terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 18

— Eu disse que esse símbolo no seu escudo facilitaria a viagem — Halt comentou com Horace.
Eles estavam tranquilamente acomodados em suas selas, Halt com uma das pernas apoiada na alça, enquanto observavam o cavaleiro galês que tinha barrado a passagem deles bater as esporas no cavalo e sair a galope até a segurança de uma cidade próxima. Horace olhou para a folha de carvalho verde que Halt tinha pintado em seu escudo antes sem adornos.
— Você sabe — ele disse com um leve tom de desaprovação na voz — não tenho direito a um brasão de armas até ser formalmente nomeado cavaleiro.
O treinamento com sir Rodney tinha sido muito rígido e às vezes ele sentia que Halt não dava bastante atenção ao protocolo da cavalaria. O arqueiro barbado olhou para ele de lado e deu de ombros.
— Aliás, você também não tem o direito de lutar com nenhum desses cavaleiros antes de ser nomeado — ele lembrou. — Mas não vi isso impedir você.
Desde o primeiro encontro na ponte, os dois viajantes foram parados em meia dúzia de ocasiões por cavaleiros piratas que guardavam encruzilhadas, pontes e vales estreitos. Todos eles tinham sido despachados com facilidade quase desdenhosa pelo jovem e musculoso aprendiz.
Halt estava muito impressionado com a técnica e habilidade natural do jovem rapaz. Um depois do outro, Horace tinha feito os vigias de beira de estrada caírem das selas, primeiro com alguns golpes destramente aplicados com a espada e, mais recentemente ele havia conseguido uma lança resistente, com o equilíbrio e o peso que lhe agradavam , em um ataque retumbante que tinha arrancado o oponente da sela e feito que caísse vários metros atrás do cavalo a galope. Naquele momento, os dois viajantes tinham reunido um bom estoque de armaduras e armas que carregavam amarradas às selas dos cavalos que tinham capturado. Halt pretendia vender os animais, as armas e armaduras na próxima cidade grande que encontrassem.
Apesar da admiração pela habilidade de Horace e do fato de sentir uma estranha satisfação por ver os abutres encrenqueiros serem postos fora de ação, Halt se ressentia dos contínuos atrasos que isso causava à sua viagem. Mesmo sem eles, ele e Horace dificilmente atingiriam a distante fronteira da Escandinávia antes que as primeiras nevascas de inverno as tornassem intransponíveis.
Assim, cinco noites antes, quando acamparam num celeiro semidestruído de uma fazenda deserta, ele tinha remexido em pilhas de velhas ferramentas enferrujadas e sacos rasgados até encontrar uma pequena lata de tinta verde e um velho pincel seco. Com eles, tinha pintado uma folha de carvalho verde no escudo de Horace. O resultado foi o esperado. A reputação de sir Horace da Ordem da Folha de Carvalho os tinha ultrapassado. Agora, com muita frequência, quando cavaleiros salteadores viam sua aproximação, viravam e fugiam ao enxergar o desenho no escudo de Horace.
— Não posso dizer que estou sentido por ver ele ir embora — Horace observou delicadamente, fazendo com que Kicker andasse até a encruzilhada agora deserta. — O meu ombro ainda não sarou totalmente.
Seu oponente anterior tinha sido consideravelmente mais hábil do que os habituais guerreiros de estrada. Sem medo do emblema da folha de carvalho no escudo e obviamente não perturbado pela reputação de Horace, ele tinha participado do combate com animação. A luta tinha durado vários minutos e, durante o seu desenrolar, um golpe de clava arrancou o alto da borda do escudo de Horace e atingiu a parte superior de seu braço.
Felizmente, o escudo tinha recebido a maior parte do impacto ou muito provavelmente o braço de Horace estaria quebrado. Como resultado, ele estava bastante ferido e ainda não conseguia movimentar o braço como gostaria. Praticamente meio segundo após a clava tê-lo machucado, a espada de Horace bateu com força na frente do capacete do outro homem, deixando uma marca profunda e fazendo o cavaleiro cair estendido inconsciente, com uma grave concussão, no chão da floresta.
Agora, Horace estava aliviado por não ter precisado lutar desde então.
— Vamos passar a noite na cidade — Halt avisou. — Talvez a gente consiga algumas ervas para eu colocar um cataplasma nesse braço — ele acrescentou, ao notar que o garoto estava protegendo o braço.
Apesar de não ter se queixado, era evidente que o ferimento causava muita dor.
— Isso seria bom — Horace concordou. — Uma noite numa cama de verdade seria uma mudança agradável depois de dormir no chão por tanto tempo.
— É evidente que a Escola de Guerra não é mais o que costumava ser — Halt replicou. — É muito bom quando um velho como eu pode dormir ao ar livre, enquanto um garoto fica todo dolorido e reumático por causa disso.
— Isso não importa — Horace deu de ombros. — Ainda vou ficar satisfeito por dormir numa cama hoje à noite.
Na verdade, Halt sentia a mesma coisa, mas não diria isso a Horace.
— Talvez a gente deva se apressar — ele disse — para colocar você numa boa cama confortável antes que suas juntas fiquem todas entrevadas.
E ele fez Abelard trotar levemente. Atrás dele, Puxão aumentou o ritmo no mesmo instante para acompanhá-lo. Horace, pego de surpresa e impedido pelos cavalos capturados que conduzia, demorou um pouco para segui-los.
A fila de cavalos de batalha, carregados com a armadura e as armas, despertou bastante interesse na cidade quando eles cavalgaram pelas ruas. Horace percebeu mais uma vez como as pessoas corriam para abrir caminho para seu cavalo. Ele notou olhares furtivos lançados para o seu lado e mais de uma vez ouviu a expressão “Chevalier du chêne” sussurrada enquanto passava. Ele olhou curioso para Halt. 
— O que eles estão dizendo?
Halt mostrou o símbolo da folha de carvalho no escudo que estava pendurado no alto da sela do garoto.
— Eles estão comentando sobre a “chêne”, que quer dizer carvalho. Eles estão falando sobre você, o cavaleiro do carvalho. Aparentemente, a sua fama se espalhou.
Horace franziu a testa. Ele não tinha certeza de estar satisfeito com isso.
— Vamos esperar que isso não cause nenhum problema — disse indeciso, e Halt simplesmente deu de ombros.
— Numa cidade pequena como esta? Acho muito improvável. Espero que aconteça o contrário.
Pois, na verdade, era uma cidade pequena, quase pouco mais que um vilarejo. A rua principal era estreita e quase não tinha espaço para os dois cavalos andarem lado a lado. Os pedestres tinham que sair do caminho, ir para ruas laterais, para que os cavaleiros pudessem passar, e ficar ali, enquanto a pequena fila de cavalos de batalha cavalgava calmamente atrás deles.
A rua não pavimentada era uma mera trilha poeirenta que se transformava num lamaçal grudento, quando chovia. As casas eram pequenas, geralmente térreas, aparentemente construídas numa escala menor do que a normal.
— Fique de olhos abertos para encontrar uma pousada — Halt disse devagar.
Viajar com um companheiro famoso era uma experiência nova para Halt. Em Araluen, ele estava acostumado com a desconfiança e, às vezes, o medo com que os membros do corpo de arqueiros eram recebidos. As capas manchadas e os capuzes grandes eram uma imagem conhecida para o povo do reino. Ali, em Gálica, ele ficou bastante satisfeito em perceber que o uniforme dos arqueiros, além do arco e das flechas e das facas duplas, seu armamento característico, parecia despertar pouco ou nenhum interesse.
Com Horace as coisas eram diferentes. Era óbvio que a reputação do rapaz tinha se adiantado a eles, e as pessoas o olhavam com o mesmo jeito desconfiado e cheio de dúvida com que Halt tinha se acostumado ao longo dos anos. A situação agradava muito a Halt. No caso de qualquer problema, ela daria aos dois uma vantagem definitiva, caso as pessoas já tivessem decidido que o principal perigo vinha do jovem rapaz que usava a armadura.
A verdade era que o homem mais velho e grisalho na capa de cores um tanto indefinidas era um possível inimigo muito menos perigoso.
— Logo ali — Horace avisou, despertando Halt de seus pensamentos.
Ele seguiu a direção do dedo do garoto e viu um prédio maior que os outros com um segundo andar precariamente inclinado sobre a rua, sustentado sem muita firmeza por vigas de carvalho que se projetavam para fora na altura do primeiro andar. Uma placa um pouco gasta pelo tempo balançava delicadamente na brisa e tinha o desenho rústico de um copo de vinho e um prato de comida feitos com tinta que já escamava.
— Não fique muito esperançoso de encontrar uma boa cama macia para passar a noite — Halt avisou o aprendiz. — É capaz de a gente dormir melhor na floresta.
Ele não acrescentou que provavelmente também dormiriam num lugar mais limpo.
Mas, na verdade, constataram que ele tinha sido injusto com a pousada. Ela era pequena, e as paredes não eram muito retas. O teto era baixo e irregular, e as escadas pareciam se inclinar para um lado quando subiram para examinar o quarto que lhes tinha sido oferecido. Mas, pelo menos, o lugar era limpo, e o quarto tinha uma janela grande envidraçada que estava bem aberta para deixar entrar a fresca brisa da tarde. O cheiro dos campos recém-arados chegou até eles, quando olharam para fora e viram a confusão de telhados inclinados da cidade.
O dono da pousada e sua esposa eram idosos e pareciam hospitaleiros e amistosos com seus dois hóspedes, principalmente depois de terem visto as armas e armaduras empilhadas nos cavalos sem cavaleiro alinhados na rua. Para eles, estava claro que o jovem cavaleiro era uma pessoa de posses. E também uma pessoa de considerável importância, a julgar pela maneira como ele deixava todas as negociações para o seu empregado, o sujeito um tanto mal-humorado que usava uma capa cinza-esverdeado. Satisfazia ao esnobismo do senhorio pensar que pessoas nascidas em berço nobre não se dignavam a mostrar interesse por assuntos comerciais, como o preço de um quarto para dormir.
Tendo verificado que não havia mercado na cidade onde poderiam converter o produto de seus combates em dinheiro, Halt deixou que o cavalariço da pousada acomodasse os cavalos para a noite. Todos, exceto Abelard e Puxão, é claro. Ele cuidou deles pessoalmente e ficou satisfeito em ver que Horace fez o mesmo com Kicker.
Quando os cavalos estavam acomodados, os dois companheiros voltaram para o quarto. A mulher do estalajadeiro tinha dito que o jantar ficaria pronto somente dali a 1 ou 2 horas.
— Vamos usar esse tempo para cuidar desse braço — Halt disse a Horace.
O jovem rapaz se deixou cair na cama agradecido e suspirou satisfeito. Ao contrário da expectativa de Halt, as camas eram macias e confortáveis e eram cobertas por lençóis brancos perfumados e cobertores grossos e limpos. A um gesto do arqueiro, o aprendiz se levantou e tirou a malha de ferro e a túnica, gemendo levemente por causa da dor quando levantou o braço na altura do ombro.
O hematoma tinha se espalhado por todo o braço, deixando uma mancha de carne descorada de um azul enegrecido com feias bordas amarelas. Halt tocou o ferimento com olhar crítico, apalpando para ter certeza de que não havia ossos quebrados.
— Aai! — Horace gritou quando os dedos do arqueiro apalparam o hematoma à procura de alguma coisa.
— Doeu? — Halt perguntou, e Horace olhou para ele desesperado.
— Claro que sim — respondeu depressa. — Foi por isso que gritei.
— Hummm — Halt resmungou pensativo.
Levantando o braço, ele o virou de um lado para outro, enquanto o rapaz rangia os dentes para não gritar de dor. Finalmente, incapaz de conter seu aborrecimento por mais tempo, ele se afastou de Halt.
— Você acha mesmo que vai encontrar alguma coisa aqui? — ele perguntou num tom irritado. — Ou você só está se divertindo em me causar dor?
— Estou tentando ajudar — Halt disse com suavidade. Ele tentou pegar o braço outra vez, mas Horace recuou.
— Deixe suas mãos longe de mim — ele disse. — Você só está me cutucando e me apalpando. Não sei como isso pode ajudar.
— Só estou tentando me certificar de que não tem nada quebrado — Halt explicou.
Mas Horace balançou a cabeça para o arqueiro.
— Não quebrou nada. Estou machucado, só isso.
Halt fez um gesto impotente e resignado. Ele abriu a boca para falar, planejando tranquilizar Horace e garantir que estava mesmo tentando ajudar.
Houve uma leve batida na porta e, antes que o som tivesse morrido, ela se abriu de repente e a mulher do estalajadeiro entrou com os braços cheios de travesseiros novos para a cama. Ela sorriu para os dois e então seu olhar caiu sobre o braço do garoto. O sorriso desapareceu e foi substituído imediatamente por um ar de preocupação maternal.
Ela soltou uma torrente de palavras em galês, que nenhum dos dois compreendeu, e se aproximou rapidamente de Horace, largando os travesseiros na cama. Ele a observou com desconfiança quando ela estendeu a mão para tocar seu braço ferido. Ela parou, apertou os lábios e o encarou de um jeito tranquilizador. Satisfeito, ele deixou que a mulher examinasse o ferimento.
A mulher trabalhou com gestos delicados, leves e quase imperceptíveis. Horace, submetendo-se ao seu exame, olhou para Halt de um jeito significativo. O arqueiro ficou carrancudo e se sentou na cama para observar. Finalmente, a mulher recuou e, pegando o braço do rapaz, fez que se sentasse na beira da cama e se virou para falar com os dois homens, apontando o braço descorado.
— Ele não quebrou nenhum osso — ela disse hesitante, e Halt concordou.
— Pensei a mesma coisa — ele retrucou, e Horace fungou com desdém.
A mulher assentiu uma ou duas vezes e então continuou, escolhendo as palavras com cuidado. Seu domínio do idioma araluense era inexato, para dizer o mínimo.
— Hematomas — ela disse. — Hematomas feios. Precisam... — ela hesitou procurando a palavra e então a encontrou. — Ervas... — ela esfregou as duas mãos, imitando o ato de esfregar ervas umas nas outras para formar um cataplasma. — Esmagar ervas... pôr aqui.
Ela tocou o braço ferido mais uma vez, e Halt concordou com um gesto.
— Bom — ele disse a ela. — Por favor, faça isso depressa.
Ele olhou para Horace.
— Estamos com sorte — ele afirmou. — Ela parece saber o que está fazendo.
— Você quer dizer que eu estou com sorte — Horace disse preocupado. — Se ficasse nas suas mãos delicadas, provavelmente estaria sem o braço agora.
A mulher, ouvindo o tom de voz, mas sem compreender as palavras, apressou-se a tranquilizá-lo, emitindo sons monótonos e tocando o ferimento com leveza.
— Dois dias... três... sem ferimento, sem dor — ela garantiu, e Horace sorriu para ela.
— Obrigado, senhora — ele agradeceu no tom educado que imaginou que um jovem cavaleiro galante deveria usar. — Vou ficar lhe devendo a vida toda.
Ela sorriu para ele e, com gestos outra vez, indicou que ia pegar suas ervas e remédios. Horace se levantou e fez uma curvatura desajeitada quando ela saiu do quarto, rindo sozinha.
— Ah! Pooor favor — Halt gemeu, revirando os olhos para o alto.

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