terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 1

O navio estava a apenas algumas horas do Cabo Shelter, quando uma forte tempestade o atingiu. Durante três dias, tinham navegado para o norte, na direção da Escandinávia, por um mar calmo como um lago, fato que muito agradou a Will e Evanlyn.
— Até que não está tão ruim — Will disse enquanto o navio estreito cortava as águas com tranquilidade.
Ele tinha ouvido histórias sombrias sobre pessoas que passavam muito mal a bordo de embarcações no mar. Mas para ele o suave balanço do navio não era motivo de preocupação.
Evanlyn concordou um pouco hesitante. Ela não era uma navegante experiente, mas já tinha estado no mar antes.
— Se não ficar pior que isso — ela retrucou.
Ela tinha notado os olhares de preocupação que Erak, o capitão do navio, lançava para o norte e o modo como ele estava estimulando os remadores do Wolfwind a aumentar a velocidade. Quanto a Erak, ele sabia que aquele tempo enganosamente calmo anunciava uma mudança para muito pior. Vagamente, no horizonte ao norte, ele via a linha escura da tempestade se formando. Ele sabia que, se não conseguissem dar a volta no Cabo Shelter e entrar no abrigo da massa de terra em tempo, seriam atingidos por toda a força da tempestade. Durante vários minutos, ele avaliou velocidades e distâncias, analisando seu avanço em comparação ao das nuvens que se aproximavam apressadas.
— Não vamos conseguir — ele disse finalmente para Svengal. Seu segundo homem no comando concordou.
— Acho que não — Svengal respondeu filosoficamente.
Erak examinou o navio com atenção, certificandose de que não havia equipamentos soltos que precisavam ser amarrados. Seu olhar caiu sobre os dois prisioneiros encolhidos na proa.
— É melhor amarrar esses dois no mastro. E também vamos prender o remo de direção com cordas.
Will e Evanlyn observaram Svengal se aproximar deles com um rolo de corda fina na mão.
— E agora? — Will perguntou. — Eles não podem estar pensando que vamos tentar escapar.
Mas Svengal tinha parado no mastro e estava fazendo sinais agitados para eles. Os dois araluenses se levantaram e andaram com passos incertos até ele. Will percebeu que o navio estava balançando mais e que o vento soprava mais forte. Ele andou com dificuldade para chegar perto de Svengal. Atrás dele, ouviu Evanlyn murmurar um palavrão, nada adequado a uma nobre, quando ela tropeçou e arranhou a pele num poste de amarração.
Svengal apanhou sua faca de caça e cortou dois pedaços de corda do rolo.
— Se amarrem ao mastro — ordenou. — Vamos enfrentar uma tempestade violenta a qualquer minuto.
— Você quer dizer que podemos ser atirados ao mar? — Evanlyn perguntou sem acreditar.
Svengal percebeu que Will estava se amarrando ao mastro com um nó de laço perfeito. A garota estava tendo problemas, de modo que Svengal pegou a corda, passou-a ao redor da cintura dela e a prendeu também.
— Talvez — o marinheiro respondeu. — É mais provável que vocês sejam jogados ao mar pelas ondas.
Ele viu o rosto do garoto empalidecer de medo.
— Você está dizendo que as ondas podem mesmo... cair no convés? — Will perguntou.
Svengal lhe deu um sorriso duro e sem humor.
— Ah, podem sim...
Ele correu de volta para ajudar Erak na popa, onde o capitão já estava amarrando o imenso leme. Will engoliu em seco várias vezes. Ele tinha imaginado que um navio daquele tamanho deslizaria sobre as ondas como uma gaivota e agora lhe diziam que era provável que as ondas caíssem estrondosamente sobre o convés. Ele se perguntou como o barco continuaria flutuando se isso acontecesse.
— Oh, Deus... o que é aquilo? — Evanlyn perguntou baixinho, apontando para o norte.
A linha fina e escura que Erak tinha visto era agora uma massa negra e turva a apenas 300 metros de distância, aproximando-se a uma velocidade maior que a de um cavalo a galope. Os dois se aproximaram mais da base do mastro e tentaram envolver todo o poste áspero de pinho com os braços, procurando se prender até com as unhas. E então o sol desapareceu quando a tempestade caiu sobre eles.
Só a força do vento já foi suficiente para deixar Will sem fôlego. Literalmente. Aquele não era um vento como outros que Will conhecera. Aquele vento parecia uma força selvagem, viva e primitiva, que corria em volta dele, deixando-o surdo e cego, que arrancava o ar de seus pulmões e o impedia de enchê-los novamente: ele o sufocava e ao mesmo tempo tentava fazer que soltasse as mãos do poste.
Com os olhos bem fechados, Will tentava respirar e se segurava desesperadamente ao mastro. Vagamente, ouviu os gritos de Evanlyn e sentiu quando ela começou a escorregar para longe dele. Ele tentou agarrá-la sem olhar, encontrou sua mão e a puxou de volta.
A primeira onda enorme caiu sobre o convés, e a proa do navio se inclinou num ângulo assustador. Eles começaram a ser levados para cima junto com a onda e então o navio oscilou e começou a deslizar.
— Para trás e para baixo! — Svengal e Erak gritaram para os remadores.
Suas vozes foram levadas para longe pelo vento, mas a tripulação, de costas para a tempestade, viu e entendeu a linguagem de corpo dos dois homens. Eles se inclinaram sobre os remos, dobraram as hastes de carvalho com seus esforços e lentamente a embarcação parou de deslizar para trás. O navio começou a se agarrar à onda, subindo cada vez mais lentamente até Will ter certeza de que eles teriam que começar uma terrível descida em sentido contrário.
Então a crista da onda quebrou e desabou com um ruído de trovão em cima deles.
Toneladas de água caíram com estrondo no navio, impelindo-o para baixo, empurrando-o para a direita até se ter a impressão de que ele nunca iria voltar à posição original. Will soltou um grito selvagem de terror, mas foi interrompido pela água gelada e salgada que o atingiu e o obrigou a soltar o mastro, encheu sua boca e seus pulmões e o arrastou pelo convés até que a corda frágil o fez parar. Coberto e cercado pela água, Will foi virado de um lado para outro. Quando o navio se endireitou, ele ficou se debatendo como um peixe fora da água. Evanlyn estava ao lado dele e, juntos, arrastaram-se com dificuldade de volta ao mastro, segurando-se nele com novo desespero.
Nesse momento, a proa se lançou para a frente, e eles foram arrastados aos trambolhões em meio à água, deixando seus estômagos para trás e gritando aterrorizados mais uma vez.
A proa cortou a onda imensa, dividindo o mar e jogando-o bem para o alto. Mais uma vez, a água caiu sobre o convés, como uma cascata, mas não quebrou com a força da onda anterior, e os dois jovens conseguiram se segurar ao mastro. A água, na altura da cintura, passou por eles com violência, mas logo o navio esguio pareceu conseguir se livrar do peso imenso.
Nos bancos dos remadores, a tripulação substituta já estava trabalhando a todo vapor, jogando água por cima da amurada com baldes. Erak e Svengal, na parte mais exposta do navio, também estavam presos com cordas nos lados do remo de direção, um instrumento resistente da metade do tamanho dos remos normais. Ele era usado como remo de direção, menos em situações como essa. O leme longo dava ao timoneiro um ponto de apoio maior para que pudesse ajudar os remadores a dar a volta no navio. Naquele dia, foi necessária a força de dois homens para dirigi-lo.
Na calha que se formava entre as ondas, tinha-se a impressão de que o vento perdia a força. Will limpou o sal dos olhos, tossiu e vomitou água do mar no convés. Ele viu o olhar aterrorizado de Evanlyn. Teve a leve sensação de que devia tentar tranquiliza-la, mas não havia nada que pudesse dizer ou fazer, pois não acreditava que o navio poderia suportar outra onda como aquela.
No entanto, já havia outra a caminho. Ainda maior do que a primeira, ela avançava na direção do barco, percorrendo várias centenas de metros, empinando-se e concentrando-se bem acima deles, mais alta do que os muros do castelo Redmont. Will enterrou o rosto no mastro e sentiu Evanlyn fazendo o mesmo quando o navio começou novamente uma terrível e lenta subida.
O navio subiu cada vez mais, acompanhando as paredes da onda. Os homens se esforçavam até sentir os corações quase estourarem ao tentar levar o Wolfwind onda acima, enfrentando a força combinada do vento e do mar. Desta vez, antes de a onda quebrar, Will teve a impressão de que o navio ia perder a luta no último momento. Ele abriu os olhos aterrorizado quando a embarcação começou a voltar para o desastre certo. Então, a crista se enrolou por cima do barco e caiu com toda a força em cima deles e novamente o rapaz, girando e rolando foi jogado pelo convés. Will foi contido pela corda que o prendia, sentiu algo bater dolorosamente em sua boca e percebeu que era o cotovelo de Evanlyn.
A água caiu estrondosamente sobre ele, e a proa se virou para baixo outra vez. O navio começou outro mergulho escorregadio e louco para o outro lado, rolando, jogando água do mar para todos os lados. Fraco demais para gritar, Will gemeu levemente e rastejou de volta para o mastro. Ele olhou para Evanlyn e balançou a cabeça. “Não há como sobreviver a isso”, ele pensou, vendo o mesmo temor no olhar da companheira.
Na popa, Erak e Svengal se abraçaram enquanto o Wolfwind batia com força na calha formada pelas ondas, jogando jatos de água nos dois lados da proa, fazendo todo o corpo do navio vibrar com o impacto. A embarcação girou, sacudiu e se endireitou novamente.
— Ela está aguentando bem — Svengal gritou.
Erak concordou preocupado. Por mais assustador que pudesse parecer para Will e Evanlyn, o navio tinha sido, construído para aguentar águas violentas como aquelas. Mas mesmo um navio tem suas limitações. E, se aquilo continuasse por muito tempo, Erak sabia que todos morreriam.
— A última quase nos derrubou — respondeu.
Um movimento de último minuto feito pelos remadores tinha conseguido arrastar o navio por cima da crista da onda quando ele estava prestes a deslizar para trás, de volta para a calha.
— Vamos ter que virar o barco e correr antes da tempestade.
Svengal concordou olhando o horizonte com os olhos apertados para se proteger do vento e do sal.
— Depois daquela.
A onda seguinte era um pouco menor do que a que quase tinha acabado com eles, mas “menor” não era uma palavra muito tranquilizadora. Os dois escandinavos apertaram com mais força o leme de direção.
— Remem, droga! Remem!
Erak rugia para os remadores quando a montanha de água se ergueu acima deles, e o Wolfwind começou outra subida lenta e precária.
— Ah, não, por favor, permita que isso acabe logo!
Will gemeu quando sentiu a proa se inclinar para cima outra vez.
O terror era fisicamente exaustivo. Ele só queria que aquilo acabasse. “Mesmo que o navio tenha que afundar”, pensou. Ele queria que tudo se acabasse. Que chegasse ao fim. Que aquele terror que paralisava a mente terminasse. Ele ouvia Evanlyn ao lado dele soluçando de medo. Ele a abraçou, mas não conseguiu fazer mais nada para consolá-la.
Eles subiram cada vez mais. E então ouviram o conhecido rugido das ondas quebrando e o trovão de água despencando cm cima deles. Em seguida, a proa atravessou a crista, bateu na parte posterior da onda e despencou para baixo. Will tentou gritar, mas estava sem energias e com a garganta dolorida, conseguiu emitir apenas um leve soluço.
O Wolfwind cortou o mar na base da onda outra vez. Erak gritava instruções aos remadores. Eles teriam pouco tempo na sombra do vento da próxima onda que se aproximava e, nesse tempo, teriam que virar o barco. Os remadores apoiaram os pés nas tábuas de madeira. Os que estavam na popa, ou do lado direito do navio viraram os cabos dos remos para o seu lado. Os remadores do lado esquerdo empurraram os seus para a frente.
Quando o navio se endireitou, Erak gritou suas ordens.
— Agora!
As lâminas dos remos mergulharam fundo no mar e, enquanto um dos lados empurrava e o outro puxava, Erak e Svengal jogaram o peso do corpo no leme. O navio longo e estreito girou obediente, quase no mesmo lugar, levando a proa para o lado do vento e do mar.
— Agora empurrem juntos! — Erak rugiu, e os remadores obedeceram com vontade.
Ele tinha que manter o navio se movimentando um pouco mais depressa do que o mar ou este iria vencê-los. Ele olhou uma vez para os dois prisioneiros de Araluen, agachados infelizes junto do mastro, mas se esqueceu deles quando voltou a analisar o avanço do navio, mantendo a proa virada para o mar. Qualquer erro seu e o barco deslizaria para o lado. Seria o fim. O capitão sabia que estavam navegando mais facilmente, mas não era o momento para se distrair.
Para Will e Evanlyn, o navio ainda estava mergulhando e balançando de modo assustador, subindo até 15 metros de altura, mas agora o movimento estava mais controlado. O barco estava acompanhando o mar, não lutando contra ele. Will sentiu o movimento se acalmar. Borrifos de água ainda os atingiam a intervalos regulares, mas o balanço violento para trás pertencia ao passado. À medida que o navio conseguia enfrentar cada montanha sucessiva de água que passava por baixo e ao redor dele, Will começou a acreditar que eles poderiam ter uma leve chance de sobrevivência.
Mas era uma chance muito pequena. Ele ainda sentia o mesmo pavor tomando conta de todo o seu corpo sempre que uma onda caía sobre eles. A cada vez, tinha a impressão de que aquela poderia ser a última. Ele envolveu Evanlyn com os dois braços, sentiu os braços dela envolverem seu pescoço e o rosto gelado se colando ao dele. E assim os dois jovens procuraram e encontraram conforto e coragem no outro. Evanlyn choramingava de medo. E com alguma surpresa, Will percebeu que ele também, pois murmura palavras sem sentido repetidas vezes, chamando o nome de Halt, de Puxão, de qualquer pessoa que pudesse ouvir e ajudar. Mas, à medida que as ondas se seguiam, uma atrás da outra, e o Wolfwind sobrevivia, o terror cego diminuiu e foi substituído por uma exaustão nervosa e, por fim, ele adormeceu.
Durante mais sete dias, o navio foi levado para o sul, para longe do Mar Estreito e perto das margens do Oceano Sem Fim. Will e Evanlyn passaram o tempo todo encolhidos junto do mastro, encharcados, exaustos, congelados. O medo paralisante do desastre estava sempre presente em suas mentes, mas aos poucos eles começaram a acreditar que poderiam sobreviver.
No oitavo dia, o sol atravessou as nuvens. Ele estava fraco e sem brilho, é verdade, mas era o sol. Os violentos mergulhos no mar tinham parado e mais uma vez o navio deslizou suavemente na superfície da água.
Erak, com a barba e os cabelos cobertos de sal, empurrou cansado o leme, obrigando o navio a fazer uma curva suave e virar para o norte outra vez.
— Vamos para o Cabo Shelter — ele disse para a tripulação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário