sexta-feira, 24 de junho de 2016

Capítulo 2

— Vamos, candidatos! Por aqui! Onde está a animação?
O orientador, Martin, secretário do barão Arald, mais gritava que falava. Quando a sua voz ecoou na antessala, os cinco protegidos se ergueram hesitantes dos longos bancos de madeira onde estavam sentados. Repentinamente nervosos agora que o dia tinha finalmente chegado, começaram a andar devagar, relutantes em ser o primeiro a passar pela grande porta de ferro que Martin abria para eles.
— Venham, venham! — ele convocava impaciente, quando Alyss finalmente decidiu ser a primeira, como Will imaginara que faria.
Os outros acompanharam a graciosa garota loira. Agora que alguém tinha resolvido dar o primeiro passo, os demais se contentaram em segui-lo.
Ao entrar no gabinete do barão, Will olhou ao redor curioso. Ele nunca tinha estado naquela parte do castelo antes. Aquela torre, que abrigava o setor administrativo e os aposentos particulares do barão, raramente era visitada pelos subordinados, como os protegidos do castelo. O aposento era imenso. O teto parecia dominá-lo, e as paredes eram feitas de blocos de pedra maciça unidos apenas por uma fina camada de argamassa. Na parede leste, havia uma janela enorme com grossas venezianas de madeira que podiam ser fechadas em caso de mau tempo.
Will se deu conta de que era a mesma janela que ele tinha visto na noite passada. Naquele dia, o sol entrava por ela e caía na grande mesa de carvalho que o barão Arald usava como escrivaninha.
— Agora, venham! Fiquem em fila! Fiquem em fila! — Martin parecia estar gostando desse momento de autoridade.
O grupo andou lentamente para formar fila, e ele os observou com ar reprovador e a boca retorcida:
— Por ordem de tamanho! O mais alto no começo — ele disse, mostrando onde queria que o mais alto ficasse.
Aos poucos, o grupo se organizou. Horace, é claro, era o mais alto. Depois dele, Alyss tomou sua posição. Em seguida George, meia cabeça mais baixo do que ela e muito magro. Will e Jenny hesitaram. Jenny sorriu para o colega e, com um gesto, pediu que tomasse o lugar antes dela, mesmo que talvez fosse um centímetro mais alta. Aquela era uma atitude típica da Jenny. Ela sabia como Will sofria por ser o menor de todos os protegidos. Quando ele entrou na fila, a voz de Martin o interrompeu.
— Você, não! A menina primeiro.
Jenny deu de ombros num pedido de desculpas e foi para o lugar que Martin havia indicado. Will ficou sendo o último da fila, desejando que Martin não tivesse deixado a sua pouca altura tão evidente.
— Vamos! Animem-se, animem-se! Agora, atenção! — Martin continuou, mas parou assim que uma voz grave o interrompeu.
— Acho que não precisamos de tudo isso, Martin.
Era o barão Arald, que tinha entrado despercebido por uma pequena porta atrás da mesa enorme. Martin colocou-se no que considerava uma posição de sentido, com os cotovelos magros afastados do corpo, os calcanhares juntos fazendo suas pernas tortas ficarem bem separadas na altura dos joelhos e a cabeça atirada para trás.
O barão Arald levantou os olhos para o céu. Às vezes, o zelo do secretário nessas ocasiões era um pouco exagerado. O barão era um homem grande e musculoso de ombros largos e cintura avantajada, como era necessário a um cavaleiro. Sabia-se bem, contudo, que o barão Arald gostava de comer e beber, de modo que o seu tamanho não se devia somente aos músculos.
Ele usava uma barba preta curta e bem aparada que, assim como os cabelos, começava a mostrar alguns fios brancos por causa de seus 42 anos. Seu maxilar era largo; o nariz, grande e escuro; e os olhos, atentos e cheios de humor, alojados debaixo de sobrancelhas espessas. O seu rosto denotava poder, mas também bondade. Will já tinha notado esse detalhe em ocasiões em que Arald tinha feito suas visitas raras aos alojamentos dos protegidos para ver como iam suas lições e seu desenvolvimento pessoal.
— Senhor! — Martin disse em voz alta, fazendo o barão estremecer um pouco. — Os candidatos estão reunidos.
Arald respondeu com paciência:
— Estou vendo. Que tal pedir aos mestres de ofício que se juntem a nós?
— Sim, senhor! — Martin respondeu, tentando bater os calcanhares.
Como usava sapatos de couro macio e flexível, a tentativa não resultou em nada. Ele marchou em direção à porta principal do gabinete, com seus cotovelos e joelhos magros salientes, fazendo Will se lembrar de um galo.
Quando Martin colocou a mão na maçaneta, o barão o chamou mais uma vez.
— Martin? — ele disse suavemente. Quando o secretário se virou e o olhou com curiosidade, o barão prosseguiu no mesmo tom calmo. — Peça para virem. Sem gritar. Mestres de ofício não gostam disso.
— Sim, senhor — Martin concordou, parecendo um pouco decepcionado.
Ele abriu a porta e, com um esforço evidente para falar baixo, disse:
— Mestres de ofício, o barão está pronto.
Os chefes da escola de ofícios entraram no aposento sem ordem predeterminada. Como um grupo, eles se admiravam e respeitavam e raramente participavam de um procedimento tão formal. Sir Rodney, chefe da Escola de Guerra, entrou primeiro. Alto e de ombros largos como o barão, estava vestido a caráter, com malha de ferro por baixo de um manto branco adornado com a mesma figura do escudo: a cabeça vermelha de um lobo. Ele tinha ganhado esse escudo quando jovem, lutando no mar da Escandinávia contra navios piratas que constantemente saqueavam a costa leste do Reino. Usava um cinturão e uma espada. Nenhum cavaleiro podia ser visto em público sem sua espada. Ele tinha mais ou menos a idade do barão, olhos azuis e um rosto que seria extremamente bonito não fosse pelo nariz quebrado. Ostentava um bigode imenso, mas, ao contrário do barão, não usava barba.
Em seguida veio Ulf, o mestre da Cavalaria, responsável pelo cuidado e treinamento dos fortes cavalos de batalha do castelo. Tinha olhos castanhos cheios de esperteza, braços fortes e musculosos e punhos grossos. Usava um simples colete de couro sobre uma camisa de lã e calças coladas ao corpo. Altas botas de equitação feitas de couro macio cobriam os seus joelhos.
Lady Pauline seguiu-se a Ulf. Magra, elegante e de cabelos grisalhos, ela tinha sido muito bonita na juventude e ainda mostrava graça e estilo capazes de virar a cabeça dos homens. Lady Pauline, que tinha conquistado esse título por seu trabalho na política externa do Reino, era chefe do Serviço Diplomático em Redmont. O barão Arald tinha suas habilidades em alta conta, e ela era uma de suas mais íntimas conselheiras e confidentes. Arald dizia com frequência que meninas eram as melhores recrutas para o serviço diplomático. Elas costumavam ser mais sutis do que os rapazes, que gravitavam naturalmente para a Escola de Guerra. E, enquanto os garotos quase sempre usavam a força física para resolver problemas, as meninas sabiam usar a inteligência.
Talvez fosse apenas uma coincidência que Nigel, o mestre escriba, acompanhasse lady Pauline de perto. Eles discutiam assuntos de interesse mútuo enquanto esperavam o chamado de Martin. Além de colegas de profissão, Nigel e Pauline eram bons amigos. Eram os escribas treinados de Nigel que preparavam os documentos e comunicados oficiais que tantas vezes eram entregues pelos diplomatas de Pauline. Ele também dava conselhos sobre as palavras exatas a serem usadas nesses documentos e tinha profundos conhecimentos em assuntos legais. Nigel era um homem pequeno e magro, com um rosto inteligente e curioso que fazia Will se lembrar de um furão. Seus cabelos eram pretos e brilhantes, suas feições eram finas, e os olhos escuros nunca paravam de observar o aposento.
Mestre Chubb, o cozinheiro chefe, entrou por último. Como não poderia deixar de ser, ele era um homem gordo e barrigudo que usava uma jaqueta branca de cozinheiro e um chapéu alto. Dizia-se que tinha um gênio terrível e que podia se inflamar tão depressa quanto óleo derramado no fogo, portanto a maioria dos protegidos o tratava com muito cuidado. Com o rosto corado e cabelos ruivos que rareavam rapidamente, o mestre Chubb levava uma colher de pau para onde quer que fosse. Era um membro extraoficial da equipe e também era usada muitas vezes como arma de ataque, aterrissando com um barulho forte na cabeça dos aprendizes mais descuidados, esquecidos e lentos. Entre os protegidos, Jennifer era a única que via Chubb como um tipo de herói. Ela já tinha declarado sua intenção de trabalhar para ele e aprender suas técnicas, com ou sem colher de pau.
Naturalmente, havia outros mestres. O armeiro e o ferreiro eram dois deles, mas somente os mestres de ofício que tinham vagas no momento para novos aprendizes se apresentariam naquele dia.
— Os mestres de ofício estão reunidos, senhor! — Martin anunciou elevando a voz, como se falar alto desse mais importância à ocasião.
Mais uma vez, o barão levantou os olhos para o céu.
— Como se eu não estivesse vendo — ele disse em voz baixa. — Bom-dia, lady Pauline. Bom-dia, senhores — ele acrescentou num tom mais formal.
Os presentes responderam, e o barão se virou mais uma vez para Martin.
— Será que podemos começar?
Martin balançou várias vezes a cabeça, consultou um maço de notas que segurava nas mãos e marchou até a fileira de candidatos.
— Muito bem, o barão está esperando! O barão está esperando! Quem vai ser o primeiro?
Will, de olhos baixos, apoiando o peso do corpo ora num pé, ora noutro, nervoso, de repente teve a estranha sensação de que estava sendo observado. Ele olhou para cima e, com surpresa, encontrou o olhar sombrio e misterioso de Halt, o arqueiro.
Will não o tinha visto e imaginou que ele tivesse usado uma porta lateral para entrar no aposento enquanto a atenção de todos estava voltada para os mestres de ofício. Agora ele estava parado atrás da cadeira do barão, ligeiramente inclinado para o lado, usando as suas roupas comuns, cinza e marrom, e coberto por sua longa túnica verde e cinza de arqueiro. Halt era uma pessoa assustadora que tinha o hábito de se aproximar quando menos se esperava e sem se fazer ouvir. Os moradores supersticiosos da vila acreditavam que os arqueiros praticavam uma forma de magia que os tornava invisíveis às pessoas comuns. Will não sabia se acreditava nisso. Ele se perguntou por que Halt estaria ali naquele dia. O homem não era reconhecido como um dos mestres de ofício e, até onde Will sabia, nunca tinha participado de uma sessão de Escolha antes.
Abruptamente, Halt tirou o olhar de Will, e este teve a impressão de que a luz tinha se apagado. Ele percebeu que Martin estava falando outra vez. O secretário tinha o hábito de repetir as frases como se fosse seguido pelo próprio eco.
— Então, quem será o primeiro? Quem será o primeiro?
— Por que não começamos com o primeiro da fila? — o barão sugeriu suspirando, e Martin acenou várias vezes com a cabeça.
— Claro, senhor. Claro. O primeiro da fila, dê um passo à frente e se aproxime do barão.
Depois de um momento de hesitação, Horace se adiantou e ficou em posição de sentido. O barão o analisou por alguns segundos.
— Seu nome? — ele perguntou, e Horace respondeu, sem saber exatamente como se dirigir ao barão.
— Horace Altman, senhor... meu senhor.
— E você tem alguma preferência, Horace? — o barão perguntou com ar de quem conhece a resposta antes mesmo de ouvi-la.
— Escola de Guerra, senhor! — Horace respondeu com firmeza.
O barão acenou afirmativamente com a cabeça. Era o que imaginava. Ele olhou para Rodney, que, pensativo, estava analisando o garoto e avaliando suas qualidades.
— Mestre de guerra? — o barão chamou. Normalmente, ele chamava Rodney pelo primeiro nome, e não pelo título, mas aquela era uma ocasião formal. O mesmo se aplicava a Rodney, que, num dia como aquele, usava a forma “meu senhor”.
O grande cavaleiro deu um passo à frente, fazendo a malha de ferro e as esporas tinirem levemente enquanto ele se aproximava de Horace. Olhou o rapaz da cabeça aos pés e então passou por trás dele. A cabeça do garoto começou a acompanhar seu movimento.
— Quieto — sir Rodney ordenou, o menino ficou imóvel e olhou direto para a frente. — Parece forte o suficiente, meu senhor, e sempre posso usar novos alunos — ele esfregou o queixo com a mão. — Você sabe cavalgar, Horace?
Por um instante, quando percebeu que esse poderia ser um obstáculo para a sua escolha, Horace ficou sem saber o que dizer.
— Não, senhor, eu...
Ele estava para acrescentar que os protegidos do castelo tinham poucas oportunidades de aprender a cavalgar, mas sir Rodney o interrompeu.
— Não importa, você pode aprender.
O grande cavaleiro olhou para o barão e acenou.
— Muito bem, meu senhor, vou levar o garoto para a Escola de Guerra, onde ficará pelo período de três meses de experiência.
O barão escreveu algo numa folha de papel que se encontrava diante dele e sorriu levemente para o alegre e muito aliviado jovem à sua frente.
— Parabéns, Horace. Apresente-se à Escola de Guerra amanhã cedo, às 8 horas em ponto.
— Sim, senhor! — Horace respondeu com um largo sorriso. Ele se virou para sir Rodney e fez uma pequena reverência. — Obrigado, senhor.
— Não me agradeça ainda — o cavaleiro respondeu com ar de mistério. — Você não sabe o que o espera.

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