quarta-feira, 29 de junho de 2016

Capítulo 1

Foram batidas leves e constantes que despertaram Will do sono profundo e tranquilo. Ele não tinha uma ideia clara de quando começou a ouvi-las. O ruído parecia ter deslizado discretamente em sua mente adormecida, ampliou-se e aumentou em seu subconsciente até chegar ao mundo consciente e fazê-lo perceber que estava acordado e se perguntando o que poderia ser.
Tap-tap-tap-tap...
O barulho continuava, mas não tão alto, agora que estava acordado e ciente dos outros sons na pequena cabana.
Do canto, atrás de uma pequena cortina de estopa que lhe dava uma leve privacidade, ele podia ouvir a respiração regular de Evanlyn. Estava claro que as batidas não a tinham acordado. Escutou uns estalidos abafados vindos da pilha de carvão na lareira no fim do aposento e, quando ficou totalmente acordado, escutou quando os pedaços se assentaram com um leve farfalhar.
Tap-tap-tap...
O barulho parecia vir de perto dele. Will se espreguiçou, bocejou e se sentou na cama rústica que tinha feito com madeira e lona. Balançou a cabeça para afastar o resto de sono e, por um momento, o som quase desapareceu. Então recomeçou, e Will percebeu que vinha do lado de fora da janela. Os painéis de tecido impermeável eram transparentes e deixavam que a luz cinzenta de antes do amanhecer entrasse, mas ele não viu nada além de névoa. Ele se ajoelhou na cama e abriu a moldura, levantando-a e esticando a cabeça pela abertura para observar a pequena varanda da cabana.
Uma rajada de ar frio entrou no quarto e ele ouviu Evanlyn se mexer enquanto o vento percorria o aposento, fazendo com que a cortina de estopa balançasse para dentro e as brasas da lareira brilhassem com mais intensidade até que uma pequena língua de fogo amarela saltasse delas.
Em algum lugar entre as árvores, um pássaro cumprimentava a primeira luz do dia, e as batidas foram abafadas mais uma vez.
Então ele descobriu. Era água que pingava da ponta de um longo pingente de gelo pendurado no telhado da varanda e caía num balde virado que ficara ali no chão.
Tap-tap-tap... tap-tap-tap...
Will franziu a testa. Ele sabia que tinha uma coisa importante nesse acontecimento, mas sua mente, ainda confusa pelo sono, não conseguiu entender bem o que era. Ele se levantou, espreguiçando-se e tremendo levemente ao deixar o último calor da coberta, e se dirigiu para a porta.
Esperando não acordar Evanlyn, levantou o trinco e abriu a porta devagar, segurando-a de modo que as dobradiças de couro não deixassem a parte inferior raspar no chão da cabana.
Will fechou a porta atrás dele e andou nas tábuas ásperas da varanda, sentindo o frio gelado nos pés descalços. Foi até onde a água pingava sem parar sobre o balde e notou que outros pingentes pendurados no telhado também pingavam. Ele nunca tinha visto nada parecido e teve certeza de que aquilo não acontecia normalmente.
Olhou para as árvores por onde passavam os primeiros raios de sol.
Houve um baque surdo na floresta quando um monte de neve finalmente escorregou dos galhos de um pinheiro, onde tinha ficado durante meses, e caiu formando um monte no chão.
E foi nesse momento que ele se deu conta da importância das intermináveis batidas que o tinham acordado.
Atrás dele, ouviu a porta ranger. Ele se virou e viu Evanlyn, com os cabelos muito emaranhados, enrolada no cobertor para se proteger do frio.
— O que foi? — ela perguntou. — Aconteceu alguma coisa?
Ele hesitou um segundo, olhando para a poça que crescia ao lado do balde.
— O gelo está derretendo — ele disse finalmente.


Depois de um magro café da manhã, eles se sentaram ao sol que se estendia na varanda. Nenhum dos dois queria discutir a importância da descoberta de Will, embora tivessem encontrado mais sinais do degelo.
Pequenas manchas de grama seca encharcada apareciam na cobertura de neve na terra em volta da cabana, e o som da neve molhada escorregando das árvores para cair no chão estava se tornando cada vez mais comum.
É claro que a neve ainda estava espessa no chão e nas árvores, mas os sinais indicavam que o degelo tinha começado e que iria continuar incessantemente.
— Acho que temos que pensar em continuar a viagem — Will disse finalmente, externando o pensamento que tinha estado na mente de ambos.
— Você ainda não está forte o suficiente — Evanlyn retrucou.
Mal se tinham passado três semanas desde o dia em que ele se livrou dos efeitos entorpecedores provocados pela erva do calor, na qual se viciara quando escravo do pátio na Residência de Ragnak. Antes de conseguirem fugir, Will tinha enfraquecido por causa de comida e roupas inadequadas e um regime de trabalho fisicamente punitivo. Desde então, a alimentação insuficiente serviu apenas para conservar a vida, mas não para restaurar suas forças ou sua resistência. Eles tinham vivido do fubá e da farinha encontrados na cabana, de um pequeno estoque de legumes e da carne fibrosa de qualquer animal que Evanlyn e ele tinham conseguido caçar.
Havia pouca caça no inverno e os animais que tinham apanhado também não estavam em boas condições além de não serem muitonutritivos.
— Eu dou um jeito — Will disse simplesmente e ergueu os ombros. — Vou ter que dar.
E esse era o principal problema. Os dois sabiam que, assim que a neve nos altos desfiladeiros tivesse derretido, os caçadores voltariam a visitar as montanhas onde estavam. Evanlyn já tinha visto um deles: o misterioso cavaleiro no dia em que Will tinha recuperado a consciência. Felizmente, desde aquele dia, não viram mais sinal dele. Mas tinha sido um aviso. Outros viriam e, antes que aparecessem, Will e Evanlyn tinham que estar bem longe, descendo as passagens do outro lado da montanha para atravessar a fronteira para a Teutônia.
Evanlyn balançou a cabeça com ar de dúvida. Por um momento não disse nada, mas logo se deu conta de que Will tinha razão. Assim que o degelo tivesse realmente começado, eles teriam que partir, estando ele forte o bastante para viajar ou não.
— Mesmo assim — ela disse devagar — ainda temos algumas semanas. O degelo apenas começou e talvez ainda venha outra frente fria. Quem sabe?
“É possível”, ela pensou, “Talvez não seja provável, mas pelo menos é possível”.
Will concordou com um gesto.
— Isso sempre pode acontecer — ele afirmou.
O silêncio caiu sobre eles como uma cortina de fumaça. De repente, Evanlyn se levantou, tirando a poeira da roupa.
— Vou dar uma olhada nas armadilhas — avisou e, quando Will começou a se levantar para acompanhá-la, ela o impediu. — Fique aqui — ela pediu com delicadeza. — De agora em diante, você vai ter que conservar o máximo de força possível.
Will hesitou, mas acabou concordando, pois reconheceu que ela tinha razão.
Evanlyn apanhou o saco de aniagem que usavam para carregar a caça e o jogou sobre o ombro. Então, com um pequeno sorriso, afastou-se no meio das árvores.
Sentindo-se inútil e desanimado, Will começou a reunir os pratos de madeira que usavam nas refeições. “Só sirvo para lavar a louça”, ele pensou tristemente.
As armadilhas vinham sendo colocadas cada vez mais longe da cabana nas últimas três semanas. Depois que pequenos animais, coelhos, esquilos e uma ou outra lebre da neve tinham caído nas armadilhas que Will tinha construído, os outros animais naquela área ficaram mais cuidadosos. Como resultado, eles eram obrigados a montar as armadilhas em novos locais, de tempos em tempos cada qual um pouco mais longe da cabana que no dia anterior.
Evanlyn calculou que tinha que andar cerca de quarenta minutos na trilha estreita que subia a colina antes de chegar à primeira armadilha. É claro que, se pudesse caminhar em linha reta, o trajeto seria muito mais curto. Mas a trilha era sinuosa e dava voltas ao redor das árvores, mais do que dobrando a distância que tinha que percorrer. Agora que tinha consciência do fato, os sinais do degelo estavam em toda a sua volta. A neve não rangia secamente quando andava. Ela estava mais pesada, úmida, e seus pés afundavam dentro dela. O couro de suas botas já estava encharcado do contato com a neve que derretia. Da última vez em que passara por esse caminho, a neve simplesmente tinha coberto as botas com um pó fino e seco.
Ela também começou a notar uma atividade maior entre a vida selvagem da região. Pássaros esvoaçavam entre as árvores em número maior do que antes, e ela assustou um coelho na trilha, fazendo com que corresse de volta à proteção de uma amoreira coberta de neve.
“Pelo menos, essa atividade extra pode aumentar as chances de encontrar alguma caça que valha a pena nas armadilhas”, ela pensou.
Ela viu o sinal discreto que Will tinha feito na casca de um pinheiro e saiu da trilha para encontrar o lugar onde eles tinham armado a primeira armadilha. Ela se lembrou do alívio que sentiu quando ele se recuperou do vício da erva do calor. Suas habilidades de sobrevivência eram insignificantes e Will tinha oferecido seu bem-vindo conhecimento para criar e colocar armadilhas e complementar a alimentação dos dois. Aquilo fazia parte do treinamento que Halt tinha lhe dado.
Evanlyn se lembrava de como os olhos dele tinham ficado úmidos por alguns momentos e a voz embargada, quando ele mencionou o nome do velho arqueiro. E, não pela primeira vez, os dois jovens se sentiram muito, muito longe de casa.
Ao passar com dificuldade pelos arbustos cobertos de neve e ficar cada vez mais ensopada, ela sentiu uma onda de prazer. A primeira armadilha tinha pegado um pequeno pássaro. Eles já tinham caçado alguns e ela sabia que a carne era excelente. Do tamanho de uma galinha pequena, ele tinha colocado o pescoço descuidadamente no aro de metal da armadilha e ficou preso. Evanlyn sorriu tristemente quando pensou que antes teria protestado por causa da morte cruel do pássaro. Agora, tudo o que sentia era uma sensação de satisfação ao se dar conta de que teriam uma boa refeição naquele dia.
“É surpreendente como uma barriga vazia pode mudar a opinião da gente”, ela pensou enquanto retirava o aro do pescoço do pássaro e enfiava a pequena carcaça na sacola.
Ela recolocou a armadilha e espalhou alguns grãos de milho no chão ao redor dela. Então se levantou, franzindo a testa aborrecida, ao perceber que a neve derretida tinha deixado duas manchas molhadas nos joelhos.
Evanlyn sentiu, mais do que ouviu, um movimento nas árvores atrás dela e se preparou para correr. Antes que pudesse se mexer, sentiu algo agarrá-la com força pelo pescoço e, ao soltar um grito abafado de medo, uma mão calçada numa luva de pele com um cheiro terrível de fumaça, suor e sujeira lhe tapou a boca e o nariz, impedindo-a de gritar.

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