terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 2

Surpreso diante da explosão repentina, Halt se virou lentamente para encarar seu jovem e impulsivo aprendiz.
— Sinto muito, Halt — Will murmurou se acalmando.
— Acho que deve mesmo — o arqueiro mais velho comentou. — É mais do que evidente que Gilan está perguntando se vou liberar você para acompanhar ele a Céltica.
Gilan fez um gesto de confirmação e Will franziu a testa atordoado com a repentina virada nos acontecimentos.
— Eu? — ele perguntou sem acreditar. — Por que eu? O que posso fazer em Céltica?
Assim que proferiu as palavras, Will se arrependeu. Ele já deveria ter aprendido a nunca dar esse tipo de abertura para Halt. Seu mestre franziu os lábios e pensou na pergunta.
— Não muito, provavelmente. A pergunta importante é se você pode ser liberado de suas tarefas aqui. E a resposta é “com certeza”.
— Então por que...
Will desistiu. Eles poderiam explicar o que estava acontecendo ou não. E, por mais que perguntasse, Halt só daria explicações quando achasse que tinha chegado o momento. Na verdade, ele estava começando a pensar que, quanto mais perguntas fazia, mais Halt gostava de deixá-lo às escuras. Foi Gilan que sentiu pena do garoto, talvez por se lembrar de como Halt podia ser fechado quando queria.
— Preciso de você para completar o grupo, Will — informou. — Por tradição, os celtas insistem que uma missão oficial seja composta por três pessoas. E, para ser honesto, Halt está certo. Você é uma das pessoas que podem ser liberadas das funções aqui em Araluen — ele riu um tanto tristemente. — Se isto o faz se sentir melhor, recebi a missão porque sou o integrante mais novo dos arqueiros da Corporação.
— Mas por que três pessoas? — Will quis saber, vendo que pelo menos Gilan estava disposto a responder perguntas. — Uma pessoa só não pode entregar a mensagem?
— Como estávamos dizendo, é uma superstição dos celtas — Gilan contou suspirando. — Ela remonta aos dias do Conselho Celta, quando eles, os scottis e os hibernianos eram aliados governados por um triunvirato.
— A questão é — Halt interrompeu — que Gilan pode levar a mensagem sozinho. Mas, se assim for, eles vão fazê-lo esperar e enganá-lo com artifícios durante dias, ou até semanas, enquanto se preocupam com etiqueta e protocolos. E não temos esse tempo a perder. Há um velho ditado celta que fala sobre isso: Um homem pode ser enganado. Dois, pode ser conspiração. Três é o número em que confio.
— Então vocês estão me mandando porque não há outro jeito?
Will perguntou um tanto insultado com a ideia. Halt decidiu que era o momento de massagear o jovem ego um pouco; mas só um pouco.
— Bem, na verdade, há, sim. Mas não se pode mandar qualquer um para uma missão dessas. Os três membros precisam ter algum tipo de status. Por exemplo, eles não podem ser simples soldados.
— E você, Will — Gilan acrescentou — é um membro do Corpo dos Arqueiros. Isso vai pesar bastante para os celtas.
— Sou só um aprendiz — Will retrucou e ficou surpreso quando os dois homens balançaram a cabeça discordando.
— Você usa a Folha de Carvalho — Halt disse com firmeza. — Não importa se é de bronze ou prata. Você é um dos nossos.
Will ficou visivelmente animado com a declaração do mestre.
— Bom, se vocês acham isso, vou ficar muito feliz em acompanhar Gilan — Will respondeu.
Halt olhou para ele com frieza. Certamente era tempo de parar com as carícias no ego. Deliberadamente, ele se virou para Gilan.
— Então, você sabe de mais alguém que seja totalmente desnecessário para ser o terceiro membro? — ele perguntou.
Gilan deu de ombros, sorrindo quando viu Will se acalmar.
— Esse é o outro motivo pelo qual Crowley me mandou para cá — ele contou. — Como Redmont é um dos maiores feudos, ele pensou que vocês poderiam dispensar outra pessoa daqui. Alguma sugestão?
— Acho que talvez tenhamos exatamente a pessoa de quem você precisa — Halt disse esfregando o queixo enquanto uma ideia se formava em sua cabeça. — Talvez seja melhor você ir para a cama — ele falou, virando-se para Will. — Vou ajudar Gilan com os cavalos e depois vou até o castelo.
Will concordou. Agora que Halt tinha mencionado a cama, o rapaz sentiu uma vontade irresistível de bocejar. Ele se levantou e foi para o seu pequeno quarto.
— Até amanhã, Gilan.
— Bem cedo — Gilan respondeu sorrindo, e Will revirou os olhos fingindo estar apavorado.
— Eu sabia que você ia dizer isso.
Halt e Gilan atravessaram os campos e foram até o Castelo Redmont num silêncio agradável. Gilan, atento aos modos do antigo mestre, percebeu que Halt queria discutir um assunto. Não demorou muito para que o arqueiro mais velho quebrasse o silêncio.
— Essa missão para Céltica pode ser exatamente o que Will precisa. Estou um pouco preocupado com ele.
Gilan franziu a testa. Ele gostava do jovem e irrefreável aprendiz.
— Qual é o problema?
— Ele passou por maus momentos quando encontramos aqueles Wargals na semana passada — Halt contou. — Acha que perdeu a coragem.
— E perdeu?
— Claro que não — Halt disse e sacudiu a cabeça com determinação. — Ele tem mais coragem do que muitos homens adultos. Mas, quando os Wargals nos atacaram, ele se apressou em atirar e errou.
— Isso não é nenhuma vergonha, é? — Gilan retrucou. — Afinal, ele nem tem 16 anos ainda. Suponho que não tenha fugido.
— Não, de jeito nenhum. Ele se manteve firme. Até conseguiu atirar outra flecha. Então Puxão fez o Wargal recuar para que eu desse cabo dele. Bom cavalo aquele.
— Ele tem um bom dono — Gilan replicou, e Halt concordou.
— Isso é verdade. Mesmo assim, acho que vai ser bom para o garoto passar algumas semanas longe de todos esses preparativos de guerra. Ele vai esquecer os problemas se ficar algum tempo com você e Horace.
— Horace? — Gilan perguntou.
— Ele é o terceiro membro que estou sugerindo. Um dos aprendizes da Escola de Guerra e amigo de Will — Halt pensou alguns minutos e então disse para si mesmo. — Sim. Algumas semanas com pessoas da mesma idade vão fazer bem a ele. Afinal, dizem que fico um pouco carrancudo de vez em quando.
— Você, Halt? Carrancudo? Quem diria uma coisa dessas? — Gilan brincou.
Halt olhou para ele desconfiado. Era evidente que o rapaz estava tendo dificuldades em ficar sério.
— Você sabe, Gilan — Halt comentou — que o sarcasmo é a pior forma de fazer graça. Aliás, nem graça tem.


Apesar de já passar da meia-noite, as luzes ainda estavam acesas no escritório do barão Arald quando Halt e Gilan chegaram ao castelo.
O barão e sir Rodney, o mestre de guerra de Redmont, tinham muitos planos a fazer, preparando-se para a marcha até as Planícies de Uthal, onde iriam se juntar ao resto do exército do Reino. Quando Halt explicou do que Gilan precisava, sir Rodney logo percebeu aonde o arqueiro queria chegar.
— Horace? — ele perguntou, e o pequeno arqueiro de barba concordou de modo quase imperceptível. — Sim, não é mesmo uma má ideia — o mestre de guerra continuou, andando pela sala enquanto pensava no assunto. — Ele tem o status de que você precisa para a tarefa: é um membro da Escola de Guerra, mesmo sendo apenas um aluno. Podemos dispensar ele da força a partir deste fim de semana e... — ele fez uma pausa e lançou um olhar significativo para Gilan. — E você até pode acabar descobrindo que ele é uma pessoa útil.
O arqueiro mais jovem olhou para ele com curiosidade, e sir Rodney continuou.
— Ele é um dos meus melhores aprendizes e é um espadachim nato. Já é melhor do que a maioria dos membros da Escola de Guerra, mas costuma encarar a vida de um jeito um tanto formal e inflexível. Talvez uma missão com dois arqueiros indisciplinados possa ensinar ele a relaxar um pouco.
Ele sorriu brevemente, para mostrar que não pretendia ofender ninguém com a brincadeira, e então olhou para a espada que Gilan usava na cintura. Era uma arma incomum para um arqueiro.
— Foi você quem estudou com MacNeil, não é verdade?
— O mestre espadachim. Sim, fui eu — Gilan assentiu.
— Hum — sir Rodney murmurou olhando o jovem e alto arqueiro com novo interesse. — Bem, você pode ficar à vontade para dar algumas dicas para Horace enquanto estiverem na estrada. Encare isso como um favor para mim e você vai descobrir que ele aprende rápido.
— Com todo o prazer — Gilan respondeu, já com vontade de conhecer aquele guerreiro aprendiz.
Durante o período em que tinha sido aprendiz de Halt, ele notara que sir Rodney não costumava elogiar abertamente nenhum aluno da Escola de Guerra.
— Bem, então está combinado — o barão Arald concluiu ansioso para voltar para o planejamento de centenas de detalhes da marcha até Uthal. — A que horas você pretende partir, Gilan?
— Logo depois que o sol nascer, se possível, senhor — Gilan respondeu.
— Vou mandar Horace se apresentar a você antes do amanhecer — Rodney lhe disse.
Gilan assentiu percebendo que a reunião tinha terminado, o que foi confirmado pelas palavras seguintes do barão.
— Agora, se vocês nos derem licença, vamos voltar ao assunto relativamente simples que é planejar uma guerra.

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