependência e tinha pensado que seria capaz de cortar o suprimento de Will de imediato e que poderia ajudá-lo a suportar a dor e o sofrimento. Mas não havia como ajudá-lo naquele momento, por isso com relutância, ela lhe deu uma pequena quantidade das folhas secas, protegendo a bolsa com o corpo quando a tirou do pacote e novamente quando a guardou.
Will pegou o pequeno punhado da substância cinzenta com uma ansiedade assustadora. Pela primeira vez, ela viu um clarão vivo no olhar normalmente apagado. Mas sua atenção estava totalmente concentrada na droga e ela compreendeu o quanto a erva dominava a vida e a mente dele naqueles dias. Em silêncio, com os olhos cheios de lágrimas, ela olhou a concha vazia onde antes havia um companheiro vivo e entusiasmado. Ela condenou Borsa e os outros escandinavos que tinham provocado essa situação ao canto mais quente do inferno em que acreditavam.
O aprendiz de arqueiro enfiou o pequeno punhado de erva na boca, empurrou-o para a bochecha e deixou que a saliva o encharcasse e soltasse o suco que levaria o narcótico ao seu organismo. Aos poucos, os espasmos se acalmaram até que ele se ajoelhou na neve ao lado do caminho, curvou-se e balançou lentamente para a frente e para trás de olhos fechados, outra vez gemendo suavemente para si mesmo no mundo solitário, desconhecido e cheio de dor que habitava.
O pônei olhava a esses acontecimentos sem curiosidade e, de tempos em tempos, abria um buraco na neve com o casco e mordiscava os escassos fios de grama que apareciam. Por fim, Evanlyn tomou a mão de Will e o puxou para cima sem que ele resistisse.
— Venha, Will — ela chamou num tom desanimado. — Ainda temos um longo caminho pela frente.
Ao dizer isso, ela percebeu que estava se referindo a bem mais do que apenas a distância até a cabana de caça nas montanhas.
Grunhindo baixinho para si mesmo uma música sem melodia, Will seguiu Evanlyn enquanto ela conduzia o pequeno grupo para cima outra vez.
A luz do dia já tinha quase desaparecido quando Evanlyn encontrou a cabana.
Ela tinha passado pelo local duas vezes ao seguir as instruções que Erak a tinha obrigado a memorizar: entrar à esquerda numa bifurcação na trilha 100 passos depois de um pinheiro derrubado por um raio, seguir por uma vala estreita que leva para baixo por uns 100 metros e sobe em curva e depois atravessar uma passagem rasa que atravessa um pequeno riacho.
Mentalmente, ela marcava os pontos de referência, espiando de um lado e outro na luz fraca do fim de tarde que se instalava sobre as árvores. Mas não viu sinal da cabana, apenas o branco sem forma da neve.
Finalmente, percebeu que a cabana não estaria facilmente visível. Ela estaria praticamente enterrada na neve. Quando se deu conta desse fato simples, notou um monte grande a menos de 10 metros de onde estava. Soltou a rédea do pônei, andou aos tropeços com a neve na altura dos joelhos e descobriu a extremidade de uma parede, depois a inclinação de um telhado e o ângulo recortado de um canto, mais regular e liso do que qualquer forma que a natureza poderia ter escondido debaixo da neve.
Movendo-se ao redor do grande monte, descobriu que o lado voltado na direção do vento estava mais descoberto e era possível ver a porta e uma pequena janela fechada por uma veneziana de madeira. Evanlyn ponderou que era uma sorte a porta ter sido construída daquele lado, mas então se deu conta de que isso tinha sido intencional. Apenas um idiota teria posto a porta do lado em que os constantes ventos do norte fariam a neve se empilhar a grande altura.
Com um suspiro de alívio, voltou para pegar a rédea do pônei. As magras reservas de força de Will já tinham se acabado horas antes e ele estava caído sobre a sela, balançando e gemendo naquele contínuo murmúrio a meia-voz. Ela fez o pônei parar junto da pequena varanda, em frente da porta, e amarrou a rédea em uma corrente que tinha sido presa no chão. Provavelmente, não havia necessidade disso, pois o pônei não tinha mostrado intenção de ir embora até aquele momento. Entretanto, não fazia mal ser precavida. A última coisa que queria era ter que caçar o pônei e seu cavaleiro no meio da escuridão.
Satisfeita ao ver a rédea amarrada com firmeza, ela empurrou a porta mal encaixada e entrou na cabana para conhecer seu novo refúgio e seu conteúdo.
O local era pequeno, somente uma sala principal com uma mesa rústica e dois bancos, um de cada lado. Na parede dos fundos, havia uma cama de madeira coberta com o que parecia um colchão de palha. O cheiro de mofo e bolor a fez franzir o nariz por um instante, mas então ela se deu conta de que assim que acendesse o fogo na lareira de pedra que ocupava quase toda a parede da esquerda, o mau cheiro iria se dissipar.
Empilhado perto da lareira e bem à mão, havia um suprimento de lenha juntamente com uma pedra-de-fogo e um pedaço de ferro.
Evanlyn gastou alguns minutos para acender o fogo. O estalar das chamas e a luz amarela tremeluzente que lançaram para o interior da cabana a deixaram animada. Num canto que evidentemente era uma despensa, encontrou farinha, carne seca e feijão. Havia sinais de que pequenos animais tinham remexido os suprimentos, e ela imaginou que eles provavelmente teriam o suficiente para um ou dois meses. Ela e Will não fariam banquetes, mas iriam sobreviver. Principalmente se ele recuperasse qualquer uma de suas antigas habilidades quando se livrasse dos efeitos da droga. Porque naquele momento ela viu que havia um pequeno arco de caça e uma aljava de couro com flechas penduradas atrás da porta. Mesmo no inverno mais rigoroso, deveria haver alguma caça pequena disponível, como coelhos e lebres. Eles poderiam complementar a comida que estava estocada na cabana.
Caso contrário... ela deu de ombros ao pensar nisso. Pelo menos estavam livres e ela teria a chance de libertar Will do vício. Enfrentaria os outros problemas à medida que surgissem.
O interior da cabana estava ficando mais aquecido e ela saiu para dizer a Will que desmontasse. Quando ele obedeceu, ela franziu a testa ao ver o pônei. Evanlyn se deu conta de que ele não poderia ficar do lado de fora, no entanto, o pensamento de dividir a pequena cabana com ele durante o inverno não a atraía muito. Na noite anterior, embora tivesse ficado agradecida pelo calor do animal, ela tinha ficado bem consciente do forte cheiro que se desprendia dele.
Havia um alpendre junto da cabana. Era aberto de um dos lados, mas seria suficiente para fornecer abrigo para o pônei durante o inverno. Havia alguns arreios e tiras de couro abandonados e pendurados em pregos de ferro junto com outras ferramentas simples. Era evidente que o lugar era usado como estábulo.
Evanlyn viu com satisfação que ele também tinha outra utilidade. Ao longo da parede externa da cabana onde o alpendre tinha sido construído, havia uma enorme pilha de lenha cortada. Ela ficou aliviada com a descoberta, pois já tinha se perguntado o que iria fazer quando tivesse usado todo o pequeno suprimento que havia dentro da cabana.
Evanlyn levou o pônei para o alpendre e tirou a sela e os arreios. Havia um cocho e um pequeno suprimento de milho, e ela deu um pouco para o animal. Ele mastigou os grãos contente, rangendo os dentes uns contra os outros daquele jeito tranquilo que os cavalos têm. Não conseguiu encontrar água para ele, mas o tinha visto lamber a neve durante o dia e imaginou que ele saberia como se satisfazer até que encontrasse outra alternativa. O pequeno suprimento de milho no estábulo não iria durar até a primavera e ela se preocupou com o fato por um momento. Então, obedecendo a nova filosofia de não se preocupar com problemas que não poderia resolver, afastou o pensamento.
— Vou resolver isso mais tarde — disse para si mesma e voltou para a cabana.
Evanlyn constatou que Will tinha tido o bom senso de entrar e estava sentado num dos bancos perto do fogo. Ela viu isso como um bom sinal e preparou uma refeição simples com os restos das provisões que Erak tinha colocado na mochila.
Havia uma chaleira amassada pendurada num apoio na lareira e ela a encheu de neve, colocou-a suspensa sobre o fogo para que a neve derretesse e a água começasse a ferver. Ela tinha visto uma pequena caixa de algo que lhe pareceu chá na despensa. Pelo menos teriam uma bebida quente para afugentar os últimos sinais de frio e umidade.
Evanlyn sorriu para Will quando o viu mastigar impassível a comida que tinha colocado à sua frente. Ela se sentiu estranhamente otimista. Mais uma vez, olhou ao redor da cabana. A luz do lado de fora tinha desaparecido e o lugar era iluminado apenas pelo brilho amarelo incerto, mas alegre, do fogo. Naquela luz, a cabana parecia aconchegante e tranquilizadora e, como ela tinha esperado, o calor do fogo e o cheiro da fumaça de pinho tinham dominado a umidade e o bolor que enchiam o aposento quando tinha entrado pela primeira vez.
— Bem — ela disse — não é muito, mas é um lar.
Não tinha ideia de que estava repetindo as palavras de Halt, centenas de quilômetros ao sul.

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