quarta-feira, 29 de junho de 2016

Capítulo 3

Erak Starfollower, capitão de navio e um dos principais jarls de guerra dos escandinavos, atravessou a residência de teto baixo e paredes revestidas de madeira até a Grande Mansão. A expressão em seu rosto era sombria. Ele tinha muito a fazer, agora que a temporada de pirataria da primavera estava se aproximando. Seu navio precisava de reparos e novos equipamentos. Acima de tudo, precisava dos pequenos ajustes que somente alguns dias no mar poderiam proporcionar.
Contudo, a convocação de Ragnak atrapalhou seus planos. Principalmente porque a convocação tinha vindo por meio de Borsa, o hilfmann, ou administrador do oberjarl. Se Borsa estava envolvido, certamente Ragnak tinha alguma pequena tarefa para Erak realizar. Ou talvez não tão pequena assim, o capitão pensou aborrecido.
O café da manhã já tinha terminado fazia muito tempo, de modo que havia apenas uns poucos criados limpando a mansão quando ele chegou. No fundo do aposento, numa mesa rústica de pinho ao lado da grande cadeira de Ragnak uma cadeira imensa de pinho que servia de trono para o governante escandinavo, este e Borsa estavam sentados com as cabeças inclinadas sobre uma pilha de rolos de pergaminho, Erak reconheceu os rolos. Eram as declarações de impostos das diversas cidades e condados em toda a Escandinávia. Ragnak estava obcecado por elas. Na opinião de Borsa, a vida dele era totalmente dominada por elas. Ele respirava, dormia e sonhava com as declarações de impostos, e infeliz o jarl de uma cidade que tentasse enganá-lo ou reivindicar qualquer dedução que não passasse pelo exame minucioso de Borsa.
Erak somou dois mais dois e suspirou baixinho. A conclusão mais provável a que a convocação e a pilha de impostos o fizeram chegar era que ele estava para ser mandado para outra missão de cobrança.
Cobrar impostos não era algo de que Erak gostasse.
Ele era um saqueador e um lobo do mar, um pirata e um lutador. Como tal, estava mais inclinado a ficar do lado dos sonegadores de impostos do que do oberjarl e seu hilfmann avarento. Infelizmente, nas ocasiões em que Erak tinha sido enviado para cobrar impostos atrasados ou não pagos, ele tinha obtido êxito demais para seu próprio bem. Agora, sempre que havia a menor dúvida sobre a quantia de impostos devida por uma vila ou condado, Borsa automaticamente pensava nele como a solução para o problema.
Para piorar as coisas, a atitude e a abordagem de Erak em relação ao serviço só o tornavam mais desejável aos olhos de Borsa e Ragnak. Entediado com o trabalho e considerando-o constrangedor e humilhante, ele procurava realizá-lo o mais rápido possível. Não eram para ele as tortuosas discussões e cálculos sobre quantias devidas depois de todas as deduções terem sido aprovadas e acordadas. Erak optava por um caminho mais direto que consistia em pegar a pessoa investigada, apertar a acha debaixo de seu queixo e ameaçar machucá-la se todos os impostos, cada um deles, não fossem pagos imediatamente.
A reputação de Erak como lutador era bem conhecida em toda a Escandinávia. Infelizmente, nunca lhe pediram para cumprir as ameaças. Os teimosos que visitava invariavelmente entregavam sem discutir ou hesitar o valor devido e, muitas vezes, uma quantia extra que nunca tinha sido cobrada.
Os dois homens sentados à mesa olharam para ele quando andou entre os bancos até o fim do aposento. A Grande Mansão servia para mais de um objetivo. Era ali que Ragnak e seus seguidores mais próximos faziam as refeições. Era também o local de todos os banquetes e reuniões oficiais do simples calendário social da Escandinávia. E o pequeno anexo aberto onde Ragnak e Borsa analisavam as declarações de impostos naquele momento também era o escritório do oberjarl.
Não era exatamente reservado, visto que qualquer membro do conselho interior ou exterior de jarls tinha acesso à mansão a qualquer hora do dia. Por outro lado, Ragnak não era do tipo que precisava de privacidade. Ele governava abertamente e fazia todas as suas declarações políticas para o mundo todo.
— Ah, Erak, você está aqui — Borsa comentou e Erak pensou, não pela primeira vez, que o hilfmann tinha o hábito de fazer afirmações absolutamente óbvias.
— Quem é desta vez? — ele perguntou num tom resignado.
Ele sabia que não havia sentido em tentar encontrar um meio de fugir à missão, portanto decidiu ficar calado e fazer o que era preciso. Com sorte, seria uma das pequenas cidades da costa e ele também teria a oportunidade de fazer a tripulação trabalhar no barco ao mesmo tempo.
— Ostkrag — o oberjarl contou, e as esperanças de Erak de salvar algo de útil desse trabalho caíram por terra.
Ostkrag ficava bem no interior, a leste. Era um povoado pequeno no lado oposto de uma cadeia de montanhas que formava o terreno irregular da Escandinávia e ao qual se podia chegar apenas atravessando as montanhas ou uma das várias passagens tortuosas que abriam caminho entre elas.
Na melhor das hipóteses, isso representava uma jornada desconfortável de ida e volta num pônei, um meio de transporte que Erak detestava. Ao pensar na cadeia de montanhas que ficava atrás de Hallasholm, lembrou brevemente dos dois escravos araluenses que tinha ajudado a fugir alguns meses antes. Ele se perguntou o que teria acontecido com eles, se tinham chegado à pequena cabana de caça no alto das montanhas e se tinham sobrevivido aos últimos meses de inverno. De repente, percebeu que Borsa e Ragnak estavam esperando sua reação.
— Ostkrag? — ele repetiu.
Ragnak assentiu com impaciência.
— Eles estão devendo o pagamento trimestral. Quero que você vá e dê um jeito neles — o oberjarl disse.
Erak notou que Ragnak mal conseguia ocultar a expressão avarenta que tomava conta de seus olhos sempre que falava sobre impostos e pagamentos. Erak não conseguiu evitar soltar um suspiro exasperado.
 Eles não podem estar atrasados mais que uma semana — ele contemporizou, mas Ragnak não era do tipo que se convencia e balançou a cabeça com violência.
 Dez dias! — ele disparou. — E não é a primeira vez! Eu já avisei eles antes, não é verdade, Borsa? — ele perguntou virando-se para o hilfmann, que concordou.
 O jarl de Ostkrag é Sten Hammerhand — Borsa contou, como se essa explicação fosse suficiente.
Erak olhou de modo inexpressivo para ele.
 Ele é um homem difícil — continuou com sarcasmo. —Os pagamentos já ficaram colados em seus dedos antes e, mesmo quando paga tudo, ele sempre nos faz esperar muito tempo além do prazo. Chegou a hora de ensinarmos uma lição a ele.
Erak sorriu com alguma ironia para o pequeno e franzino hilfmann. Borsa pode ser uma figura muito ameaçadora , ele pensou, quando tem outra pessoa disponível para cumprir suas ameaças.
 Você quer dizer que chegou à hora de eu lhe ensinar uma lição, certo? — ele sugeriu, mas Borsa não percebeu o sarcasmo em sua voz.
 Exatamente! — ele replicou com alguma satisfação.
Ragnak, contudo, foi um pouco mais incisivo.
 Afinal, é meu dinheiro, Erak — ele afirmou de um jeito quase petulante.
Erak encarou-o com firmeza. Pela primeira vez, percebeu que Ragnak estava ficando velho. Os cabelos, antes de um ruivo vivo, estavam sem brilho e grisalhos. Aquilo foi uma surpresa para Erak. Ele certamente não sentia que estava envelhecendo, embora Ragnak não fosse muito mais velho do que ele e, agora que tinha tomado consciência do fato, percebeu outras mudanças no oberjarl. Os cabelos estavam embranquecendo, a papada estava maior e a cintura mais grossa. Ele se perguntou se também estava mudando, mas afastou o pensamento. Não tinha notado mudanças drásticas no próprio rosto e ele o examinava todas as manhãs em seu espelho polido de metal. Concluiu que deviam ser as pressões de ser o oberjarl.
— Foi um inverno muito rigoroso — Erak começou. — Talvez as passagens ainda estejam bloqueadas. Houve muita neve no final da estação.
Ele foi até o grande mapa da Escandinávia pendurado na parede atrás da mesa de Ragnak, encontrou Ostkrag e, com o dedo indicador, mostrou o caminho até a passagem mais próxima.
— A passagem da Serpente — ele disse quase para si mesmo. — É possível que toda essa neve tardia e o degelo repentino tenham provocado deslizamentos ali. — Erak se virou para Ragnak e Borsa, indicando a posição no mapa para eles. — Talvez os mensageiros ainda não tenham conseguido passar — ele sugeriu.
Ragnak negou com um gesto de cabeça e Erak, de novo, sentiu a irritação, o aborrecimento irracional que parecia tomar conta dele sempre que sua vontade era contrariada ou seu julgamento questionado.
— É culpa de Sten, tenho certeza — ele disse teimoso. — Se fosse outra pessoa, eu poderia concordar com você, Erak.
Erak concordou, apesar de saber muito bem que aquilo era mentira. Ragnak raramente concordava com alguém quando se tratava de mudar de opinião.
— Vá até lá e pegue o dinheiro. Se ele discutir, prenda-o e traga de volta. Ou melhor, prenda, mesmo se ele não discutir. Leve 20 homens com você. Quero que ele veja uma verdadeira demonstração de força. Estou cansado de ser tratado como um tolo por esses jarls sem importância.
Erak olhou para cima surpreso. Prender um jarl em seu território não era algo sem importância, especialmente por uma ofensa tão insignificante como o atraso do pagamento de impostos. Entre os escandinavos, a sonegação de impostos era considerada quase obrigatória. Era um tipo de esporte. Se você fosse pego, pagava e o assunto terminava aí. Erak não se lembrava de ninguém ser submetido à vergonha de ser preso por causa disso. Os escandinavos eram um povo de espírito livre, independente e tinham orgulho disso. E os seguidores de um jarl consideravam a lealdade ao superior imediato mais importante do que a fidelidade à Residência Central, que Ragnak dominava.
— Isso pode não ser muito sensato — ele disse calmamente, Ragnak o encarou e procurou o olhar do capitão por cima dos papéis espalhados na mesa à sua frente.
— Eu decido o que é sensato — ele disparou. — Eu sou o oberjarl, não você.
As palavras foram ofensivas. Erak era um jarl de posição elevada e, segundo um velho costume há muito estabelecido, ele tinha o direito de apresentar sua opinião, mesmo que fosse contrária à do líder. Ele reprimiu a resposta zangada que lhe saltou aos lábios. Não havia motivo para provocar Ragnak, ainda mais quando estava de mau humor.
— Sei que você é o oberjarl, Ragnak — ele respondeu com calma. — Mas Sten é jarl por merecimento e pode ter uma razão perfeitamente válida para ter atrasado o pagamento. Prender ele nessas circunstâncias seria uma provocação desnecessária.
— Estou lhe dizendo que ele não vai ter o que você chama de “razão válida”, droga! — Os olhos de Ragnak se estreitaram e seu rosto ficou tomado pela raiva. — Ele é um ladrão com quem não se pode contar e deve ser usado como exemplo para os outros!
— Ragnak... — Erak começou tentando ponderar mais uma vez.
Desta vez, foi Borsa quem interrompeu.
— Jarl Erak, você recebeu as instruções! Agora cumpra as suas ordens! — ele gritou, e Erak se virou zangado e o fitou.
— Sigo as ordens do oberjarl, hilfmann. Não as suas.
Borsa percebeu seu erro. Ele recuou alguns passos, certificando-se que a mesa enorme estivesse entre os dois. Ele desviou o olhar e um silêncio pesado se instalou entre eles. Finalmente, Ragnak pareceu se dar conta de que era preciso recuar, mas apenas um pouco.
— Olhe Erak, apenas vá e consiga aqueles impostos de Sten — ele disse num tom irritado. — E, se ele estiver retendo o dinheiro de propósito, traga ele para cá para ser julgado. Certo?
— E se ele tiver um motivo válido? — Erak insistiu.
— Se ele tiver um motivo válido, o deixe em paz — o oberjarl concordou cedendo. — Assim está bom para você?
— Nessas condições, está tudo bem — ele concordou.
— Ah, é mesmo? — Ragnak, que nunca sabia quando abandonar um assunto retrucou com ironia. — Bem, isso é bom para você, jarl Erak. Agora, que tal ir andando antes que chegue o verão?
Erak assentiu rígido e se virou. Ele encontrara a saída que tinha procurado. Em sua opinião, o fato de Ragnak ser uma pessoa insuportável era motivo mais do que válido para não pagar os impostos no prazo. E, pensando bem, ele talvez tivesse que encontrar outra forma de dizer isso quando voltasse sem ter prendido Sten.

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