sexta-feira, 24 de junho de 2016

Capítulo 26

Foi um acampamento frio e desanimado. Cansados do ritmo duro da viagem, os arqueiros comeram uma refeição fria: pão, frutas secas e carne fria mais uma vez, engolida com água fria de seus cantis. Will estava começando a detestar aquelas rações duras e praticamente sem gosto. Halt assumiu o primeiro turno de vigília, e Will e Gilan se enrolaram em suas capas para dormir.
Aquela não era a primeira vez que Will acampava com desconforto desde que o período de treinamento tinha começado. Mas era a primeira vez que não havia nem mesmo um fogo crepitante ou, pelo menos, um canteiro de brasas quentes ao lado do qual descansar. Ele dormiu mal e teve sonhos desagradáveis sonhos com criaturas assustadoras, coisas estranhas e aterradoras que povoavam seu subconsciente, porém perto o bastante para que ele sentisse sua presença e ficasse perturbado por ela.
O garoto ficou quase satisfeito quando Halt o sacudiu de leve para acordá-lo para seu turno de vigília. O vento estava empurrando as nuvens sob a Lua. O gemido da canção das Pedras estava mais forte do que nunca.
Will sentiu um cansaço de espírito e se perguntou se as Pedras tinham sido criadas para deixar as pessoas exaustas daquela forma. O capim alto em volta deles sibilava uma melodia que se sobrepunha ao som agudo que vinha de longe. Halt apontou para o céu, indicando um ângulo de elevação para ser lembrado por Will.
— Quando a Lua alcançar aquele ângulo, passe a guarda para Gilan — ele disse ao aprendiz.
Will concordou, levantando-se e esticando os músculos rígidos. Ele apanhou o arco e a aljava e andou até o arbusto que Halt tinha escolhido como ponto de observação. Arqueiros em vigília nunca ficavam em terreno aberto no local do acampamento, mas sempre se afastavam 20 metros das barracas e encontravam um esconderijo. Dessa forma, estranhos que se aproximassem do acampamento teriam menor probabilidade de vê-los. Essa era uma das muitas habilidades que Will tinha aprendido em seus meses de treinamento.
Ele tirou duas flechas da aljava e as segurou entre os dedos da mão que apoiava o arco. Iria segurá-las desse jeito durante as quatro horas de sua guarda. Se precisasse delas, não teria que fazer movimentos exagerados para tirá-las da aljava, movimentos que poderiam alertar o atacante. Em seguida ele pôs o capuz na cabeça para se confundir com o formato irregular do arbusto. A sua cabeça e os seus olhos se moviam constantemente de um lado para outro como Halt tinha ensinado, sempre mudando o foco, de perto do acampamento para o horizonte escuro à sua volta. Dessa forma, ele teria chances melhores de perceber algum movimento. De tempos em tempos, ele se virava lentamente num círculo completo, examinando todo o terreno ao seu redor, do jeito mais imperceptível possível.
O som agudo das Pedras e o sibilar do vento eram constantes. Mas Will também começou a ouvir outros sons o farfalhar de pequenos animais na grama e outros menos explicáveis. Com cada um deles, o coração do garoto acelerava um pouco mais, e ele se perguntava se podiam ser os Kalkaras rastejando sobre os vultos adormecidos dos amigos. Em certo momento, ficou convencido de que estava ouvindo a respiração de um animal grande. O medo tomou conta dele, apertando sua garganta, até ele perceber, com os sentidos sintonizados ao máximo, que o que ouvia realmente era a respiração tranquila dos companheiros.
Will sabia que, a uma distância maior do que 5 metros, ficaria praticamente invisível ao olho humano, graças à capa, às sombras e ao formato do arbusto que o cercava. Mas ele se perguntava se os Kalkaras contavam somente com a visão. Talvez tivessem outros sentidos que lhes dissessem que havia um inimigo escondido no arbusto. Talvez, naquele momento, estivessem se aproximando, ocultos pelo capim alto que balançava ao vento, prontos para atacar...
Seus nervos, já sensíveis além do suportável por causa da deprimente canção das Flautas de Pedra, faziam-no querer se virar e identificar a fonte de cada novo som assim que o ouvia. Mas Will sabia que iria se revelar ao fazer isso e se obrigou a se mover devagar, virando-se com cuidado até ficar de frente para a possível origem do som, avaliando cada novo risco antes de descartá-lo.
Nas longas horas da vigília tensa, ele não viu nada além das nuvens apressadas no céu, a Lua fugitiva e o mar ondulante de grama que os cercava. Quando a Lua chegou à elevação predeterminada, o rapaz estava física e mentalmente esgotado. Acordou Gilan para assumir a guarda e se enrolou em sua capa outra vez.
Desta vez, Will não sonhou. Exausto, dormiu profundamente até a luz cinzenta do amanhecer surgir no céu.
Eles viram as Flautas de Pedra no meio da manhã: um círculo cinzento e surpreendentemente pequeno de monólitos de granito que estavam no alto de uma elevação na planície. O caminho que tinham escolhido levou os três cavaleiros a cerca de 1 quilômetro de distância das Pedras, e Will ficou satisfeito de não se aproximar mais. O canto deprimente estava mais alto do que nunca, flutuando e se movendo ao sabor do vento.
— Vou partir em dois o lábio do próximo flautista que eu encontrar — Gilan ameaçou com um sorriso sombrio.
Eles continuaram seu caminho, deixando os quilômetros para trás, hora após hora, uma igual à outra, sem nada novo para ver e sempre com o leve uivo das Pedras às suas costas, deixando os nervos à flor da pele.
O homem da planície surgiu de repente no meio da grama, a uns 50 metros de distância. Pequeno, vestido com trapos cinza e com cabelos compridos despenteados caídos nos ombros, ele olhou para os três companheiros com olhos enlouquecidos durante vários segundos.
O coração de Will mal tinha se recuperado do susto de seu aparecimento repentino quando ele se foi, correndo pela grama, parecendo mergulhar dentro dela. Em poucos segundos, tinha desaparecido, engolido pelo capim. Halt ia colocar Abelard para persegui-lo, mas desistiu da ideia. A flecha que havia escolhido e pousado na corda do arco não foi usada. Gilan também estava pronto para atirar e tinha tido uma reação tão rápida quanto a de Halt. Ele também não atirou, olhando com curiosidade para seu superior.
— Pode não ser nada — Halt disse, dando de ombros. — Ou talvez ele tenha corrido para contar aos Kalkaras. Mas não podemos matar um homem só por desconfiança.
Gilan soltou um leve riso ruidoso, mais para liberar a tensão causada pelo surgimento inesperado do homem.
— Acho que não faz diferença se acharmos os Kalkaras ou se eles nos acharem — ele disse.
Os olhos de Halt se fixaram nele por um momento, sem nenhum sinal de humor.
— Acredite em mim, Gilan, há uma grande diferença — afirmou.
Eles tinham parado a marcha forçada e cavalgavam lentamente pela grama alta. O som das Pedras começou a diminuir um pouco, para grande alívio de Will. Ele percebeu que agora o vento estava levando o som para longe.
Depois do repentino aparecimento do morador da planície, houve um período sem que se manifestasse outro sinal de vida. Uma pergunta vinha incomodando Will durante toda a tarde.
— Halt? — ele começou com cuidado, sem saber se este o mandaria ficar quieto.
O arqueiro olhou para ele com as sobrancelhas levantadas, mostrando que estava preparado para responder perguntas, e então Will continuou.
— Por que você acha que Morgarath buscou a ajuda dos Kalkaras? O que ele espera ganhar?
Halt percebeu que Gilan também estava esperando pela resposta. Ele colocou os pensamentos em ordem antes de responder. Estava um pouco relutante em transformá-los em palavras, pois parte da resposta dependia de suposições e intuição.
— Quem sabe por que Morgarath faz as coisas? — ele disse devagar. — Não posso dar uma resposta clara. Só posso dizer o que Crowley e eu pensamos.
Ele olhou rapidamente para os companheiros. Era óbvio que os dois estavam preparados para aceitar suas suposições como fatos consumados. “Às vezes”, ele pensou aborrecido, “a reputação de estar certo o tempo todo pode ser uma carga muito pesada.”
— Há uma guerra se aproximando — ele continuou. — Todos já sabemos disso. Os Wargals estão avançando, e nós ouvimos dizer que Morgarath entrou em contato com Ragnak.
Ele viu a expressão confusa no rosto de Will, mas sabia que Gilan compreendia quem era Ragnak.
— Ragnak é o oberjarl, ou chefe supremo, se preferir, dos escandinavos, os lobos-do-mar — explicou.
Ele viu um clarão de compreensão no rosto do aprendiz e continuou.
— Está claro que essa guerra vai ser pior do que a anterior, e nós vamos precisar de todos os nossos recursos e de nossos melhores comandantes para nos guiar. Acho que é isso que Morgarath tem em mente. Ele quer nos enfraquecer fazendo que os Kalkaras matem nossos líderes. Northolt, o chefe supremo do exército, e Lorriac, nosso melhor comandante de cavalaria, já se foram. Certamente outros homens vão assumir essas posições, mas inevitavelmente vai haver alguma confusão no período de mudança, alguma perda de união. Acho que isso faz parte do plano de Morgarath.
— Há também outro aspecto — Gilan acrescentou pensativo. — Esses dois homens foram fundamentais na sua derrota na última vez. Ele está destruindo nossa estrutura de comando e se vingando ao mesmo tempo.
— Claro, isso é verdade — Halt concordou. — E, para uma mente perturbada como a de Morgarath, vingança é um motivo poderoso.
— Então você acha que vai haver mais mortes? — Will perguntou, e Halt o olhou com firmeza.
— Acho que vai haver mais tentativas. Morgarath agiu duas vezes com alvos definidos e teve sucesso. Não vejo nenhum motivo para que não tente de novo. Ele tem razões para odiar muita gente no reino. Talvez até o próprio rei. Ou talvez o barão Arald, pois ele causou alguns problemas para Morgarath na última guerra.
“E você também”, Will pensou com medo. Ele estava para externar o pensamento de que Halt poderia ser um alvo quando se deu conta de que seu mestre provavelmente já estava ciente do fato. Gilan estava fazendo outra pergunta ao arqueiro mais velho.
— Eu não entendo uma coisa. Por que os Kalkaras continuam voltando para seu esconderijo? Por que não procuram simplesmente a vítima seguinte?
— Acho que essa é uma das poucas vantagens que temos — Halt afirmou. — São selvagens, cruéis e mais inteligentes do que os Wargals, mas não são humanos. São totalmente ingênuos. Mostre uma vítima para eles e eles vão caçar e matar ela ou morrer na tentativa. Mas só conseguem perseguir uma de cada vez. Entre uma morte e outra, voltam para sua toca. Então Morgarath, ou um de seus subordinados, os prepara para a próxima vítima e eles saem novamente. Nossa esperança é interceptar os Kalkaras no caminho se tiverem recebido uma nova missão. Ou matá-los em seu esconderijo se não tiverem.
Will olhou pela milésima vez para a planície monótona coberta de grama que se estendia à frente deles. Em algum lugar lá fora, as duas criaturas assustadoras estavam esperando, talvez já com uma nova vítima em mente. A voz de Halt interrompeu seus pensamentos.
— O sol está se pondo — ele disse. — Acho que podemos acampar aqui.
Eles desceram agilmente das selas e soltaram a barrigueira para deixar os cavalos mais confortáveis.
— Pelo menos este maldito lugar tem uma coisa boa — Gilan comentou, olhando à sua volta. — Todos os lugares são igualmente bons para acampar. Ou igualmente ruins.
Will acordou de um sono sem sonhos ao toque da mão de Halt em seu ombro. Ele jogou a capa para trás, olhou para a Lua, que dançava no céu, e franziu a testa.
Não podia ter dormido mais de uma hora e ia dizer isso, mas Halt o impediu, colocando um dedo nos lábios, pedindo silêncio. Will olhou ao redor e percebeu que Gilan já estava acordado, parado perto dele com a cabeça voltada para noroeste, para o lugar de onde tinham vindo.
O garoto se levantou, movendo-se com cuidado para não fazer nenhum barulho desnecessário. Suas mãos tinham ido automaticamente para as armas, mas ele relaxou quando se deu conta de que não havia perigo imediato. Os outros dois prestavam atenção em um som, e então Halt levantou a mão e apontou para o norte.
— Lá está de novo — ele disse baixinho.
Então Will também escutou o mesmo som, acima dos gemidos das Flautas de Pedra e do murmúrio do vento ao passar na grama. Seu sangue gelou. Era um uivo agudo e selvagem que ululava e ficava cada vez mais alto.
O vento levou até eles um som desumano saído da garganta de um monstro.
Segundos depois, outro uivo respondeu ao primeiro. Ligeiramente mais agudo, parecia vir de um ponto um pouco mais à esquerda do que o primeiro. Sem que lhe dissessem, Will sabia o que o som significava.
— São os Kalkaras — Halt disse num tom sombrio. — Eles têm um novo alvo e estão caçando.

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