sexta-feira, 24 de junho de 2016

Capítulo 25

O acampamento fervia. Barracas eram desmontadas e arqueiros guardavam seus equipamentos, amarrando-os nas sacolas das selas. Os primeiros integrantes do grupo já tinham partido e voltavam para os seus feudos.
Will estava ajustando as cordas das mochilas nas selas depois de repor alguns itens que tinha tirado. Halt estava sentado a alguns metros de distância, com a testa franzida, pensativo, estudando o mapa da região que cercava a Planície Solitária. A planície era uma área grande que ainda não tinha sido mapeada e não apresentava estradas. Uma sombra caiu sobre Halt e ele olhou para cima.
Gilan estava parado ao seu lado com um ar preocupado no rosto.
— Halt, você tem certeza sobre isso? — ele perguntou em voz baixa e preocupada.
— Toda certeza, Gilan. Isso simplesmente tem que ser feito — Halt respondeu, olhando-o com determinação.
— Mas ele é só um garoto! — Gilan protestou, olhando para Will que estava amarrando um saco de dormir atrás da sela de Puxão.
Halt suspirou e desviou o olhar.
— Sei disso, mas ele é um arqueiro. Aprendiz ou não, ele é um membro da corporação como todos nós.
Ele viu que Gilan ia protestar outra vez, preocupado com Will, e sentiu uma onda de afeição pelo antigo aprendiz.
— Gilan, num mundo ideal, eu não colocaria Will em risco desse jeito. Mas não estamos num mundo ideal. Todos vão ter que desempenhar seu papel nessa campanha, até meninos como Will. Morgarath está se preparando para algo grande. Os agentes de Crowley ouviram dizer que, além de tudo, ele tem entrado em contato com os escandinavos.
— Os escandinavos? Para quê?
— Não sabemos os detalhes, mas na minha opinião ele está esperando formar uma aliança com eles — Halt respondeu, dando de ombros.
— Eles lutam com qualquer um por dinheiro.
— E, pelo que parece, lutam por qualquer um mesmo — ele acrescentou, deixando clara sua antipatia por mercenários. — O caso é que estamos com falta de pessoal. Normalmente, eu iria atrás dos Kalkaras com um grupo de pelo menos cinco arqueiros mais antigos. Mas Crowley simplesmente não pode ceder eles para mim. Assim, tive que me contentar com os dois em quem mais confio: você e Will.
— Ora, obrigado.
Gilan deu um sorriso torto. Ele estava emocionado com a confiança de Halt. Ainda admirava seu antigo mentor. Quase todos na Corporação de Arqueiros o faziam.
— Além disso, acho que essa sua velha espada enferrujada pode ser útil se nos depararmos com um desses horrores — Halt disse.
A Corporação de Arqueiros tinha tomado a decisão acertada quando permitiu que Gilan continuasse o treinamento com a arma. Embora poucas pessoas soubessem, Gilan era um dos melhores espadachins em Araluen.
— Quanto a Will — ele continuou — não o subestime. Ele é muito habilidoso. É rápido, corajoso e já maneja muito bem o arco e as flechas. E, o que é melhor, pensa rápido. Meu verdadeiro plano é mandar ele buscar reforços se encontrarmos pistas dos Kalkaras. Isso vai nos ajudar e vai mantê-lo longe do perigo.
Pensativo, Gilan coçou o queixo. Agora que Halt tinha explicado o que pretendia, aquele parecia o único caminho a tomar. Ele encontrou o olhar do homem mais velho e acenou com a cabeça mostrando que entendia a situação. Então se virou para organizar seu material, mas descobriu que Will já tinha arrumado tudo e amarrado à sela de seu cavalo. Ele sorriu para Halt.
— Você tem razão — ele disse. — O garoto sabe usar a cabeça.
Os três partiram um pouco depois, enquanto os outros arqueiros ainda estavam recebendo ordens. Mobilizar o exército de Araluen não seria uma tarefa insignificante, e os arqueiros deveriam coordená-la e depois estar preparados para guiar as forças individuais dos 50 feudos para o ponto de reunião nas planícies de Uthal. Com Gilan e Halt designados para procurar os Kalkaras, os outros arqueiros tinham que assumir a tarefa de coordenar as forças de seus feudos.
Os três companheiros pouco falaram quando Halt os guiou para o sudeste. Até a curiosidade natural de Will foi abrandada pela magnitude da tarefa que os esperava.
Enquanto cavalgavam em silêncio, a sua mente ficava formando imagens de criaturas selvagens parecidas com ursos e com feições de macaco. Criaturas que poderiam muito bem se mostrar invencíveis, até para alguém com as habilidades de Halt.
Por fim, contudo, a monotonia se instalou, as imagens terríveis desapareceram e ele começou a se perguntar que plano, se havia algum, Halt tinha em mente.
— Halt — ele chamou um tanto sem fôlego — onde você espera encontrar os Kalkaras?
Halt observou o rosto sério ao seu lado. Eles estavam viajando no ritmo da marcha forçada dos arqueiros: quarenta minutos na sela, cavalgando num galope regular, e depois vinte minutos a pé, conduzindo os cavalos e permitindo que viajassem sem carga, enquanto os homens corriam num trote uniforme.
A cada quatro horas, eles paravam para uma hora de descanso, quando faziam uma refeição rápida de carne seca, pão duro e frutas, e então se embrulhavam em suas capas para dormir.
Eles já estavam viajando fazia algum tempo e Halt achou que era hora de descansar. Ele levou Abelard para fora da estrada, para o abrigo de um pequeno bosque. Will e Gilan o seguiram, largando as rédeas e deixando os cavalos pastar.
— O melhor — Halt disse em resposta à pergunta de Will — é começar a procurar na toca e ver se eles estão nas vizinhanças.
— E sabemos onde essa toca fica? — Gilan perguntou.
— Nossos espiões acham que fica em algum lugar na Planície Solitária, além das Flautas de Pedra. Vamos investigar essa região e ver o que encontrarmos. Se eles estiverem por ali, certamente vamos descobrir que uma ou outra ovelha ou cabra está faltando nas vilas da vizinhança. Conseguir que os moradores falem vai ser outro problema. Os habitantes das planícies são as pessoas mais fechadas de todos os tempos.
— O que é essa planície de que vocês estão falando? — Will perguntou com a boca cheia de pão seco. — E que raios é uma Flauta de Pedra?
— A Planície Solitária é uma área grande e plana. Tem poucas árvores e é coberta principalmente por massas rochosas e capim alto — Halt contou para ele. — Parece que o vento está sempre soprando, não importa a época do ano em que você vá para lá. É um lugar triste e deprimente, e as Flautas de Pedra são a parte mais sombria de lá.
— Mas o que são... — Will começou, mas Halt só tinha feito uma breve pausa.
— As Flautas de Pedra? Ninguém sabe realmente. Elas são um círculo de pedras formado pelos antigos, inserido no meio da parte mais ventosa da planície. Ninguém descobriu qual seu verdadeiro objetivo, mas elas estão arranjadas de modo que o vento é desviado ao redor do círculo e atravessa uma série de buracos nas próprias pedras. Elas criam um som constante e agudo, mas não tenho ideia de por que alguém achou que o som se parece com o de flautas. O barulho é misterioso e desafinado e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Depois de alguns minutos, você começa a ficar arrepiado, e ele continua por horas e horas.
Will ficou em silêncio. A imagem de uma planície triste varrida pelo vento e com pedras que emitiam um uivo agudo e ininterrupto pareceu tirar o último vestígio de calor do sol do final da tarde. Ele estremeceu involuntariamente. Halt viu o movimento e se inclinou para lhe dar um tapinha encorajador no ombro.
— Se alegre — ele disse. — Nada costuma ser tão ruim quanto parece. Agora, vamos descansar um pouco.
Eles chegaram aos arredores da Planície Solitária ao meio-dia do segundo dia. Halt tinha razão: era um lugar grande e deprimente. A área se estendia por vários quilômetros e era coberta por um capim alto e cinzento, ressecado pelo vento constante.
O vento parecia quase um ser vivo. Ele era irritante, soprando contínua e invariavelmente do oeste, dobrando o capim alto à sua frente, varrendo o terreno achatado da Planície Solitária.
— Agora vocês entendem por que ela é chamada de Planície Solitária? — Halt perguntou aos dois companheiros, puxando as rédeas de Abelard para que eles pudessem alcançá-lo. — Quando você sai cavalgando nesse maldito vento, tem a sensação de que é a única pessoa viva que resta na face da Terra.
“Isso é verdade”, Will pensou. Ele se sentiu pequeno e insignificante diante do vazio da planície. E essa sensação de insignificância foi acompanhada por outra de impotência. O deserto que estavam atravessando a cavalo parecia sugerir a presença de forças ocultas, forças muito maiores que suas habilidades. Até Gilan, normalmente alegre e entusiasmado, parecia afetado pela atmosfera pesada e deprimente do lugar. Apenas Halt parecia não ter mudado, permanecendo sombrio e taciturno como sempre.
Aos poucos, enquanto cavalgavam, Will ficava ciente de uma sensação inquietante. Havia algo oculto bem fora do alcance de sua percepção consciente. Alguma coisa que o deixava perturbado. Ele não a conseguia isolar nem mesmo dizer de onde vinha ou que forma tinha. A coisa simplesmente estava ali, sempre presente. Ele se mexeu na sela e ficou de pé nos estribos para investigar o horizonte monótono, na esperança de poder ver a fonte daquilo tudo.
— Você sentiu — Halt comentou ao perceber o movimento. — São as Pedras.
E, depois que Halt falou, Will se deu conta de que tinha sido um som, tão leve e tão contínuo que não podia ser isolado como tal, que criara a sensação de inquietação em sua mente e o aperto na boca do estômago. Ou talvez eles tivessem chegado a uma distância em que conseguiam ouvir as Flautas de Pedra apenas quando Halt fez o comentário, pois naquele momento Will pôde isolar o som.
Era uma série de notas musicais desafinadas tocadas ao mesmo tempo, mas criando um som áspero e desarmonioso que irritava os nervos e perturbava a mente. Sua mão esquerda escorregou discretamente para o punho da faca enquanto cavalgava, e ele sentiu conforto ao tocar a arma sólida e confiável.
Eles continuaram a viagem durante toda a tarde com a impressão de que nunca avançavam. A cada passo, o horizonte atrás e diante deles parecia nunca ficar mais perto ou longe. Era como se estivessem marcando passo num mundo vazio. O som constante e agudo das Flautas de Pedra os acompanhou por todo o dia, ficando cada vez mais forte. Aquele era o único sinal de que estavam avançando. As horas passavam e o som continuava, sem que Will sentisse que ficava mais fácil suportá-lo. O som irritava seus nervos e o deixava ansioso. Quando o sol começou a mergulhar na margem oeste, Halt freou Abelard.
— Vamos passar a noite aqui e descansar — ele anunciou. — É quase impossível manter um ritmo constante no escuro. Sem características marcantes no terreno que nos ajudem a estabelecer uma rota, poderíamos facilmente acabar andando em círculos.
Agradecidos, os outros desmontaram. Mesmo bem preparados como eram, as horas passadas no ritmo de marcha forçada os tinham deixado exaustos. Will começou a procurar lenha para a fogueira ao redor dos poucos arbustos ressecados que cresciam na planície. Halt, percebendo o que ele tinha em mente, sacudiu a cabeça.
— Nada de fogo — recomendou. — Vão nos ver a quilômetros e não temos ideia de quem possa estar vigiando.
Will parou e deixou o pequeno feixe que tinha reunido cair no chão.
— Você está falando dos Kalkaras? — ele perguntou.
— Eles ou o povo da planície — Halt respondeu, dando de ombros. — Não podemos saber com certeza se alguns deles são aliados dos Kalkaras. Afinal, vivendo tão próximos dessas criaturas, podem acabar cooperando com elas apenas para garantir sua segurança. E não queremos que eles espalhem que há estranhos na Planície.
Gilan estava tirando a sela de Blaze, seu cavalo baio. Ele largou-a no chão e esfregou o pelo do cavalo com um punhado do sempre presente capim seco.
— Você não acha que já fomos vistos? — ele perguntou.
Halt pensou na pergunta por alguns segundos antes de responder.
— Talvez sim. Há muitos fatos que desconhecemos, como onde fica realmente a toca dos Kalkaras, se o povo das planícies é ou não seu aliado, se um deles nos viu ou não e informou nossa presença. Mas, até sabermos que fomos vistos, vamos fazer de conta que não fomos. Portanto, nada de fogo.
— É claro que você tem toda a razão — Gilan murmurou relutante. — É que eu ficaria feliz em matar alguém por uma xícara de café.
— Acenda o fogo para coar café — Halt falou — e isso pode ser a última coisa que vai fazer.

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