terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 22

O cavaleiro vestido de negro praguejou violentamente quando a flecha arrancou a luva de sua mão e bateu com estrondo, levando o apetrecho com ela, numa grossa viga de carvalho.
O impacto firme da flecha na viga atraiu seu olhar por um segundo e então ele se virou desconfiado para verificar de onde tinha vindo o projétil. Pela primeira vez, constatou a presença de um vulto escuro e indistinto nas sombras no fundo do aposento. Então, quando Halt saiu de trás da mesa e ficou visível na luz, ele também enxergou o arco em que uma segunda flecha estava pronta na corda. O arqueiro não tinha se incomodado em levantar o arco, mas Deparnieux tinha acabado de ver um exemplo de sua habilidade. Ele sabia que estava em frente a um mestre arqueiro, capaz de preparar o arco e atirar numa questão de segundos. Ele ficou muito quieto, controlando a raiva com dificuldade, pois sabia que sua vida bem poderia depender de sua capacidade de fazer isso.
— Infelizmente, para as normas dos cavaleiros — Halt disse — sir Horace, o cavaleiro da Ordem do Carvalho, está indisposto devido a um ferimento na mão esquerda. Assim, ele não vai poder responder ao gentil convite que o senhor estava prestes a fazer.
Halt tinha entrado ainda mais na luz e Deparnieux podia enxergar seu rosto com mais clareza. Com a barba por fazer e carrancudo, aquele era o rosto de um veterano experiente. Os olhos eram frios e não apresentavam nenhum sinal de indecisão. O cavaleiro soube de imediato que aquele era um homem com quem se devia tomar cuidado.
Ouviu-se um risinho baixo vindo de um dos moradores da vila que estavam no aposento e, interiormente, o cavaleiro galês ferveu de raiva. Seu olhar saltou para a fonte do barulho e viu um carpinteiro baixando o rosto para esconder o sorriso. Deparnieux tomou nota do sujeito mentalmente. Seu dia de prestar contas iria chegar. Exteriormente, porém, ele se obrigou a sorrir.
— Uma pena — ele respondeu ao arqueiro. — Tinha esperanças de realizar um amistoso teste de armas com o jovem cavaleiro. Sempre obedecendo ao espírito da boa cavalaria, é claro.
— É claro — Halt respondeu simplesmente e Deparnieux soube que não tinha conseguido enganá-lo por um momento sequer. — Mas, como eu disse, talvez tenhamos que desapontá-lo, já que estamos realizando uma viagem numa busca urgente.
— É mesmo? — Deparnieux indagou levantando as sobrancelhas intrigado. — E para onde você e o seu jovem mestre estão indo?
Ele acrescentou “jovem mestre” para verificar o efeito que as palavras iriam exercer no homem barbado parado à sua frente. Era óbvio quem era o patrão ali, e não era o jovem cavaleiro. Ele tinha esperado ferir o orgulho do outro homem e possivelmente levá-lo a cometer um erro.
A esperança, porém, não durou muito. Ele percebeu um leve brilho divertido no olhar do arqueiro quando ele reconheceu a manobra.
— Ah, para vários lugares — Halt respondeu vagamente. — Não é uma tarefa de interesse suficiente para um comandante como o senhor.
O tom de voz deixou claro para o cavaleiro que Halt não iria responder perguntas casuais sobre seu destino final ou o local para onde estavam viajando.
— Sir Horace — ele acrescentou, ciente de que o garoto ainda estava ao alcance do braço do cavaleiro negro — por que não se senta ali e descansa o braço machucado?
Horace olhou para ele e, quando compreendeu, afastou-se e se sentou perto do fogo. O silêncio na sala era absoluto. Os moradores da vila olhavam para os dois homens que se confrontavam, perguntando-se como aquela situação iria terminar. Apenas duas pessoas no aposento, Halt e Deparnieux, sabiam que o cavaleiro estava tentando avaliar suas chances de puxar a espada e atingir o arqueiro antes que ele pudesse atirar. Ao hesitar, Deparnieux encontrou o olhar decidido do arqueiro.
— Eu não faria isso — Halt disse com suavidade.
O cavaleiro negro leu a mensagem nos olhos dele e soube que, por mais rápido que fosse, a reação do outro homem seria ainda mais rápida. Ele inclinou a cabeça levemente reconhecendo o fato. Aquele não era o momento.
Ele se obrigou a sorrir e se inclinou de modo zombeteiro na direção de Horace.
— Talvez algum outro dia, sir Horace — ele disse com indiferença. — Vou esperar ansiosamente para lutar com o senhor quando se recuperar.
Desta vez ele notou que o garoto olhou rapidamente para o companheiro mais velho antes de responder.
— Talvez algum outro dia — Horace concordou.
O cavaleiro olhou ao redor do aposento com um sorriso frio, virou-se nos calcanhares e andou até a porta. Ele parou ali um momento e procurou Halt com o olhar mais uma vez. O sorriso desapareceu e a mensagem que enviou era clara: Na próxima vez, meu amigo. Na próxima vez.
A porta se fechou atrás dele e um suspiro coletivo de alívio tomou conta do aposento. No mesmo instante, todos os presentes começaram a conversar. Os músicos, percebendo que seu momento tinha acabado por aquela noite, guardaram os instrumentos e, agradecidos, aceitaram bebidas da empregada. 
Horace foi até a viga onde a flecha de Halt tinha pregado a luva do cavaleiro. Ele soltou a flecha, jogou a luva numa mesa e devolveu a flecha para Halt.
— O que foi tudo isso? — ele perguntou um pouco sem fôlego.
Halt voltou para a mesa nas sombras e recostou o arco na parede novamente.
— Isso — ele disse ao garoto — é o que acontece quando você começa a ganhar reputação. Obviamente, nosso amigo Deparnieux é a pessoa que controla esta área e viu você como um possível desafio a esse controle. Assim, veio até aqui para matar você.
— Mas... por quê? — Horace perguntou balançando a cabeça espantado. — Não tenho nenhuma desavença com o homem. Eu o ofendi de alguma maneira? É claro que não tive a intenção — ele afirmou.
Halt assentiu sério.
— Não se trata disso — explicou ao jovem aprendiz. — Ele não liga a mínima para você. Você simplesmente foi uma oportunidade para ele.
— Uma oportunidade? — Horace perguntou. — Para quê?
— Para reafirmar seu poder sobre as pessoas da região — Halt explicou. — Gente como ele governa pelo medo na maior parte do tempo. Assim, quando um jovem cavaleiro vem para a cidade com a reputação de campeão, alguém como Deparnieux encara o fato como uma oportunidade. Ele provoca uma briga, mata e a reputação dele fica mais forte. As pessoas o temem mais e têm menos probabilidade de desafiar o controle que ele exerce sobre elas. Entendeu?
— Não devia ser assim — o rapaz murmurou com um tom de desapontamento na voz. — Não é assim que os cavaleiros deveriam agir.
— Nesta parte do mundo é assim — Halt retrucou.

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