terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 27

O primeiro choque entre os dois exércitos não foi decisivo. A linha dispersa do rei, consistindo em infantaria leve acompanhada por arqueiros, avançou pelo flanco esquerdo de Morgarath numa manobra de reconhecimento, recuando rapidamente quando um batalhão de infantaria pesada se formou e avançou para enfrentá-las.
Os homens levemente armados fugiram precipitadamente para a segurança das próprias linhas diante dos Wargals que avançavam lentamente. Então, enquanto uma companhia de cavalaria pesada trotava para a frente, na direção do flanco esquerdo do batalhão de Wargals, estes refizeram a formação, passando das colunas de quatro fileiras para um quadrado de infantaria mais lento e defensivo, e recuaram para as próprias linhas.
Durante as próximas horas, esse continuou sendo o padrão da batalha: pequenas forças faziam reconhecimento das defesas do inimigo; forças maiores ofereciam oposição, e o primeiro ataque perdia força. Arald, Fergus e Tyler montavam seus cavalos ao lado do rei num pequeno morro, no centro do exército real. O mestre de guerra David acompanhava um pequeno grupo de cavaleiros que fazia uma das muitas incursões na direção do exército de Wargals.
— Todas essas idas e vindas estão me aborrecendo — Arald disse amargo.
O rei sorriu para ele. Tinha uma das mais importantes qualidades de um bom comandante: uma paciência quase ilimitada.
— Morgarath está esperando — ele disse simplesmente. — Está esperando que o exército de Horth apareça às nossas costas. Tenho certeza de que então ele vai atacar.
— Vamos partir para o ataque — Fergus grunhiu, mas Duncan fez que não, apontando para o solo imediatamente na frente da posição de Morgarath.
— A terra ali está mole e pantanosa — ele afirmou. — Isso vai reduzir a eficiência de nossa melhor arma, a cavalaria. Vamos esperar até que Morgarath venha até nós. Daí, poderemos combatê-lo num terreno mais apropriado.
Houve um bater de cascos apressados vindo da retaguarda. O grupo real se virou e viu um mensageiro conduzindo o cavalo para a última subida do morro. Ele puxou as rédeas, olhou em volta e viu a cabeça loira do rei, então impeliu o cavalo novamente, finalmente fazendo-o parar junto deles. Sua capa verde, a malha da armadura leve e a espada de lâmina fina mostravam que era um batedor.
— Majestade — ele disse sem fôlego — uma mensagem de sir Vincent.
Vincent era o líder do Corpo de Mensageiros, um grupo de soldados que agia como olhos e ouvidos do rei durante um conflito, levando mensagens e ordens para todas as partes do campo de batalha. Duncan fez um gesto com a cabeça indicando que o homem deveria continuar e apresentar a mensagem.
O cavaleiro engoliu a saliva várias vezes e olhou ansiosamente para o rei e os três barões. No mesmo instante, Arald soube que as notícias não eram boas.
— Senhor — o homem começou hesitante. — Os respeitos de sir Vincent, senhor, e... parece que há escandinavos atrás de nós.
Houve exclamações espantadas de vários dos oficiais jovens que rodeavam o grupo de comando. Fergus se virou para eles com a testa franzida numa expressão séria.
— Fiquem quietos! — ele vociferou e, num instante, o barulho desapareceu.
Os ajudantes pareceram envergonhados por sua falta de disciplina.
— Exatamente onde estão esses escandinavos? E quantos são? — Duncan perguntou com calma ao mensageiro.
Seus modos tranquilos pareceram contagiar o rapaz. E ele respondeu com muito mais confiança.
— O primeiro grupo pode ser visto no cume mais baixo a noroeste, majestade. Até agora só podemos ver cerca de cem. Sir Vincent sugere que a melhor posição para vocês observarem a situação seria da pequena colina ao fundo, à nossa esquerda.
O rei concordou e se virou para um dos oficiais mais jovens.
— Ranald, talvez você possa ir avisar sir David dessa nova situação. Diga a ele que estamos mudando o posto de comando para a colina que sir Vincent sugeriu.
— Sim, meu senhor! — o jovem cavaleiro respondeu. Ele virou o cavalo e saiu a galope.
O rei então se virou para os companheiros.
— Amigos, vamos dar uma olhada nesses escandinavos.


O barão Arald estudou o pequeno grupo de homens na colina atrás deles. Mesmo àquela distância, era possível distinguir os capacetes com chifres e os enormes escudos redondos que os guerreiros do mar carregavam. Um pequeno grupo tinha avançado para perto da colina, e era fácil vê-lo.
Igualmente óbvia foi a escolha da típica formação em ponta de flecha. Ele calculou que várias centenas de inimigos estavam agora visíveis e que havia muitos outros mais escondidos do outro lado das colinas. Sentiu um grande peso de tristeza nos ombros. O fato de os escandinavos estarem ali significava apenas uma coisa: Halt tinha fracassado. E, conhecendo Halt como conhecia, sabia que isso provavelmente significava que o velho arqueiro tinha morrido na tentativa. Ele sabia que Halt nunca se renderia, não quando a necessidade de impedir os escandinavos de chegar à retaguarda do exército era tão importante.
Duncan disse o que pensava a todos os seus companheiros.
— São mesmo os escandinavos.
Ele olhou para o alto da colina.
— Vamos ter que lutar na defensiva, meus senhores — ele continuou. — Sugiro que comecemos a reunir nossos homens num círculo em volta desta colina. É um ponto tão bom quanto outro qualquer para lutar dos dois lados.
Todos sabiam que era apenas uma questão de tempo antes que Morgarath avançasse e os esmagasse entre as duas mandíbulas da armadilha que tinha preparado.
— Cavaleiro se aproximando! — gritou um dos soldados, enquanto apontava com o dedo.
Todos se viraram para olhar o ponto que o rapaz indicou. De um bosque à direita de um morro, um cavaleiro solitário ficou visível de repente. Vários escandinavos o perseguiam, jogando lanças e bastões atrás dele. Mas ele cavalgava colado ao pescoço do cavalo, com a capa cinza-esverdeada cintilando no vento, e logo deixou o inimigo para trás.
— É Gilan — o barão Arald murmurou, reconhecendo o cavalo baio.
Ele procurou em vão um segundo arqueiro atrás de Gilan, esperando, mesmo sabendo ser improvável, que Halt tivesse sobrevivido de alguma forma. Mas não viu ninguém mais. Os ombros do barão se curvaram um pouco ao se dar conta de que Gilan parecia ser o único sobrevivente da força que tinha partido com tanta ousadia para a Floresta Thorntree.
Gilan já estava em terreno plano e ainda galopava a toda a velocidade. Ele viu os estandartes reais balançando na colina e conduziu Blaze naquela direção. Em poucos minutos e coberto de poeira, puxou as rédeas ao lado dos outros homens, com uma das mangas da túnica rasgada e uma atadura manchada de sangue ao redor da cabeça.
— Senhor! — ele disse sem fôlego, esquecendo o protocolo para se dirigir à realeza. — Halt diz que o senhor pode...
Ele não conseguiu falar mais, pois pelo menos quatro pessoas o interromperam. A voz do barão Fergus, contudo, era a mais alta.
— Halt? Ele está vivo?
— Ah, sim, senhor! Vivo e em plena atividade — ele respondeu sorrindo.
— Mas os escandinavos... — o rei Duncan começou e mostrou as linhas de homens ao longe.
O sorriso de Gilan aumentou ainda mais.
— Derrotados, senhor. Nós os pegamos totalmente de surpresa e os fizemos em pedaços. Esses homens são nossos arqueiros usando os capacetes e escudos tomados do inimigo. Foi ideia de Halt...
— Com que objetivo? — Arald perguntou asperamente, e Gilan se virou para ele com um gesto de desculpas para o rei.
— Para enganar Morgarath, senhor — ele explicou. — Ele está esperando que os escandinavos ataquem pela retaguarda, e é o que vai acontecer. É por isso que eles até fingiram tentar me parar agora. Nossa cavalaria está exatamente atrás do morro. Halt propõe avançar com os arqueiros, obrigando vocês a se virarem para a retaguarda. Então, com alguma sorte, enquanto Morgarath ataca com seus Wargals, os arqueiros e o seu exército principal devem abrir um caminho no centro, permitindo que a cavalaria oculta passe e atinja Morgarath quando estiver em terreno aberto.
— Meu Deus, é uma ótima ideia! — Duncan elogiou com entusiasmo. — É provável que levantemos tanta poeira e criemos tanta confusão que ele não vai ver a cavalaria de Halt até que ela esteja bem na frente dele.
— Então, meu senhor, podemos distribuir a cavalaria pesada de qualquer um dos lados para atingir os Wargals pelos flancos.
Quem falava agora era sir David. Ele tinha chegado despercebido enquanto Gilan explicava o plano de Halt.
O rei Duncan hesitou por um segundo, passando a mão pela barba curta, e depois concordou com um gesto determinado.
— Vamos em frente! — ele disse. — Senhores, é melhor irem falar com seus comandantes imediatamente. Fergus, Arald, levem uma divisão da cavalaria pesada para a esquerda e outra para a direita e fiquem preparados. Tyler, comande a infantaria no centro. Certifique-se de que eles saibam que esse é um falso ataque. E diga para gritarem e baterem as espadas nos escudos quando os “escandinavos” se aproximarem. Vamos fazer parecer uma batalha de verdade. Deixe-os preparados para se separar e ir para os lados ao terceiro som da corneta.
— Ao terceiro som da corneta. Sim, meu senhor — Tyler afirmou. Ele cutucou seu cavalo de batalha com os estribos e se afastou a galope para assumir o comando da infantaria.
Duncan olhou para os outros comandantes.
— Vamos em frente, senhores. Não temos muito tempo.
Um dos ajudantes chamou.
— Senhor! Os escandinavos estão descendo a colina!
Alguns segundos depois, outro homem repetiu o grito.
— E os Wargals estão começando a avançar!
Duncan deu um sorriso sombrio para seus comandantes:
— Acho que chegou o momento de fazer uma pequena surpresa para Morgarath.

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