quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 7

ATÉ A HORA DO JANTAR, eu estava muito preocupada de que poderia cair de sono no meu prato. Havia uma chance de que ninguém se importasse se eu o tivesse pulado. As refeições geralmente eram sido tranquilas, ao menos eu tinha trabalhado para não deixá-las de outra forma.
Mas quando desci e vi vovó Singer atirando sua bolsa em um mordomo, eu sabia que esta noite seria tudo menos monótona.
— Não me diga que não se pode vir a essa hora! — ela balançou seu punho enrugado, e eu mordi meus lábios para conter o riso.
— Eu não estava dizendo isso, senhora — respondeu o guarda, sua voz ansiosa. — Apenas falei que já estava ficando tarde.
— A rainha vai querer me ver!
Vovó Singer era uma criatura temível. Se houvesse uma guerra sob a minha regência, meu plano era mandá-la para a linha de frente. Ela voltaria segurando o inimigo pela orelha dentro de uma semana.
Adentrei na sala de estar.
— Vovó.
Ela imediatamente deu as costas para o guarda, o rosto se derretendo numa expressão mais doce.
— Oh, é a minha preciosa menina. A TV não lhe faz justiça – você é tão linda!
Inclinei-me para que ela pudesse me beijar em ambas as bochechas.
— Obrigada... eu acho.
— Onde está sua mãe? Eu queria ter vindo antes, mas May insistiu para que eu ficasse fora do caminho.
— Ela está muito melhor agora. Posso levá-la até ela, mas não gostaria de comer primeiro e se recuperar da viagem? — Fiz um gesto em direção à sala de jantar.
Vovó tinha vivido no palácio quando eu era mais jovem, mas depois dos anos que mamãe passou tentando cuidar dela, ela finalmente decidiu sair. Sua “longa viagem” era na verdade apenas uma hora atravessando a cidade, mas poderia muito bem ter sido uma campanha em Illéa de ponta a ponta, sabendo como ela era.
— Seria maravilhoso — ela concordou, chegando ao meu lado. — Veja, é assim que se trata os mais velhos. Com respeito. — Seus olhos dispararam de volta para o pobre guarda, que estava ali estupefato, com a bolsa dela nas mãos.
— Obrigada, guarda Farrow. Por favor, leve a bolsa para o quarto de hóspedes no terceiro andar com vista para os jardins.
Ele curvou-se e saiu enquanto fazíamos o nosso caminho para a sala de jantar. Alguns dos meninos já estavam esperando, e suas sobrancelhas se levantaram ao verem a mãe da rainha. Fox aproximou-se imediatamente para se apresentar.
— Senhora Singer, é um prazer conhecê-la — disse ele, estendendo a mão.
— Veja só, ele é bonito, Eady. Olhe só para essa carinha — minha vó pegou o queixo dele, e ele riu através de seu aperto.
— Sim, vovó, eu sei. É parte da razão pela qual ele ainda está aqui.
Murmurei um pedido de desculpas, mas Fox sacudiu a cabeça, radiante diante da aprovação dela.
Gunner, Hale, e Henri, todos eles vieram ao encontro dela, e aproveitei a oportunidade para falar baixinho com Erik.
— Você está ocupado amanhã?
Ele apertou os olhos.
— Acho que não. Por quê?
— Apenas planejando algo com Henri.
— Oh — ele disse, balançando a cabeça como se isso devesse ter sido óbvio. — Não, nós dois estaremos livres.
— Ok. Não conte a ele — insisti.
— Claro que não.
— O quê? — Vovó gritou. — Pode repetir isso?
Erik pulou, curvando-se.
— Sinto muito, senhora. Sir Henri nasceu na Noruécia e só fala finlandês. Eu sou seu tradutor. Ele diz que está muito contente em conhecê-la.
— Oh, está certo, está certo — minha avó pegou a mão de Henri. — TAMBÉM É UM PRAZER CONHECÊ-LO!
Eu a levei para a mesa principal.
— Ele não é surdo, vovó.
— Bem, — disse ela, como se isso fosse o suficiente de uma explicação.
— Você falou com o tio Gerad?
— Gerad queria estar aqui, mas está trabalhando em um projeto sensível ao tempo. Você sabe que eu nunca vou entender uma palavra do que ele diz. — Vovó esticou o braço pra frente e o balançou, como se estivesse jogando fora as palavras elaboradas que ele usou. — Kota também falou. Ele não tem certeza se deve vir visitar vocês ou não. Sua mãe e ele tentaram ao longo dos anos, mas eles simplesmente não parecem ser civilizados. Ele está melhor, embora. Acho que é a esposa.
Eu a conduzi ao redor da mesa, e ela tomou o meu lugar. Mesmo ele não sendo meu de forma permanente, ter o vazio do lugar do meu pai ao lado dela parecia estranho. Tanta coisa tinha sido confiada a mim, mas eu sentia como se tivesse roubado algo dele.
— Tia Leah parece uma pessoa bastante calma — concordei. — Acho que todas as diferenças pesam ao seu modo, equilibrando-se mutuamente.
Os mordomos se apressaram em pôr um prato de sopa na frente da minha avó, sabendo quão curta sua paciência era. Eu sorri enquanto ela a tomava.
— Funcionou para o seu avô e eu. Para seus pais, também.
Ignorando minha própria tigela, descansei meu queixo na mão.
— Como era o vovô?
— Bom. Muito bom. Ele sempre queria fazer o que era certo. Demorava mais do que eu para ficar chateado e não deixava as coisas ficarem desanimadas. Eu queria que você o tivesse conhecido.
— Eu também.
Eu a deixei comer e meus olhos vagaram ao redor da sala. Kile era o meu oposto no sentido de que onde ele era humilde, eu era orgulhosa. Henri era o meu oposto no fato de que ele via tudo com alegria, enquanto eu focava no desafios. Ean, Fox, Gunner... havia um elemento em cada um deles que eram pertencentes ao outro lado do meu espectro.
— É a garota francesa assim para Ahren? — perguntou minha avó, sem nenhuma tentativa de esconder seu desdém.
Considerei a pergunta.
— Na verdade não. É como se eles fossem duas metades do mesmo coração em corpos diferentes. — Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu estava tão cansada, e o perdi. — Não posso nem começar a lhe dizer quanto ele a ama.
Ela resmungou.
— O suficiente para ir embora.
Eu expirei lentamente.
— Exatamente, vovó. Doía-lhe tanto estar longe dela que ele suportou a dor de deixar sua família, sua casa e seu país, nem mesmo sabendo como todos reagiriam, só para estar com ela.
Ela reconheceu a tristeza em minha voz e estendeu a mão para a minha.
— Você está bem, querida?
Eu me recompus.
— Claro. Um pouco cansada, só isso. Eu deveria ir descansar. — Só então Kaden e Osten vieram correndo, dando-me uma fuga perfeita. — Os garotos vão levá-la até a mamãe.
Ela gritou em delírio.
— Meus meninos!
Eu recuei enquanto ela estava distraída, caminhando tranquilamente pela lateral do salão até chegar a Henri. Toquei seu ombro, e ele olhou para cima da sua refeição, com o sempre presente sorriso no rosto.
— Olá hoje!
Eu ri.
— Você gostaria de se juntar a mim para o almoço amanhã?
Esperei que Erik traduzisse, mas Henri levantou a mão, concentrando-se.
— Amanhã, o almoço? — perguntou.
— Sim.
— Bom, bom! Sim!
Eu sorri.
— Te vejo lá então.
Saí da sala, olhando para trás para ver Henri agarrando Erik pelo ombro, eufórico com o convite. Ele também parecia feliz por ter interagido sem precisar de uma tradução. Erik acenou para Henri, satisfeito por seu amigo... mas eu já o vi sorrir mais brilhantemente.
Olhei para o relógio. Dez minutos após a meia noite. Se dormisse agora, poderia ter cerca de cinco horas de sono.


Dez minutos depois, ficou claro que não aconteceria. Eu costumava ser tão boa em desligar minha mente das coisas do dia, mas agora parecia que cada tarefa que eu começara me atormentaria até que fosse realizada, não se importando se eu estivesse bem descansada o suficiente para isso.
Vesti o meu manto, passei os dedos pelo meu cabelo, e saí com os pés descalços para o corredor. Se eu fosse para o escritório, talvez pudesse trabalhar em alguma coisa e apaziguar meu cérebro, e então poderia voltar para a cama. Mas se eu faria isso, precisaria de café.
Era tarde demais para qualquer criada estar de plantão, então fui para a cozinha. Parecia que lá embaixo nunca ficava vazio, e eu tinha certeza de que alguém me ajudaria. Descendo para o segundo andar, saltei para trás, assustada com a figura que vinha diretamente na minha direção.
— Oh! — exclamou Erik, de repente percebendo que alguém estava em seu caminho.
Puxei meu manto um pouco mais apertado, embora eu estivesse totalmente coberta, e levei meu cabelo para trás, na esperança de parecer menos surpresa do que eu tinha ficado.
Ele recuou, as mãos inquietas por um segundo, e então abruptamente fez uma reverência. Foi um gesto apressado e desleixado, do qual eu não pude deixar de rir. Ele sorriu um pouco para si mesmo, balançando a cabeça pela tolice do momento. Ele também estava com seu pijama – calça azul-listrada e camisa de algodão lisa – e vagando pelo palácio de pés descalços.
— O que, em nome de tudo, você está fazendo a esta hora? — perguntei.
— Henri tem trabalhado especialmente duro em seu inglês desde que a senhorita anunciou a Elite. E com um encontro amanhã, ele queria estar mais preparado. Nós só paramos, depois do dia inteiro, alguns minutos atrás, e eu estava indo para a cozinha pegar um pouco de chá e mel. O mel supostamente faz você dormir bem. — Ele disse tudo isso com voz baixa e apressada como se estivesse preocupado em me aborrecer.
— É mesmo? Eu poderia tentar isso amanhã. Na verdade, eu estava indo para a cozinha pegar café.
— Sua Alteza, sei que é uma mulher muito inteligente, por isso dói-me dizer-lhe que o café não vai ajudá-la a dormir. De modo algum.
Eu ri.
— Não, eu sei. Eu ia tentar trabalhar um pouco. Não consegui dormir, então poderia muito bem fazer algo de útil.
— Tenho certeza de que a senhorita é sempre útil. Mesmo quando dorme.
Abaixei minha cabeça, movendo-me em torno do corrimão, e ele seguiu meus passos. Tudo em que eu podia pensar era como ele parecia monótono naquele primeiro dia, uma sombra cinzenta de uma pessoa. Agora eu sabia que sua simplicidade era seu escudo, escondendo o quão inteligente, pensativo e engraçado ele era. Embora eu ainda não entendesse sua escolha, sabia que havia mais dele do que ele deixava a maioria das pessoas verem.
— Como Henri está? Com as aulas de inglês?
Ele deu de ombros e colocou as mãos para trás das costas.
— Bem. Não formidável. O que eu lhe disse antes ainda é verdade; demoraria um longo tempo antes que vocês pudessem se comunicar por conta própria. Mas ele se preocupa tanto, e está tentando mais do que nunca. — Ele assentiu consigo mesmo como se avaliando o trabalho deles em sua cabeça. — Perdoe-me – eu deveria ter perguntado. Como estão seus pais? Ouvi que sua mãe está acordada e se recuperando.
— Ela está mesmo, obrigada. Ela deveria voltar para seu quarto hoje, mas havia algo esquisito sobre seus níveis de oxigênio que a manteve na ala hospitalar por mais uma noite como uma medida preventiva. E papai ainda está dormindo em um catre ao lado de seu leito.
Erik sorriu.
— Torna a ideia de “na saúde e na doença” muito mais real.
Balancei a cabeça.
— Honestamente, às vezes é intimidante vê-los juntos. Encontrar algo perto do que eles têm parece impossível.
Ele sorriu.
— Não há como saber tudo sobre o relacionamento de alguém, até mesmo o dos seus pais. Às vezes, especialmente o dos seus pais — acrescentou, como se ele tivesse pensado nisso antes, talvez sobre sua própria família. — Eu lhe garanto – ele deu um presente de Natal terrível pelo menos uma vez e ganhou um dia de silêncio por isso.
— Altamente improvável.
Erik estava destemido.
— Você tem que abraçar a ideia de imperfeição, mesmo naquilo que lhe é mais perfeito. Seu irmão foi atrás de uma garota e casou-se em meio a um turbilhão e poderia descobrir agora que ela ronca tão alto que ele não consegue sequer dormir.
Eu cobri minha boca, mas não rápido o suficiente para abafar a risada que escapou. Algo sobre a imagem de Ahren com almofadas sobre as orelhas realmente me pegou.
— É bastante possível — acrescentou, parecendo bastante contente por ter me feito sorrir.
— Você arruinou a minha imagem de Camille! Como é que manterei a expressão séria na próxima vez que eu a vir?
— Não mantenha — ele disse simplesmente. — Apenas sorria. Sua impressão sobre todos provavelmente está errada de alguma forma.
Balancei a cabeça e suspirei.
— Tenho certeza de que você está certo. O que faz com que todas as minhas ações se tornem muito mais difíceis.
— Como a Seleção?
— Há momentos em que uma sala cheia de políticos parece mais fácil de gerir do que seis rapazes. Por tudo que eu aprendi até agora, deve haver uma dúzia de coisas que eu perdi.
— Está se baseando fortemente em instintos, então?
— Muito fortemente.
— Bem, eles estavam certos sobre Henri. Ele é tão bom quanto parece. Você já deve saber disso, no entanto, para mantê-lo na Elite.
Notei algo estranho em seu tom de voz enquanto ele falava, como se isso fosse algo decepcionante de se admitir.
Juntei minhas mãos, apenas para perceber em seguida que nós já tínhamos passado da cozinha. Eu teria que voltar para tomar o café, se ainda quisesse uma xícara.
— Toda esta situação tem sido difícil de conduzir. Não era para eu ter uma Seleção. No passado, princesas eram casadas a fim de se obter relações internacionais, mas os meus pais prometeram que nunca fariam isso comigo. Então, encontrar-me em uma sala cheia de homens dos quais se espera escolher um parceiro para a vida... é assustador. Tudo o que eu tenho são um punhado de impressões, e uma esperança de que ninguém esteja me enganando.
Arrisquei um olhar para ele, e ele estava atencioso, sua expressão abatida.
— Isso soa incrivelmente assustador — ele falou lentamente. — Estou surpreso que tenha funcionado tão bem no passado. Eu não quero ser rude, mas parece um pouco injusto.
Balancei a cabeça.
— Isso é exatamente o que eu disse quando a ideia foi apresentada a mim. Mas eles insistiram para que tentasse, então...
— Então... não foi ideia sua?
Eu congelei.
— Você ainda quer que continue?
Há um frio que desce pelas costas quando você percebe que foi pego em uma mentira. E isso era assustador, porque já havia sido sugerido nos jornais, adivinhado por muitas pessoas.
— Erik, isso precisa ficar entre nós — falei em voz baixa, as palavras saindo mais como um pedido do que um comando. — Admito que, no início, eu não queria nada com a Seleção. Mas agora...
— Agora você está apaixonada? — ele perguntou, seu tom curioso e melancólico.
Eu ri uma vez.
— Estou um monte de coisas. Afetada, assustada, desesperada, esperançosa. Seria bom adicionar “apaixonada” na lista. — Pensei em Kile e nossa conversa no jardim. Amor ainda era uma palavra muito grande para aquilo, e nada do que falei a Kile parecia apropriado de se compartilhar com Erik. — Às vezes acho que estou perto, mas agora, a Seleção é algo que preciso terminar. Por uma série de razões. Por um monte de gente, também.
— Eu certamente espero que você seja uma dessas razões ou pessoas.
— Eu sou — prometi. — Apenas talvez não da maneira como as pessoas pensam.
Ele não respondeu. Ele simplesmente caminhou, absorvendo minhas palavras.
— Você não pode repetir nada disso para ninguém. Não posso acreditar que te contei. Se esta Seleção parecer que foi uma piada ou falsa de qualquer maneira...
Ele levantou uma mão.
— Você não tem que se preocupar comigo. Eu nunca quebraria sua confiança. Parto do princípio de que não é uma coisa fácil de adquirir, em primeiro lugar, e eu odiaria desperdiçá-la.
Eu sorri.
— Bem, é mais do que merecida. Você já guardou segredos para mim, me puxou para fora do meio de uma briga, e me trouxe uma flor quando não precisava.
— Era apenas um dente de leão.
— Perspectiva — lembrei a ele, e ele sorriu quando suas palavras voltando-se contra ele. — Tudo o que estou dizendo é que você tem feito muito por mim sem estar sob qualquer obrigação de fazê-lo. Você ganhou a minha confiança.
— Bom — ele disse claramente. — Porque eu estou aqui para você, para qualquer coisa que precisar, a hora que precisar.
A sinceridade em sua voz era tão dolorosamente clara que fiquei paralisada. Os olhos de Erik eram azul claros, um forte contraste com o cabelo escuro. Talvez fosse por isso que eles se destacaram de forma tão brilhante no momento.
— Sério? — perguntei, embora eu não tivesse razões para duvidar de suas palavras.
— É claro — respondeu ele. — A senhorita será minha soberana. É um privilégio servi-la.
Limpei a garganta.
— Sim. Certo. Obrigada. É um conforto saber que há pelo menos um punhado de pessoas para as quais não tenho que quebrar minhas costas para conquistá-las.
Seu sorriso era amável, e lembrei a mim mesma que esta era uma vitória, ter alguém como ele ao meu lado.
— Se me dá licença — falei, afastando-me — eu realmente deveria tentar dormir.
Ele curvou-se.
— Claro. Sei que estou aqui à disposição de Henri, mas por favor, deixe-me saber se houver que há alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-la.
Eu sorri, sem responder, e caminhei de volta ao meu quarto, minha coluna reta como uma flecha.

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