sexta-feira, 24 de junho de 2016

Capítulo 21

Nos dias que se seguiram à caçada ao porco selvagem, Will percebeu uma mudança na forma como era tratado. Havia uma certa diferença, até respeito, no jeito como as pessoas falavam com ele e o olhavam quando passava. O fato era mais visível entre o povo da vila. Como eram pessoas simples, com o dia-a-dia bastante limitado, tendiam a glamourizar e exagerar qualquer acontecimento que, de alguma forma, escapava do comum.
No fim da primeira semana, os acontecimentos da caçada tinham sido aumentados de tal forma que diziam que Will tinha matado os dois porcos selvagens com uma só mão quando eles saíram em disparada do bosque. Alguns dias depois disso, ao ouvir contarem a história, era quase possível acreditar que ele tinha realizado o feito com uma única flecha que atravessou o primeiro porco selvagem e foi se alojar direto no coração do segundo.
— Na verdade, eu não fiz muita coisa — ele disse para Halt, numa noite, quando estavam sentados perto do fogo na pequena cabana aquecida que dividiam na beira da floresta. — Quer dizer, não planejei nem decidi o que fazer. A coisa simplesmente aconteceu. E, afinal, foi você quem matou o porco selvagem, não eu.
Halt apenas assentiu, olhando fixamente para as chamas amarelas e saltitantes na lareira.
— As pessoas pensam o que querem — ele disse devagar. — Nunca dê atenção demais a elas.
Mesmo assim, Will estava perturbado com a bajulação. Achava que as pessoas estavam dando importância exagerada aos fatos. Will sentia, em seu coração, que tinha feito uma coisa que valia a pena e, talvez, até honrosa. Mas estava sendo tratado como uma celebridade por acontecimentos totalmente fictícios e, como era uma pessoa essencialmente honesta, não conseguia sentir-se orgulhoso disso.
Will também se sentia um pouco constrangido porque era um dos poucos que tinha percebido o ato original de Horace, instintivamente corajoso, colocando-se em frente ao porco selvagem. Ele sentia que talvez o arqueiro tivesse a oportunidade de elogiar a ação altruísta de Horace para sir Rodney, mas seu professor simplesmente tinha assentido e dito apenas:
— Sir Rodney sabe. Ele não perde muita coisa. Está um pouco acima da média das outras pessoas.
E Will teve que se satisfazer com isso.
No castelo, com os cavaleiros da Escola de Guerra, os vários chefes de ofício e os aprendizes, as atitudes eram diferentes. Ali, Will apreciava a simples aceitação e o reconhecimento do fato de que tinha se saído bem. Percebeu que agora as pessoas geralmente sabiam seu nome e cumprimentavam Halt e ele quando os dois tinham trabalho a fazer na área do castelo. O próprio barão estava mais amistoso do que nunca. Era motivo de orgulho ver um dos garotos do castelo apresentar um bom desempenho.
Horace era a pessoa com quem Will gostaria de discutir o assunto. Mas, como seus caminhos raramente se cruzavam, a oportunidade não tinha surgido. Ele queria se certificar de que o aprendiz de guerreiro não tinha dado grande importância às histórias ridículas que tinham varrido a vila e esperava que seu antigo colega do castelo soubesse que ele não tinha feito nada para espalhar aqueles boatos.
Enquanto isso, as lições e o treinamento de Will continuavam num ritmo acelerado. Halt tinha lhe dito que no prazo de um mês eles partiriam para a Reunião: um acontecimento anual no calendário dos arqueiros.
Era nessa ocasião que todos os 50 arqueiros se reuniam para trocar informações, discutir quaisquer problemas que pudessem ter surgido no reino e fazer planos. O mais importante para Will era o fato de que também era época de avaliar os aprendizes e ver se eles estavam preparados para passar ao próximo ano do treinamento. Infelizmente, ele estava treinando somente há sete meses. Se não passasse na avaliação da Reunião daquele ano, teria que esperar mais um ano até que surgisse outra oportunidade. Como resultado, treinava incansavelmente, do nascer até o fim de cada dia. O descanso do sábado era um luxo há muito esquecido. Will atirava flechas e mais flechas em alvos de diferentes tamanhos, em diferentes condições, de pé, ajoelhado, sentado. Ele até atirava escondido nas árvores.
E praticava o uso das facas em pé, ajoelhado, sentado, lançando-se para a esquerda e para a direita. Ele treinava jogar a maior das duas facas para que ela atingisse o alvo primeiro com o cabo. Afinal, como Halt tinha dito, às vezes era preciso apenas assustar a pessoa em quem estava atirando, portanto era uma boa ideia saber como fazê-lo.
Will praticava andar furtivamente, ficar parado como uma estátua mesmo quando tinha certeza de que tinha sido descoberto e aprendeu que, com muita frequência, as pessoas simplesmente não o notavam até que ele realmente se mexia. Aprendeu o truque que os buscadores usavam, deixando que o olhar passasse de um determinado ponto e de repente voltasse a olhar para ele para captar qualquer movimento, por menor que fosse. Aprendeu sobre as sentinelas da retaguarda, que seguiam um grupo silenciosamente na esperança de pegar qualquer pessoa que não tivesse sido vista, e então saíam do esconderijo quando o grupo tivesse passado.
Ele trabalhava com Puxão, fortalecendo o elo e a afeição que tinham se formado muito depressa entre os dois. Aprendeu a usar os sentidos aguçados do faro e da audição do pequeno cavalo para o avisar de qualquer perigo e aprendeu a interpretar os sinais que o cavalo enviava para seu cavaleiro.
Assim, não era de surpreender que, no final do dia, Will não tivesse disposição para subir o caminho sinuoso que levava ao Castelo Redmont e procurar Horace para conversar. Will aceitava o fato de que, cedo ou tarde, a oportunidade surgiria. Enquanto isso, ele só podia esperar que o desempenho de Horace estivesse sendo reconhecido por sir Rodney e pelos outros membros da Escola de
Guerra.
Infelizmente para Horace, parecia que nada estava mais longe da verdade.
Sir Rodney estava perplexo diante do jovem e musculoso aprendiz. Ele parecia ter todas as qualidades que a Escola de Guerra procurava: era corajoso, cumpria ordens imediatamente e mostrava enorme habilidade no treinamento com as armas. Mas seu trabalho de classe ficava abaixo da média. As tarefas eram entregues com atraso ou feitas com desleixo. Ele parecia ter problemas em prestar atenção nos instrutores como se estivesse distraído o tempo todo. Além disso, suspeitava -se de que tinha uma preferência por brigas. Nenhum integrante da equipe o tinha visto brigando, mas frequentemente era visto com hematomas e contusões leves e parecia não ter feito amigos entre os colegas de classe. Tudo isso servia para criar a imagem de um recruta briguento, antissocial e preguiçoso que tinha uma certa habilidade com as armas.
Considerando todos os aspectos e com muita relutância, o mestre de guerra estava começando a sentir que teria que expulsar Horace da Escola de Guerra. Todos os fatos pareciam indicar isso. No entanto, seus instintos lhe diziam que estava enganado, que havia algum outro fator que ele desconhecia.
Na verdade, havia três outros fatores: Alda, Bryn e Jerome. E, no mesmo momento em que o mestre de Guerra estava pensando no futuro de seu recruta mais jovem, eles cercaram Horace mais uma vez.
Parecia que, cada vez que ele conseguia encontrar um lugar para escapar, os três alunos mais velhos descobriam seu paradeiro. É claro que isso não era difícil para eles, já que tinham uma rede de espiões e informantes entre os outros garotos mais jovens que tinham medo deles, dentro e fora da Escola de Guerra. Desta vez, encurralaram Horace atrás do depósito de armas, num local calmo que ele tinha descoberto alguns dias antes. Estava preso contra a parede de pedra do edifício do depósito de armas, e os três valentões estavam parados em meio círculo na sua frente. Cada um deles segurava uma bengala grossa, e Alda tinha um saco pesado dobrado sobre um braço.
— Nós estávamos procurando você, bebê — Alda disse.
Horace não respondeu. Seus olhos passavam de um para outro enquanto ele se perguntava quem faria o primeiro movimento.
— O bebê nos fez de bobos — Bryn falou.
— Fez toda a Escola de Guerra de boba — acrescentou Jerome.
Horace franziu a testa confuso com as palavras dos garotos. Ele não tinha ideia do que eles estavam dizendo, mas Alda logo esclareceu sua dúvida.
— O bebê teve que ser resgatado do porco selvagem grande e malvado.
— Por um pequeno e rastejante aprendiz que vive se escondendo — Bryn acrescentou num tom claramente zombeteiro. — E isso faz mal para a imagem de todos nós.
Jerome empurrou o ombro de Horace enquanto falava, fazendo que se chocasse contra a pedra áspera da parede. Seu rosto estava vermelho e zangado, e Horace sabia que ele estava se preparando para alguma coisa. Suas mãos se fecharam ao lado do corpo, e Jerome percebeu o movimento.
— Não me ameace, bebê! É hora de aprender uma lição.
Ele se aproximou ameaçador. Horace se virou para encará-lo e, no mesmo instante, sabia que tinha cometido um erro. O movimento de Jerome foi um artifício. O verdadeiro ataque veio de Alda, que jogou o pesado saco de estopa na cabeça de Horace antes que ele pudesse resistir e puxou uma corda com força para que ele ficasse imobilizado da cintura para cima, vendado e indefeso.
Horace sentiu várias voltas da corda caindo sobre seus ombros, amarrando-o, e então os golpes começaram. Ele cambaleou às cegas sem poder se defender, enquanto os três garotos o atacavam com as pesadas bengalas que estavam carregando.
Ele se chocou contra a parede e caiu, incapaz de se proteger, com os braços imobilizados ao lado do corpo. Os golpes continuaram, recaindo na cabeça, nos braços e nas pernas desprotegidos. Os três garotos continuavam sua ladainha irracional de ódio.
— Chame o rastejador para salvar você agora, bebê.
— Isso é por nos fazer parecer idiotas.
— Aprenda a ter respeito por sua Escola de Guerra, bebê.
E eles continuaram sem parar enquanto Horace se retorcia no chão, tentando escapar dos golpes em vão. Foi a pior surra que já tinham lhe dado e continuaram até que, gradativamente, misericordiosamente, ele ficou imóvel e semiconsciente. Cada um bateu nele ainda algumas vezes, e então Alda retirou o saco. Horace respirou fundo e encheu o pulmão de ar fresco. Todo o seu corpo doía violentamente. De muito longe, ele ouviu a voz de Bryn.
— Agora vamos ensinar a mesma lição para o rastejador.
Os outros riram e Horace escutou quando se afastaram. Ele gemeu baixinho, desejando que a inconsciência o libertasse, querendo se deixar mergulhar em seus braços escuros e confortáveis para que a dor fosse embora, pelo menos durante um tempo.
Então ele compreendeu o significado das palavras de Bryn. Eles iam dar o mesmo tratamento a Will, simplesmente porque achavam que a atitude dele ao salvar Horace tinha, de certa forma, depreciado a Escola de Guerra. Com um esforço sobre-humano, ele empurrou as agradáveis dobras da escuridão para longe e se levantou com esforço, gemendo por causa da dor, respirando com dificuldade, apoiando-se na parede, a cabeça girando. Ele se lembrou da promessa que tinha feito a Will: “Se você precisar de um amigo, pode me chamar.”
Tinha chegado a hora de cumprir a promessa.

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