terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 1

Já era quase meia-noite quando um cavaleiro solitário freou o cavalo em frente à pequena cabana construída entre as árvores abaixo do Castelo Redmont. O pônei carregado que caminhava atrás do cavalo selado parou também. O cavaleiro, um homem alto que se movia com a graça fácil da juventude, escorregou da sela e entrou na varanda estreita, agachando-se para não bater no beiral baixo. Do estábulo coberto ao lado da casa, vinha o som do suave relinchar de cavalos, e o animal que acabara de chegar levantou a cabeça como se respondesse a um cumprimento.
O cavaleiro tinha levantado o punho para bater na porta quando viu uma luz se acender atrás da cortina da janela. Ele hesitou. A luz atravessou a sala e, cerca de um segundo depois, a porta se abriu.
— Gilan — Halt disse sem qualquer sinal de surpresa na voz. — O que está fazendo aqui?
O jovem arqueiro riu ao encarar o antigo professor.
— Como você faz isso, Halt? — ele perguntou. — Como você podia saber que era eu quem estava chegando no meio da noite, antes mesmo de abrir a porta?
Halt deu de ombros, fazendo sinal para que Gilan entrasse na casa. Ele fechou a porta, foi até a pequena cozinha bem arrumada, abriu o fogão e reavivou as chamas do carvão em seu interior. Jogou alguns gravetos no fogão e colocou uma chaleira de cobre na chapa quente sobre o fogo, sacudindo-a primeiro para se certificar de que tinha bastante água.
— Escutei um cavalo há alguns minutos — ele contou. — Então, quando ouvi Abelard cumprimentar, soube que tinha que ser o cavalo de um arqueiro.
Ele deu de ombros outra vez. “Simples, depois da explicação”, dizia o gesto. Gilan riu em resposta.
— Bem, isso reduziu as possibilidades para 50 pessoas, não é mesmo?
Halt inclinou a cabeça para o lado com um olhar de pena.
— Gilan, acho que ouvi você tropeçando naquele degrau da frente umas mil vezes quando era meu aluno. Admita que eu não podia deixar de reconhecer esse som mais uma vez.
O arqueiro mais jovem estendeu as mãos num gesto de derrota. Ele tirou a capa e a pendurou em uma cadeira, aproximando-se mais um pouco do fogão. A noite estava fria, e ele ficou olhando com certa ansiedade Halt preparar o café. A porta do quarto dos fundos se abriu, e Will entrou na pequena sala com as roupas vestidas às pressas sobre o pijama e os cabelos ainda desgrenhados.
— Boa-noite, Gilan — ele cumprimentou calmamente. — O que trouxe você aqui?
Gilan olhou de um para outro um tanto desesperado.
— Ninguém fica surpreso quando apareço no meio da noite? — ele perguntou.
Halt, ocupado no fogão, se virou para esconder um sorriso. Alguns minutos antes, ele tinha ouvido Will se mover apressado e ir até a janela quando o cavalo se aproximou da cabana. Era evidente que o aprendiz tinha ouvido a sua conversa com Gilan e estava fazendo o melhor que podia para tentar criar o seu jeito informal de tratar a chegada inesperada. Entretanto, conhecendo Will como conhecia, Halt tinha certeza de que o garoto estava ardendo de curiosidade quanto ao motivo da visita inesperada, por isso resolveu fazer uma brincadeira.
— É tarde, Will. Acho bom você voltar para a cama. Temos um dia cheio amanhã.
No mesmo instante, a expressão indiferente de Will foi substituída por um olhar infeliz. A sugestão do mestre equivalia a uma ordem. Todas as intenções de parecer casual desapareceram de repente.
— Ah, por favor, Halt! — o garoto exclamou. — Quero saber o que está acontecendo!
Halt e Gilan trocaram um sorriso rápido. Will esperava ansiosamente que Halt mudasse de ideia quanto a mandá-lo para a cama. O arqueiro grisalho continuou sério ao colocar três canecas fumegantes de café na mesa da cozinha.
— Por que você acha que preparei três xícaras? — ele disse, e Will percebeu que tinha sido feito de bobo.
Ele deu de ombros sorrindo e se sentou com seus superiores.
— Muito bem, Gilan, antes que meu aprendiz acabe explodindo de curiosidade, qual é a razão para essa visita inesperada?
— Bom, tem a ver com os planos de batalha que você descobriu na semana passada. Agora que conhecemos as intenções de Morgarath, o rei quer o exército pronto nas Planícies de Uthal antes da próxima Lua crescente. É nesse dia que Morgarath planeja atravessar o Desfiladeiro dos Três Passos.
O documento encontrado tinha muitas informações. O plano de Morgarath falava de 500 mercenários escandinavos que iriam atravessar os pântanos e atacar a guarnição no Desfiladeiro dos Três Passos. Com o desfiladeiro desprotegido, o exército principal de Wargals poderia invadir e espalhar suas tropas na planície.
— Então Duncan planeja atacar primeiro — Halt disse assentindo devagar. — Boa ideia. Desse jeito, vamos controlar o campo de batalha.
— E vamos manter o exército de Morgarath preso numa armadilha no desfiladeiro — Will disse em tom igualmente sério, também concordando com a cabeça.
Gilan se virou ligeiramente para esconder um sorriso. Ele se perguntou se tinha tentado imitar os trejeitos de Halt quando era seu aprendiz e chegou à conclusão de que provavelmente tinha.
— Ao contrário — ele disse. — Quando o exército chegar, Duncan planeja se retirar, voltar para posições preparadas com antecedência e deixar Morgarath sair das planícies.
— Deixá-lo sair? — Will indagou surpreso e com voz aguda. — O rei está louco? Por que...
Ele percebeu que os dois arqueiros o observavam. Halt com uma sobrancelha levantada e Gilan com um sorriso zombeteiro dançando nos cantos da boca.
— Quero dizer... — hesitou, sem saber ao certo se questionar a sanidade do rei poderia ser considerado traição. — Sem querer ofender ou qualquer coisa parecida. É que...
— Ah, tenho certeza de que o rei não vai ficar ofendido se souber que um mero aprendiz de arqueiro pensa que ele está doido — Halt retrucou. — Os reis geralmente adoram ouvir esse tipo de coisa.
— Mas Halt... deixar que ele saia, depois de todos esses anos? Parece... — ele ia dizer “loucura”, mas pensou melhor.
De repente, o rapaz se lembrou do recente encontro com os Wargals. A ideia de milhares daquelas criaturas horríveis se espalhando livremente para fora do desfiladeiro fez seu sangue congelar.
— Essa é exatamente a questão, Will — Halt foi o primeiro a responder. —  “Depois de todos esses anos.” Nós passamos dezesseis anos olhando para Morgarath e nos perguntando quais as intenções dele. Anos atrás, nossas forças estavam ocupadas patrulhando a base dos penhascos e vigiando Três Passos. E ele teve a liberdade de nos atacar no momento em que quis. Os Kalkaras foram o exemplo mais recente, como você sabe muito bem.
Gilan olhou para o antigo mestre com admiração.
Halt tinha entendido imediatamente o raciocínio que estava por trás do plano do rei. Não era a primeira vez que percebia por que Halt era um dos conselheiros mais respeitados do monarca.
— Halt está certo, Will. E há outro motivo. Depois de dezesseis anos de relativa paz, as pessoas estão ficando complacentes. Não os arqueiros, é claro, mas o povo das vilas que fornecem homens ao nosso exército. E até alguns dos barões e mestres de guerra em feudos longínquos ao norte.
— Você mesmo viu como algumas pessoas hesitam em deixar as fazendas e ir para a guerra — Halt argumentou.
Will assentiu. Ele e Halt tinham passado a última semana viajando para os vilarejos vizinhos do Feudo Redmont para alistar homens e formar o exército. Em mais de uma ocasião, foram recebidos com total hostilidade. Uma hostilidade que desapareceu quando Halt usou toda a força de sua personalidade e reputação.
— No que se refere ao rei Duncan, agora é o momento de acertar isso — Gilan continuou. — Nós estamos tão fortes quanto sempre fomos, e qualquer atraso só vai nos enfraquecer. Esta é a melhor oportunidade que temos para nos livrar de Morgarath de uma vez por todas.
— E tudo isso nos leva de volta à minha primeira pergunta — Halt replicou. — O que o traz aqui no meio da noite?
— Ordens de Crowley — Gilan disse animado.
Ele colocou sobre a mesa uma mensagem escrita, e Halt, depois de um olhar interrogador para Gilan, a desenrolou e leu. Will sabia que Crowley era o comandante dos arqueiros, a maior autoridade entre os 50 arqueiros da Corporação. Halt leu e tornou a enrolar as ordens.
— Então você está levando mensagens para o rei Swyddned, dos celtas. Suponho que está invocando o tratado mútuo de defesa que Duncan assinou com ele há alguns anos.
Gilan assentiu, tomando um gole do café cheiroso com satisfação.
— O rei acha que vamos precisar de todas as tropas que pudermos reunir.
— Não posso criticá-lo por pensar assim — Halt disse em voz baixa concordando pensativo. — Mas...?
Ele estendeu as mãos num gesto de interrogação. O gesto parecia dizer que, se Gilan estava levando mensagens para Céltica, quanto mais rápido ele começasse, melhor.
— Bom — disse Gilan — é uma missão oficial para Céltica.
Ele deu ênfase à ultima palavra e, de repente, Halt acenou com a cabeça compreendendo o que o outro arqueiro queria dizer.
— Claro — ele disse. — A velha tradição celta.
— É mais uma superstição — Gilan comentou. — Na minha opinião, é uma perda de tempo ridícula.
— Claro que é — Halt respondeu — mas os celtas insistem nela. Então, o que se pode fazer?
Will olhou de Halt para Gilan e para seu mentor novamente. Os dois arqueiros pareciam entender do que estavam falando. Para Will, eles pareciam falar uma língua estrangeira.
— Não há problemas em tempos normais — Gilan disse. — Mas, com todos esses preparativos para a guerra, estamos com dificuldades em todas as áreas. Simplesmente não dispomos de pessoal. Então Crowley pensou...
— Acho que já estou adiante de você — Halt disse e, finalmente, Will não conseguiu mais aguentar.
— Bom, acho que estou bem atrás de você! — Ele explodiu. — O que raios vocês estão dizendo? Estão falando a nossa língua ou algum estranho idioma estrangeiro que se parece com ela, mas não faz nenhum sentido?

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