sexta-feira, 24 de junho de 2016

Capítulo 30

Halt estava agachado entre os tijolos caídos que antes tinham sido a fortaleza de Morgarath, dentro do pátio em ruínas coberto de mato. Sua perna, dormente onde o Kalkara a tinha arranhado, estava começando a latejar dolorosamente, e ele sentia o sangue atravessando a atadura improvisada que tinha amarrado em volta dela.
Ele sabia que o segundo Kalkara o estava procurando em algum lugar ali perto. De tempos em tempos, ouvia o movimento dos pés se arrastando e chegou a escutar sua respiração dura quando o monstro se aproximou de seu esconderijo entre duas paredes caídas. Halt sabia que era só uma questão de tempo até que a criatura o encontrasse. E, quando isso acontecesse, ele estaria acabado.
Halt estava ferido e desarmado. Tinha perdido o arco, despedaçado naquele primeiro e apavorante ataque em que disparou uma flecha depois da outra no primeiro dos dois monstros. Ele conhecia o poder de seu arco e a capacidade de penetração das flechas pesadas e afiadíssimas. Não conseguia acreditar que o monstro tinha recebido aquela chuva de flechas e aparentemente ainda continuava com a mesma coragem. Quando cambaleou, já era tarde demais para que Halt voltasse sua atenção para o companheiro. O segundo Kalkara estava quase em cima dele, arrancando o arco de sua mão e esmagando-o com a pata forte cheia de garras, de modo que ele mal teve tempo de arrastar-se para um local seguro perto da parede caída.
Enquanto o monstro o perseguia, atacando tudo à sua volta com as garras, ele tinha empunhado a faca e golpeado a terrível cabeça. Mas a besta foi rápida demais para ele, e a pesada faca atingiu seu braço coberto pela malha da armadura.
Ao mesmo tempo, ele se viu confrontado pelos olhos vermelhos cheios de ódio e sentiu-se perdendo a consciência. Os músculos começaram a ficar paralisados de terror quando se viu atraído para a horrível besta diante dele. Foi necessário um esforço imenso para desviar os olhos da criatura, e ele cambaleou para trás, perdendo a faca quando as garras de urso o atacaram e arranharam a sua coxa.
Então ele correu desarmado e sangrando, contando com o confuso labirinto que eram as ruínas para fugir do monstro que o perseguia.
Ele tinha percebido a mudança nos movimentos dos Kalkaras no final da tarde. Sua rota constante e anteriormente inalterada para o noroeste de repente mudou quando as duas bestas se separaram abruptamente, cada qual fazendo uma curva de 90 graus e andando em direções diferentes para dentro da floresta que os cercava. Suas pegadas, até aquele momento tão fáceis de seguir, também mostravam sinais de que estavam sendo encobertas, de modo que somente alguém habilidoso como um arqueiro teria sido capaz de segui-las. Pela primeira vez em anos, Halt sentiu um calafrio de medo no estômago quando se deu conta de que agora a caça era ele.
As ruínas estavam perto, então ele resolveu ficar ali, e não no bosque. Deixou Abelard em segurança, longe de qualquer perigo, e foi a pé para as ruínas. Ele sabia que os Kalkaras iriam persegui-lo assim que a noite caísse, então se preparou da melhor forma possível, reunindo galhos caídos para fazer uma fogueira. Halt até encontrou uma jarra de óleo nas ruínas da cozinha, rançoso e malcheiroso, mas que ainda iria queimar. Ele o derramou na pilha de lenha e se afastou até um ponto onde poderia ficar de costas para a parede. Tinha arrumado uma série de tochas e as deixou queimando enquanto escurecia, esperando que os matadores implacáveis o procurassem.
O arqueiro sentiu a presença deles antes de vê-los. Então enxergou os dois vultos trôpegos, duas manchas mais escuras contra a escuridão das árvores. Naturalmente, eles o viram de imediato. A tocha trêmula presa na parede garantiu isso. Mas eles não viram a pilha de lenha embebida em óleo, e era com isso que ele contava. Quando soltaram seus gritos de caça, Halt jogou a tocha flamejante na pilha e as chamas subiram no mesmo instante, espalhando um brilho amarelo na noite.
Por um momento, as bestas hesitaram, pois o fogo era seu único inimigo. Mas, quando viram que o arqueiro não estava próximo das chamas, continuaram direto para a chuva de flechas com que Halt as recebeu.
Se tivessem mais 100 metros para percorrer, talvez Halt tivesse conseguido derrotar as duas. Ainda havia mais de dez flechas na aljava, mas o tempo e a distância corriam contra ele, que mal tinha escapado com vida. Agora, estava agachado entre dois pedaços de muro caído que formavam uma pequena gruta, escondido numa leve reentrância do terreno e oculto pela capa, como acontecia há anos. Sua única esperança era que Will chegasse com Arald e Rodney. Se pudesse escapar da criatura até que a ajuda chegasse, talvez tivesse uma chance.
Ele tentou não pensar na outra possibilidade a de que Gilan chegasse antes deles, sozinho e armado apenas com o arco e a espada. Agora que tinha visto os Kalkaras de perto, Halt sabia que um homem tinha poucas chances de enfrentá-los. Se Gilan chegasse antes dos cavaleiros, ele e Halt morreriam ali.
Naquele momento, a criatura estava rodeando o velho pátio como um cão à procura da caça, adotando um padrão de busca metódico, para a frente e para trás, examinando cada espaço, cada buraco, cada possível esconderijo. Halt sabia que desta vez ela o encontraria. Sua mão tocou o cabo da pequena faca, a única arma que restava. Seria uma defesa insignificante, quase inútil, mas era tudo o que tinha.
Então ele ouviu: o inconfundível trovejar dos cascos dos cavalos de batalha. Olhou para cima e observou o Kalkara por uma pequena fresta entre as pedras que o escondiam. O monstro também os tinha ouvido e estava de pé, ereto, a cara voltada para o som que vinha de fora das paredes em ruínas.
Os cavalos pararam, e Halt ouviu o grito agudo do Kalkara mortalmente ferido ao desafiar os novos inimigos. As batidas dos cascos se fizeram ouvir de novo e ganharam velocidade e força. Seguiu-se um grito e um clarão vermelho gigantesco que subiu para o céu por um momento. Vagamente, Halt deduziu que o primeiro Kalkara devia ter sido jogado no fogo. Ele começou a recuar devagar para fora do esconderijo. Talvez pudesse escapar do outro Kalkara movendo-se para o lado e escalando a parede antes que ele o visse. As chances pareciam boas. A atenção do monstro estava voltada para o que quer que estivesse acontecendo do lado de fora. Mas, assim que teve a ideia, percebeu que não tinha opção. Embora aparentemente o Kalkara o tivesse esquecido por um momento, a criatura estava se movendo furtivamente em direção às ruínas que formavam uma escada irregular para o alto do muro.
Em mais alguns minutos, a besta estaria em posição de cair sobre os amigos despreocupados do outro lado, tomando-os de surpresa. Halt tinha que impedi-la.
O arqueiro já estava fora do esconderijo, a pequena faca saindo da bainha quase por vontade própria, quando ele correu pelo pátio, desviando-se e fazendo círculos ao redor do entulho espalhado. O Kalkara o escutou antes que ele tivesse dado dez passos e se virou para ele, assustadoramente silencioso quando pulou como um macaco para impedir sua passagem antes que pudesse avisar os amigos sobre o perigo.
Halt parou de repente e ficou imóvel, com o olhar preso na figura trôpega que se aproximava dele. Alguns metros a mais e o olhar hipnótico iria controlar a sua mente. Ele sentiu uma vontade irresistível de encarar aqueles olhos vermelhos, mas então fechou os olhos, a testa franzida numa concentração intensa. Levantou a mão que segurava a faca e agitou-a para a frente e para trás num ataque suave e instintivo, vendo o alvo se mexer em sua cabeça, mentalmente alinhando o arremesso para o ponto no espaço aonde a faca e o alvo iriam chegar ao mesmo tempo.
Somente um arqueiro, entre muito poucos, poderia ter lançado a arma daquele jeito. A faca atingiu o olho direito do Kalkara, e a besta gritou furiosa quando se encolheu por causa da repentina pontada de agonia que começava em seu olho e se espalhava pelo corpo todo! Então Halt passou correndo por ele na direção do muro e subiu as pedras com dificuldade.
Will viu o vulto envolto em sombras que escalava na direção do topo do muro em ruínas. Mas, escondido pelas sombras ou não, havia algo de inconfundível nele.
— Halt! — ele gritou, apontando para que os dois cavaleiros também o vissem.
Todos os três viram o arqueiro parar, olhar para trás e hesitar. Então um vulto enorme começou a aparecer alguns metros atrás dele quando o Kalkara, cujo ferimento era dolorido, mas nada mortal, o perseguiu.
O barão Arald pensou em montar, mas, percebendo que nenhum cavalo poderia passar pela confusão de pedras e tijolos ao lado da parede, tirou a imensa espada da sela e correu na direção das ruínas.
— Para trás, Will! — ele gritou quando avançou.
Nervoso, Will levou Puxão de volta para a beira das árvores.
No muro, Halt ouviu o grito e viu Arald correndo para a frente. Sir Rodney estava logo atrás dele, girando uma enorme acha em círculos em volta da cabeça.
— Pule, Halt! Pule! — o barão gritou, e Halt não precisou de outro convite.
Ele saltou 3 metros para baixo, rolando para amortecer a queda quando aterrissou. Então, levantou-se e correu desajeitado ao encontro dos dois cavaleiros, enquanto o ferimento da perna tornava a abrir.
Com o coração na boca, Will viu Halt correr na direção dos dois cavaleiros. O Kalkara hesitou um momento e então, com um grito de desafio apavorante, pulou atrás dele. O monstro simplesmente transformou a queda de 3 metros num pulo enorme, suas pernas traseiras incrivelmente poderosas fazendo que fosse impulsionado para cima e para a frente, cobrindo o terreno entre ele e Halt nesse único movimento. O braço forte girou, atingindo Halt com violência e fazendo que ele rolasse para a frente inconsciente. Mas a besta não teve tempo de acabar com ele, pois o barão Arald o enfrentou e dirigiu a espada num arco mortal na direção de sua garganta.
O Kalkara foi cruelmente rápido e se abaixou, desviando do arremesso mortal e atacando as costas expostas de Arald com as garras antes que ele pudesse se recuperar do golpe. Elas rasgaram a malha de metal como se fosse um tecido fino, e Arald grunhiu de dor e surpresa quando a força do ataque o jogou de joelhos, obrigando-o a soltar a espada. Sangue jorrava de vários arranhões nas costas. Ele teria morrido ali se não fosse por sir Rodney. O mestre de guerra girou a pesada acha como se fosse um brinquedo e golpeou a lateral do corpo do Kalkara.
A armadura de pelos emaranhados protegeu a besta, mas a força imensa do golpe a fez cambalear e se afastar do cavaleiro com gritos furiosos e frustrados. Sir Rodney avançou protetoramente e se colocou com os pés firmes entre o monstro e as figuras caídas de Halt e do barão, preparando a arma para outro golpe fulminante.
E então, estranhamente, ele deixou a arma cair e ficou parado diante da criatura, totalmente à sua mercê. O poder do olhar do Kalkara roubara-lhe a vontade própria e a capacidade de pensar.
O Kalkara gritou vitorioso para o céu noturno. Sangue negro escorria por sua cara. Nunca em sua vida ele tinha sentido dor parecida com a que aqueles três homens insignificantes haviam provocado. E agora eles iriam morrer por ousarem enfrentá-lo. Mas a inteligência primitiva que o guiava queria seu momento de triunfo, e ele gritou repetidas vezes diante dos três homens indefesos.
Will assistia a tudo horrorizado. Um pensamento se formava, uma ideia tomava corpo em algum lugar de sua mente. Ele olhou para o lado e viu a tocha bruxuleante que o barão Arald tinha soltado. Fogo. A única arma que poderia derrotar o Kalkara. Mas ele estava a 40 metros de distância...
Ele tirou uma flecha da aljava, escorregou da sela e correu rapidamente até a tocha tremeluzente. Uma grande quantidade de piche grudento e derretido tinha escorrido pelo cabo da tocha e, depressa, ele passou a ponta da flecha no líquido pegajoso e mole, cobrindo-a generosamente. Em seguida, encostou-a na chama até que se acendesse.
A 40 metros dali, a enorme criatura perversa estava satisfazendo sua necessidade de vitória, fazendo que seus gritos se espalhassem e ecoassem pela noite enquanto ficava de pé junto dos dois corpos: Halt, inconsciente, e o barão Arald, atordoado pela dor. Sir Rodney ainda estava parado no mesmo lugar, paralisado, com as mãos indefesas penduradas ao lado do corpo enquanto esperava a morte. Agora, o Kalkara levantava uma pata imensa para jogá-lo no chão, e o cavaleiro só conseguia sentir o terror paralisante de seu olhar.
Will preparou-se para atirar a flecha, estremecendo com a dor quando as chamas lhe queimaram a mão que segurava o arco. Ele mirou um pouco acima do seu alvo por causa do peso adicional do piche e soltou a flecha.
Ela descreveu um arco brilhante e rápido, e o vento provocado por sua passagem transformou a chama numa simples brasa. O Kalkara viu o clarão de luz se aproximando e se virou para olhar, selando seu próprio destino quando a flecha o atingiu diretamente no peito largo.
A flecha quase não penetrou os pelos duros parecidos com escamas, mas, quando parou, a pequena chama voltou a se incendiar, e o fogo se espalhou nos pelos emaranhados com incrível rapidez. Assim que sentiu o toque do fogo, o Kalkara foi tomado pelo terror.
O monstro bateu nas chamas em seu peito com as patas, mas isso apenas serviu para espalhar o fogo para os braços. As chamas vermelhas avançaram depressa, e em segundos o Kalkara foi envolvido por elas, queimando dos pés à cabeça enquanto corria cegamente em círculos, tentando em vão escapar. Os gritos agudos não paravam e ficavam cada vez mais altos, atingindo uma escala de agonia que a mente mal podia compreender. As chamas ficavam mais intensas a cada segundo. Então os gritos pararam e a criatura morreu.

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