terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 30

A vida no Château Montsombre tinha caído na rotina. Seu anfitrião, o líder Deparnieux, via os dois convidados relutantes apenas quando queria, o que acontecia geralmente durante o jantar, uma ou duas vezes por semana. Isso também coincidia com as ocasiões em que ele tinha pensado numa nova maneira de atrair Halt, de tentar fazer que mostrasse suas habilidades.
Em outros momentos, os dois araluenses ficavam confinados principalmente no quarto da torre, embora todos os dias tivessem permissão de realizar um pouco de exercício no pátio do castelo sob o olhar desconfiado de cerca de 12 homens armados que os vigiavam da torre.
Eles haviam perguntado várias vezes se poderiam se aventurar para fora dos muros do castelo e, talvez , explorar um pouco o planalto. Não esperavam mais do que a resposta que receberam, que foi um silêncio sepulcral por parte do chefe dos homens designados para vigiá-los, mas ainda assim era muito frustrante.
Naquele momento, Horace andava de um lado para outro do terraço no alto da torre central do Château Montsombre.
Do lado de dentro, Halt estava sentado de pernas cruzadas na cama enquanto dava os toques finais num novo arco que estava fazendo para Will. Ele vinha trabalhando no projeto desde que tinham chegado a Gálica. Cuidadosamente, selecionou, colou e amarrou com firmeza tiras de madeira de modo que seus diferentes veios e formas naturais ficassem opostos uns aos outros e fizessem que a peça formasse uma curva suave. Depois, fixou duas peças parecidas, porém mais curtas, em cada ponta, de modo que sua curva corresse paralela ao contorno principal do arco, dando-lhe a forma recurva que desejava.
Quando tinham chegado a Montsombre, Deparnieux tinha visto as peças na mochila de Halt, mas não tinha visto motivo para confiscá-las. Sem flechas, um arco pela metade não representava ameaça para ele. O vento circundava os torreões do castelo se espremendo entre as estátuas de gárgulas esculpidas em pedra. Abaixo do terraço, uma família de gralhas esvoaçava e planava ao vento, indo e vindo do ninho construído numa fresta da dura parede de granito.
Horace sempre se sentia um tanto enjoado ao observar pássaros voando abaixo dele. Ele se afastou da balaustrada e ajeitou melhor a capa em volta do corpo. O ar trazia consigo a ameaça de chuva e, no norte, havia um grupo de nuvens pesadas vindo na direção deles.
Era o meio da tarde de outro dia gelado em Montsombre. A floresta que se estendia abaixo deles era uma massa escura e sem forma. Daquela altura, parecia um tapete áspero.
— O que vamos fazer, Halt? — Horace perguntou e o companheiro hesitou antes de responder.
Não porque não sabia a resposta, mas porque não sabia como o jovem rapaz ia recebê-la.
— Vamos esperar — ele disse simplesmente e de imediato viu a frustração no olhar de Horace.
Ele sabia que o garoto estava esperando que alguma coisa precipitasse os acontecimentos com Deparnieux.
— Mas Deparnieux está torturando e matando pessoas! E nós só ficamos sentados olhando! — o menino disse zangado.
Ele esperava mais do habilidoso ex-arqueiro do que uma simples ordem de esperar.
A inatividade forçada estava irritando Horace. Ele não estava lidando bem com a monotonia e a frustração do cotidiano em Montsombre. Era treinado para agir e era o que queria fazer. Sentia a compulsão de fazer alguma coisa, qualquer coisa. Queria castigar Deparnieux pela crueldade, queria uma chance de fazer o cavaleiro negro engolir os comentários sarcásticos. Acima de tudo, queria se livrar de Montsombre, voltar para a estrada e procurar Will.
Halt esperou até quando achou que Horace tinha se acalmado um pouco.
— Ele também é o senhor deste castelo — ele continuou com suavidade — e tem cerca de cinquenta homens prontos para obedecer às suas ordens. Acho que isso é um pouco mais do que poderíamos enfrentar com tranquilidade.
Horace pegou um pedaço de granito despedaçado de um canto da balaustrada e o jogou para longe no vazio abaixo, viu-o cair e descrever uma curva na direção dos muros do castelo até se perder de vista.
— Eu sei — respondeu de mau humor — mas gostaria que pudéssemos fazer alguma coisa.
Halt levantou os olhos de sua tarefa. Embora escondesse o fato, sua frustração era ainda mais intensa do que a de Horace. Se estivesse sozinho, poderia fugir do castelo com a maior facilidade. Mas, para tanto, teria que abandonar Horace, e nunca faria isso. Em vez disso, ele se via dividido por lealdades conflitantes: para com Will e com o jovem rapaz que desinteressadamente resolveu acompanhá-lo na busca de um amigo. Ele sabia que Deparnieux não teria piedade de Horace se Halt escapasse. Ao mesmo tempo, todas as fibras de seu ser ansiavam por tomar a estrada e sair em busca do aprendiz perdido. Ele voltou a atenção para o arco quase completo outra vez, tomando cuidado para evitar que sua voz mostrasse qualquer sinal de frustração.
— Receio que o próximo movimento está nas mãos de nosso anfitrião — ele disse a Horace. — Ele não tem certeza do que fazer comigo. Não sabe bem se posso ser útil. E, enquanto hesita, está vigilante. Isso o torna perigoso.
— Então, não poderíamos lutar com ele? — Horace indagou recebendo uma enfática resposta negativa de Halt.
— Prefiro relaxar um pouco — ele retrucou. — Prefiro que ele pense que não somos tão perigosos ou úteis quanto imaginou. Sinto que ele está tentando chegar a uma conclusão a meu respeito. Aquela história com a cozinheira foi um teste.
As primeiras gotas de chuva bateram na laje do piso. Horace olhou para cima e percebeu com alguma surpresa que as nuvens aparentemente tão distantes alguns minutos antes já estavam passando em cima deles.
— Um teste? — ele repetiu.
Halt retorceu o rosto numa careta.
— Ele queria ver o que eu ia fazer. Talvez quisesse descobrir o que eu poderia fazer a respeito.
— Então você não fez nada? — Horace perguntou e no mesmo instante se arrependeu das palavras apressadas.
Halt, contudo, não se ofendeu. Ele encarou o garoto com firmeza e não disse nada.
— Desculpe, Halt — Horace resmungou afinal baixando o olhar.
— Não havia muito o que eu pudesse fazer — Halt explicou ao aceitar as desculpas. — Não enquanto Deparnieux estava nervoso e em guarda. Esse não é o momento de agir contra um inimigo. Receio que nas próximas semanas vai haver mais desses testes — ele acrescentou num tom de advertência.
— O que você acha que ele pretende? — Horace perguntou imediatamente.
— Não sei os detalhes, mas você pode apostar que nosso amigo Deparnieux vai realizar mais atos desagradáveis apenas para ver o que faremos a respeito. — Novamente, o ex-arqueiro fez uma careta. — A questão é: quanto mais eu ficar indiferente, mais ele vai relaxar e menos preocupado vai ficar comigo.
— E é isso o que você quer? — Horace questionou começando a entender.
Halt concordou sombrio.
— É isso o que quero.
Ele olhou para as nuvens escuras que cobriam o céu.
— Agora, entre antes de ficar encharcado — ele sugeriu.
A chuva veio e caiu durante uma hora, acompanhando a violência do vento, batendo quase horizontalmente nos espaços abertos das janelas do château onde os ocupantes tinham deixado de fechar as venezianas de madeira.
ma hora depois de escurecer, a chuva diminuiu quando o sempre presente vento levou as nuvens mais para o sul, e o sol baixo surgiu no oeste numa espetacular exibição contra as nuvens de tempestade que se separavam.
Os dois prisioneiros estavam assistindo ao pôr do sol do terraço atingido pelo vento quando ouviram uma agitação abaixo deles.
Um cavaleiro solitário estava no portão principal batendo no gigantesco sino de bronze pendurado em um poste. Ele falava, ou melhor, gritava, em galês, e Horace não tinha ideia do que ele dizia, embora certamente reconhecesse o nome “Deparnieux”.
— O que ele está dizendo? — perguntou a Halt, e o arqueiro levantou a mão pedindo silêncio enquanto escutava as últimas palavras do cavaleiro.
— Ele está desafiando Deparnieux — contou com a cabeça inclinada para o lado para compreender as palavras do cavaleiro desconhecido com mais clareza.
Horace fez um gesto impaciente.
— Eu entendi! — ele disse com certa aspereza.
— Mas por quê? — Halt fez sinal para que se calasse enquanto o recém-chegado continuava a gritar. O tom era bastante zangado, mas era difícil entender as palavras, pois elas iam e vinham ao sabor do vento.
— Pelo que posso entender — Halt começou devagar — nosso amigo Deparnieux assassinou a família desse sujeito enquanto ele estava fora numa busca. Eles vivem realizando buscas nessa região.
— Então, o que aconteceu? — Horace quis saber, mas o arqueiro só pôde responder com um dar de ombros.
— Parece que Deparnieux queria as terras da família desse homem, então se livrou dos pais do sujeito.
Ele continuou ouvindo.
— Eles já eram idosos e bastante indefesos.
— Pelo que sabemos de Deparnieux, ele é bem capaz disso — Horace grunhiu.
De repente, o desconhecido parou de gritar, virou o cavalo e se afastou trotando do portão para esperar uma reação. Durante alguns minutos, não se viu nenhum sinal de que alguém além de Halt e Horace tivesse ouvido alguma coisa. Então, uma porta falsa se abriu no sólido muro e dela saiu uma figura vestida numa armadura negra e montada num cavalo de batalha negro.
Deparnieux se aproximou lentamente até chegar a uns 100 metros do outro cavaleiro. Os dois se encararam enquanto o jovem repetia o desafio. Nas laterais do castelo, Halt e Horace podiam ver os homens de Deparnieux ansiosamente ocupando posições favoráveis para assistir à batalha que iria se realizar.
— Abutres — Halt murmurou ao vê-los.
O cavaleiro vestido de preto não respondeu ao desconhecido. Ele simplesmente ergueu a ponta do escudo e fechou o visor do capacete. O gesto foi suficiente para o desafiante. Ele fechou o próprio visor com força e esporeou seu cavalo de batalha. Deparnieux fez o mesmo e os dois dispararam na direção um do outro com as lanças apontadas para a frente.
Mesmo a distância, Halt e Horace podiam ver que o jovem não era muito habilidoso. Ele estava sentado na sela de modo estranho e segurava o escudo e a lança de forma desajeitada. Deparnieux, em comparação, parecia ter movimentos totalmente coordenados e assustadoramente capazes quando os dois se chocaram.
— Isso não parece bom — Horace murmurou num tom preocupado.
Os dois se chocaram com um som retumbante que ecoou pelas paredes do castelo. A lança do jovem cavaleiro, mal posicionada e num ângulo desfavorável, partiu-se em pedaços. Em comparação, a lança de Deparnieux atingiu diretamente o escudo do oponente, fazendo-o cambalear na sela quando passaram. Mas, por mais estranho que parecesse, Deparnieux não conseguiu segurar a lança com firmeza. Ela caiu na grama atrás dele enquanto virava o cavalo para contra atacar. Por um momento, Horace sentiu uma onda de esperança.
— Ele está ferido! — exclamou ansioso. — Que golpe de sorte!
Mas Halt observava a cena com a testa franzida e balançando a cabeça.
— Não acredito nisso — ele afirmou. — Há alguma coisa esquisita acontecendo aqui.
Os dois guerreiros de armadura empunharam as espadas e voltaram a atacar. Eles se chocaram um contra o outro. O escudo de Deparnieux foi atingido por um golpe do outro cavaleiro, enquanto sua espada atingiu o capacete do oponente com um tinido e, mais uma vez, o jovem cambaleou na sela.
Os cavalos de batalha relinchavam furiosos enquanto giravam e se empinavam, e os cavaleiros tentavam assumir uma posição vantajosa. Os guerreiros se golpearam novamente quando se aproximaram um do outro, enquanto os homens de Deparnieux davam vivas sempre que o patrão desferia um golpe.
— O que ele está fazendo? — Horace perguntou sem o entusiasmo anterior. — Deparnieux poderia ter acabado com o outro depois daquele primeiro golpe!
Sua voz adotou um tom de repugnância quando percebeu a verdade.
— Ele está brincando!
Abaixo deles, os guinchos agudos de espada contra espada continuavam e se alternavam com o som metálico mais grave quando atingiam os escudos. Para espectadores experientes como Halt e Horace, que tinham visto muitos torneios no castelo Redmont, era óbvio que Deparnieux estava se contendo. Seus homens, porém, pareciam não notar. Eles eram camponeses que não tinham conhecimento das habilidades envolvidas num duelo como aquele. Eles continuavam a rugir sua aprovação a cada golpe desferido por Deparnieux.
— Ele está jogando para a plateia — Halt disse e indicou os homens armados nas balaustradas abaixo deles. — Está fazendo o outro homem parecer melhor do que realmente é.
Horace balançou a cabeça. Deparnieux estava mostrando mais um lado de sua natureza cruel ao prolongar a batalha daquela forma. Era muito melhor dar ao jovem cavaleiro um fim misericordioso do que brincar com ele.
— Ele é um porco — disse em voz baixa.
O comportamento de Deparnieux ia contra todas as normas da cavalaria, que significavam tanto para ele. Halt assentiu com um gesto de cabeça.
— Isso nós já sabemos. Ele está usando esse rapaz para melhorar a própria reputação.
Horace o olhou com espanto e o arqueiro explicou.
— Ele domina pelo medo. O poder sobre seus homens depende do quanto eles o respeitam e temem. E precisa sempre renovar esse medo. Ele não pode deixá-lo escapar. Ao fazer esse oponente parecer mais capaz do que é, realça a própria reputação de grande guerreiro. Esses homens — ele fez um gesto desdenhoso para a balaustrada abaixo — não percebem isso.
Deparnieux pareceu resolver que já tinha prolongado a luta o suficiente. Os dois araluenses detectaram uma sutil mudança na velocidade e na força de seus golpes. O jovem cavaleiro balançou sob o ataque e tentou permanecer firme. Mas a figura vestida de preto fez seu cavalo de batalha segui-lo implacavelmente, desferindo golpes na espada, no escudo e no capacete, à vontade. Finalmente, ouviu-se um som mais surdo quando a espada de Deparnieux atingiu um ponto vulnerável: a malha de ferro que protegia o pescoço do oponente.
O cavaleiro negro sabia que tinha sido um golpe mortal. Com desdém, virou o cavalo na direção do portão do castelo sem olhar para o jovem, que estava caindo para o lado da sela. Das balaustradas, vieram gritos e aplausos quando a figura sem energia caiu no chão e lá ficou imóvel. O portão se fechou com estrondo atrás do vitorioso.
Halt acariciou a barba pensativo.
— Acho que talvez tenhamos encontrado a chave para resolver nosso problema com lorde Deparnieux — ele disse.

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