quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo bônus

Seis anos depois

— EADY, VOCÊ PODE ME AJUDAR, por favor? — Josie estendeu o alfinete e a faixa. Eu poderia dizer que ela estava tentando não deixar transparecer seus nervos.
— Claro.
— Se eu sujar este vestido de sangue, eu juro...
— Você não tem nada com que se preocupar — garanti. — Você está em excelentes mãos. Agora, olhe para mim e respire.
A sala fervilhava de pessoas, mas parecia que todas já estavam em modo de celebração. A pobre Josie fazia o seu melhor para terminar de se vestir. Eu puxei a faixa azul – um símbolo de seu status de quase realeza – e posicionei-a sobre o decote do seu vestido, segurando-a no lugar e alisando em torno do corpete para que ficasse bem ajeitada em seu quadril.
— Pronto. Nenhum sangue. Nem mesmo uma gota de suor — fiquei parada atrás dela, as mãos em seus ombros e olhando-a pelo espelho. — Você dá uma bela noiva.
Ela assentiu, os lábios apertados.
— Graças a Deus eu estou impecável por fora, porque por dentro eu me sinto uma bagunça. 
Eu ri.
— Você e todas as noivas da história. Eu correr até o altar para Eikko, estava mais do que pronta para ser sua esposa. Mas a sensação de realmente passar por uma cerimônia enorme, com todos aqueles votos... — balancei a cabeça.
— Eu me lembro. Nunca vi ninguém passar mal de maneira tão elegante...
— Ei — eu disse, apontando para o seu reflexo — nós nunca falamos sobre isso.
Assim, um sorriso finalmente surgiu no rosto dela e eu decidi que, se eu tivesse que passar o resto do dia fazendo graça em relação aos meus inúmeros defeitos só para acalmar os nervos dela, eu o faria.
— Nós vamos para o carro em quinze minutos — lembrei. — Deixe-me buscar a florista e verificar os meninos, e então estaremos prontas para ir.
Josie assentiu, começando algum tipo de exercício de respiração profunda. Eu acenei para Shannon.
— Você é a dama de honra dela. Precisa mantê-la calma.
— Pode deixar.
Desapareci no corredor, apreciando o ar mais frio. Com todos os vários membros de família, as damas de honra e os amigos, aquela sala estava muito cheia. Mas o que eu poderia dizer? O casamento de Josie estava quase tão agitado quanto o meu havia sido.
Todas as salas de estar do andar de baixo estavam sendo usadas para um propósito ou outro hoje. Refeições em uma, fotografia na próxima. Tínhamos até transformado uma das salas em uma área infantil temporária apenas para manter nossa princesinha próxima de todos. Mas, dobrando a esquina, vi que a área infantil não havia sido necessária.
Kerttu girava e girava no corredor, cercada por admiradores, e eu sorri, assistindo à distância. Eikko estava sentado no chão, o casaco jogado de lado, e batia palmas enquanto meus pais assistiam próximos à parede. Osten já havia sido cansado pela sobrinha e estava comicamente apoiado em um cotovelo, balançando a cabeça para ela.
— Lindo, sötsi — Eikko disse.
— Este é o melhor vestido! Posso usá-lo todos os dias?
— Sim — ele respondeu. — Até para dormir, se quiser.
Revirei os olhos. Que simples.
— Querida, este vestido é tão cheio que você vai rolar para fora da cama — desci pelo corredor e ela se virou e veio pulando em minha direção.
— Mamãe, mamãe!
Me ajoelhei para abraçá-la. 
— Você está maravilhosa, Kerttu. Está pronta para ir?
— Eu joguei todas as minhas pétalas de flores no tio Osten!
Dei uma espiada e ele olhou para mim como se aquilo fosse uma coisa séria. Parecia que cada um dos meus irmãos tinha deixado um pouco de si em Kerttu. Ela era tão encantadora quanto Ahren, tão precoce quanto Kaden e tão endiabrada quanto Osten, e nós nunca sabíamos com qual lado dela teríamos que lidar em cada momento. Mas, claro, ela era muito preciosa para ser repreendida, mesmo quando era um pouco mais insolente do que gentil. 
Eu ri.
— Boa menina.
Ela se aconchegou, colocando sua boca na região do meu estômago, um novo hábito que eu não poderia quebrar.
— Olá, bebê. Você já é uma menina?
— Oh, docinho, eu já te disse. Nós não saberemos por um tempo — dei tapinhas em seus cabelos, tentando não bagunçá-los. — E talvez seja um menino.
— Tente ser uma menina — ela falou pelo meu vestido, por entre as mãos, para ter certeza de que as palavras fossem ouvidas.
— Como está se sentindo, Vossa Majestade? — Eikko provocou, beijando minha testa.
— Estou muito bem. A noiva está um pouco nervosa.
Ele deu de ombros. 
— Aposto que isso é normal. Se eu me lembro bem, você estava até pior do que eu quando nos casamos. Você não estava...?
— Por que ninguém esquece isso? — balancei minha cabeça para ele, mas ele apenas riu. — Venha, Kerttu. Vamos ver a tia Josie. Aposto que você vai animá-la.
— Eu animo todo mundo.
— Reúna os meninos — instruí Eikko. Ele me encarou por um momento, parecendo preocupado.
— Claro.
E saiu sorrindo. Imaginei se ele estava se lembrando do nosso casamento ou pensando no que ia acontecer, ou apenas ponderando o quão deslumbrante eu estava, uma distração que ele alegava sofrer várias vezes por dia.
— Venha, querida.
Kerttu colocou sua mão no meu ventre, chegando o mais perto que podia  de seu novo irmão.
O povo ainda não sabia e quase não dava para ver. Eu esperava que alguns babados bem costurados me ajudassem a mascarar a verdade por um pouco mais de tempo. Mas agora eu temia que tivéssemos cometido um erro contando para Kerttu. Eu certamente não a queria espalhando a notícia hoje. Josie realmente merecia ter um lindo dia sob os holofotes.
— Kerttu! — Neena chamou quando nós voltamos. Olhei para Josie e a vi engolindo uma taça de champanhe. Eu esperava que isso a acalmasse. — Você está tão bonita. Está animada?
— Papai disse que posso usar meu vestido todo dia!
Todos os que estavam por perto riram.
— Não estou surpresa —Neena respondeu antes de se virar para mim. — Entrei em contato com a igreja e os convidados já começaram a chegar. O salão principal já está arrumado para a recepção e tudo o que nós temos que fazer agora é, na verdade, ter o casamento.
— Perfeito. Eikko está reunindo os meninos e meus pais estão no hall, então tenho certeza de que estamos prontos para ir. Quer dizer, se ela estiver pronta — indiquei Josie.
— Eu realmente pensei que este dia seria o melhor da vida dela. Mas ela parece mais nervosa do que animada.
Olhei para ela e a verdade caiu sobre mim. Na verdade era muito simples.
— Eu vou falar com ela. Tenha certeza de que os meninos estão indo para o carro, e nós estaremos atrás de você.
Eu me movi pela sala, distribuindo os buquês e conferindo se todos os pequenos detalhes estavam bem cuidados. O decoro exigia que eu não fizesse parte realmente do grupo de madrinhas, mas pelo menos permanecer com o grupo significava que eu poderia ver detalhes que os outros poderiam ter esquecido.
Depois que amarrei o laço no vestido de Kerttu pela quinta e – espero – última vez, uma criada colocou a cabeça para dentro da sala.
— Está na hora, Vossa Majestade.
— Obrigada — eu disse, e me virei para Josie. — Pronta?
Josie congelou.
— Sim. Certo.
Mas seus olhos tremiam levemente, e me perguntei se ela conseguiria chegar até a porta da frente. 
No grande hall de entrada, todos estavam alinhados enquanto Kerttu dançava em círculos pela festa. Ela havia feito tudo tão certo quando praticamos e eu esperava que ela passasse pela cerimônia sem cair pelo corredor. Eu começava a ter minhas dúvidas.
— Tudo bem — falei para Josie. — É hora de ir.
Ela encarou as grandes portas abertas, os carros esperando no estacionamento. Havia apenas um minúsculo vestígio de vento nas árvores – um dia perfeito para um casamento.
— Eu preciso de um minuto.
— Josie!
Ela envolveu o estômago com um dos braços. 
— Só um minuto.
Eu a puxei para perto, segurando seus ombros. 
— Ei. Eu te entendo. Mesmo.
— Eu o amo. Então por que estou tremendo?
— Porque é aterrorizante conseguir tudo o que você sempre quis.
Ela levantou os olhos na direção dos meus. Assentiu.
— Mas você não tem que se preocupar. É só uma caminhada pelo corredor. E quando chegar ao final, Kaden segurará a sua mão e vocês dirão algumas palavras, coisas que já consideraram um milhão de vezes. E você receberá uma coroa, mas é mais para ficar bonita, e você já está linda, então é apenas mais um acessório. — encolhi os ombros. — É fácil, de verdade.
Ela me olhava, seu peito se movendo firmemente, como se ela trabalhasse para diminuir a respiração.
— Fácil — ela repetiu. — Uma caminhada, algumas palavras, uma joias.
— Exatamente. E então eu finalmente poderei chamá-la de irmã.
Ela sorriu.
— Você também pode me chamar de princesa Josephine Schreave.
— Sim, mas provavelmente ficarei com “ei, você” — provoquei.
O riso foi difícil de conseguir, mas valeu totalmente a pena. 
— Obrigada.
— Disponha. Está pronta agora?
Ela assentiu.
— Acho que sim. — Depois de um suspiro profundo, ela deu dois passos adiante e me abraçou.
— Estou tão feliz por você, Josie.
— Obrigada. Nem acredito que isso...
Sua voz desapareceu rapidamente e olhei por sobre meu ombro para ver o que a havia feito parar. Uma gafe monumental havia acontecido. Eu pensava que os meninos já estavam a caminho da igreja, mas aqui estavam eles, vindo pelo hall com Neena. Eikko, Kile e, pior do que isso, o próprio noivo.
Engoli em seco.
— Josie, me desculpe! Eu pensei...
Mas ela não ouviu nada. Seus olhos estavam focados em Kaden, chocado na outra extremidade do hall. Eu assisti enquanto ele piscava, tentando conter as lágrimas. Josie me deixou e caminhou em direção ao seu noivo, e ele colocou as mãos no peito, chacoalhando a cabeça, como se não pudesse acreditar no quão bonita ela estava.
Um momento depois, estavam todos misturados. Kile e sua esposa, Alice, acariciavam as costas de Josie, enquanto meus pais e Madame Marlee enxugavam seus olhos. Camille correu até Ahren, e Shannon fazia contato visual com um primo que Camille trouxera. Meu pai estava apoiado num joelho, tentando acalmar Kerttu enquanto Osten parecia tentar se esconder dela. Senti como se meu coração estivesse explodindo de alegria.
— Nós vamos nos atrasar — Neena sussurrou em meu ouvido.
Olhei para aquela cena feliz, tantas pessoas que eu amava em um único lugar, sorrindo e chorando e simplesmente respirando, e dei de ombros.
— Todos podem esperar.
Ela riu.
— Vamos apenas dizer aos convidados que eles se adiantaram.
— Gosto do seu jeito de pensar.
Ela balançou a cabeça.
— Se alguém me perguntasse dez anos atrás como minha vida seria, eu não seria capaz de imaginar alguma coisa deste tipo.
— Não — eu disse, assistindo minha família, pensando em como estava crescendo rápido.  Peguei Eikko me encarando, com um rosto lindo e extremamente calmo, olhando como se eu fizesse o sol nascer. — Mas é muito melhor do que qualquer coisa que eu sempre sonhei. 
— Ok, ok! — minha mãe disse acima do barulho. — Nós realmente precisamos ir agora.
Kaden beijou a bochecha de Josie. 
— Vejo você daqui a pouco, amor.
Ela assentiu, seu comportamento totalmente diferente. E eu pude ver – ali estava a nova princesa.
Nós nos rearranjamos, nos preparando para o resto do dia. Kaden deu um aceno tímido de despedida enquanto se dirigia ao carro com os outros, e as moças checaram duas vezes suas roupas, esperando a nossa vez. Eu ouvia muitos sons do meu mundo: o riso da minha mãe, a respiração de Josie, e Kerttu cantando. Eu absorvi tudo isso.
E a vida, como sempre faz, seguiu em frente.

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