terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 23

Jarl Erak, capitão e membro do conselho central dos jarls mais antigos, estivera fora de Hallasholm por várias semanas.
Ele estava assobiando, enquanto atravessava os portões abertos da residência, com uma sensação de satisfação por um serviço bem feito. Borsa o tinha mandado navegar costa abaixo até um dos povoados do sul para investigar uma aparente queda nos impostos pagos pelo jarl local. Borsa tinha percebido o declínio nos últimos quatro ou cinco anos. Nada repentino demais para despertar suspeitas, mas um pouco menos a cada ano.
Tinha sido preciso uma mente esperta como a de Borsa para notar a lenta discrepância e para perceber que a redução gradativa na renda informada tinha coincidido com a eleição de um novo jarl na vila. Pressentindo uma fraude, o hilfmann tinha escolhido Erak para investigar e para convencer o jarl local de que a honestidade, no caso de impostos devidos a Ragnak, era definitivamente a melhor política.
Deve-se admitir que a ideia que Erak fez de investigar consistiu em agarrar o infeliz jarl pela barba enquanto ele dormia na escuridão antes do amanhecer. Então ameaçou arrancar-lhe o cérebro com uma enxada se ele não fizesse um ajuste rápido para melhor a quantia de impostos que estava pagando para Hallasholm. As táticas eram rudes e rápidas, mas eficazes. O jarl ficara extremamente ansioso para pagar os impostos que faltavam.
Foi por puro acaso que Erak atravessou os portões no exato momento em que Will tropeçou com a pá para limpar a neve alta que tinha caído dos caminhos na noite anterior.
Durante um momento, Erak não reconheceu a figura magra e trôpega. Mas havia algo conhecido no emaranhado cabelo castanho, mesmo manchado e sujo. Erak parou para ver melhor.
— Deus da escuridão, garoto! — ele murmurou. — É você mesmo?
O garoto se virou para olhar com uma expressão vazia e indiferente. Ele estava reagindo apenas ao som de uma voz. Não havia sinal de ter reconhecido o capitão. Seus olhos estavam vermelhos e sem brilho quando ele examinou o forte escandinavo. Erak sentiu um grande tristeza tomar conta dele.
Ele conhecia os sinais provocados pelo uso da erva do calor e, claro, sabia que era usada para controlar os escravos do pátio. E ele já tinha visto muitos deles morrerem por causa dos efeitos combinados do frio, da desnutrição e da falta de vontade de viver que resultava do vício na droga. Os dependentes da erva do calor não esperavam nem planejavam mais nada. Consequentemente, não tinham esperanças para levantar o ânimo. Era isso, além dos outros fatores, que os matava ao longo do tempo.
Erak sofria ao ver que o garoto tinha descido tanto, de ver aqueles olhos antes tão cheios de coragem e determinação e que agora não refletiam nada além do vazio sem brilho da falta de esperança ou expectativa de um viciado.
Will esperou alguns segundos, imaginando que receberia uma ordem. No fundo de si mesmo, uma leve lembrança se agitou por 1 ou 2 segundos. A lembrança do rosto à sua frente e da voz que tinha ouvido. Então, o esforço de lembrar se tornou muito grande, a névoa do vício muito espessa e, com um leve dar de ombros, ele se virou e caminhou arrastando os pés até o portão para começar a tirar a neve. Em alguns minutos, ele estaria encharcado do suor provocado pelo trabalho pesado. Então, a umidade iria congelar em seu corpo e o frio iria comer as suas entranhas outra vez. Agora ele conhecia o frio. Ele era o seu companheiro constante. E com a lembrança do frio vinha o desejo pelo próximo suprimento da erva. Os seus poucos momentos de conforto.
Erak observou Will se curvar lenta e desajeitadamente para realizar sua tarefa. Ele praguejou baixinho para si mesmo e se virou. Outros escravos do pátio já estavam trabalhando nas pás na fonte de água fresca, esmagando o gelo espesso que tinha se formado durante a noite gelada.
Erak passou por eles depressa, quase sem vê-los. E não estava mais assobiando.
Dois dias depois, tarde da noite, Evanlyn foi chamada para os aposentos de jarl Erak. Ela tinha conseguido um lugar para dormir perto o bastante dos grandes fornos para se manter aquecida durante a noite, mas não perto demais para se queimar. Agora, no fim de um longo dia, tinha estendido o cobertor nas tábuas duras, deitado agradecida e se envolvido nele. O travesseiro era um pequeno pedaço de madeira da pilha de lenha enrolado com uma camisa velha. Ela estava recosta-da nele, escutando os barulhos à sua volta: uma tosse ocasional rouca que era resultado inevitável de se viver na neve e no gelo da Escandinávia, nessa época do ano, e as conversas murmuradas em voz baixa. Essa era uma das poucas ocasiões em que os escravos tinham permissão de conversar. Geralmente, Evanlyn estava cansada demais para aproveitar a ocasião.
Ela ouviu que alguém chamando seu nome e se sentou com um pequeno gemido. Uma escrava dos quartos estava passando entre as fileiras de corpos deitados, ocasionalmente se inclinando para sacudir um ombro e perguntar se alguém sabia onde poderia encontrar a escrava de Araluen chamada Evanlyn. Na maioria das vezes, ela recebia olhares indiferentes e gestos desinteressados. A vida entre os escravos não era favorável à formação de novos amigos.
— Aqui! — Evanlyn chamou. A escrava dos quartos olhou para ver de onde tinha vindo a voz e então caminhou com cuidado entre os corpos para chegar até ela.
— Você tem que vir comigo — ela disse com um tom de voz pomposo.
Os escravos dos quartos, que cuidavam de quem vivia na residência, se consideravam seres superiores comparados aos simples escravos da cozinha: uma raça de pessoas que vivia num mundo de gordura, vinho derramado e comida.
— Para onde? — Evanlyn quis saber, e a garota fungou com desdém para ela.
— Para onde mandarem — ela respondeu.
Então, como Evanlyn não fez menção de se levantar, ela se viu obrigada a acrescentar:
— Ordens de jarl Erak.
Afinal, ela não tinha autoridade pessoal sobre os escravos da cozinha, mesmo que se considerasse superior.  Os escandinavos não reconheciam essa diferença. Um escravo era um escravo e, exceto os chefes da gangue no pátio, eles eram todos iguais.
Houve um pequeno movimento de interesse dos outros que estavam sentados e deitados perto dela. Não era novidade que os oficiais superiores recrutassem escravas pessoais entre as jovens garotas mais atraentes.
Perguntando-se qual seria o significado de tudo aquilo, Evanlyn se levantou e dobrou o cobertor com cuidado, deixando-o para marcar seu lugar. Depois, fez um gesto para a outra garota mostrar o caminho e a seguiu para fora da cozinha.
A Grande Mansão de Ragnak era, na realidade, um verdadeiro labirinto de passagens e quartos que saíam do Grande Salão central, com pé-direito muito alto, onde se serviam as refeições e se conduziam os negócios oficiais.
A garota levou Evanlyn por uma série de passagens baixas e mal iluminadas até chegarem ao que parecia ser um beco sem saída. Havia uma porta no fim da parede e a escrava de quarto a indicou para Evanlyn.
— Ali dentro — a escrava disse simplesmente. — É melhor bater primeiro — acrescentou.
Então se virou e correu de volta pelo corredor escuro. Evanlyn hesitou um momento, sem saber do que se tratava, e bateu na porta dura de carvalho com o nó dos dedos.
— Entre.
Ela reconheceu, a voz que respondeu à batida. As cordas vocais de Erak eram treinadas para conduzir seus homens sobre as ondas do Mar Stormwhite. Parecia que ele nunca baixava o volume. Havia um trinco do lado de fora. Ela o levantou e entrou.
Os aposentos de Erak eram simples. Inevitavelmente construídos de troncos de pinho, abrangiam uma sala de estar e, fechado por uma cortina tecida em lã, um quarto de dormir num dos lados. A sala de estar tinha uma pequena fogueira queimando numa extremidade, que enchia o lugar de um calor agradável, e várias cadeiras de carvalho esculpidas. Uma tapeçaria muito cara, e, segundo o que Evanlyn reconheceu, estrangeira, cobria o chão de madeira. Ela adivinhou que era o resultado de uma das pilhagens de Erak em Gálica. Em seus anos no Castelo de Araluen, tinha visto muitas peças semelhantes. Tecidas pelos artistas de Tierre Valley durante longos períodos que muitas vezes chegavam a dez ou vinte anos, os tapetes geralmente trocavam de mãos por uma pequena fortuna.
Por alguma razão, Evanlyn não acreditava que Erak tivesse pago em dinheiro por ele.
Recostado em uma das cadeiras esculpidas e de aspecto confortável, o jarl estava sentado perto do fogo. Ele fez sinal para ela e indicou uma garrafa e copos numa mesa baixa no centro do aposento.
— Entre, menina. Sirva um pouco de vinho para nós e sente-se. Temos um assunto para conversar.
Hesitante, ela atravessou o quarto e derramou o vinho tinto em dois cálices. Depois entregou um deles para o escandinavo e se sentou na outra poltrona. Ao contrário de Erak, contudo, ela não se recostou confortavelmente. Ficou ereta na beirada como se estivesse preparada para fugir. O jarl a observou com o que pareceu ser um pouco de tristeza e então acenou para ela.
— Relaxe, menina! Ninguém vai machucar você; muito menos eu. Beba o vinho.
Lentamente, ela deu um gole e o achou surpreendentemente bom. Erak a observava e viu a expressão involuntária de surpresa em seu rosto.
— Então você conhece um bom vinho? — ele perguntou. — Eu peguei um barril desse de um navio florentino na última estação de pirataria. Nada mal, não é?
Ela concordou com um gesto. Estava começando a relaxar um pouco e o vinho a deixou um tanto corada. Evanlyn se deu conta de que não tinha tocado em nenhum tipo de bebida alcoólica por muitos meses. E lhe ocorreu que seria melhor que vigiasse seus passos. E sua língua.
Ela esperou que o capitão escandinavo falasse. Ele parecia hesitante, como se não tivesse certeza de que devia continuar. O silêncio cresceu entre eles até que, por fim, ela não suportou mais. Evanlyn tomou outro gole de vinho e perguntou:
— Por que mandou me chamar?
Jarl Erak estava olhando para as chamas do pequeno fogo. Surpreso, ele olhou para cima quando a garota falou. Ele devia estar desacostumado a conversar com escravos. Então, Evanlyn deu de ombros. Eles podiam ficar sentados ali, em silêncio, a noite toda se ninguém tomasse a iniciativa. Ela estava intrigada por ver um leve sorriso surgir no rosto barbado. Ocorreu a ela que em outro lugar, em condições diferentes, ela até poderia gostar do pirata escandinavo.
— Provavelmente não pelo motivo no qual você está pensando — ele respondeu e, antes que a moça pudesse responder, ele continuou, quase para si mesmo. — Mas alguém tem que fazer alguma coisa e acho que você é a pessoa ideal para o trabalho.
— Fazer alguma coisa? — Evanlyn repetiu. — Fazer alguma coisa sobre o quê?
Nesse momento, Erak pareceu tomar uma decisão. Ele soltou um suspiro profundo, tomou a última gota de vinho do copo e se inclinou para a frente, os cotovelos pousados nos joelhos, o rosto barbado e áspero voltado na direção dela.
— Você tem visto o seu amigo ultimamente? — ele perguntou. — O jovem Will?
Evanlyn desviou o olhar. Sim, ela o tinha visto. Ou melhor, ela tinha visto a figura trôpega e indiferente na qual ele tinha se transformado. Alguns dias antes, ele tinha trabalhado do lado de fora da cozinha e ela lhe levara alguma comida. Will arrancou o pão das mãos dela e o devorou como um animal. Mas, quando falou com ele, Will apenas a encarou.
Em duas curtas semanas, ele já tinha se esquecido de Evanlyn, de Halt e da pequena cabana na beira da floresta perto do Castelo Redmont. Ele tinha esquecido até os importantes acontecimentos que haviam ocorrido nas Planícies de Uthal, quando o exército do rei Duncan havia enfrentado e derrotado os implacáveis regimentos de Wargals de Morgarath.
No que dizia respeito a ele, esses acontecimentos e todos os outros de sua jovem vida poderiam muito bem ter ocorrido do lado oculto da lua. Atualmente, sua vida e todo o seu ser se concentravam apenas em um pensamento: seu próximo suprimento de erva do calor.
Um dos outros escravos, uma mulher mais velha, tinha testemunhado o encontro e falou com suavidade com Evanlyn quando ela voltou à cozinha. “Esqueça seu amigo. A droga tomou conta dele. Ele já está morto.”
— Eu o vi — ela disse a Erak em voz baixa.
— Eu não tive nada a ver com isso — ele retrucou zangado, surpreendendo Evanlyn com a intensidade da resposta. — Nada. Acredite em mim, menina, detesto a maldita droga. Já vi o que ela faz para as pessoas. Ninguém merece esse tipo de vida obscura.
Evanlyn o encarou outra vez. Era evidente que Erak estava sendo sincero e que, igualmente evidente, queria que ela reconhecesse isso. Evanlyn assentiu.
— Acredito em você — ela afirmou.
Erak se levantou da poltrona inquieto e andou pelo aposento pequeno e aquecido como se qualquer forma de ação física pudesse aliviar a fúria que estava se formando dentro dele desde que tinha encontrado Will.
— Um garoto como ele, um verdadeiro guerreiro. Ele pode ter a altura de um anão, mas tem o coração de um verdadeiro escandinavo.
— Ele é um arqueiro — Evanlyn contou em voz baixa e ele assentiu.
— É verdade. E ele merece mais do que isso. Essa maldita droga! Não sei por que Ragnak a tolera!
Ele parou por um longo momento, tentando recuperar a calma, e então se virou para ela e continuou.
— Quero que saiba que tentei manter vocês dois juntos. Não tinha ideia de que Borsa iria mandá-lo para o pátio. O homem não tem ideia de como tratar um inimigo honrado. Mas o que se pode esperar? Borsa não é um guerreiro. Ele conta sacos de cereais para viver.
— Entendo — Evanlyn comentou com cuidado.
Ela não tinha certeza disso, mas sentia que o capitão esperava alguma resposta dela. Erak olhou para a garota com atenção, avaliando-a. Ele parecia estar tentando tomar alguma decisão.
— Ninguém sobrevive no pátio — ele acrescentou com delicadeza, quase para si mesmo. Ao ouvir essas palavras, Evanlyn sentiu uma mão fria envolver seu coração.
— Assim, depende de nós fazer alguma coisa a respeito — ele concluiu.
Evanlyn olhou para ele, a esperança crescendo em seu peito quando Erak disse essas últimas palavras.
— Exatamente em que tipo de coisa você está pensando? — ela perguntou devagar, desejando, apesar de todas as probabilidades, que estivesse entendendo a conversa corretamente.
Erak fez uma pausa de alguns segundos e então tomou a firme decisão de se comprometer.
— Você vai fugir — ele disse finalmente. — Vai levá-lo junto com você e eu vou ajudá-los.

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